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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

PURGATÓRIO: O “PUXADINHO” DA BÍBLIA


A regra é clara: se cometer pecado, você irá para o Inferno; se não cometê-lo, Paraíso! Este é o mandamento bíblico inserido no Antigo Testamento e em nenhum outro ponto, nem no Novo Testamento, ele é alterado.

Mas ainda na Idade Média surgiu um questionamento: seria justo enviar direto para as labaredas do Inferno uma pessoa que tenha cometido um pequeno deslize em vida? Não sendo o caso de um pecador contumaz, poderia haver uma espécie de clínica de reabilitação para pecadores? Era necessária uma “terceira via”.

Diante do silêncio bíblico, um poeta florentino nascido no século XIII preencheu essa lacuna, criando o purgatório. Dante Alighieri, em sua obra prima A Divina Comédia, descreveu como seria o local onde pecadores passariam pelos sofrimentos que os tornariam dignos do Paraíso.

A obra é de tirar o fôlego: são mais de cem cantos, escritos ao longo de 14 mil versos. Foi ela quem tirou o dialeto toscano das mãos do povo inculto e o alçou à categoria de língua italiana oficial. Também é um dos primeiros romances da história, ao abordar de maneira quase inédito o tema amor: a história descreve as desventuras de Dante, que teve de cruzar inferno, purgatório e paraíso para encontrar sua amada Beatriz.

O inferno é o local reservado aos glutões, avarentos, ladrões, suicidas, traidores e sodomitas. Esses seriam os pecadores irrecuperáveis. Os tiranos, por exemplo, pagam seus pecados nadando num rio de sangue fervente que alcança-lhes a linha dos olhos. Os perdulários são atacados por cadelas raivosas por toda a eternidade.

O purgatório é uma montanha encintada por sete círculos, que representam cada um dos pecados capitais. O segundo deles, por exemplo, é dedicado aos invejosos, que têm seus olhos costurados com arame, para não cometerem a mesma infração enquanto aguardam a expiação pelo pecado cometido. Também eram obrigados e andarem se apoiando uns nos outros, desfilando dessa forma toda a sua miséria.

A invenção “dantesca” do purgatório foi oficializada como dogma católico no século XVI, no âmbito do Concílio de Trento.

Por sua vez, o ideólogo do Protestantismo, Martinho Lutero, esperneava contra essa decisão da Igreja, pois entendia que o purgatório, enquanto lugar inexistente nas Escrituras, servia apenas para verter mais dinheiro para os cofres de Roma, após a instituição das indulgências: agora um rico pecador poderia deixar uma parte relevante de sua herança para a Igreja e, assim, ser condenado a passar apenas uma temporada desconfortável no purgatório, antes de ser promovido ao Paraíso.

  
Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Inveja: Como ela mudou a história do mundo” 


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O FILÓSOFO QUE DETESTAVA A DEMOCRACIA


Os que o precederam ficaram conhecidos como filósofos pré-socráticos. Entre os discípulos que o sucederam, encontra-se Platão. Foi julgado e condenado à morte – que transformou em suicídio assistido. Sua habilidade para conquistar seguidores só era menor do que sua habilidade para fazer inimigos.

Sócrates não tinha emprego nem trabalho. Sobrevivia às custas de uma pequena herança deixada por seu pai, escultor profissional – sua mãe era parteira, daí ele repetir que paria idéias. Sua esposa, Xantipa, teve de se desdobrar para criar os filhos com tão pouco recursos.

Andava descalço, ficava o dia inteiro batendo papo ou travando discussões com desconhecidos – que não demoravam para nutrir o mais sincero ódio pelo velho filósofo. Diz-se que banho também não era um item de higiene por que prezasse. Vestia-se normalmente com a mesma túnica , coberto com um pano velho e puído. Baixinho, barrigudo, de pernas finas e tortas, careca, narigudo... também não lembrava em nada um deus grego.

Seu talento inato era torcer e retorcer argumentos alheios sobre os mais variados assuntos. Seu ócio era bastante criativo, momento que usava para desenvolver sua lógica, passada à histórica como método socrático: abordava qualquer pessoa, prestava-lhe elogios diversos, dizendo ser ele uma pessoa inteligente, pedindo que ajudasse-o a esclarecer uma pequena dúvida; e então fazia-lhe perguntas sobre a natureza da virtude, ou da verdade, ou do amor... somente então o entrevistado percebia que caíra numa cilada.   

Diante da resposta, Sócrates disparava um sem número de outras perguntas, usando um tom bastante humilde e ingênuo, somente para ao final deixar patente ao interlocutor e todas as outras pessoas que aquele sujeito na verdade não sabia nada sobre o assunto.

Daí Sócrates dizer-se o mais sábios, pois admitia a verdade maior: “Só sei que nada sei”.

Sócrates foi julgado aos 70 anos de idade. As acusações eram: corrupção da juventude e impiedade. A primeira acusação se devia ao fato de que Sócrates era absolutamente contra a idéia de democracia, porque achava que ela reduzia tudo à média: na média, as decisões seriam medíocres, bastante inferiores aquelas tomadas por sábios e filósofos, os governantes que Sócrates sonhava ver governando sua cidade. Tais opiniões o filósofo transmitia a seus pupilos.

O problema aqui é: uma democracia de verdade não deveria garantir o direito de Sócrates expressar suas idéia?

A tragédia de Sócrates surgiu a cargo de Alcibíades. Rico, de linhagem altamente reputável e muito ambicioso, Alcibíades foi convocado a Atenas, em meio a uma batalha, para dar explicações em meio a um processo aberto contra ele. Com medo, fugiu para a inimiga Esparta, o que o fez ser condenado por contumácia (recusa em comparecer a uma audiência na esfera criminal) em casa.

