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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

TRUMP ESTÁ EM GUERRA CONTRA OS ESTADOS UNIDOS


Ao assistir a alguns discursos e declarações, invariavelmente polêmicas, dados por Donald Trump, percebe-se que ele elegeu alguns inimigos: Washington, sistema financeiro, globalização de mercados. Trump vê nesses atores as razões para o declínio econômico de seu país.

Pois bem. O mais interessante nesse contexto é perceber que esses inimigos foram criados por seu país, de maneira quase que solitária, e tendo em foco o engrandecimento da nação. A geopolítica manipulada por Washington ao longo de décadas deram origem aos “demônios” que agora assombram nosso vizinho do norte.

Com o fim da I Guerra Mundial, os EUA eram o maior credor do mundo (em termos relativos, só perdia para a Suíça), concentravam praticamente todas as reservas de ouro do mundo e tinham a maior base industrial do planeta Terra.

Teoricamente, poderiam repetir o que fizeram ao fim da I Guerra Mundial, isto é, dar as costas ao mundo, fechar suas fronteiras e “deixar esse tal de resto do mundo afundar em sua própria desgraça. Mas não foi isso que ocorreu. Por quê?

Porque algumas décadas antes da II GM, houve um evento de proporções igualmente trágicas: a Crise de 1929. Após uma década de crescimento acelerado, os EUA viram uma simples crise bancária se tornar um pântano de onde nada escapava. Engolia indústrias, empregos, bancos, serviços públicos, a infraestrutura do país... E o pior: piorava ano a ano.

Naquela época vigia o conhecido Padrão Ouro. Todas as moedas do mundo relevante seguiam taxas de conversão fixas. Isso impulsionou o comércio internacional, estabilizou economias e tinha como base a moeda mais forte do mundo então: a Libra esterlina.

Esse sistema era visto como algo próximo da perfeição, a ponto de ter sido suspendo apenas no período da I Guerra Mundial.

Após 4 anos de profunda recessão, aliás, depressão econômica que legou à extrema pobreza milhões de norte-americanos, o recém eleito Franklin Roosevelt fez o que seu antecessor não tivera a sensibilidade de fazer: retirar os EUA do Padrão-Ouro.

Pouco após, a economia parou de afundar, o governo passou a investir de maneira mais decidida em grandes obras, o emprego voltou e a profunda depressão parecia estar ficando para trás. Este conjunto de iniciativas ficou conhecido como New Deal. Franklin foi reeleito, mantinha uma popularidade invejável.
Mas a escalada em direção aos padrões de consumo pré-1929 parecia ser algo muito distante de ser alcançado. O país teria que escalar índices de crescimento econômico que pareciam ser uma distante miragem no deserto.

Contudo, no final daquela década, iniciou-se na Europa a II Guerra Mundial. O isolacionismo americano parecia-se decidido por manter o país distante daquele conflito. O que foi, por algum tempo, uma posição confortável. Haja vista o fato de estarem vendendo insumos e armas para seus aliados, especialmente a Grã-Bretanha.

Mas ocorreu um ataque, dentro de suas fronteiras: o Japão atacou Pearl Harbor. Tendo ou não conhecimento prévio e a possibilidade real de impedi-lo, o fato é que aquele evento exaltou sobremaneira o ânimo da nação, que se lançou firmemente em direção ao conflito.

O envolvimento norte-americano exigiu investimentos até então impensáveis. Após anos de gastos estratosféricos em economia de guerra, a economia americana deixou os anos de crise para trás. A idéia de que investimentos estatais em períodos de recessão são capazes de reverter o cenário negativo estava consolidada.  

Tiros e bombas anos depois, terminada a Guerra, o cenário era: Europa em frangalhos; EUA maiores credores do mundo e centro fabril mais importante do mundo; Japão na lona; URSS ameaçadoramente grande e próxima da Europa.

Ainda em 1944, autoridades americanas se adiantaram e iniciaram discussões que almejavam desenhar o mundo pós-conflito. As reuniões mais importantes ocorreram num hotel: Mount Washington, em Bretton Woods, New Hampshire.

Essa conferência, que reuniu representantes dos Aliados, definiu o cenário das finanças mundiais dali em diante. O objetivo não-vocalizado não era difícil de imaginar: Crise de 1929, nunca mais! Analistas econômicos, temerosos de que a redução de investimentos que se seguiria ao fim da guerra pudesse lançar os EUA e o mundo numa nova crise, basicamente decidiram-se por lançar o mundo num projeto keynesiano liderados pelos EUA. E assim fizeram.

Naquela conferência de 1944, foram definidas duas instituições que seriam as bases do mundo a partir de 1945: o BIRD, atual Banco Mundial, criado para empresar recursos visando à reconstrução da combalida Europa; e FMI, criado como um emprestador de emergência, uma espécie de bombeiro que não deixaria que “focos de incêndio” se convertessem em incêndios financeiros.

O público-alvo dessas instituições eram os Aliados: Europa, basicamente. E esse grupo incluía a URSS, que foi convidada a se juntar ao novo clube capitalista, mas as condições foram tratadas de tal forma que Stalin não poderia fazer nada além de rejeitar o convite. E assim o fez.

