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quarta-feira, 22 de março de 2017

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 26


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

“Os preparativos para o baile que aconteceria dali a algumas horas estavam a todo vapor. Ao redor da piscina, construída em uma quadra no meio da comunidade, caixas de som gigantescas eram instaladas, os freezers eram abastecidos com muita cerveja e a carne do churrasco estava sendo temperada. Todos os morros controlados pela ADA foram convidados para a festividade que comemoraria o aniversário de 30 anos de um dos principais bandidos do local. A festa contaria ainda com o show de um famoso cantor de pagode e a aparelhagem de som da maior equipe organizadora de bailes do Rio de Janeiro, tudo bancado com o dinheiro do tráfico.

Tamanha ostentação só seria possível, obviamente, com a conivência do comando do batalhão, que fora chamado de lado, previamente, para ter o seu preço negociado. Não é possível dar a cifra exata de quanto o major P-1 acertou (em nome do coronel) par fingir que não via os caminhões adentrando o morro, abarrotados com caixas de som, o comércio de entorpecentes a torto e a direito, o desfile de armas de guerra e o trânsito de elementos foragidos da justiça, mas não deve ter sido pouca coisa. Depois do acerto, a ordem para os GATs foi explícita: ninguém entra no Macacos no dia do aniversário do “Bebezão”.

Como o morro fechado por cima, a festa aconteceria de qualquer maneira, mas Magalhães estava disposto a atrapalhar no que pudesse. Mais até do que isso: estava contrariado com a goela do major, que queria o boi com chifre e tudo e repartir apenas com os oficiais (quando repartia); se percebesse que a vagabundagem não lhe mandaria nada, nem um calaboca, prevalecendo-se do contrato estrelado guardado debaixo do braço, tocaria fogo no “puteiro”!

- ... e fala mais uma coisa pro teu patrão: quem está na pista somos nós! A nossa parte tem que vir, se não, não tem festa...
- Mas o comandante de vocês autorizou a associação a fazer a festividade. É uma festa comunitária...
- Comunitário é o caralho! Tá achando que eu sou o quê? Otário? Eu trabalho aqui há amis de vinte anos,seu moleque, vai enrolar a puta que o pariu! Acabou o papo. Dez mil até as sete horas, manda o mototáxi entregar lá na entrada do “cocô”, ou ent~~ao paga pra ver. É com vocês mesmos.

Não demora muito, seu rádio toca.
- Pois não, chefe, mandou chamar?
- Mandei sim, Magalhães... Teve uma ligação aqui pro batalhão agora, uma denúncia, dizendo que uma Blazer ameaçou impedir o baile que vai ter no Macacos hoje se a associação não pagar dez mil de arrego...
- Hum... e aí?
- Foi a guarnição de vocês?
- Não.
- Olha, Magalhães, eu conheço você há muito tempo, eu sei que foram vocês... Você vai me complicar se der um “baque” no morro hoje! Tem uma ordem do CPA (Comando de Policiamento de Área) dizendo que as operações noturnas estão proibidas, não dá pra fazer nada...
- É, mas o “pedaço” do senhor tá garantido, não tá?
- Isso não vem ao caso...
- Major, me desculpe, mas já que o senhor me chamou aqui, vou lhe falar francamente. Conheço o senhor desde que era aspirante, a primeira vez que o senhor matou alguém foi com a minha guarnição, muitos anos atrás, me parece que o senhor esqueceu como as coisas funciona... Não existe esse negócio de o comando ficar acertando por cima e largar o GAT de lado, sem nada! Todas as guarnições estão insatisfeitas, a vagabundagem só falta dar risada na nossa cara, e, antes que isso aconteça, eu vou fazer uma merda tão grande que até o coronel cai! Se o Bebezão quer fazer a festa dele, que faça, foda-se! Mas se a parte da minha guarnição não vier, eu vou entrar lá e acabar com o baile, vai ser tiro pra caralho, pode escrever!
- Magalhães... você vai se prejudicar...
- Não tem problema, major, eu já tô em fim de carreira, faltam dois anos pra me reformar. Mas já estou avisando de agora: se quiser me prender, pode prender, porque daqui eu vou reunir meus homens e começar a trabalhar.
- Espera aí, também não precisa ser assim... Porra, que situação que tu me deixa...
- Chefe, isso é mole! Dinheiro pra perder eles têm de sobra... É só esperar o safado lá ligar e dizer pra ele que eu to maluco, que se não pagarem, meu GAT vai lá mesmo, e vai dar merda, só isso!
- É, mas aí meu elo com ele é que vai enfraquecer, né... Ah, deixa essa porra pra lá, sabe? Eu tava vendo a hora que isso ia dar merda mesmo, esse arrombado ficar me ligando toda hora pra reclamar! Vocês que sabem, é com vocês mesmos, se quiser entrar, entra, mas arruma uma desculpa. Diz que tava perseguindo alguém, porque a proibição das operações noturnas existe mesmo e vaio de lá do Estado-Maior. Já sabe que depois de hoje a voga vai mudar, vai voltar a ter guerra direto, já sabe, né?
- É, major... uma guerrinha de vez em quando pode ser bom pra gente também, vamos ver...

Mas dessa vez não houve confronto.

Não porque, ciente de que o GAT estava em ebulição, a vagabundagem resolveu pagar direitinho.

Acontece que alguns traficantes pagavam o arrego do GAT independentemente de pagarem ao comando também; e algumas comunidades menores, como Chacrinha e Casa Branca não tinham acerto com o coronel, por terem pouco movimento nas bocas.

Rafael sabia mais ou menos o que esperar do itinerário a ser seguido. Por semna, a Chacrinha pagava míseros 600 reis! Para dividir entre oito; era por isso que as guarnições não completavam seu efetivo, porque o arrego em geral estava pouco.

A parada seguinte foi o Turano na mesma rua, centenas de metros adiante. O Turano estava “sofrido” e o arrego também era caidinho, mil reais, fora o que pagavam ao comando mensalmente.

Seis da tarde, os recolhes estavam só começando. Seguiram para o Borel.

Passaram pela entrada da Casa Branca e a cena se repetiu, assim como no Andaraí. O absurdo é o quão baixo pode chegar um PM na sua dignidade; mesmo a favela tendo perpetrado recentemente os homicídios de dois companheiros, o GAT se vendeu por 400 reais.

De novo, rumo ao Salgueiro. Contato no radinho, dez minutos, de espera e a formiguinha vem – não de moto, mas a pé – pela rua dos Araújos. Era a melhorzinha das propinas semanais: 1.200 reais. Mesmo assim, merreca perto do que batiam os GATs do 9º BPM ou do 16º BPM, que recolhiam por semana, 
facilmente, de 20 a 35 mil reais.

Antônio mandou voltar para a serra. Não precisariam passar por ela de novo, só iriam até a C6/10, a cabine que fica no começo da subida. É que o primeiro passeio foi só para avisar que estava na hora do pagamento. Mandavam o dinheiro ara ser entregue ao cabineiro que, de lambuja, ficava com ”um galo” (50 reais) por segurar o flagrante.”


Rubem L. de F. Auto


terça-feira, 21 de março de 2017

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 25


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

“Durante os tiroteios, a chance de matar alguém é muito pequena. Traficante não fica colocando a cara para ser baleado de bobeira. Mais do que escaldado, quando vê a polícia chegando corre e se entoca primeiro; só atira se estiver em posição de suprema vantagem. Pouquíssimas são as vezes que um bandido cai baleado enquanto está oferecendo resistência, enquanto dispara ou aponta sua arma para um policial. A quantidade de tiros que se ouve durante as incursões policiais serve apenas para avançar no território inimigo, abrindo caminho a bala, e aí tem início o trabalho dos carrascos.

Certa vez, no morro da Formiga, Anselmo, Vianna, Antônio e Reginaldo estavam dando uma “batida”. Com o mandado de busca e apreensão na sola do coturno, arrebentavam as fechaduras no caminho e invadiam as casas uma a uma, pois Anselmo vira um bandido correr naquela direção, fugindo dos pipocos. Em uma das casas, encontraram um jovem deitado na cama e o mandaram levantar, estocando-o com o bico do fuzil. Uma rápida entrevista se sucedeu e Anselmo, com o olhar maldoso, o pegou na curva (de surpresa): “Sei, você mora aqui e tava dormindo, né? E por que é que essa camisa tá assim, toda fedendo a suor? Você é sonâmbulo, é? Corre enquanto dorme?”.

Ele não tinha fuzil, só uma pistola, e entregou onde ela estava, pois o seu saco já estava chamuscado de tantas descargas elétricas. Mas Anselmo queria mais: “Meu santo tá dizendo que você tá mentindo; se continuar assim, Zé Maria vai ficar rindo da tua cara...”.