Em Esparta, Alcibíades se tornou popular, provavelmente por tramar contra Atenas. Alcibíades morreu na Pérsia, assassinado quando estava nos braços de uma prostituta.

O fato de Alcibíades ter sido pupilo de Sócrates contribuiu nas acusações por corrupção de jovens.
Outro aluno decepcionante do filósofo foi Crítias. Opositor aguerrido da democracia ateniense, chegava a ver o regime de Esparta como superior. Pois bem. Veio a Guerra do Peloponeso, Esparta derrotou Atenas, que foi obrigada a formar um governo com trinta dirigentes, todos simpáticos a Esparta. Passou à história como o governo dos Trinta Tiranos.

Crítias evidentemente não foi esquecido na formação desse gabinete. Durante os oito meses de existência, assassinaram 1.500 cidadãos atenienses – os defensores da democracia foram os alvos prediletos.

Sócrates foi crítico ferrenho dos Trinta Tiranos. Mais do que isso: passou a emitir declarações públicas contra os novos homens no poder. Por exemplo: “Parece-me estranho que um vaqueiro que deixa seus bois diminuírem em número e emagrecerem não admita ser mau vaqueiro; porém, mais estranho ainda é que o estadista que torna seus cidadãos menos numerosos e piores não sinta vergonha nem se considere mau estadista.”

Ao ser informado sobre a declaração indelicada do antigo mestre, Crítias convocou-o e avisou sobre uma nova lei que acabara de promulgar: estava proibido o ensino de techne logon (os segredos do discurso racional). Para um filósofo, isso significava que todas as suas atividades estavam proibidas dali em diante.
Sócrates nunca cumpriu o novo regramento e pouco depois os tiranos foram sacados do poder. Mas as pessoas não esqueceram o inferno que o ex-aluno do filósofo antidemocrático causara na cidade.

Sócrates certa feita deixou claro qual era seu modelo ideal de sociedade: “Todos os habitantes com mais de dez anos de idade serão enviados a campos, os reis-filósofos se encarregarão das crianças, subtraindo-lhes os costumes de seus pais e educando-as segundo seus próprios costumes e leis.” Com isso, idéias antigas não se perpetuariam.

Evidentemente os pais se sentiam atraídos por alguém que pregava que seus ensinamentos eram mais valiosos para seus filhos do que os dos próprios pais. E Ânito, rico dono de curtume e importante soldado da expulsão dos Trinta Tiranos, viu ali motivo suficiente para processar Sócrates.

O velho filósofo havia dito a Ânito para não limitar a educação de seu filho À aprendizagem do ofício paterno e ainda disse que tinha muito melhores condições de ensinar ética ao garoto. Diante da discordância manifestada por Ânito, Sócrates pediu que esse citasse um nome apenas de algum poderoso que tivesse sido bom professor de seus filhos.

Ânito se sentiu tão encurralado pelos argumentos do velho que respondeu com meia dúzia de ameaças: “Sócrates, tenho a impressão de que você difama as pessoas com leviandade. Se quer um conselho, ouça-me: seja mais cuidadoso”.

Quando de sua condenação à morte, Sócrates expressou indignações apenas contra Ânito. E mais: fez questão de expressar o que pensava ser o futuro do filho de Ânito. “Por falta de um conselheiro esclarecido, será presa de alguma tendência vergonhosa e haverá de ir longe no vício.” E o que ocorreu? O rapaz virou um alcoólatra “inútil para a cidade, para os antigos e para si próprio”, como relatara Xenofonte.

Outro motivo de indignação contra si, era o fato de Sócrates dizer a todos que tinha uma espécie de Deus particular, que jamais lhe dava conselhos equivocados. Quando pediu que se retratasse, o filósofo contou que um amigo havia ido ao Oráculo de Delfos, onde ouviram do mesmo que “não havia homem mais livre, mais justo e mais sensato” do que Sócrates.

É óbvio que um homem vitima de um complô deveria se mostrar mais humilde, em vez de ofender seus julgadores. Isso somente ocorreu porque o filósofo planejava se suicidar. Chegou mesmo a se declarar temeroso da velhice e de seus efeitos deletérios ao corpo.

Não tendo assassinado ninguém nem tendo se insurgido contra o governo, não havia motivos para condená-lo à morte. Os jurados então o indagaram sobre qual seria a condenação que merecia. Sua resposta: ser “nomeado heróis da cidade”, ter “almoço grátis no Pritaneu” (edifício onde magistrados e atletas recebiam homenagens e faustos banquetes) até sua morte. A resposta deseducada demonstrava como buscava a morte.

E assim foi feito: condenaram-no à morte. Deveria beber cicuta – planta altamente venenosa.

Sua esposa pediu para vê-lo uma última vez. Depois, Sócrates pediu que deixasse o recinto enquanto se despedia da vida. Xantipa, desesperada, gritou: “Mas você é inocente!”. Seu esposo respondeu, como apenas ele faria: “E você preferia que eu fosse culpado?”

      
Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Inveja: Como ela mudou a história do mundo” 


DO CÉU AO INFERNO – O PODER TAMBÉM É PERIGOSO


A criação do instituto do ostracismo e o cuidado extremo com a manutenção da democracia direta mostraram, com o tempo, terem efeitos colaterais eventualmente danosos. E esse fato ficou patente quando um dos nomes mais notórios de Atenas, o heróico general Temístocles foi eleito pelos óstracos.