As autoridades americanas, todas envolvidas no New Deal de Roosevelt, planejavam criar uma economia globalizada. Isto é, o mundo deveria ser o mercado potencial de toda a produção industrial dos EUA. Para tanto, deveriam erguer um novo sistema financeiro internacional.
Nesse ponto, a Conferência em Bretton Woods se decidiu em duas propostas: uma era oriunda da mente genial do economista britânico John Maynard Keynes; a outra saiu da mente patriótica do representante americano, Mr. White.

O primeiro planejou um sistema equilibrado e saudável, sem que nenhum país fosse capaz de manipulá-lo: todas as moedas teriam taxas de conversão fixas entre si e em relação do dólar, moeda da economia mais forte do mundo, portanto única capaz de trazer estabilidade ao sistema; uma taxa fixa de conversão do dólar em relação a uma moeda virtual, administrada por uma autoridade monetária independente. Mr. White, por sua vez, desejava ver a posição defendida por seu país prevalecer: a nova potência mundial eram os EUA, portanto a moeda internacional é o dólar e ponto final.

O planejamento vencedor, o dos EUA, definiu taxas fixas das moedas de todo o mundo entre si e em relação ao dólar. Este, tinha uma taxa fixa de conversão em relação ao ativo de reserva por excelência, isto é, o ouro: 35 dólares por onça. Como as reservas de ouro do mundo todo já atulhavam os cofres de Fort Knox, parecia um sistema relativamente confiável.

A preocupação subjacente passava pelo que em economia é chamado de mecanismo de reciclagem de superávits. A idéia é a seguinte: imagine que o estado de São Paulo venda muitos produtos, por meio de suas fábricas, a diversos estados do Brasil; imagine que o Rio de Janeiro compre muitas dessas mercadorias; ao final de um período, São Paulo acumulou superávits comerciais em detrimento do Rio de Janeiro. Um poder nacional, a União, cria mecanismos para que o estado do Rio de Janeiro receba investimentos, repasses orçamentários ou participação sobre tributos recolhidos, de forma a equilibrar as economias subnacionais.

Esse equilíbrio pode ser buscado nas relações internacionais. Para tanto, é necessário um mecanismo de reciclagem de superávits. E os EUA fizeram precisamente isso. Mas, para tanto, era preciso “engolir dois sapos”: Alemanha e Japão.

Ao fim do conflito mundial, a Alemanha era o patinho feio da Europa, profundamente odiada por ingleses e franceses, especialmente. Charles de Gaulle se esforçava bastante para que todas as punições prometidas fossem aplicadas sobre a Alemanha, o que pode ser resumido assim: destruição completa e absoluta de todo o parque fabril alemão, até que o país voltasse a ser agropastoril!

Quanto ao Japão, país ocupado pelos EUA, o general McArthur era o novo soberano, escreveu a nova Constituição do país e seguia ordens expressas de afundar o país num lodaçal, para nunca mais de lá ressurgir. O foco asiático encontrava-se sobre a China, que os EUA planejavam transformar numa colônia asiática, de modo a usarem como plataforma de exportação, uma espécie de México asiático.

Mas esses “belos” planos se mostrariam imediatamente impraticáveis.

O novo sistema monetário planetário sendo desenhado exigia duas outras moedas fortes, que fossem um tipo de reserva, caso o dólar afundasse em razão de alguma crise nos EUA. Após refletirem sobre quais poderiam ser as alternativas, a resposta foi constrangedora: Alemanha e Japão.

Embora a Alemanha estivesse em frangalhos, antes da I Guerra Mundial era a economia mais forte da Europa. Ainda dispunha de mão de obra excelente, infraestrutura invejável, posição central dentro da Europa etc. O Marco alemão surgiu como uma excelente alternativa. Só havia um obstáculo: acalmar de Gaulle.

Quanto ao Japão, suas indústrias estavam praticamente intacta após Guerra. E surgiu um novo inimigo no meio do caminho: Mao Tsé Tung. Em 1949, Mao expulsou o aliado americano para Taiwan e fechou o país. Tornou-se claro que surgiu uma nova URSS, agora na Ásia. Os EUA não teriam ingerência, não manipulariam e as fronteiras estavam fechadas para qualquer aventura yankee.

A melhor solução seria usar um aliado local para enfrentar a China. A resposta recaía sobre o Japão, mas seria necessário parar o desmente de suas fábricas. McArthur entendeu rapidamente o novo contexto e conseguiu explicar a seus colegas no Capitólio. Agora, o Japão era amigo e deveria ter sua economia incentivada, não mais desmontada.  

A China atacou na Coréia, procurando unificar o país, cujo sul estava ocupado por tropas americanas. A Guerra da Coréia forneceu o mercado para produtos japoneses, que deu um novo impulso à economia do país. Ao lado da Guerra do Vietnã, esse conflito forneceu a base econômica para o crescimento das economias do sudeste asiático.

Pois bem. O novo mecanismo de reciclagem de superávits do mundo funcionaria assim: o grande concentrador de superávits, os EUA, usariam seus saldos comerciais para reinvestir onde havia déficit, porém considerando suas posições estratégicas relevantes (Alemanha e Japão), investindo pesadamente nessas economias além de abri-lhes o mercado para importações.

Essa foi a base sobre a qual se ergueram dois milagres econômicos bem famosos.

Contudo, todo o planejamento acima somente teria sentido se a posição dos EUA como concentrador de superávits fosse mantida. Isso não ocorreu.