Levaram o rapaz para fora da casa e, como ele aparentemente não tinha mesmo um fuzil para desenrolar, e como esses subalternos têm pouco dinheiro para perder, decidiram matá-lo.
Todos dão um passo para trás, disfarçando, e Anselmo o manda levantar (para qu8e não fique marca de tiro no chão e o projétil não entre de cima para baixo, caso haja perícia, o que é muito raro...), dizendo que é para colocar as algemas. Atira no peito dele duas vezes.

(...)

Magalhães então segue para se acomodar no banco do carona de sua mula de metal (blazer do GAT, Grupamento de Ações Táticas). Mais um dia de serviço.

Ao todo, contava 24 anos de polícia. Desses, 21 só de 6º Batalhão. Serviu ao Exército por três anos, como paraquedista do 26 BIPQDT, um dos mais conceituados entre os guerreiros alados. Como não conseguiu permanecer no serviço ativo (não havia vagas para engajar todos os PQDTs), degringolou para a profissão do pai, sob uma chuva de protestos da família inteira.

Naqueles tempos as coisas eram diferentes. A Patamo não enfrentava resistência quando subia os morros; pelo contrário, ao avistar os “pés pretos” subindo, a bandidagem simplesmente se escondia para não ser presa ou morta. Quando tinha um mandado de prisão, ou alguma coisa séria que pedia intervenção policial, o comandante da Patamo simplesmente mandava dar o recado para fulano ou sicrano se apresentar, senão ia ter sacode na favela. E que sacode!

Não havia corregedoria, disque-denúncia, câmeras nos celulares e imprensa sensacionalista contra a instituição. A barbaridade reinava absoluta, com os PMs fazendo o que bem entendiam com o povo pobre, ignorante e favelado.

Magalhães chegou na polícia no momento da transição. Nem ele mesmo consegue esmiuçar como aconteceu a mudança, mas o fato se deu porque o estado, com a sua inépcia no quesito gestão de segurança pública, propiciou o fortalecimento dos criminosos de tal maneira que, um dia, quando foi cumprir mais uma missão de rotina, não se sabe como, teve que voltar rastejando para não ser atingido pela saraivada de balas de fuzil que vinham do alto da caixa-d`água, lá no Borel.

Nem a polícia trabalhava com fuzil, tinha no máximo a carabina .30 (que nada tem a ver com uma arma antiaérea), usada como armamento de emprego coletivo na Segunda Guerra Mundial e anos-luz atrás em matéria de poder de fogo dos AR-15, que pululavam nas cordilheiras vermelhas. Além das carabinas, os policiais dispunham de escopetas calibre 12 (que, dadas as características dos confrontos cariocas, são tão eficientes quanto bacamartes de sal grosso), revólveres calibre 38 (os “cerqueirinhas”, apelidados assim por causa do secretário de segurança que os concedeu, o general Nilton Cerqueira), as metralhadoras INA 9mm (que só funcionavam com a culatra aberta, causando vários acidentes durante seu manuseio) e a Pasã .45, todos armamentos ultrapassados diante da gerência criminosa.

Não pense que, apenas por estar com uma arma ruim, o policial se inibe diante dos marginais. Eles entravam com tudo, no peito e na raça, atrás do objetivo. Quebravam as bocas, tomavam tudo dos bandidos e depois passavam o “cerol”, fininho! Matar traficante ou ladrão, naquela época, não era crime, e assim Magalhães estabeleceu-se como um dos maiores fazedores de ocorrência do 6º Batalhão, progredindo passo a passo rumo à sua maior pretensão: comandar seu próprio GAT.

Matou muito. Criança, mulher, homem, aleijado não importava. Quem quer que estivesse envolvido na “sacanagem” ganhava um passaporte direto para a eternidade.

Quando soldado, enquanto torturava um rapaz no alto do Andaraí ara que ele entregasse o esconderijo das drogas, tarde da noite, a mulher do bandido, uma faxineira que havia acabado de cumprir o turno de trabalho, chegou em casa e se deparou com os policiais em pleno interrogatório. O jovem, já muito machucado e com vários órgãos estourados pelas pancadas, expirou antes mesmo de poder pedir socorro à mulher que, desesperada, começou a gritar ensandecidamente. Não poderia haver testemunhas e, como prova de que estava de corpo e alma entregues à guarnição, o velho comandante ordenou ao soldado Magalhães que matasse a nortista. A mulher continuou a gritar, pouco se importando se a morte estava cafungando em seu pescoço. Possuído, o sargento repetiu a ordem, confundindo sua voz com a gritaria da faxineira, jogada ao chão por cima do corpo flagelado do marido. Tinha 23 anos.

Ele não sabia, mas se tivesse escolhido poupar a faxineira, seus parceiros o matariam colocariam a culpa no rapaz torturado e a mulher como morta em decorrência do tiroteio. A PM funcionava assim. Não havia espaço para piedade.

O estado era seu patrão e as mortes, nada mais que uma atribuição oficial. Tão oficial que se incorporara ao seu salário, na forma de uma gratificação pecuniária que o acompanhará até a morte. Ou exclusão.”


Rubem L. de F. Auto


segunda-feira, 20 de março de 2017

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 24

Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

“(...)
E ainda temos o cabo Juarez.

De longe, era o mais bem treinado combatente da guarnição. Oriundo do Batalhão de Operações Policiais Especiais, concluiu o Curso de Ações Táticas (CAT) ainda soldado e, por longos sete anos e meio, seu ninho foi em meio à elite da tropa. A ideologia à qual é submetido um aluno dos cursos que facultam o ingresso nesse seleto grupo dita que, lá, eles são policiais diferentes, pertencentes a uma “polícia” diferente, sem espaço para máculas. Os cursos são extenuantes e de incontestável excelência, sendo reconhecidos mesmo entre órgãos de segurança pública de outros países, que vêm ao Rio de Janeiro em busca de instrução para o aprimoramento de seus próprios métodos.

Tá bom. Mas será que ser uma polícia autointitulada “diferente” é sinônimo de uma polícia eficiente?
Ônibus 174; morador do Andaraí morto por policiais do BOPE após ter ferramenta confundida com uma submetralhadora UZI; policial do BOPE preso por vender munições ao tráfico da Rocinha; policial do BOPE preso por atacar a tiros o portão da casa da ex-amante; oficial do BOPE comanda episódio lamentável, conhecido como “muro da vergonha” – e um sem número de outros exemplos.

Parabéns aos oficiais administradores e operacionais que buscam, por meio de viagens para workshops no exterior (recebendo diárias bem gordas, em dólares), novas técnicas de gestão e adestramento para o currículo dos cursos de Ações Táticas e de Operações Especiais.

Policial é policial. Ponto e acabou. Não encara inimigo, encara criminoso, duas coisas completamente distintas. O inimigo é pessoal, é de guerra deflagrada, tem bandeira, uniforme e ideologia própria. O criminoso é um par, levado ao crime por fatores intrínsecos, sociais ou patológicos e deve ser retirado do convívio social em prol do bem-estar coletivo, de acordo com as convenções estabelecidas por cada comunidade. Quem combate o primeiro é o soldado, e o segundo, o policial. E aí está a grande problemática do modelo nacional. Soldados policiais. Ou policiais soldados.

De nada adianta apregoar que no BOPE não tem policial corrupto se lá tiver policial maluco, psicopata, assassino.

Ao lado da cancela que conduz ao interior das dependências do Batalhão Especial, um banner preto gigantesco, com uma caveira mostrando os dentes, dá o tom do aviso: “Seja bem vindo, mas não faça movimentos bruscos...”

É piada. E de mau gosto.

Não dá para esperar muito dos coronéis no que tange ao planejamento e à coerência. Há outras preocupações que lhes tomam muito da capacidade intelectual – como achar um jeito de remanejar a verba destinada ao rancho para a compra de uma mesa nova para o gabinete.”