Um dos motivos pelos quais alguém poderia despertar a ira coletiva contra si era uma notória falta de modéstia, a ostentação do próprio sucesso, sem reservas. Sem dúvidas trata-se de característica presente em todo tirano; no entanto também costuma ser parte da personalidade de heróis e conquistadores.

Pois bem. Temístocles viveu de 524 a.C. a 459 a.C., tornou-se general e político em Atenas e entrou para a história como o general que derrotou os persas na Batalha de Salamina. Também foi o responsável pela reconstrução das muralhas que defendiam a cidade e, assim, manteve os espartanos à distância, numa época em que representavam uma ameaça constante.

Difícil crer que um homem com tais realizações tenha sido ostracizado e morrera no exílio!

Temístocles era ambicioso, logo fez carreira política, mas sempre defendendo causas populares. Chamava os concidadãos pelo nome e assim logrou o apoio necessário para se tornar comandante das forças atenienses.

Um episódio deixou patente seu lado visionário. Em dado momento, foi descoberta uma mina de prata em Maroneia. Os recursos despejados nos cofres públicos, normalmente, seriam repartidos entre os cidadãos. Temístocles, no entanto, propôs que tais recursos fossem investidos na expansão da marinha ateniense. Como se tratava de alguém com credibilidade em alta, seu plano foi aprovado. Essas embarcações novas foram exatamente aquelas usadas contra a marinha de Xerxes em Salamita, garantindo o triunfo grego sobre o temido Império Persa. O sucesso estrondoso que esse homem conquistou junto ao povo era indescritível. Até mesmo os espartanos não continham elogios àquele gênio.

Uma medida de sua popularidade ocorreu nos Jogos Olímpicos ocorridos logo após a Batalha que vencera. Os atletas chegaram a ser esquecidos pelo público, que não parava aplaudi-lo logo que chegou ao local. Impossível que o sucesso não subisse à cabeça.

Ainda naquela ocasião acima, declarou a amigos que estava simplesmente colhendo os frutos de todos os seus trabalhos para os gregos. Mais tarde, disse que seu filho era a pessoa mais poderosa da Grécia, porque “os atenienses mandam no resto da Grécia, eu mando nos atenienses, sua mãe manda em mim e você (seu filho) manda na sua mãe”. Parece óbvio que um povo apegado à democracia direta detestasse esse discurso de mandar nos atenienses.

Depois, cometeu o absurdo de mandar construir um templo a Palas Atenas, deusa da sabedoria, ao lado da sua casa e ainda pôs a seu lado uma estátua de si mesmo.

Não demorou para que fosse ostracizado com um número recorde de votos. Mesmo um herói nacional não poderia crer estar acima dos demais cidadãos.

Exilado, Temístocles achou abrigo, ironicamente, nas terras de seu maior adversário, Xerxes. Foi recebido efusivamente, com confissões de sincera admiração feitas pelo rei persa. Evidentemente Xerxes pretendia cooptar o general para empreender uma futura invasão a Atenas, desta feita com maiores chances de sucesso.

Inicialmente o rei persa usou seu novo aliado em batalhas contra inimigos diversos. A admiração de Xerxes era tamanha que expulsou alguns de seus maiores generais. Mas quando o convite feito teve Atenas como alvo, a amizade que se estreitava entrou em crise.

Profundamente ofendido, incapaz de sequer imaginar tamanha traição contra sua amada terra natal, Temístocles se suicidou.
    

Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Inveja: Como ela mudou a história do mundo”  


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

OSTRACISMO: O PAREDÃO DOS PODEROSOS


Há cerca de 2.500 anos, em Atenas, nascia um política de Estado que previa o banimento, por longos anos, àqueles que pudessem pôr em risco a democracia, conquistada a duras penas. Para tanto, eram mandados para o exílio aqueles que tinham acumulado dinheiro suficiente para ter o poder de manipular o sistema político em seu favor. Ou seja, os alvos eram os mais ricos e poderosos da cidade-estado grega. Era basicamente uma política para a prevenção de tiranos.

Essa política de banimento era chamada de Ostracismo: anualmente era realizada uma votação, em dois turnos – o voto era facultativo. No primeiro turno, decidia-se se havia alguém elegível, isto é, que os cidadãos quisessem ver bem longe. Caso a maioria decidisse que sim, o segundo turno definia o nome da próxima vítima. Banido, o cidadão deveria ficar 10 anos sem pisar em Atenas. Seus negócios eram mantidos a salvo, mas a pena deveria ser cumprida.

Uma conhecida vítima da ostracismo foi Aristides, enviado ao ostracismo em 482 a.C. Antes da eleição, Aristides foi parado por um cidadão na rua, que pediu veementemente que Aristides votasse pelo banimento de Aristides. Percebendo que não havia sido reconhecido, Aristides perguntou por que deveria votar como desejava o cidadão. Ao que o mesmo retorquiu: “Nada, nem o conheço. Só não agüento mais todo mundo dizendo que ele é ‘o justo’”.

Percebendo que seria inútil lutar aquela luta inglória, Aristides escreveu o próprio nome no óstraco (cédula de votação da época, que deu origem ao nome da política) e o entregou ao decidido cidadão.

Embora pareça estranho, essa política pôs fim a um longo período de luta encarniçada entre os oligarcas, quando as expulsões eram bem mais violentas e arbitrárias.

A democracia grega nasceu da colaboração de diversos cidadãos, mas o principal chamava-se Clístenes e havia sido expulso de Atenas tempos antes, junto com 700 famílias acusadas de serem anti-espartanas quando Esparta dominava Atenas.