Após algumas décadas sustentando esse concerto monetário, período esse conhecido como Anos Dourados nas economias desenvolvidas, a Europa esta refeita, produzindo e exportando bastante para os EUA; o Japão, idem; as taxas de juros praticadas nos países centrais, muito baixas, levaram à fuga de capitais em direção ao Terceiro Mundo, aumentando seus produtos industriais.

Resultado: já no início da década de 1970 os EUA passaram a uma economia deficitária. O jogo mudou, e os jogadores deveriam se adaptar. E o fizeram.

O cenário no início daquela década, nos EUA, denunciava: inflação elevada; estagnação econômica; posteriormente, dois choques no preço do petróleo. O caos parecia ter invadido o país de maneira decisiva.

Para combater esses obstáculos, algumas medidas foram tomadas: extinção dos programas governamentais implantados pelos democratas, como Nova Fronteira e Grande Sociedade, que visavam a trazer mais igualdade dentro dos EUA; aumento das taxas de juros, que foram de 5% a.a. para mais de 21%; acordo com os países produtores de petróleo para que aumentassem livremente seus preços, desde que se mantivessem vendendo seu ouro negro em dólares, apenas. Regra que vale para todas as commodities.

O fim dos programas sociais, ao lado do aumento do desemprego provocado por uma recessão causada pelo aumento dos juros, jogou na lona o salário daquela que era a sociedade mais bem remunerada do mundo (os salários de 1973 ainda são os mais elevados da história do EUA, escalada essa que tinha se iniciado em 1850); as taxas de juros elevadas atraíram capitais do mundo inteiro; o aumento do preço do petróleo foi mais decisivo na Europa e no Japão, países concorrentes dos EUA, afinal os EUA importavam 32% do petróleo que consumiam, enquanto o Japão importava cada gota que consumia.

O Choque do Petróleo também aumentou a rentabilidade das petroleiras americanas.

Essas medidas melhoraram sobremaneira a perspectiva da economia dos EUA na década de 1980, quando Reagan pôde usar todos esses recursos para sufocar a URSS, com seu insano Star Wars.

O sistema monetário mundial agora via os EUA não mais como emprestadores de recursos, que acumulavam com exportações, mas como mercado consumidor importante, e como mercado onde pudessem inflar sua rentabilidade, pois contavam com custos muito competitivos. Sem falar em Wall Street, sempre com uma boa oportunidade de aplicar seus recursos (petrodólares, dinheiro de tráfico, propinas, vendas de armas etc.).

O aumento exponencial das taxas de juros também ajudou no novo posicionamento yankee, pois quebrou nações do Terceiro Mundo, na América Latina, na África, no Leste Europeu e na Ásia. Muitas dessas nações não se recuperaram ainda hoje da bomba nuclear monetária que os EUA explodiram sobre suas cabeças.

O cenário agora trazia uma nação-mamute que aspirava recursos de todo o planeta, de modo a financiar seus déficits.

Déficits esses agora conhecidos como “défits gêmeos”: Balança Comercial e Orçamento Público negativos, em trilhões de dólares. No seu auge, o planeta Terra direcionava de 5 a 8 bilhões de dólares por dia útil para os EUA, de modo a fechar as contas dos irmãos do norte.

Com a entrada da China no tabuleiro internacional, desde os anos 2000, passaram a contar com ainda mais recursos voando para seus cofres, em troca de títulos que rendem menos que a inflação local (ICU).
Afinal, após o fluxo intenso inicial de recursos, e com a queda acentuada da inflação, ainda n anos 1980 os EUA puderam reduzir significativamente sua taxa de juros, sem reduzir o fluxo de capitais para o país.

Esses recursos financiaram saltos tecnológicos que aumentaram ainda mais a lucratividade das firmas americanas – e a produtividade invejável que exibem até hoje.

Nasceram, assim, diversas bolhas que marcaram saltos na economia mundial. Por exemplo, a bolha das “ponto-com” levaram à aquisição de companhias americanas por empresas de todo o mundo, trazendo assim ainda mais capitais para o país.

A concorrência dentro dos EUA, contando com produtos de todo o mundo, ao lado de mercados internacionais abertos e taxas de juros baixas, levaram à derrocada das empresas do meio oeste, isto é, o cinturão da ferrugem, a região que historicamente concentrava empresas industriais de base, em função de sua localização central, ótima para o planejamento logístico.

A crise do petróleo levou a uma reação inesperada da Alemanha e do Japão, especialmente. Se até meados dos anos 1970 eles exportavam máquinas e veículos “beberrões”, após tal crise investiram muito em motores que poupavam gasolina. Esses veículos detonaram a indústria automobilística americana, ainda ligada aos “muscle cars”.

Se a Costa Leste se beneficiava com a explosão de Wall Street nos anos 1980; se a Costa Oeste se beneficiava com as empresas de tecnologia, impulsionadas ainda mais nos anos 1990; o meio oeste só afundava. Surgiram cidades fantasma e os empregos até então tradicionais foram limados do país.  

Restou o complexo industrial militar, praticamente independente do restante da economia do país, e sem dúvidas responsável por trazer mais divisas para o país... além de petróleo e outras matérias primas a preços bem reduzidos.

Esses fatos, sem dúvidas, levaram ao estado de ânimo propício para quem se põe “contra tudo isso”. O desafio, porém, é desenhar um cenário internacional, econômico e geopolítico, que permita substituir o financiamento aos déficits gêmeos por algo prático e que mantenha o americano médio com dinheiro para comer.