Rubem L. de F. Auto   

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 23


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

“Respirou um pouco quando o escalaram para a custódia no Hospital do Andaraí.
Lá, ficavam os presos da área do 6º BPM, necessitados de tratamento médico, enquanto aguardavam transferência para o hospital penitenciário, sempre pajeados por um PM escalado para manter a segurança do local e impedir eventuais evasões. No sétimo andar havia uma sala reservada para a recuperação de bandidos feridos em confrontos com a polícia e que não precisavam de terapia intensiva: para esta Rafael foi designado.
No geral, a sala era um lixo (como tudo o que diz respeito a encarceramento no Brasil), com gazes e curativos sujos espalhados pelo todo o chão.
Os dois sobreviventes que Rafael encontrou tinham sido baleados em situações distintas: um após ter roubado um carro (o comparsa fugiu) e o outro durante incursão policial ao morro da Cotia.O da incursão tinha levado um tirambaço pelas costas, na altura da clavícula, e estava todo torto, sem previsão de alta. Certa vez, na volta de mais uma das cirurgias feitas para tentar consertá-lo, sentia fortes dores, e Rafael ficou incomodado com os gemidos agonizantes que não o deixavam dormir.
Foi pedir à enfermeira que fizesse algo – ela até se admirou da compaixão do mango -, e a moça administrou um analgésico poderoso no vagabundo que o fez dormir como um neném. Rafael embarcou logo depois, deitado na outra maca vaga. De alguma forma, o bandido interpretou aquilo como um gesto de solidariedade do PM, e, no plantão seguinte, falou: “Com todo respeito, meu chefe... o senhor me deu a maior moral aí, no meu sofrimento, isso aí é pro senhor tomar um café...”, e deu 50 reais na mão do polícia. Amizade feita! Os outros serviços vieram naturalmente.
Às vezes, queria uma visita íntima (mesmo não sendo direito do custodiado em hospital, ainda mais estando ele em convalescência); então, agendava para o serviço de Rafael. Cem reais. Outras, queria fumar uma maconha (trazida pela visita). Mais 100 reais. Fumava deitado na maca, com a porta de correr trancada e Rafael deitado do outro lado da sala, assistindo à televisão trazida pela mãe do preso (mais 100 reais). Fecharam uma mesada semanal e, durante pouco mais de um mês, Rafael recebeu 300 reais por semana para deixar o plantão “arregado”. Com direito a DVD, lanche do McDonald`s, maconha, celular e piranha liberados.
Pena que durou pouco, pois a marola começou a dar muita pinta e nem o vento que entrava pelo tapume estava mais dando jeito na fumaça...”



Rubem L. de F. Auto

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 22


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

“Jorge se transformou em monstro antes de Rafael.
Morador da área dominada pela polícia desde os tempos de motoboy, fez o concurso quase em segredo, apenas os amigos mais chegados e familiares sabiam de sua aprovação.
Após a formatura começaram os assédios para que tomasse partido nos negócios paramilitares. Recém formado, não quer saber de prancheta de ponto de Kombi, quer é bala, mas não o convidam para os ataques.
Jorge era cria do bairro e conhecia os bandidos que mandavam na área antes da chegada da nova quadrilha. Nem todos os bandidos foram expurgados com a ascensão da milícia, muitos conseguiram escapar sem ao menos serem identificados, tão logo perceberam a iminente derrota na guerra.
Numa noite de sábado, quando os carros ligavam seus equipamentos de som no último volume e a praça ficava lotada, Jorge resolveu levar a mulher e os filhos para fazer um lanchinho em um trailer. Toda a cúpula da milícia estava presente nos arredores, Marcelinho inclusive, e a festa era garantida pela noite toda, com cerveja e armas por todo lado.

(...)

O lanche chegou e Marcelinho se levantou para deixar a família comer sossegada, não sem antes gritar para o dono do trailer: “Aí, família, o lanche do polícia aqui é meu, valeu? Tá pago...”.
Enquanto vi acompanhando Marcelinho ir embora, Jorge olha para as mesas ao redor e fica gelado: um antigo traficante está sentado bem ao seu lado.
Conheciam-se.

(...)

Jorge se levanta displicentemente já não encara mais o desafeto, mas tenta dissimular sua intenção. Mas o bandido percebe e, ao ver o outro levantando, levanta também e esboça uma fuga.
Jorge saca o revólver e grita para parar, corre atrás dele. Jorge está meio fora de forma e não consegue mais continuar o empurra-empurra; então atira para o alto, apenas para que o bandido pare. O bandido, mais uma vez, vacila. Parou com a esperança de dialogar e ser perdoado.
Marcelinho, que chegou logo depois, ao ver a cena e perceber que o soldado estava rendendo alguém, sacou sua pistola e reforçou a ordem. Desferiu um golpe certeiro com o aço da Beretta 9mm, e o bandido desmaiou. Em tom sério, mandou que algemassem o homem ainda desmaiado e ordenou que alguém trouxesse sua caminhonete e chamou Jorge de lado.
Foi conciso. Explicou que levariam o condenado para um lugar ermo, o interrogariam e depois o matariam.

(...)

Na caçamba da Hylux, com os solavancos da rua de barro que tomam como rumo, o traficante acorda e fica apavorado. Marcelinho e Jorge vão sentados na beirada da caçamba e fingem não ouvir as súplicas.
Jorge engoliu seco quando chegaram ao descampado no alto da colina.
Nesse descampado, após a tomada do poder pela milícia, eram realizados alguns interrogatórios e julgamentos que, ao cabo, poderiam render desde uma simples surra até a pena capital. Os meios empregados variavam de acordo com o condenado: fuzilamentos, asfixia, facadas e o mais requintados deles, o “micro-ondas”.
Tiago manteve a caminhonete e os faróis altos ligados e Altino foi buscar algumas coisas que já se encontravam por ali.
Passaram a lhe fazer diversas perguntas, ao que ele não mais tentou dissimular sua intenção primária e contou tudo: que estava a mando de traficantes de uma quadrilha desejosa de retomar o local; que foi até lá obrigado, sob ameaça de morte contra si e sua família; que nunca mais apareceria por la; que pelo amor de Deus não matassem...
Altino aparece trazendo consigo três pneus velhos. Ao percebê-lo e divisá-lo, o jovem algemado emite urros lancinantes de agonia, baba e cospe.
Tiago bate na sua fronte com o tambor do revólver até as pernas pararem de sacudir e Alcino lhe encaixando os pneus de forma e prender seus braços na altura dos cotovelos e as pernas na junção dos joelhos; ainda sobra um para ser empilhado no tronco, deixando pouco de sua cabeça exposta.
Os carrascos deliberam sobre atirar ou não antes, para que a queima decorra com o indivíduo já morto, mas Marcelinho apenas emite um deboche qualquer e acende um palito de fósforo.
Os gritos não duram mais do que quatro segundos. São sufocados pelo torpor.
Marcelinho, Tiago e Alcino sacam suas armas e aguardam que Jorge saque o seu revólver também. Posicionam-se ao redor da brasa semimorta e descarregam o chumbo piedoso.
Estava batizado. Jorge, a partir daquele momento, tornara-se miliciano.”



Rubem L. de F. Auto

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 21


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

“- E agora, Vicente? Como é que a gente vai negociar esse AK?
- O negócio é não ter pressa. Amanhã de manhã vou fazer contato com o Beiçola, vamos ver o que ele vai dizer.
-Deixa que eu levo o fuzil pra casa então.
- Olha lá heim... não tá pensando em fazer merda não, né? Ele vale uma prata, 40 mil anos ou menos, vê se não faz besteira!

(...)

Retirou o AK do embrulho que fizera com uns lençóis velhos, limpou ele todo, colocou um pouco de óleo e embrulhou de novo. O que ele queria realmente era que o encontro se desse dentro de alguns dias.
Dentro da mochila dos marginais havia dois carregadores, cheios de munição calibre 7.62 curto, mais sete cartuchos que sobraram do carregador que estava em uso quando atiraram em Rafael. A intenção era usar a arma, poderosa e intimidadora, em um ataque contra alguns marginais de uma boca de fumo perto de sua casa. Poderia, se a milícia não estivesse ávida por qualquer coisa que cuspisse fogo.
As milícias surgiram, começaram a se fortalecer e ganhar espaço no vácuo deixado pelo estado nas áreas pobres do Rio de Janeiro. Abandonadas pela política de inclusão social e segurança pública, essas áreas primeiramente viviam sob o jugo do tráfico, e eram os criminosos que impunham as regras de convivência, às vezes de forma violenta e abusiva.
Casos em que traficantes obrigavam pais a entregarem suas filhas para servirem aos seus prazeres sexuais, ou em que matavam indiscriminadamente por qualquer motivo fútil, como uma briga por pipas, fizeram com que um sentimento de animosidade se instaurasse e, consequentemente, brotasse uma semente perigosa: a do justiceiro. Cidadãos comuns, aliados a policiais de folga, compartilhavam o pensamento de que alguém tinha que fazer alguma coisa, já que o estado cagava e andava para eles. Começou o bang-bang.
Por maior que seja a indignação com os abusos, para guerrear o sujeito precisa de um soldo, uma forma de se sustentar e à sua família, mesmo que miseravelmente.
Começaram a pedir (não exigir) que moradores contribuíssem com pequenas quantias em dinheiro, mensalmente para que os plantões continuassem, impedindo a volta dos bandidos às localidades recém-conquistadas. Centrais clandestinas de TV a cabo foram instaladas e passaram a distribuir o sinal a preço bem abaixo do cobrado pelas operadoras. O transport alternativo foi organizado de forma a suprir as debilidades do sistema público, que muitas vezes ignorava certos lugares e simplesmente não disponibilizava linhas para atender aos moradores. O fornecimento de gás era coordenado pelos chefes, que cobravam uma espécie de ágio para que as distribuidoras operassem em seus domínios. E foi logo depois que toda essa estrutura ficou pronta que começaram a meter os pés pelas mãos.
Engana-se, porém, quem pensa que os milicianos estavam satisfeitos com a nova ordem estabelecida; queriam mais:  domínio político.
Com o “assistencialismo” que, além de cooptar apoio popular, enchia seus cofres, os chefes se sentiram no direito de representar sua gente sofrida dentro do legislativo, federal, estadual e  municipal. Quando não se candidatam, barganhavam apoio eleitoral nas suas áreas de influência.
Foi o começo do fim! Quer coisa mais assustadora para os senhores do Brasil, para a elite carioca, que um bando de policiais e associados arrebanhando votos e apoio popular? Já pensou se essa cambada de ignorantes começa a se dar conta do quanto era viipendiada, e resolve apoiar em uníssono o levante paramilitar?
Mas são apenas policiais. PMs, civis, delegados e coronéis, mas só policiais, e era demais esperar que eles entendessem a magnitude do instrumento que tinham nas mãos. Um saco de dinheiro e pronto, esqueciam-se até quem eram suas mães! Começaram a se matar por pontos de Kombi, por “gatonets”, por botijão de gás, e aí a vaca foi pro brejo! Tudo o que os maquiavélicos arquitetos queriam era um pretexto, um motivo para esmagar as aspirações dos morlocks abusadinhos e, por debaixo das togas, entre cohibas e doses de scotch, começaram a trama que asseguraria sua hegemonia. E não foi difícil!