Quando os espartanos foram expulsos, Clístenes foi alçado ao poder. E ele implantou a democracia direta, cada um com direito a um voto, sem intermediários políticos. Todos os cidadãos (e aqui esse critério era bem restrito) poderiam falar, propor e votar leis.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Inveja: Como ela mudou a história do mundo”  

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

AMOR EM TEMPOS DE AIDS


No início da década de 1980, nas sociedades mais avançadas do Ocidente (EUA e Europa), a revolução sexual parecia ser favas contadas. O que era pornografia, agora figurava em anúncios, propagandas, capas de revistas, estampadas ao lado de bebidas ou eletroeletrônicos. O videocassete tornou o hábito de assistir a pornografias cotidiano, normal. Em 1984, Madonna dá mais um passo em direção à libertação feminina ao lançar seu primeiro hit demolidor: Like a Virgin. Nunca ninguém debochou tanto da sociedade conservadora no mundo pop! Virgindade, veneração a autoridades religiosas eram coisas do passado.

Ainda nessa época começaram a pipocar clubes de swing, seguindo o modelo inaugurado pela casa Plato`s Retreat, em 1977, em NY. Pessoas nuas circulando por entre as mesas, na pista de dança, na banheira ou na piscina, quartos privados à disposição, um salão enorme para grupos exercitarem seus desejos luxuriosos, tudo era permitido... Exceto homem com homem. Esses deveriam procurar a sauna gay mais próxima, que também eram diversas e bastante procuradas.

O fato é: o comportamento sexual dos norte-americanos e a completa desvalorização do casamento foram suficientes para desarmar a tão temida “bomba demográfica”. Havia agora 25% menos pessoas casadas na sociedade, os que se casavam o faziam bem mais velhos e a taxa de divórcios escalava. Era agora impensável casar-se sem um período de convivência prévio.

O crescimento vegetativo era suficiente apenas para repor os falecimentos. Os lares se tornaram menos numerosos e apenas 60% deles seguiam o padrão tradicional de papai, mamãe e filhos.

Mas um novo ponto de inflexão de avizinhava. Após o escândalo Watergate, que levou à renúncia de Richar Nixon da Presidência, somado à crise econômica que vicejou durante o governo do seu sucessor, Gerald Ford, o Partido Republicano estava na lona. Perderam a eleição seguinte para Jimmy Carter e perceberam que precisariam reformular suas bases políticas para ter sobrevida no mundo político.

Até então, o Partido Republicano era representado pelos militares e pelo complexo industrial-militar. Agora, novos lobbies aportavam. Um dos mais fortes era conhecido como Conservative Caucus, de Howard Phillips. Outro era a Free Congress Foundation, de Paul Weyrich. Todos eles perceberam o incômodo que aquelas mudanças de comportamento dos últimos anos causavam nos setores mais conservadores, cristãos em geral. Os temas relacionados à “preservação” da família e à sexualidade balizariam as campanhas políticas dali em diante.

Em 1979, o pastor fundamentalista e apresentador de um programa Gospel assistido por mais de 18 milhões de aficionados, Jerry Falwell, foi trazido para a campanha dos republicanos, formando a ínclita Moral Majority. Em torno dela se reuniam os eleitores cristãos revoltados com as mudanças de padrões de comportamento recentes.

O candidato que catalisaria essa “amálgama do atraso” seria justamente o governador da Califórnia no final da década de 1960, quando viu seu Estado sendo invadido pelos hippies de outrora, Ronald Reagan. Tornou-se nacionalmente famoso por ter reagido veementemente contra aqueles jovens. 

Para conquistar o apoio pretendido, Reagan teve de abraçar causas como a criminalização do aborto, o apoio irrestrito ao ensino religioso nas escolas e a proibição da pornografia. Jerry Falwell criava uma cisão ainda maior entre os setores progressista e conservador ao defender teorias extravagantes, como a homossexualidade do Teletubbie Tinky Winky. O tele-pastor James Robinson defendia que os cristãos deveriam sair das igrejas e tomar o país. Falwell cria que políticos ateus estavam levando a América ao inferno – em diversos momentos sustentava que liderava uma guerra santa em solo americano.  

Em 1981, iniciava-se o primeiro mandato de Reagan. Simultaneamente, outro adversário da libertação sexual dava o ar da graça – e se mostraria o pior de todos os adversários: a AIDS. Uma onda de pneumonia entre jovens gays em Los Angeles chamou a atenção do CDC, agência de saúde norte-americana. Poucas semanas depois o mesmo fenômeno se repetia em San Francisco, com um agravante: agora os afetados desenvolviam um tipo de câncer, o sarcoma de Kaposi. Nova York seria o próximo alvo da praga.

Até então se sabia que era uma doença sexualmente contagiosa e estava restrita à comunidade gay. Os nomes com que batizaram essa síndrome eram variados: “gay-related immune deficiency”, câncer gay, “peste rosa”, “praga gay” etc. Mas aos poucos outras vítimas foram identificadas: mulheres heterossexuais, homens heterossexuais, usuários de drogas injetáveis. Entre os hemofílicos, a doença causou um extermínio assustador. Contudo, apesar de se ter identificado até um bebê portador da doença, a imagem de doença surgida para castigar os gays se popularizou.

Em 1982, o CDC finalmente batizou a doença insurgente com seu nome definitivo: AIDS.

Pois bem, foi esse entroncamento trágico da história que deu o mote de que tanto necessitava a direita, agora tendo os republicanos reunidos em torno dos cristãos fundamentalistas: a AIDS era o castigo divino contra a libertação sexual. Gays haviam ressuscitado Sodoma e Gomorra!

Em 1983, médicos franceses conseguiram isolar o vírus da AIDS, o HIV. Conseguiram traçar suas formas de contágio, descartaram todas as bobagens que se falavam à época. Mas os casos totais não paravam de aumentar, provando que o púbico gay não era o único ameaçado.