Como reativar uma base industrial relevante e eliminar os déficits gêmeos, sem perder espaço geopolítico?

Como aumentar a taxa de juros básica, sem tirar dinâmica da economia?

Como conseguirá manter salários relativamente reduzidos, sem apelar para mão de obra de imigrantes?

Como fazer algo inteligente sem Paul Volcker e Henry Kissinger, e contando apenas com parentes “imigrantes”, que parecem desconhecer a Constituição e a história do país a que servem?

Como pagar os juros devidos a países do mundo inteiro, credores de trilhões de dólares?

Have a good luck, Mr. Trump!


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “O Minotauro Global”

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

BLACK LIVES MATTER! O PRIMEIRO DESFILE DE ESCOLAS DE SAMBA


Quando a Crise de 1929, iniciada nos EUA e que depois atingiu o resto do mundo de maneira decisiva, atingiu seu ápice, a economia brasileira sofreu.

Os EUA eram os maiores compradores de café brasileiro, portanto ficamos sem comprador para nosso maior produto de exportação.

O governo brasileiro tentou uma série de manobras especulativas para manter os preços internacionais estáveis, como comprar o excesso da produção dos cafeicultores e posteriormente queimá-la.
Diante da degringolada no campo, os grandes fazendeiros investiram seus recursos na nascente indústria brasileira.

Em decorrência da crise do campo, trabalhadores debandaram para as cidades, onde as indústrias ofereciam oportunidades de trabalho. Contudo, o local onde os trabalhadores conseguiam abrigo era nas favelas, nos morros cariocas. O Morro da Mineira, por exemplo, derivou seu nome da enorme quantidade de mineiros que saíam dos cafezais da Mantiqueira, agora empobrecidos.

Em 28 de abril de 1928, sete homens se reuniram na casa de Euclides da Joana Velha. Lá, fundaram a primeira escola de samba no Rio de Janeiro, no morro de São Carlos, no bairro do Estácio.

Menos de 1 ano depois, um desses pioneiros, Zé Espiguela, organizou o primeiro concurso de escolas de samba, em 20 de janeiro de 1929, em sua própria casa, na rua Engenho de Dentro. Os critérios utilizados foram para julgamento eram letra e música de samba.

Foram concorrentes: Mangueira, Portela, Unidos de São Carlos. O júri era monocrático: sé o Zé Espinguela atribuía notas. E a vencedora foi a Portela, com o enredo “Não adianta chorar”, de Heitor dos Prazeres.
No ano seguinte, em 1930, o desfile ganhou as ruas e obteve autorização da Prefeitura cinco anos depois.

O primeiro desfile ocorreu em 1932, na Praça Onze, promovido pelo jornal Mundo Esportivo. A Escola vencedora foi a Estação Primeira de Mangueira. O primeiro desfile com arquibancadas ocorreu em 1962, na Avenida Rio Branco, no centro do Rio. Tornou desnecessários os caixotes, que eram alugados nas calçadas.

No ano seguinte, mudou-se para a Avenida Presidente Vargas.  


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “ESTÁCIO DNA-DO-SAMBA: prostituição, poesias, prosas, tiro, porrada e bomba”

BLACK LIVES MATTER! O BERÇO DA CULTURA NEGRA NO RIO DE JANEIRO


O local de fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi o Morro Cara de Cão, no atual bairro da Urca. Esse fato se deu em 1º de março de 1565, por Estácio de Sá.

A fundação da Cidade Maravilhosa se deu no contexto de guerras contra as invasões francesas. Por 10 anos, estes ocuparam a região, na tentativa de fundar uma colônia americana, a França Antártica.
Estácio de Sá morreu em 20 de fevereiro de 1567, apenas um mês após a expulsão definitiva dos inimigos europeus. Durante o conflito, Estácio foi ferido no rosto por uma flecha envenenada.

Após a morte de Estácio, o terceiro governador-geral do Brasil e tio do de cujus, transferiu a cidade da região do Morro Cara de Cão para a região do Morro do Castelo, atual bairro do Castelo, região central da cidade. Julgava-se assim estar mais bem protegida.

Em seguida, assumiu o cargo o primeiro governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá, também sobrinho de Mem de Sá.

Foi em homenagem a Salvador Correia de Sá que se batizou o bairro da Ilha do Governador, à época seu engenho de açúcar daquele governador.

Embora seja uma instituição milenar presente em todas as sociedade humanas – lembremos da história dos hebreus na Bíblica -, a escravidão sempre causou uma certa repulsa em alguns, e mesmo indignação em outros.

Grécia e Roma praticavam a escravidão de maneira desabrida, mas a posição social ocupada pelos escravos era bem específica, de maneira a permitir a aquisição da liberdade.

Os primeiros seres humanos escravizados no Brasil foram os índios, ainda nos anos iniciais de nossa história pós-Cabral.

Já em 1611 se iniciaram os primeiros movimentos abolicionistas de proteção aos indígenas. Como já estavam nas novas terras, os índios foram logo recrutados como mão de obra. Mas grande parte do trabalho que eles executavam, como transporte de toras de Pau-Brasil, funcionasse num sistema de escambo.