(...)    

Com a população assustada pela violência das refregas, foi iniciado o sistemático plano de combate aos milicianos e a derrocada deu-se de maneira espetaculosa, com prisões cinematográficas e operações de nomes impactantes, do jeitinho que o povo gosta.
Houve vários convites nessa época áurea para que Rafael ajudasse nos trabalhos da “Firma”, coordenando pontos de transporte alternativo ou tomando conta de centrais de TV a cabo clandestina, mas ele nunca se interessou. Gostava mesmo só da pólvora, das balas. Tinha falado com Beiçola que, quando houvesse recrutamento para efetuar ataques a localidades ainda dominadas por vagabundos, era só chamar que estaria dentro.
E chegou a hora.   

(...)

- Faz um contato com o Marcelinho aí, Charles, pede pra ele vir aqui no ponto que tem uma mercadoria pra ele avaliar.
Marcelinho era outro policial que fazia parte do grupo.
Cabo do 31º BPM, estava na “Firma” desde sua criação e passara despercebido a várias investigações e alguns tiroteios. Dividia a liderança com mais três homens, um bombeiro, um policial civil e um PI (pé inchado, gíria para cidadão não policial, que atua como um jagunço). Não demora muito e ele chega.
Destoando completamente do resto do cenário (era uma favelinha na Zona Oeste do Rio), a Toyota Hylux preta aparece por uma das ruas laterais, esbanjando soberba. Uma semana antes, matara um rapaz de 17 anos no meio de um jogo de futebol, na frente de diversas testemunhas, por conta de suposta ligação com um bando que cometia assaltos fora dali.
Além de baixinho, era gordo, careca e feio, feio de dar pena. Com uma penca de cordões de ouro pendurados para fora da camisa preta, um deles com um cifrão gigantesco como pingente, anda quese que curvado, como se tudo pesasse muito no pescoço. Era novo, contava trinta e poucos anos e estava há onze na PM. Do banco do carona desce sua namorada, por quem largou o casamento anterior, abandonando uma esposa feínha e três filhos. A nova primeira-dama era outra peça! Loura tingida, vinte centímetros mais alta do que ele, corpo cultivado em academia, tinha no máximo vinte anos.
- Que beleza! Está novo ainda!
- Pois é – confirma Vicente -, e atira que nem o caralho!
- Vamos testar? – pergunta o sargento.
O anão se anima.
- Claro, manda essa parada pra cá!
- Não vai espantar o pessoal, não ? Tá cheio de criança passando...
- Que nada, polícia, quem sabe aqui sou eu! Neguinho já tá acostumado. Comigo na área sempre tem bala voando! Passa pra cá que eu vou “botar pra cantar”...
Os paisanos que tomavam conta do ponto de kombis ficaram ouriçados e se arrumaram em volta do patrão para vê-lo em mais uma patética demonstração de poder, com a prostituta a tiracolo achando tudo muito natural.
- Quanto vocês querem?
- Bem, você viu que está tudo certo com ele, não é meso? Então – diz Vicente – 45 está bem pago!
- Guerreiro, tá caro... Semana passada a gente pegou um “vassourão” (fuzil FAL 7.62) por esse preço, não sei se a rapaziada vai querer pagar não...
- Olha, cara, eu quase morri pra pegar essa peça, não vou pechinchar não. Se eu tivesse dinheiro, eu ficava com ela pra mim, só pra ter em casa.

(...)

- Seguinte, eu falei com os amigos aqui, disse a eles que a parada era boa e coisa e tal... E disse o preço de vocês. Eles se interessaram, mas perguntaram se podia baixar um pouco, e aí a gente faz negócio agora por 40 mil. Fechou ?
O preço que Vicente estimava inicialmente. Era muita grana para quem (agora depois das esmolas que o governo chama de aumento) ganhava 1.050 reais por mês, grana demais para ser recusada.
- Pode fechar! Manda vir o dinheiro.”


Rubem L. de F. Auto

  

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 20


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

“- Caralho! Tu viu, Vicente? Que é que esse merda tá fazendo com a família aqui perto do Borel a uma hora dessas?
- Deve ser morador da Usina, essas porras não têm noção não! E... caralho, olha aí...
Um carro fez a curva a toda velocidade. Estava com os faróis apagados, só sendo possível perceber sua aproximação quando já estava bem perto do local da emboscada. Rafael acompanhava a saída da família, que ainda estava próxima a ele, e se virou instintivamente, com o fuzil já em posição de tiro, mas viu tratar-se de um Polo preto, não de um Bora. Por um segundo, relaxou a posição. Foi o suficiente.
Não era culpa dos companheiros que deram o alarme. No calor dos acontecimentos, é fácil confundir modelos de carros tão parecidos. Os vagabundos vinham desesperados de vontade de conseguir chegar logo ao morro.
Pelo pára-brisa dianteiro, o carona deu uma rajada com seu AK-47 a poucos metros de distância de Rafael. Alguns marginais são sagazes no combate urbano; muitos têm treinamento militar, serviram nas brigadas paraquedistas, nos corpos de fuzileiros e, após tomarem um pé na bunda dos quartéis, alistam-se nos exércitos dos traficantes de drogas. Sorte que a maioria é estúpida e só entra para o crime porque é onda, porque é maneiro, para ganhar dinheiro fácil e rápido. Aprendem a atirar dentro da favela, instruídos por esses que citei antes, mas sem a disciplina dos quartéis, rapidamente abandonam o que foi ensinado e passam a agir como nos filmes de ação.
Atirar em rajadas é uma das grandes idiotices dos marginais (principalmente os 157); o tiro perde precisão e, mesmo perto, pode errar o alvo. Mas que Rafael sentiu o zumbido da morte sussurrando em seus ouvidos, isso ele sentiu!
O carro da família, que seguia mais adiante, parou e ficou, atordoado pela chuva de balas que furou parte da lataria, e o Polo os ultrapassou. O marginal se virou para trás, para continuar o fuzilamento ao soldado caído; só não contava que houvesse mais um policial, acobertado pela forquilha de uma árvore, com 25 munições calibre 5.56, tremendo de ansiedade para interromper pelo quebra-chamas. U espetáculo de estratégia!
Vicente começou pela porta do carona e, já nos dois primeiros tiros, a risada nefasta do AK silenciou. Depois distribuiu por toda a lateral, dois a dois.
Rafael assistiu a tudo deitado no chão, enfurecido; quando conseguiu se reerguer, fez sua divisada e engrossou o coro. As portas do lado direito se abriram e deu para ver dois bandidos fugindo, capengando, para os cantos impossíveis de se alcançar da São Miguel, por causa da contenção que fica no alto do morro.
Vicente concentrou os tiros restantes nos marginais que ficaram no interior do carro.
- Pega, Rafael! Dá neles, não deixa ele correrem não!
Rafael estala cinco tiros de seu fuzil (mais potente que o do cabo) na direção da janela do carona. O vidro se desmancha já no segundo tiro, e é possível visualizar o momento em que, ao ser atingido por um dos disparos, o topo da cabeça do vagabundo (já morto), sentado no carona, salta até encostar no teto, terminando por cair, separado do resto do corpo, em cima do banco do motorista.
- Caralho! Tu viu?
- Vi! Mas ele já estava morto, tá... nem vem que esse é meu! Dá mais uns no banco de trás!
- Tem um fodido aqui atrás, Vicente!
Deitado, um jovem de menos de dezoito anos agonizava ao longo do banco. Como não estava na altura dos vidros, escapou da saraivada de 7.62 aplicada por Rafael. Tinha sido atingido por dois tiros de Vicente, ambos na parte direita do corpo, um na perna e um no braço, o segundo transfixando-se e saindo pelo ombro.  
Quanto ao atirador, caiu no primeiro disparo de Vicente, que pegou abaixo da clavícula esquerda e explodiu seu coração.
- Olha a porra do fuzil deles lá! Palmeia esse maluco aí que eu vou pegar.
O cabo entra pela janela da frente e arrecada a principal peça do espólio.
- Filho da puta!
Com uma voz baixa e sofrida, o jovem pede que lhe socorram. Não há misericórdia.
- Se vai fazer, faz logo, Rafael! Se não, a gente socorre.
Rafael dá um passo atrás e Vicente entende e acompanha. O bandido está deitado de lado, com os pés voltados para o soldado e a cabeça apontando para a porta aberta, por onde os outros marginais haviam fugido.
- Vai logo, Peu! Daqui a pouco vai estar cheio de gente aqui!
O baleado estava em francas condições de ser socorrido e percebe que o PM quer matá-lo; então, começa a gritar e tenta reunir forças para levantar e sair do carro. A meia levantada que ele dá coloca sua cara de frente para o 7.62 e daí já toma o primeiro.
Rafael se contém pois a regra é clara: muitos tiros podem render suspeição de legitimidade da morte. “Mas espera aí?! Se é um bonde, e eu vu dizer que atirei nele passando, qual o problema de eu entupir esse filho da puta?” Era sua chance de vislumbrar o estrago que um fuzil poderia fazer em uma pessoa. Não podia desperdiçá-la. O zumbi mexia o que lhe restou de queixo em um movimento reflexo, como se estivesse mastigando, só esperando o apagar das luzes. Rafael então dispara o que ainda sobrava no carregador, seis ou sete tiros, todos acertando o corpo e dilacerando-o como monstruosos cães selvagens.
Debaixo dele aparecia a Glock .45 que escapara de suas mãos quando foi baleado por Vicente. O cabo se apressa em recolher a última peça do butim e agora ambos se preparam: hora da limpeza.
- Toa aqui! Leva o AK e esconde lá na mala da viatura, debaixo do estepe, coloca as mochilas por cima também. Traz a “vela” (arma implantada, de forma a simular uma troca de tiros que não ocorreu) e estaciona aqui do lado.
Antes de alcançar a viatura, Rafael passa pelo carro da família, que assistira aos três minutos de horrorosa ação policial. Poderia ser uma complicação, testemunhas da execução e do excesso perpetrado por ele. Pede que abram a janela:
- Senhor, se o senhor continuar aqui, vou ter que conduzi-lo para a delegacia como testemunha dos fatos. O senhor quer testemunhar?
O homem sacode vigorosamente a cabeça, dizendo que não, quer apenas sair dali o mais rápido possível.
- Eu não vou te obrigar a ir não, mas então vou pedir que, já que vamos não proceder daqui, que o senhor esqueça o que viu. Tudo bem?
- Meu rapaz, por mim você pode matar todos eles que eu não to nem aí!
De onde estavam, não dava para ver o estrago feito nos bandidos, era mais fácil falar deles assim, de longe, sem sentir o cheiro de sangue. Mas é isso mesmo que a sociedade quer, que eles morram, todos eles, desde que não seja ela a responsável por recolher os restos fedorentos.