As propostas legislativas falavam até em criar campos de concentração para gays, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos, com a finalidade de isolar os “grupos de risco”. O sexo após o casamento voltava a ser defendido publicamente, agora como um método para não ser contaminado com AIDS.

O conservadorismo impedia até mesmo que se discutisse abertamente o assunto. Reagan, até 1987, não havia feito qualquer menção à doença que se abatia sobre seu país.

Seguiu-se então um período de perdas de diversos ídolos, alguns reconhecidamente homossexuais, outros não. Em 1996, nascia o tratamento da AIDS por meio de antirretrovirais, o que reduziu sua ameaça intimidadora. Seria possível, agora, conviver com aquela doença. No Brasil, a distribuição dos medicamentos reduziu as mortes pela metade.

Esses fatos fizeram com que a luxúria de outrora se tornasse promiscuidade que ameaçava a saúde pública. O amor livre era agora comportamento de risco. O modelo de casal dos conservadores era agora receita para uma vida saudável.

Mas o tempo e a redução da ameaça de morte que a AIDS significava, aos poucos, trouxe novas demandas do público LGBT, como os direitos do matrimônio. Ou seja, a instituição que era alvo de ódio décadas antes, era agora desejada pelos mesmo a rejeitavam.

Pouco depois surgiram demandas como direito à adoção, à segurança de se exporem socialmente etc.
O final da década de 2000 trouxe um novo ator na história da sexualidade: o smartphone. Logo que se inseriu o recurso de rastreamento por GPS, foi lançado um aplicativo revolucionário: o Grinder, focado no público gay. Capaz de indicar possíveis parceiros sexuais nas redondezas aos usuários, esse recurso tecnológico evoluiu na edição seguinte para o Tinder, aberto para todo tipo de público. Foi um sucesso e trouxe a sensação de flertar na balada para o bolso.

E assim sociedade líquida liquefez os relacionamentos, dando a eles o mesmo imediatismo que contaminou todo o resto daquilo que fazemos...    


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”



terça-feira, 17 de outubro de 2017

BRASIL: TIROS E TETAS


Até a década de 1950, as canções de amores brasileiras giravam em torno do sofrimento que emanava das letras tristes do samba-canção. Mas as transformações ocorridas no Norte transformaram a realidade nestas bandas, também. Jovens da Zona do Sul do Rio começaram a cantar músicas que falavam de meninas na praia, de namoradinhas. A mulher não era mais o motivo da fossa do homem; era sensual, era inocente.

No carnaval, até aquela década, as mulheres desfilavam recatadamente, bem vestidas. Mas as poucos os panos foram ficando cada vez mais curtos até que a nudez se tounou lugar-comum na década de 1970.

O movimento contracultural denominado Tropicália ajudou nessa empreitada. O Cinema Novo de Glauber Rocha também. Ruy Guerra, cineastas festejado naqueles anos, produziu a primeira cena de nu frontal com o filme Os Cafajestes.  A Playboy ganhou uma concorrente nacional: a revista Ele & Ela.

A jovem atriz Leila Diniz se tornou representante nacional da filosofia do amor livre – a entrevista que concedeu ao Pasquim foi a edição mais vendida da história do jornal. A repercussão foi tal que o então Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, emitiu o “Decreto Leila Diniz”, instaurando a censura prévia no Brasil. A atriz foi sumariamente demitida da Globo. Segundo um diretor daquela época: “não tem papel de puta na próxima novela”.

No mesmo clima de “caldo derramado”, Caetano e Gil partiram para o exílio em terras britânicas, em 1969 por, supostamente, desrespeitarem a bandeira e o hino nacionais. Em 1971 foi a vez de Glauber Rocha deixar o país, assim como o poeta Ferreira Gullar.

O fato era: o país era e sempre foi um país excessivamente conservador para viver uma revolução sexual – ou qualquer outra. A Revista Realidade publicou uma pesquisa sobre comportamento sexual. Alguns números desanimadores para os mais progressistas: 6% das moças paulistas e 18,4% das cariocas era a favor do sexo antes do casamento; 8% das paulistas e 12,8% das cariocas disseram ter transado com o namorado. Em outra matéria a mesma revista relatava os assombrosos números de moças que se submetiam à cirurgia de “revirginalização” – era condição para que se casassem.

Em 1970, em São Paulo houve 47 processos de anulação do casamento porque a noiva não era mais virgem. Em 1973, outra matéria abordava o problema do excesso de conservadorismo dos jovens brasileiros, que copiavam a rebeldia dos saxões apenas nos cabelos compridos e nas roupas descoladas.

Os filmes pornográficos soft-core deram início aqui às pornochanchadas. Fizeram bastante sucesso com piadas maliciosas e cenas de eróticas. O local onde se reuniam os estúdios dedicados a esse etilo, em São Paulo, era conhecido como “Boca do Lixo”, a Hollywood brasileira cercada de puteiros. Desse cinema-pornô ainda tímido surgiram grandes nomes nacionais: Vera Fisher, Nuno Leal Maia, Sônia Braga e outros.

A crise econômica da década de 1980, somada à entrada dos bem menos inibidos hard-core americanos levaram a pornochanchada à lona. A solução? Hard-core brasileiro. Em 1981, por emio de um mandado judicial, finalmente estreou o primeiro hard-core nacional: Coisas Eróticas. Nada menos do que 4 milhões de espectadores lotaram as salas de cinema. Resultado: em 1984, 69 dos 105 filmes produzidos no Brasil eram de sexo explícito.