Logo os jesuítas saíram em defesa dos indígenas, publicamente reconhecendo pureza e inocência neles; na privacidade de suas propriedades, praticavam a escravidão indígena em larga escala.

A abolição definitiva da escravidão de povos indígenas foi realizada pelo Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José I.

O local onde a escravidão indígena permaneceu por mais tempo foi a Capitania de São Vicente, em São Paulo. Dada a extrema pobreza dos seus moradores, não era possível adquirir escravos africanos. A saída encontrada era escravizar índios. Os bandeirantes paulistas eram os grandes aprisionadores de índios, os quais vendiam como escravos.

Com a proibição de escravizar os índios, a alternativa de que se lançou mão foi o uso de escravos africanos, iniciada já na primeira metade do século XVI, nas fazendas de açúcar.

Os escravos mais valorizados eram aqueles de Angola e Moçambique, chamados de Bantos, normalmente usados na lavoura. Os negros vindos do porto de Mina, atual Elmina, em Gana, eram direcionados para as lavras mineiras. Eles já tinham experiência adquirida nas minas de ouro africanas.

Além de se abrigarem em galpões escuros e insalubres – as senzalas -, os escravos eram frequentemente acorrentados, para evitar fugas. No caso de tentativas de empreendê-las, o castigo mais usado era o açoite – a pena mais comum no Brasil colonial.

O açoite seria abolido no Brasil em 1885. Essa medida estimulou a fuga de escravos, precipitando o fim da odiosa instituição.

A abolição da escravidão de negros foi precedida por movimentos emancipacionistas como Conjuração Baiana, em 1798. Culminou com a Lei Áurea, de 1888.

O ano de 1888 marcou outros eventos: foi o ano da fundação da cervejaria Brahma, primeira companhia a contratar trabalhadores negros, recém-libertos. Também foi o ano de criação da Guarda Negra, apenas 3 meses após a Lei Áurea.

Quanto à moralidade da prática escravagista, José Bonifácio declarou em 1832, na Assembléia Constituinte então em vigor: “a escravidão é um cancro mortal que ameaça os fundamentos da nação.” Em 1831, no período regencial, foi aprovada uma lei anti-tráfico de escravos, mas não foi aplicada.

Mesmo após a abolição, os negros eram proibidos de praticar ritos de religiões e de festas africanas: todos seriam batizados e deveriam ser católicos. Nesse ponto, a adoção da religião católica por diferentes etnias se diferenciou: enquanto os negros Bantos adotaram o catolicismo mais facilmente, os negros Minas mantiveram quase intacta sua religiosidade original.

Essa questão foi debatida por José de Alencar, escritor e deputado geral na Câmara dos Deputados, em 1871:

“A grande virtude e a excelência do cristianismo estão justamente em que ele se amolda a todas as condições sociais. Consolam todas as misérias, todas as dores deste mundo. Se for um esplendor para os reis, é um refúgio para os cativos. A todos grandes e pequenos ilustres e obscuros, ricos e pobres, a todos a religião aponta uma esperança inefável: a esperança de uma vida melhor.”

Apesar dessas restrições, seres humanos costumam resistir. Às escondidas, escravos mantinham suas tradições vivas, praticando rituais, festas e artes. Criaram, por exemplo, a capoeira.

As negras, em geral, ocupavam tarefas domésticas: cozinheiras, arrumadeiras e amas de leite eram as mais comuns. Das relações sexuais não consentidas entre senhor e escravas, surgiu a enorme população de mulatas no Brasil.  

Quanto à alforria foi um pouco mais observada no Brasil na região das Minas, no século XVIII. Ocorreram casos de alforria por testamento, mas o mais comum era juntar algumas moedas por anos a fio.

A escravatura, de pessoas em geral, foi abolida por Portugal, de maneira pioneira, em 12 de fevereiro de 1761, por Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José I. No entanto a medida valeu para Portugal e suas colônias asiáticas. No Brasil, a elite escravocrata pôde manter o estado de coisas como mais lhes aprazia.   

Durante os anos de prática da escravidão, houve reação por parte dos escravos. As revoltas em fazendas terminavam com fugas para as florestas, quando se formaram os quilombos. Lá, praticavam desinibidamente sua cultura, língua nativa e religião. Em muitos também há registros de trabalho escravo no contexto dos quilombos.

Dois quilombos que se destacaram em importância foram: Quilombo dos Palmares, liderado por Zumbi; e Quilombo do Ambrósio, nas Minas Gerais. Este, tornou-se famoso pelos ataques desferidos contra tropeiros que iam às regiões de mineração de diamantes, em Goiás.

A história da escravidão de povos negros é, sem dúvidas, um episódio bastante triste, tanto para as vítimas quanto para quem insiste em cultivar a humanidade e a civilidade. Mas também é um período mal compreendido, cheio de nuances e idiossincrasias de raiz local, brasileira.

Um caso muito interessante foi a história da cantora lírica Joaquina Lapinha da Conceição. Negra, brasileira, desenvolveu uma vibrante carreira internacional ainda em meados do século XVIII e colheu elogios das plateias mais exigentes da Europa. Foi uma das primeiras mulheres a autorizadas a se apresentar publicamente em Lisboa.

Nascida em Minas Gerais, começou a atuar no Rio de Janeiro por volta de 1780. De 1791 a 1805, apresentou-se em diversas cidades portuguesas. O contexto abertamente racista da época a obrigava a usar cosméticos brancos sobre a pele, de maneira a disfarçar sua negritude.