(...)”


Rubem L. de F. Auto

      

sexta-feira, 17 de março de 2017

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 19


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

"Tirando os fechos, o patrulheiro tem que correr atrás se quiser arrumar alguma coisa. Era um jogo de gato e rato constante, em que os bandidos eram os atores principais – sem eles, nada acontecia.
Há várias maneiras de lidar com o estresse caótico provocado pelo trabalho de policiar as ruas: praticar esportes durante as folgas, aproveitar a família e passear são boas opções, ou, durante o serviço, dar uma paradinha para uma soneca e (a preferida de Rafael ) comer. Pena que tinha PM que, para relaxar e se sentir bem, precisava cheirar.
Mais uma doença crônica que se abate nas fileiras da corporação: a dependência química. A quantidade de PMs viciados trabalhando na área do 6º Batalhão era tão grande q1ue eles não precisavam mais nem se esconder dos demais companheiros: passaram a ser regra. (...) Depois de um tempo, as máscaras foram caindo e até quem ele menos imaginava se revelou com “ganseníase” (doença dos gansos, ou viciados). Beiçola, o sargento velho, foi um desses.

Esse tipo de viciado tinha um perfil bem específico: só cheirava quando estava de serviço, tinha raiva de viciados “PI”, tinha vergonha do vício e só conseguia trabalhar bem quando estava “trincado”. Muitas das vezes, o primeiro roteiro a ser cumprido por certas guarnições era bordear os morros, mas não à procura de bandidos. Ficavam à espreita até um viciado passar e tomavam-lhe toda a carga que havia acabado de comprar. Não exigiam dinheiro para liberá-lo, apenas ficavam com a droga para consumirem depois. Uma das cenas mais horripilantes já presenciadas por Rafael se deu quando, ao atender um pedido para acautelamento de local de 932 (encontro de cadáveres), pegou a dupla que iria render cheirando em cima do capô do Gol bolinha (viatura).

Quem vai trabalhar na patrulha sabe que vai trabalhar para as estatísticas. Funciona da seguinte forma: cada setor de patrulha é formado por quatro duplas (alas), e a cada mês uma delas fica encarregada de apresentar uma ocorrência de vulto. Essa ocorrência tem que ter arma apreendida, material entorpecente e, de preferência (mas não obrigatoriamente), um pobre-diabo algemado e açoitado (sendo irrelevante se era ou não dono do material apresentado). Cada guarnição tinha o seu kit “gol de mão” pronto para ser colocado nas costas do primeiro otário, aspirante a criminoso, que fosse a bola da vez; na falta dele, simpatizantes e usuários de drogas ou simples jovens moradores de favelas davam conta do recado. Com isso, o batalhão assegura a sua postura de enfrentamento ao crime perante as autoridades políticas, e o comando se fortalece, facultando ao todo-poderoso coronel mais tempo para desfrutar as benesses de comandar sua horda particular de mercenários estúpidos.

Uma das formas de burlar o esquema imposto pelo comando, que exigia a apresentação de ao menos uma arma apreendida por mês, eram os chamados “canos de piscina”: dois tubos de ferro (como os de armação de piscina), um colocado por dentro do outro, com uma haste soldada em cada um para fazer o papel de empunhadura.

Embora rudimentar, de acordo com a legislação penal a peça é considerada arma de fogo, gera apreensão e responsabilidade criminal para quem a portar e, consequentemente, números para estatísticas. Havia um suboficial que trabalhava como oficial de dia, que fabricava e vendia os artefatos a 70 reais; sempre que a pista dava uma esfriada. Rafael recorria a ele.
Acontece que ninguém mais apresentava armas de verdade, todo mundo estava comprando os canos de piscina do sub! Quem pagava uma pistola ou um revólver na rua guardava para si, ou vendia, e as delegacias saturaram-se de registrar aquelas mesmas historinhas fajutas de sempre.

(...)

Sempre tinha alguém oferecendo uma arma velha para ser usada nas apreensões. Eram armas de baixo calibre, .22, .635, enferrujadas e obsoletas, mas que não podiam ser ignoradas pelas autoridades policiais. Os PMs então separavam um pouco do dinheirinho obtido e as compravam para a hora em que fosse preciso apresentá-las.

(...)

Em um dos episódios mais tristes de toda a história do 6º Batalhão, ao receber um pedido de prioridade semelhante, uma patrulha atirou contra um carro que havia sido reportado como envolvido numa troca de tiros com outros policiais. (...) Abriram fogo contra um carro parado, enquanto em seu interior uma mãe e os dois filhos sentiam o calor do chumbo fumegante passando por eles. O saldo não poderia ser mais trágico: um menino inocente morreu vitima dos tiros disparados pelos policiais, a mãe foi ferida e, milagrosamente, um bebê de colo saiu ileso fisicamente.
(...)
A forma como os PMs são incentivados pela sociedade e pelos comandantes a matar, somada à presença cada vez mais intensa de bandidos despudorados pelas ruas da cidade, fruto das ineficazes políticas de segurança pública e de desenvolvimento social, gera um sem-número de vítimas inocentes.
A Guerra dos Jumentos! Coalhada de balas perdidas e sangue derramado pelo asfalto, ela aterroriza a todos e faz dos inocentes alvos cada vez mais comuns. Perissodáctilos armados até os dentes e em lados opostos, matando mais do que a guerra do Iraque, por dinheiro, por diversão e, às vezes, até mesmo por engano."