Não demoraram as extensões mais imaginativas: “Meu marido, meu cavalo”; “Um jumento em minha cama”; “A menina e o cavalo” etc etc etc.

Nos anos pós-redemocratização, finalmente a atmosfera cerrada do regime militar deu espaço para ares mais amenos. Agora o orgasmo feminino era tema para uma conversa esclarecedora, num programa de TV, logo pela manhã. Que tal ensinar as meninas a se masturbarem num programa de televisão? Marta Suplicy fez isso tudo no seu programa televisivo TV Mulher.  

A obra “Complexo de Cinderela”, livro de não ficção mais vendido de 1984, atacava a fantasia feminina de esperar pelo príncipe encantado. O segundo mais vendido foi Repressão Sexual, de Marilena Chauí.
O biquíni asa-delta, assim como o fio-dental, ganhou as praias cariocas. O topless chegou a ser tentado, mas a polícia e os conservadores de plantão reprimiram as moças: chegaram ao extremo de arremessar latinhas de cerveja nas garotas.  

Pesquisas da época apontaram um fenômeno interessante: se, por um lado, menos meninas transavam do que meninos, algumas meninas transavam com muito mais freqüência dos que os meninos. À perda da virgindade masculina com prostitutas, se somava agora a menina que desvirginava vários meninos. Já as meninas normalmente transavam pela primeira vez com o namorado – que poderia não ser mais virgem por obra de uma prostituta ou de uma amiga que “enfileirou” os amigos.  

O brasileiro se tornava um pouco mais liberal... bem pouco, de fato.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”


DO WOODSTOCK AOS FILMES PORNÔ


Em 1969, uma fazenda nos arredores do Estado de Nova York foi invadida por mais de 400 mil tresloucados, atraídos por ídolos como Joan Baez, Ravi Shnkar, Carlos Santana, Grateful Dead, Janes Joplin, The Who, Jimi Hendrix. Fora dos palco, o público deu um espetáculo de “como viver intensamente”: sexo livre e drogas lisérgicas (ácido, mescalina, haxixe etc.) fizeram parte do Festival incessantemente.

Esse Festival foi criado no contexto dos movimentos juvenis iniciados em 1968 em todo o mundo. Na França, em maio desse ano, estudantes iniciaram protestos contra uma reforma universitária. Em dado momento, os líderes da manifestação souberam que haviam conseguido a adesão massiva de sindicatos, já tendo paralisado 2/3 da mão de obra do país. Julgaram que essa era a hora perfeita para expandir os alvos dos protestos. Foi quando instituíram os famosos slogans: “Seja realista: exija o impossível”, e “Abra sua mente e suas calças”. A Espanha endureceu sua luta contra a ditadura de Franco. A Tchecoeslováquia se debateu e foi em seguida invadida pela URSS. O México deu uma exibição indecente de violência, truculência e assassinato de inocentes, quando soldados abriram fogo contra mais de mil manifestantes na praça Tlatelolco, às vésperas das Olimpíadas do México. Centenas morreram. Também nesse mesmo contexto houve a Passeata dos Cem Mil contra a ditadura brasileira.

O choque entre a geração no poder, ao lado de seus apoiadores velhos e conformados, e os baby boomers chegava ao extremo.

O odioso establishment, além de toda a sua truculência e autoritarismo, criara a ameaça de trazer o fim do mundo, com a sua estratégia de Destruição Mútua Assegurada.

Os baby boomers eram uma geração quase única, mo que deu ao conflito geracional uma aparência única. Aqueles nascidos no pós-II Guerra viveram um ambiente de prosperidade econômica visto apenas no século XIX. Eram extremamente bem educados se comparados a seus pais, pois viveram uma época de investimentos educacionais crescentes; as universidades receberam uma massa de estudantes nunca imaginada antes. Liam, buscavam informação e se sentiam bem menos presos às amarras familiares. A religião nunca fora tão ignorada; em seu lugar entrava a mística oriental. Os alvos de seu inconformismo eram, resumidamente: os pais, o país, os professores e o padre.

Os heróis daquela juventude eram, claro, jovens: Che Guevara e Fidel Castro tinham 30 e 32 anos, respectivamente, quando puseram fim à ditadura de Fulgêncio Batista. Outros ídolos eram representados por jovens músicos, alguns vitimados por overdose.  

Os baby boomers também tentaram acabar com a idéia de pecado. Sexo voltaria a ser um par junto com o amor, desfazendo o mandamento de Paulo de Tarso, para quem o celibato era o auge; e sexo sem casamento equivalia a queimar no inferno. Os jovens agora pregavam que o mal era a guerra, a fome, a intolerância. O bem era representado pelo amor, e o sexo era apenas uma de suas manifestações.

Os dogmas cristãos nunca estiveram tão distantes da juventude. Os negros, atraídos pelas mensagens de tolerância e igualdade do islã, buscavam a conversão ao novo credo. Outros eram mais atraídos pelos cantos e vestimentas Hare Krishna. Outros ainda se debatiam contra o racionalismo, tão próximo do capitalismo, buscando algo novo no tarô, I-Ching, na astrologia etc. As mulheres buscavam sua redenção vestindo-se de bruxas, em claro enfrentamento ao cristianismo e a seu passado milenar de perseguição às mulheres, condenando-as por bruxaria.

O templo sagrado agora era um bom show de rock. E o ídolo juvenil, um novo Deus.

Aliás, a imagem de Cristo, cabeludo, trazendo mensagens de amor e tendo sido assassinado jovem por defender suas idéias, combinava perfeitamente com a atmosfera do final dos 1960 e início dos 1970. Jesus agora era mais um jovem revolucionários, diferente daquela figurava anacrônica pregada nas Igrejas. Andrew Lloyd Webber, compositor então nos seus 21 anos apenas, ao lado de Tim Rice, do alto dos seus 25, lançaram em 1970 o álbum “Jesus Cristo Superstar”. NMo ano seguinte se tornou musical de sucesso na Broadway.