Retornou ao Brasil e retomou sua carreira na cidade.

Dentre os monumentais poemas de brasileiros, alguns dedicaram suas linhas à questão da escravidão e suas práticas indigestas. O nome que mais se destacou nesse contexto foi o de Antônio Frederico de Castro Alves, o Castro Alves. Nascido em Curralinho, na Bahia, em 1847.

Viveu entre 1847 e 1871. Apesar de descender de uma família de posses, vestir-se elegantemente e cultivar gostos refinados, Castro foi capaz de entender as angústias e os sofrimentos que afligiam as infelizes vitimas da escravidão. Os poemas em que expunha seus sinceros sentimentos lhe renderam a alcunha de “Poeta dos Escravos”. Compôs o mais célebre deles aos 21 anos: “Navio Negreiro”.

Morreu de tuberculose, doença que contraiu aos 16 anos, antes que pudesse terminar seu curso de direito.
Mas nenhum anti-escravagista brasileiro poderia ser comparado a Joaquim Nabuco. Seu currículo era extenso: político, diplomata, historiador, jurista e jornalista. Formou-se em direito na Faculdade do Recife. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Mais que isso, era descendente de uma família de escravocratas, paradoxo esse que deixou transparecer ao longo de suas obras.

Em março de 1845 terminou o prazo acertado entre Brasil e Grã-Bretanha para extinguir o tráfico de escravos em direção ao Brasil. Conhecido como Bill Aberdeen, a ato de autoria de Lord Aberdeen permitia ao Almirantado britânico aprisionar navios negreiros, estivessem onde fosse. Poderiam também julgar a tripulação do navio por crimes.

Embora criticado até em terras inglesas, pelo excesso de poder conferido aos britânicos, essa lei terminou por aumentar consideravelmente o tráfico de escravos às vésperas de entrar em vigor – com o aumento conseqüente do preço.    

O fato é que apenas o uso de mão de obra escrava conferia competitividade às exportações brasileiras. Logo a política se dividiu: os conservadores, chamados de saquaremas, culpavam os liberais, ou luzias, pela submissão ao poder de polícia britânico. Mas o poder britânico tomava corpo na Corte do D. Pedro II, que dependia da ajuda britânica para superar os conflitos na região do Rio da Prata.

O passo mais importante foi dado por Eusébio de Queiroz, que fez passar a Lei nº 581 de 1850, que passou a circular com seu nome, que punia os importadores de escravos.

A reação conservadora veio com o incremento do tráfico interno de escravos, saídos das regiões do nordeste, em crise econômica, em direção às fazendas de café do sudeste. O descontentamento dos fazendeiros nordestinos fez engrossarem as fileiras abolicionistas.

Ainda assim, os traficantes de escravos tentaram encobrir as mercadorias proibidas. A reação veio por meio da Lei Nabuco de Araújo (pai de Joaquim Nabuco), que coibia essas táticas. Os últimos  escravos africanos desembarcaram no Brasil em 1856.

Entre 1850 e 1870, aumentou significativamente a imigração de europeus para o Brasil. Vinham laborar em cafezais, contudo encontraram condições análogas à da escravidão de negros africanos. Após os primeiros problemas diplomáticos, com o retorno dos imigrantes ludibriados, o governo interveio e regularizou uma proteção ao imigrante.

A substituição foi bastante rápida: cidades que tinham 80% dos trabalhadores rurais negros, em 1871, já em 1899 contavam com 93% de trabalhadores brancos.

Por tudo isso, além da malária e das mortes e alforriamento de escravos, em 1888 o número de escravos era bastante reduzido.

Ainda em 1880, políticos como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio criaram a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, em 1880. Depois desta, embrionária, várias outras foram criadas. Contaram com o apoio de artistas, intelectuais, jornalistas, para arrecadar fundos e alforriar o maior número de escravos possível.

Na Faculdade do Recife, alunos como Plínio Lima, Castro Alves, Rui Barbosa entre outros fundaram a Associação Abolicionista.

São Paulo contava com uma Sociedade Emancipadora e com um advogado que equivalia a uma Sociedade inteira: Luís Gama, responsável por emancipar mais de 1.000 escravos.

Quando o movimento abolicionista ganhou corpo e dinâmica própria, os Estados do Ceará e Amazonas se adiantaram e aboliram a escravidão de seus territórios, em 1884.

Tais movimentos pregavam a abolição sem indenização, haja vista a ausência de pagamentos do Estado aos fazendeiros ser um dos grandes entreves do movimento.

Após a proibição do tráfico negreiro, em 1850, o passo seguinte ocorreu apenas em 1871, com a Lei do Ventre Livre, ou Lei Rio Branco, editada pelo Gabinete Visconde do Rio Branco. Naquele momento, a imagem externa do país era uma grande preocupação.

Os filhos de escravos, conhecidos como ingênuos, nasciam livres e poderiam optar por uma dentre as duas: ficar com os senhores até os 21 anos, ou ser entregues ao governo. Na prática, foi um fracasso, pois os ingênuos eram mantidos cativos, como escravos. Somente eram entregues os ingênuos deficientes físicos, cegos etc.