Rubem L. de F. Auto


TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 18


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

"Uma das sacanagens mais antigas e rentáveis na área do 6º Batalhão (executada apenas pelos integrantes das RPs) agora lhes seria apresentada, e pelas mãos de um mestre, o sargento Beiçola, 21 anos de polícia só lá no 6º: próximo ao Corpo de Bombeiros de Vila Isabel, em uma ruazinha erma, ficava um dos acessos à área conhecida como “Pantanal”, localidade do morro dos Macacos. Era uma rua ascendente, asfaltada apenas até certo ponto, mas o que importa aqui é o início da subida, logo acima da Avenida Radial Oeste. O “morrinho” era um descampado bem ao lado de uma curva dessa subida, e revelava frondosamente no horizonte, que se precipitava à beira do barranco, a favela da Mangueira em todo o seu esplendor. Do ponto de vista do observador de pé na beirada do morrinho, bem abaixo dele estava a pista sentido Maracanã (...) Paralela a esta, e separada por um canteiro,estava a pista de sentido contrário, o finalzinho da Radial, para quem queria acessar o mesmo viaduto, ou simplesmente seguir até a 24 de Maio. Colada neste trecho estava a favelinha do Metrô, atrás dela a linha do trem e, do outro lado dos muros que ladeiram os trilhos o objetivo se revelava: a rua Visconde de Niterói. A principal via de entrada à comunidade da Mangueira também abrigava o barracão e a quadra da famosa escola de samba, mais a estátua de Cartola e seu museu. Nesse caminho estava um dos principais chamarizes aos visitantes do asfalto, que vinha de longe (e até de outros países) para conhecer a mercadoria da casa: a boca do Buraco Quente.
De cima do morrinho, com a ajuda de um binóculo vagabundo qualquer, dava para acompanhar tudo o que acontecia do outro lado da linha do trem. Os carros acessavam o beco de pela Visconde de Niterói, onde um “estica” estava sempre de prontidão. Era esse funcionário do tráfico que fazia a ligação da boca mais famosa da Mangueira com o asfalto, como um atendente de drive-thru, anotando o pedido do cliente e voltando com a droga, segundos depois. Isto é, para aqueles que não queriam se dar ao trabalho de entrar na favela, pessoas que chegavam em carrões importados, algumas celebridades, jogadores de futebol, gente que não quer ter contato com a sujeirada dos becos, mas que consome o que é “endolado” neles com bastante prazer. (...) Em dias de samba era um frenesi: o movimento de carros se tornava absurdo, com gente comprando e consumindo a torto e a direito por todos os lados. Dentro dos carros, no meio da rua, nos camarotes da quadra, o pó vendido nesses dias era inclusive separado de uma mistura especial, para fidelizar e fazer jus à fama.

O sistema de extorsão funcionava assim: lá em cima do morrinho ficava uma guarnição no “olho”, os dois patrulheiros responsáveis pela identificação dos alvos a serem abordados. Para alcançar o ponto estratégico durante a madruga, algumas preocupações precisavam ser tomadas, e uma delas era não acionar nenhuma luz no momento do posicionamento. Até para manobrar a viatura era necessário cuidado redobrado,  pois o simples acionamento de uma luz de freio era suficiente para que, de lá do alto do morro, os traficantes percebessem a tocaia, e várias foram as vezes em que guarnições receberam uma chuva de balas traçantes dos bandidos furiosos com a maldade contra seus clientes. Em uma dessas ocasiões, o mato seco pegou fogo de tanta fagulha provocada pelos projéteis incandescentes. (...)

Muitos recorriam ao já manjado artifício de deixar o pó com as mulheres, visto que a presença de policiais femininas durante os patrulhamentos noturnos é quase nula, e a revista fica impossibilitada de ser feita pelos homens. Mas, quando o agente tem a certeza de que o flagrante está com ela, uma seção de terror psicológico, além de meia dúzia de ameaças, é o bastante para que comecem a cantar como sabiás bem rapidinho. Nesse pedacinho do Rio de Janeiro tinha de tudo! Pagodeiros, advogados, pedreiros, playboys, patricinhas, médicos e até mesmo policiais que, impulsionados pelo vício incontrolável, iam até lá comprar a droga na cara e na coragem, sabendo que, se fossem identificados, provavelmente morreriam dentro do morro e de forma muito cruel.

(...)

Do alto do morrinho, todas as coordenadas eram passadas pelo Nextel aos comparsas, que aguardavam no asfalto com o motor ligado: a cor do veículo a ser parado, a marca e o modelo, quantas pessoas estavam no seu interior e o principal – onde a droga foi malocada (escondida). (...) Com a certeza do flagrante, as abordagens eram agilizadas e a possibilidade de lucros aumetava exponencialmente, e o que se seguia após o viciado ser devidamente enquadrado era a negociação em prol da sua liberdade.

(...)

Alguns anos atrás, umas guarnições alugaram um apartamento bem próximo lá dos bombeiros, de onde dava para visualizar a boca direitinho, só pra fazer o “olho” mesmo estando de folga.
- Tá de sacanagem?
- Tô falando sério! Rapaz, tem polícia que construiu a própria casa só fazendo morrinho, o Pelicano e o Orelha foram desses!

(...)

- É, sargento, hoje tá bom o negócio lá embaixo.
- É mesmo, e aí? Já deram uma sortezinha?
Joelson continua:
- Pegamos um playboy lá da Barra com mais duas menininhas no carro, estavam levando maconha pra uma festinha...
- Perdeu um negocinho?
- Os companheiros do “E” que pegaram ele lá embaixo dissera que ele rateou de começo, não queriam entregar o flagrante. A cara dele caiu no chão quando os colegas tiraram as trouxinhas de dentro daqueles espacinho onde fica a tampa pra abastecer, sabe qual é? A gente aqui de cima viu tudo enquanto o ganso estava escondendo. O carro dele tem aquele sistema de abertura elétrica da tampinha, e quando ela abriu na pressão, a maconha pulou de lá de dentro no colo dos polícia. Ele chorou, disse que estava duro, mas quando chegou na porta da delegacia deu tudo! Foi uns 300 merréis, mais os três celulares (o dele e os das meninas), uma garrafa de uísque que estava no carro e o relógio!
- Tá bom pra caralho. Não pegaram mais ninguém?
- Pegamos mais um casal meio coroa que perdeu uma merrequinha, um taxista... e só. Teve um Fusion que meteu o pé pela Vinte Quatro de Maio e deu uma poeira nos amigos que tentaram abordar ele.

(...)

Não passa mais que poucos segundos com o foco voltado para lá, logo é cutucado pelo sargento:
- Ali, rapaz, “martca” aquele carro que tá parando lá na boca... É o quê? É um Astra, NE?
- É sim, meu chefe, o estiva tá chegando agora na janela do cariona.
O sargento se agita:
- Vai lá, Arnaldo, vai com o Vicente la pra baixo, rápido, vamos pegar esse aí! Continua olhando aí, Rafael, vê se dá pra pegar legal onde é que ele vai malocar o flagrante.
Vicente e o outro companheiro rapidamente deixam o morrinho e partem para o ponto da emboscada. De lá de cima, Rafael assistia o crime se desenrolar na maior calmaria. Poucos instantes após fazer seu pedido, a mulher no banco do carona recebe a encomenda fresquinha, em mãos. O motorista aproveita que não vem nenhum carro atrás e desce para urinar ali mesmo, próximo à porta do carro. Aparentemente não foi usado nenhum artifício mirabolante para esconder o flagrante, porque logo depois de se aliviar, ele entrou no carro e engrenou a primeira:
- Sargento, estão saindo.
Acompanha eles aí, não perde de vista...
A velocidade do carro é mínima, o suficiente apenas para que ele não desengrene. Passaram pelo primeiro quebra-molas, pelo segundo, e por um breve momento ficam fora da visão do observador ao passar por trás de uma das pilastras do viaduto. Quando aparecem de novo, vêm à toda velocidade.
- Sargento, pegaram o viaduto, vão vir pra cá!
- Ótimo!
- Aí, Arnaldo, estão seguindo na direção de vocês aí, correto? Astra preto, dois ocupantes, um homem e uma mulher, vai passar aí daqui a pouco...

(...)

- Acho que eles ainda não se ligaram que estamos atrás deles. Estão seguindo reto pela Radial, a toda, acho que vou tocar a sirene...
Beiçola adverte:
- Não espera mais um pouco, vê primeiro se eles não vão sair da Radial...
- Mas já estamos aqui perto da Veiga... E ele não quer reduzir,a Cho que agora ele se ligou... Porra, estamos a 120, é melhor sirenar logo, vou dar o toque... Ih, caralho... Ele tá acelerando. Tá acelerando, vai cumpadi, cola nele, vai...
Passaram viando baixo pela cabine da Praça da Bandeira, e ao perceber que o fugitivo iria enveredar pelo caminho do túnel em direção à Zona Sul, Vicente não pensou duas vezes: meio corpo para fora da janela e dois tiros sem o sete-meiota, de advertência, para o alto, testando se seria o suficiente para frear a impetuosidade do piloto fujão. E foi.

(...)