A libertação sexual abriu mercados: sex shops, filmes e músicas que davam cordas à sensualidade e ao romantismo, muitos investimentos aproveitaram aqueles dias de maior liberdade em relação a assuntos do sexo.

Especialmente em sociedades de tradição igualitária entre os gêneros (como Suécia, Noruega e Dinamarca), a castidade não era mais vista como a ser preservado até o casamento, sexo na adolescência deixavam de ser um escândalo doméstico, morar juntos era uma opção real ao casamento e mães solteiras eram vistas, agora, como mães, apenas.

Os movimentos gays vieram a reboque. Em 1973, os EUA contavam com mais de 800 organizações de gays e lésbicas. E o mercado acompanhou: bares gays, igrejas gays, escritórios de advocacia gays, restaurantes gays surgiam a todo momento.

Em 1974, a Associação Americana de Psiquiatria excluiu o termo “homossexualismo” de sua lista de doenças mentais. Tratava-se agora de simples comportamento sexual, dentre tantos possíveis.

Aqueles que não alcançavam sua libertação sexual, mas que achavam a luxúria algo excitante, tinham uma válvula de escape à disposição: os filmes pornô. A luxúria estava sempre à disposição, para ser comprada pelos que não podiam praticá-la. Nessa época, os EUA já contavam com mais de 700 salas de cinema especializadas em pornô e em filmes B – eram chamadas de grindhouses.

No início, eram os “girly movies”: uma garota fazia strip-tease, tocava suas partes eróticas etc. Mas a concorrência mercadológica levou o soft-core, pornô suave, a atingir rapidamente o hard-core. E esse fenômeno ocorreu, finalmente, em 1972, com o filme “Garganta Profunda”, estrelado por Linda Boreman e produzido por seu marido, mediante muita coação. A história da mulher que descobria que seu clitóris estava na garganta foi um sucesso, foi exibido nas salas de cinema comuns e faturou mais de U$ 100 milhões de dólares.

O cenário do mercado de filmes pornô não parava de crescer e só foi sacudido nos anos 1980, com a entrada em cena do vídeo cassete. A partir dali a pornografia ganharia a segurança do lar, dando um espaço imensurável aos filmes hard-core, que poderiam agora explorar os limites da imaginação luxuriosa.

Mas os conservadores não se deram por vencidos. Ressuscitar o pecado da luxúria e condenar o prazer continuava a ser um objetivo. E o Partido Republicano conseguiu ver essas pessoas e entendê-las, pretendendo usar seus votos para voltar à cena política no pós-Watergate.   


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

GAROTOS QUE AMAVAM BEATLES E ROLLING STONES


Após os primeiros passos no tortuoso caminho das revoluções, os “baby boomers” mais radicais deram largada à revolução cultural.

Começou com o movimento Beatnik: escreviam numa linguagem livre, rejeitavam padrões preestabelecidos, usavam drogas como o LSD sem limites, praticavam todo tipo de experiência sexual sem as amarras morais usuais e eram contra o acumula material pregado pela geração dos pós-guerra.

Esse caminho seria continuado por seus sucessores: os hippies. Estes propunham uma refundação da sociedade em bases alternativas. Lá, apenas existiriam: paz, amor, LSD, misticismo oriental etc.

O local onde nasceu esse novo movimento foi a Califórnia – diferente dos beatniks, que surgiram em NY. Estado mais rico dos EUA, reunia universidades de ponta (fundações privadas sem fins lucrativos, mas que contam com financiamentos massivos do governo), clima quente (ao menos se comparada a Massachusets, lócus das demais universidades de ponta) e o multiculturalismo característico da região da Baía de San Francisco.     

Foi durante a Guerra do Vietnã que esses novos atores sociais exigiriam direitos às minorias, combatiam o autoritarismo, defendiam a liberdade de expressão. Quando, a partir de 1965, as convocações militares atingiram essa parcela da juventude, o caldo entornou. Nas palavras de Muhammad Ali: “nenhum vietcongue jamais me chamou de ‘nigger’”.

Em 1967, o lema de paz e amor conformou o notório Summer of Love. No parque Golden Gate, mais de 100 mil jovens fundaram uma sociedade de hippies, hare krishnas, zen-budistas e muito mais.

O musical Hair, que também estreou em 1967, procurava retratar aquela sociedade alternativa fundada sobre a San Francisco do Verão do Amor.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”



DO THE REVOLUTION, BABY BOOMERS!


O fim da segunda guerra mundial foi marcado pela sucessão entre duas gerações diametralmente opostas.
A geração anterior ficou conhecida nos EUA como “geração silenciosa”: pessoas marcadas pela desgraça e pela destruição de duas guerras mundiais e da Crise de 1929. Conviveram com as misérias e o sofrimento. Agora, encerrado o conflito e tendo-se iniciado um período de crescimento econômico incontido, desejavam apenas um lar onde pudessem criar sua ninhada em paz, ao lado de uma esposa dedicada e habilidosa nas tarefas do lar.

Seus filhos, contudo, não poderiam ser mais diferentes. Pertencentes à geração “baby boom”, era conformada por jovens que não tinham memórias de uma guerra total, cresceram em meio à prosperidade econômica. A afluência material do período escancarou as portas das universidades, mesmo aos filhos dos proletários. O ambiente de constante mudança, de transição entre períodos distintos, cunhou em suas mentes que tudo poderia ser transformado. Com uma revolução, poderiam mudar tudo.