Em face do descaso com que eram tratados, a mortalidade infantil cresceu significativamente, com a morte de ingênuos, desprezados pelos senhores. Esse descaso poderia ter sido evitado, caso o governo tivesse cumprido seu compromisso de aportar fundos visando à educação e preparo dos ingênuos para a vida de trabalhador livre.

Desde 1887, os abolicionistas transferiram seu luta para o local dos fatos: o campo. Ajudavam nas fugas em massa de escravos. Isso forçava a contratação dos escravos fugidos como trabalhadores assalariados. Cidades inteiras libertaram seus escravos. Negros fugidos e mulatos abraçaram também a causa, após serem libertados.

Diante do pioneirismo de Ceará e Amazona, o governo central deu mais um passo com a Lei dos Sexagenários, ou Lei Saraiva-Cotegipe. A proposta foi do então deputado baiano Rui Barbosa, libertava automaticamente a todos com mais de 60 anos. A compensação financeira aos fazendeiros era obrigatória, mas nunca foi cumprida. O mecanismo era um pouco mais complexo e cruel: completados 60 anos, os escravos deveriam prestar séricos por mais 3 anos aos seus senhores; após os 65 anos seriam libertos.

Desnecessário dizer que raríssimos escravos sobreviviam para usufruir dessa benesse...

De fato, o inadimplemento do governo em face das compensações financeiras devidas aos fazendeiros levou a que diversos questionassem judicialmente quanto à validade das emancipações concedidas até aquele momento.

Isso deu azo à campanha “Abolição sem indenização”.

A região onde a emancipação de escravos se desenvolveu de maneira mais célere foram as terras do Oeste paulista: ricas e prósperas, surfando na onda cafeeira, já atraiam imigrantes por adotarem mais rapidamente os contratos de trabalho.

Nos seus últimos anos, a escravidão passou a ser atacada também pelo Exército, que pediu publicamente para não mais ser acionado pelo governo para caçar escravos fugidos.
Somando-se a isso, do exterior diversos países se manifestavam contra a demora do Brasil em pôr fim àquele sistema deplorável.    

Por fim, em 13 de maio de 1888, rendendo-se às pressões que vinham de todos os lados, a princesa Isabel de Bragança assinou a Lei Áurea. E sem qualquer indenização aos senhores então expropriados.
Sentindo-se injustiçados, tais senhores se filiaram aos republicanos, contra a monarquia. Esse movimento levou o último pilar que sustentava o velho regime.

Faltava apenas a chamada Questão Militar, que girava em torno da possibilidade ou não da doutrina do soldado-cidadão, que procurava defender uma maior participação das Forças Armadas nas grandes questões nacionais. Culminou com o golpe republicano de 15 de novembro de 1889. Caiu a monarquia.
Em 1891 foi promulgada uma nova Constituição, nos moldes norte-americanos: laicismo, ampliação do direito ao voto.

Mas a crise econômica daqueles anos levaria a outra crise política. O novo ministro da Fazenda, Rui Barbosa, havia autorizado aumento das emissões monetárias em 75%. O Brasil virou um lamaçal de especuladores e de empresas-fantasma. O Mal. Deodoro da Fonseca, indignado com a situação, mandou fechar o Congresso. Em resposta, a Marinha se sublevou contra o Exército e exigiu a renúncia de Deodoro, que ocorreu em 23 de novembro de 1891. Foi substituído pelo seu vice, Mal. Floriano Peixoto.

Muitas outras disputas pontuaram esse período. No Sul, uma revolução federalista opôs-s ao governo de Júlio de Castilhos e o maragato Gumercindo Saraiva: resultou numa guerra civil. Terminou com a morte de Gumercindo e com a derrota de uma Armada enviada à região. Após mais de 12 mil mortos, Prudente de Morais assinou a capitulação dos revoltosos em Pelotas, em 1895.

Houve também o segundo levante da Armada (Marinha), comandado pelo Almirante Custódio de Melo e pelo Almirante Saldanha da Gama. Chegam a bombardear o Rio de Janeiro. Foram derrotados pelo Marechal Floriano Peixoto.

Já o cenário sob a perspectiva dos escravos recém-libertos era desanimadora: não tinham formação escolar ou profissão que pudessem adotar. Mantiveram-se, assim, às margens da cidadania e alijados de possibilidades de ascensão social.

Conforme previra Antônio Prado: “... ex-escravos, habituados à tutela e curatela de seus ex-senhores, debandaram em grande parte das fazendas, indo “tentar a vida” nas cidades; tentativa essa que consistia em: aguardentes aos litros, miséria, crimes, enfermidades e morte prematura...”

Outro símbolo cultural muito presente entre os escravos, no Brasil, foi a maconha. No século XVI, fumava-se o “bangüê”. Subproduto do cânhamo (espécie de cannabis), chamou a atenção da Corte portuguesa quando passou a servir de matéria prima para produzir tecidos para velas de navios – mercado bastante lucrativo, na época.

O resultado foi o fornecimento de sementes, de maneira a disseminar a cultura pelo território brasileiro. O incentivo era tal, que o vice-rei Luiz de Vasconcellos e Souza, em 1785, enviou a São Paulo 16 sacas de sementes e um manual de cultivo de Cannabis. Pedia encarecidamente que se plantasse maconha, o máximo possível. No século seguinte, tornou-se base de diversos remédios. Um exemplo eram os “Cigarros Índios”.
Mas a perseguição a simbologias que cepa negra era inevitável. No ano seguinte à Lei Áurea, proibiu-se a capoeira. Em 1890, o governo fez passar a Seção de Entorpecentes Tóxicos e Mistificação, que tinha como alvo o “baixo espiritismo”. Como a maconha era muito usada no candomblé, dava-se início à repressão oficial.