- Desce do carro, porra! Mão na cabeça!
De dentro do automóvel, com o pisca-alerta ligado, sai uma criatura com uma das atitudes mais improváveis. Além de desobedecer à ordem do policial, a mulher loura, de uns 35 anos, demonstra indignação e inicia um escândalo:
- Vocês atirram em mim! Vocês estão loucos, socorro! Vocês atiraram no carro em que eu estava, eu não fiz nada, pelo amor de Deus.
O homem ao volante permanecia no carro. Arnaldo, que não trabalhava com fuzil (pois seu negócio era uma pratinha, nada de tiroteio), se aprocima com a pistola em punho e lhe pede para desembarcar:
- Desce aí, ô viado! Quer fugir, né, ô filho da puta! Quase que causa um acidente! Desce logo, porra!
O indivíduo de pela clara, uns 40 anos, vestia-se bem para um viciado. A calça escura, tipo cargo, e um desses calçados para trilho, meio bota, meio tênis, davam a ele um ar de descontração, e a camisa pólo axadrezada, de tecido grosso, com um alce bordado no lado esquerdo do peito, era novidade para o cabo. 

(...) Estava tremendo, da cabeça aos pés, e não entendia direito o que fazer. A mulher maluca repreende:
- Ele não está entendendo você, seu ignorante! Ele é norueguês, está hospedado em minha casa, passando férias! E me diga o que é que vocês querem? Eu sou advogada, amanhã cedinho vou no batalhão de vocês dar queixa, vou acabar com a carreira de vocês, seus loucos!

(...)

- Calma aí, Peu! Deixa eu falar com esta senhora. Minha senhora, vamos descomplicar: por que a gente não resolve essa parada de uma vez? Me entrega logo o flagrante...
- Que flagrante o quê? Vem cá, quem é você? Sabe com quem está falando? Eu sou advogada e não preciso ficar passando por isso não!
- Ah, sé assim, então? Vai ficar de putaria com a minha cara? Tá achando que...
- Putaria com a sua cara? Acho que você está me confundindo com alguém da sua família...
Aí o caldo entornou de vez! O sargento, que tinha chegado na intenção de amexinar a parada, partiu para cima da doutora para lhe dar uns tabefes e calar aquela boquinha malcriada. Vicente se meteu no meio dos dois e impediu que trocassem socos. Vociferavam farpas mútuas, e a cena era até engraçada de se ver, mas Rafael encucou com outra coisa. O estrangeiro, que também assistia com certo ar de riso à pastelada, de quando em quando tinha de andar para os lados para não ser envolvido pelas partes contendoras. Nessas horas, movia-se de maneira estranha, com as mãos nos bolsos da calça, dando a impressão de estar evitando muita amplitude nos movimentos.
- Ô Arnaldo, vocês já revistaram esse puto?
- Não...
Com aquela cara de bundão, o gringo estava segurando tudo com ele, crente que iria se safar na maior tranqüilidade.
- Aí, cumpadi, vira de costas! Vira aí, ô arrombado!
O soldado pega pela camisa de grife e o vira à força, o que provocou protestos ainda mais inflamados da loura louca. Já nas primeiras buscas em seus bolsos (eram vários na calça cargo) encontrou a prova do crime (?): dois papelotes de cocaína de 20 reais.
- É meu, isso aí é meu! Eu sou usuária, quero ir pra delegacia agora!
O gringo agora olha para baixo o tempo todo, perdeu o sorrisinho bobo e se consterna com a situação de flagrância.
Mas a mulher não aprece nem um pouco preocupada de ir até a delegacia; ela era advogada realmente, sabia que não iria dar um nada mesmo. Só que ainda não estava tudo certo para Rafael.
- Vira aí, seu puto, ainda não terminei não!
Ele continuou a busca pessoal no estrangeiro, e a mulher reclama do porquê de continuar com aquilo, queria registrar o fato logo. Rafael faz que nem escuta e corre as mãos por dentro das pernas do camarada, dando continuidade ao procedimento. Não percebe nada de mais, mas mesmo assim está cabreiro:
- Chega aí – gesticula com as mãos. Abaixa a acalca.
No começa a ordem não é compreendida. Rafael levou o cara para um canto  e repetiu o que disse, novamente sem sucesso, e então ele mesmo puxou-lhe a roupa para se fazer compreensível. Vacilante, o gringo abaixo as calças só um pouco, Rafael mandou descer mais, até os joelhos, e depois a cueca. É escroto (desculpe o trocadilho), mas são ossos do ofício e, como suspeitava, encontrou. Os vários papelotes de cocaína brotavam dos genitais e caíam no chão, entre as calças arriadas do safado. A mulher,q eu estava em polvorosa antes da descoberta, agora se cala e pela primeira vez abaixa a cabeça.
Treze papelotes de cocaína estavam na cueca do infeliz, mais quatro no calçado esquerdo, pó o suficiente para animar a after party para qual foram convidados após um show de uma famosa cantora da MPB.  
Não era a primeira vez dele no Brasil, tinha negócios aqui, e o mais legal foi que, de uma hora para outra, ele aprendeu a falar português. Um milagre!
- Vamos conversar - ele disse, com sotaque carregadíssimo, mas inteligível.
- Esse é o problema de vocês... Arrumam o maior tumulto, esperneiam, mas no final acabam se fudendo mais do que o necessário. Se desde o começo já tivessem dado o papo, já estariam no rumo de casa, mas agora não tem mais desenrolo não, seu gringo sem-vergonha, tá preso pra caralho! Vira, bota a mão pra trás...
- Que ser isso? Não precisar disso, senhor, vamos conversar...

Acaba algemado e conduzido para a viatura, co os olhos marejados e a cara de coitado que só os melhores gansos sabem reproduzir. (...) A loura, de cabeça baixa, acompanha a movimentação e aguarda o que será feito dela. O sargento chega perto e diz em tom de voz e debochado:
- Viu, nem precisa te encostar a mão, doutorazinha de merda! Vocês mesmos é que se empenaram! O teu amiguinho aí vai entrar é no tráfico, e você também, vamos ver a sua cara no jornal de amanhã.
- Que é isso, vai me algemar também? Há necessidade disso?
- Lógico! Seu passeio agora é diferencial, vocês receberão tudo o que têm direito...
A mulher é colocada ao lado do gringo e fecham a porta.
- E o meu carro? – perguntou a advogada.
- Calma, senhora – responde Rafael. Um policial está conduzindo ele até a delegacia. Que merda que vocês fizeram...
O gringo parecia um disco arranhado.
- É, vamos conversar...
Vicente interrompe:
- Porra, gringo, você tá falando tanto que quer conversar, quer conversar... Fala logo o que tu quer falar!
- Eu querer dar dinheiro para vocês...
A mulher entra no jogo:
- Ele tem como negociar bem, vocês não vão se arrepender, vamos parar em algum lugar e conversar.
Rafael arremata:
- Dá logo o papo, gringo, tem quanto pra perder?
- Dois mil, pode ser?
Era o momento de continuar a peça e não demonstrar surpresa:
- Só isso? Você tá maluco? Vocês tão indo presos por tráfico meu camarada, não é por porte não... Tá achando que eu to morrendo de fome, porra? Divide por quatro, é 500 pra cada, tá de brincadeira?
- Tá bom, tá bom... – a mulher se rende. Faz o seguinte: chama o sargento aqui, para em algum lugar que eu falo com ele... – consulta baixinho o norueguês. Dez mil, mas vamos ter que ir à minha casa, quer dizer, ao meu apartamento, onde ele está hospedado.
O camarada tinha no cofre do apartamento de sua anfitriã, advogada tributarista que cuidava de parte considerável de sua empresa no Brasil, o total de 15 mil dólares, 7.500 euros e 10 mil reais. Ela era solteirona, e o acolhia sempre durante suas estadas à procura de mulatas e cocaína latino-americanas, produtos a preço de banana. Pagar ali era a melhor solução. Faltavam os ajustes.

(...)

Era um prédio bonito de São Conrado.
O gringo pediu que os policiais aguardassem na sala enquanto ele ia ver se estava tudo certo.
Rafael assaltava a enorme geladeira duplex inox, rica em alimentos caros e deliciosos. Arnaldo serviu-se de uma garrafa de scotch do bar e acomodou outra, ainda lacrada, no bornal, olhando ao redor em busca de algo mais valioso que pudesse afanar. Rafael, satisfeito com o dinheiro que iria extorquir, não pensava em roubar mais nada da casa, embora os eletroeletrônicos dispostos pela sala chamassem sua atenção.
- Eu resolver o problema. Ser todo o dinheiro que eu ter comigo, vou voltar pro casa sem nada. Dez mil reais, mais 2.500 dólares, poder ser?



Rubem L. de F. Auto     

quinta-feira, 16 de março de 2017

TREINAMENTO PARA MEFISTÓFELES – RECRUTAS DO DIABO – PARTE 17


Trechos do livro “Como nascem os monstros”:

"As coisas corriam bem na Companhia e no Batalhão. O sargenteante recebia a mensalidade sempre em dia, a supervisões não perturbavam muito e o comando havia mudado. O novo coronel trouxe uma penca de policiais a tiracolo,  muitos deles para comporem novos GAT, e os ventos estavam prestes a mudar para a vagabundagem da área. Sempre que ocorriam essas trocas, era comum o novo comandante botar pressão no tráfico, para valorizar o passe na hora de fechar o arrego. Os bandidos sentiram o clima de mudança e não se fizeram de rogados, caíram pra dentro.