Esse foi o cenário que viu o erguimento da bandeira da Revolução Sexual. A popularização das televisões e a expansão do mercado de revistas levaram às massas informações de toda sorte – em 1960, 2/3 das casas nos EUA contavam com ao menos um aparelho de tevê.

Um fato foi fundamental nesse momento. Em 1956, o líder soviético Nikita Kruschev denunciou os crimes políticos do líder anterior, de quem era o braço direito, Joseph Stalin. Esse fato marcou uma debandada muito grande da antiga esquerda comunista. Os desiludidos de outrora fundaram então o que ficou conhecido como nova esquerda, ou New Left: reunidos em universidades dos EUA e da Inglaterra, defendiam a contracultura, o feminismo, o ambientalismo, direitos civis dos negros... e, claro, a libertação sexual.

Bom, a mulher precisava aliviar o peso da maternidade em suas vidas para alcançar a tão propalada libertação sexual. E a solução não tardaria: a pílula anticoncepcional. Lançada nos EUA em 1960, ela deu à geração baby boom a sensação libertadora de fazer sexo sem se preocupar com eventuais filhos daí decorrentes.

Mais do que isso. Aquela geração vivia assombrada com o fantasma da bomba demográfica: o crescimento vegetativo da população mundial alcançara uma aceleração tal que o futuro que se antevia seria marcado pela miséria e pela fome. Nesse contexto, a pílula anticoncepcional seria solução até para as futuras misérias humanas.

Se não foi capaz totalmente de evitar misérias, é algo discutível; mas deve-se reconhecer que ela ajudou a reduzir o hiato que separava os direitos dos homens dos direitos das mulheres, ao menos nas classes médias. A possibilidade do sexo variado sem risco de gravidez levou a 1,2 milhões de norte-americanas fazerem uso da pílula já em 1962. Rapidamente ultrapassou 5 milhões.

Não tardou para que os mais conservadores revelassem medo de que a pilulazinha acabasse com a instituição do casamento, primeiro; depois, o alvo seria a própria família.

Mas o tempo provaria que a maior parte das usuárias eram mulheres casadas que queriam evitar procriar como coelhas. Além disso, a revolução sexual trazida pela pílula demonstrou que agora seria possível planejar melhor a constituição de uma família, postergada para quando a segurança financeira permitisse.

Em 1970, 43% das norte-americanas estavam empregadas. Tanto sucesso rendeu-lhes uma espécie de Playboy feminina: a Cosmopolitan , originalmente de 1886, mas tendo sofrido uma reformulação completa na década de 1960. No Brasil, a revista Nova fez exerceu esse mesmo papel.

  
Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”


INDÚSTRIA DO PORNÔ: SUBPRODUTO DA GUERRA FRIA


Os gastos assombrosos do governo norte-americano com pesquisas militares seu origem a diversas tecnologias fundamentais no mundo contemporâneo: a indústria alimentícia produzindo alimentos não perecíveis; energia nuclear com finalidade civil; os treinamentos de pilotos aéreos dando origem à indústria do turismo; a indústria farmacêutica fabricou penicilina em escala global; a indústria civil passou a contar com fibra de vidro, plásticos, poliéster e compensado.

Outra inovação trazida por meio do conflito foi a produção de câmeras portáteis. O objetivo era usá-las para documentação e treinamento de soldados. E foi esse nicho que deu nascimento à indústria de filmes pornográficos como as conhecemos. Embora houvesse filmes pornô no entreguerras, a produção total era bem reduzida.

O cinema começou fazendo uso das câmeras de 35 mm. Nos anos 1920, foram inventadas as câmeras de 16mm – mas sem sucesso comercial, pois a qualidade das imagens era inferior. Em 1932, a Kodak criou as câmeras de 8 mm, exclusivamente para uso amador.

As forças armadas dos EUA passaram a fazer uso de câmeras de filmar com a finalidade de filmar as forças inimigas em ação, para treinamento por meio de recursos audiovisuais e, claro, para fazer propaganda de guerra. Os profissionais da área faziam parte da Army Signal Corps.

Uma decisão inicial foi bastante óbvia: não se poderia fazer uso das enormes equipes de filmagem dos estúdios de Hollywood. Decidiram-se pelas câmeras de 16 mm e de 8 mm. Eram baratas, fáceis de trocar e de manipular.

Para operá-las, seriam necessários profissionais técnicos qualificados. Os estúdios forneceram seus profissionais, mas ainda eram poucos e já estavam empregados em operações diversas. Foi necessário qualificar mais profissionais de filmagem. E assim foi feito: as Forças Armadas dos EUA formaram um batalhão de recrutas de filmagens, que conformaram uma massa de milhares de cineastas quase profissionais especializados nas câmeras de 16 e de 8 mm.

Isso tudo criou a demanda necessária para fazerem baixar substancialmente os preços daqueles equipamentos. Após o conflito havia, de um lado, profissionais capacitados; de outro, equipamentos disponíveis e baratos e um público sedento por aquele material. Pois bem, os veteranos das filmagens deram início à produção de filmes pornô em larga escala.  

As produções eram caseiras e a venda ocorria pelo correio – ou em lojas de câmeras. A projeção também era na própria residência. Ma, em 1959, uma produção conseguiu superar a censura e ganhou as salas de cinema: The Immoral Mr. Teas, de Russ Meyer, um daqueles veteranos visionários.

A história girava em torno de um homem que, após sofrer uma cidente, ganha o poder de enxergar por debaixo dos vestidos das mulheres. O “olho de raio X” ganhou diversas versões ao longo dos anos.  


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”