(...)

Rafael estava entediado e nem chiou quando Vicente sugeriu uma parada na C6/6, que ficava próximo ao Maracanã.
Bateram na porta de vidro fumê da cabine e foram recebidos pelo sargento, que permanecia trancado lá até as sete da manhã.
A cabine estava muito gelada, resultado do ar-condicionado dado por um órgão da Petrobras que funcionava num prédio bem ao lado.
Assim que é aberta a porta de vidro, um carro vem piscando os faróis na direção de Rafael, de pé diante da cabine. Ele assume posição de tiro defensiva na direção do auto, que acende a luz interna e revela apenas um ocupante em seu interior, com as mãos espalmadas sobre o volante.
- Seu policial, tem um cara caído lá atrás, acho que ele foi atropelado, estava assaltando e...
Rafael faz Vicente parar seu expurgo (cagada) e colocar as calças correndo para verificar o fato. De acordo com o solicitante, o local onde o suposto bandido atropelado estaria ficava próximo à cabine, em uma rua escura e que realmente era ponto conhecido por ser perigoso.
Ao perceberem a escuridão da reta, os policiais foram tomados por um momento de dúvida: seria uma emboscada? Lá na frente, próximo a uma esquina, Vicente avistou uma coisa se mexendo junto ao meio-feio.
Os dois policiais desembarcam da viatura e progridem pé ante pé, confiantes no relato do cidadão de que se tratava de um bandido, o que pedia cautela na aproximação. Bermuda e tênis de marca, camisa de time de futebol estrangeiro, boné caído no meio do caminho. O jovem negro tinha todos os indicativos de um 157 que tinha se dado mal.
Revistaram o condenado, que se entregou e já não tentava mais alcançar a calçada, esperançoso de conseguir ali seu padrão e o providencial socorro. Não encontraram nada com ele, nem uma arma, identidade, celular, nada.
- Porra, qual é a desse cara, Vicente?
- Esse maluco é “tralha”, Peu, esse maluco é “tralha”...
- Mas ele tá sem nada em cima. Aí é foda... O PI foi embora, nem testemunha tem mais, vamos socorrer ele logo.
- Peraí, deixa eu só dar uma busca pela rua...
Vicente percorre o caminho inverso, iluminando cada centímetro do asfalto por onde poderia ter acontecido o choque, e eis que encontra a prova que faltava. A cerca de 15 metros de distância de onde o bandido estava, ele encontro a arma, uma Lamma cal. 45 com 12 munições intactas.
- Aí Rafael, é bingo, hein...
O cabo lhe mostra a arma de longe e Rafael demora alguns segundos para entender. Quando a ficha cai, rapidamente todo o seu ódio aflora pelos olhos, injetados de sangue e ira, e pela primeira vez o bandido caído o olha de volta.
Rafael passa o fuzil em bandoleira para as costas e saca a .40, coloca o cão para trás e aponta na cabeça do moribundo. Vicente se aproxima em silêncio e coloca a pistola .45 na cintura, consentindo com a cabeça e aguardando a execução. O bandido, quando percebe que sua sentença foi proferida, se desespera, implorando por piedade. Emite grunhidos guturais, sufocados pelos fluidos que inundam suas vias aéreas, vomita sangue, agita-se e começa a se debater forte, arrasta-se para se agarrar nas pernas de seu carrasco usando as últimas forças...
Rafael empurra com a sola do coturno o ombro direito do homem prostrado a seus pés, para que a face dele fique bem exposta. Mira bem no meio da cara do jovem bandido e olha no fundo de seus olhos... Lembra-se de Sampoio, de Neves, de Borracha... Hesita por uns instantes... Atira.
Por reflexo, ao receber o impacto da bala, o bandido se levantou, mesmo com as pernas quebradas, arqueou bambo e desabou de novo, com a barriga para cima.
Rafael também se assustou quando viu o seu alvo levantando, estava certo de que o tiro tinha pegado, mas decidiu que ainda precisava efetuar mais um disparo. Sua vontade era a de descarregar a pistola em cima do corpo estrebuchante, mas como iriam apresentar a ocorrência, não poderia se exceder.
Rafael fica olhando nos olhos perdidos do bandido enquanto ele tenta em vão chamar o ar de volta, vendo a vida lhe escapar a cada nova tentativa, a cada grunhido.
Ao verificar que o fato havia se consumado, o comandante da guarnição começa a tomar as providências necessárias.
- Fica tranqüilo aí, Rafael, relaxa agora. É a primeira vez?
- É...
- Certo, certo... Agora deixa comigo, valeu? Só fala com os outros quando eu mandar, ok?
- Tranquilo...
Vicente se abaixa, pega em uma das mãos do defunto e a estica lateralmente na direção de um imenso muro de um terreno baldio à direita da viatura disparando a .45 com os dedos ainda mornos da vitima. Existe uma técnica que identifica se a pressão usada para premir o gatilho no momento do disparo foi feita quando o sangue já não circulava mais pelos membros, o que desmascararia facilmente uma farsa mal-orquestrada; então, é preciso pressa para que o cadáver não esfrie.
- ME ajuda aqui, vamos colocar ele no banco de trás, vai sujar a porra toda, mas não tem problema não.
A dupla acomodou o corpo deitado de qualquer jeito no banco traseiro e partiu em arrancada rumo ao Hospital do Andaraí:
- Maré meia, maré meia, 2187 aí com prioridade, correto? Socorrendo elemento baleado após troca de tiros com a guarnição, Hospital do Andaraí, informe si se copiado?
- Correto aí, 2187! Onde foi esse confronto aí?
- Próximo a C6/6, correto? Elemento efetuando assalto reagiu a abordagem policial e acabou alvejado, positivo?
- Guarnição intacta, comandante?
- Positivo, guarnição intacta!
- Correto, arma apreendida?
- Positivo.
- Parabéns pela ocorrência aí, companheiro, informe na delegacia.

(...)

Os auxiliares de enfermagem, os seguranças, os faxineiros, os médicos de plantão, todos se alvoroçam quando tomam conhecimento de que os meganhas estão trazendo mais uma pessoa para ser “socorrida”, mais um coitadinho de um bandido.
É muito comum ver menininhas aspirantes a auxiliares de enfermagem que ainda nem aprenderam a limpar uma bunda cagada, procurando por sinais de execução: “Olha, ele estava provavelmente deitado quando foi atingido... O que é que aconteceu, ele estava roubando alguém?”. “Você é o quê? Investigadora? Promotora? Então faz a porra do seu trabalho logo e tira esse verme da minha patrulha que eu tenho mais o que fazer, não fode!”

(...)

Um médico mais cascudo (velho) examina os sinais vitais só para se certificar de que o homem está realmente morto. A falta de documentos impossibilita  identificação do suspeito e, sem ter a quem comunicar o óbito, o corpo fica ali na emergência, coberto por um lençol, aguardando a condução para o Instituto Médico Legal.
Outra viatura sobe a rampa de acesso ao pátio principal do hospital.
- Aí, show de bola,hein? Quem foi que “fez” ele?
- Pode falar, Rafael, eles são de confiança, aqui é papo de polícia!
- Fui eu.
- Boa, garoto! – disse o sargento Ricardo, vulgo Beiçola – Uma na cara e um no peito, bem profissional.
- “Fizeram” a mão dele?
- Fiz, fiz... – diz Vicente – tá tudo certo, agora é só fechar lá na DP. Sabe quem é que está de plantão?
- Sei sim, é uma delegada, uma tal de Cristiana Amourinho. Cuidado com aquela piranha lá, ela é a maior filha da puta! Esses dias aí ela enrolou uma ocorrência do “A”, deu a maior merda, um atropelamento que acabou rendendo a madrugada toda. Aquela mulher é burra pra caralho, só passou na prova pra delegada porque dava pra um chefe da Polícia Civil...
- É mesmo? Então tá, deixa que eu enrolo essa arrombada quando chegar lá. Se ligou, NE, Rafael? Vamo combinar logo a nossa história...

(...)

- Porra, cara que “peção”! Vale uma prata... Não apresenta essa porra não, Peu, o papa Charlie (Polícia Civil) vai botar é na cintura e ficar pra ele se der mole. Vamo botar esta belzinha pra “rolo”, vai vender rápido...
- O senhor já tem quem compre?
- A rapaziada da milícia paga isso aqui mole!
- Quanto, mais ou menos? – interessa-se Rafael.
- Uns três e meio, quatro... Vamos ver lá na hora. Do valor que pagarem, vocês deixam 1.500 pra gente e dividem o resto entre vocês. É jogo pra todo mundo!



Rubem L. de F. Auto