A primeira lei penal relacionada à maconha data de 1830, quando a lei passou a punir com pena de prisão quem comercializasse o “pito de pango”: um cachimbo de barro usado para fumar maconha.

Quando teorias médicas de cunho racista se propagaram, a maconha passou a ser descrita como incentivador de práticas de crimes. Em 1917, tais “teóricos” passaram a atacar o uso médico da Cannabis, ao obrigar a apresentação de receita médica para comprar remédios à base de Cannabis, desde 1917.
Em 1932, por fim, a substância foi proscrita.

Com Getúlio Vargas, passou-se às leis de cadeia para usuários. Quanto ao candomblé, o governo trocou a vedação do uso em cerimônia, em troca da legalização dos terreiros.

Após abordar a ida dos ex-escravos para as cidades e as dificuldades sociais que esses passaram a viver, aborda-se o lócus onde foram morar os infelizes “novos cidadãos livres”: as favelas.

Logo após a proclamação da República, surgiu um conflito que, inesperadamente, adquiriu envergadura de Crise nacional: a Guerra de Canudos. Povoado habitado por milhares de pessoas pobres, miseráveis, localizado nos rincões mais profundos da Bahia, tinha nos seus arredores um morro chamado Favela (nome de uma planta local).

Após diversas incursões, as últimas enviadas pelo governo federal, em 1897 o povoado se rendeu. Alguns soldados para lá enviados voltaram à casa, em grande parte no Rio de Janeiro. Mais uma vez incapaz de cumprir o que prometera, vários desses soldados tiveram seus soldos interrompidos. Sem dinheiro, essas pessoas se instalaram no Morro da Providência, região central da cidade. Com o tempo, passou-se a se referir àquela localidade como Morro da Favela.

Desde os anos 1920, esse nome refere a qualquer localidade semelhante.

Em 1927, o nome Estácio de Sá ressurge, agora associado ao samba (estilo musical que unia ritmos africanos a instrumentos da música européia). No alto do Morro de São Carlos, no bairro Estácio de Sá, surgiu a primeira Escola de Samba do Brasil, a “Deixa Falar”, fundada por Ismael Silva e por outros bambas pioneiros.

Essa história havia se iniciado com uma doméstica, chamada Maria Taioba. Seu patrão, o português Antônio Santos Rodrigues, era o dono de toda a área onde se localizava o morro de São Carlos-Estácio. Lá, ela construiu seu barracão.      

A partir dessa localidade, o Carnaval mudou significativamente.

Festa milenar que trabalhava rituais de fertilidade em sociedades pagãs, o carnaval era uma comemoração a deuses egípcios, teutônicos, gregos e romanos, até que fosse adotado pela Igreja Católica no século VI, visando a domesticá-lo na fé cristã, através da adoção da Quaresma, precedida por uma grande festa que tentava compensar os 40 dias de jejuns até a Páscoa, levando a sua proliferação mundo afora, até seu desembarque no Brasil, no século XVII.   

Em Roma, comemoravam-se as Saturnais de 16 a 18 de dezembro, em homenagem ao deus Saturno. Tribunais e escolas não funcionavam, alforriavam-se escravos. As festas incluíam danças e desfiles pelas ruas. A abertura ocorria por meio de um cortejo de carros em forma de navios, com homens e mulheres nus, dançando sobre os mesmos. Eram chamados “carrum navalis”... talvez origem do termo Carnaval.
Em fevereiro, ocorriam as Lupercais, festas em homenagem à fertilidade. Os Lupercos, seguidores de Pã, saíam pelados pelas ruas, banhados de sangue de cabra, correndo atrás de transeuntes, batendo neles com correias.

Em março, ocorriam os Bacanais, homenagem ao deus Baco, em celebração á primavera, homenageavam deuses como Como, Momo, dentre outros.

A Igreja tentou descaracterizar o quanto pôde essa festa, para torná-la um sacrilégio menor. Mas é impossível não lembrar do nosso carnaval.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “ESTÁCIO DNA-DO-SAMBA: prostituição, poesias, prosas, tiro, porrada e bomba”

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

DO BICHO À MÁFIA: COMO TORTURADORES E BICHEIROS MOLDARAM O CRIME ORGANIZADO NO RIO DE JANEIRO – PARTE 15


Diferente de Cazuza, que não via sentido em viver sem ideologia, os bicheiros não tinham qualquer preocupação com relação a esse assunto: repudiavam ideologias. Segundo Castor: “A contravenção tem um princípio. Ela é governo e não tem culpa que o governo mude a toda hora.” Seja democracia, seja ditadura, seja conservador, seja progressista o que importa aos contraventores é ser amigo, aliado, achar um modus vivendi comum, cômodo para todas as partes.

Mas a ambição não se restringia ao domínio da contravenção. A criação da Liesa equivaleu a uma conquista armada. Privatizaram a celebração popular e a repartiram entre comparsas: o primeiro presidente foi Castor; o segundo foi Anísio; por fim, Capitão Guimarães fechou a trilogia.

A Liesa surgiu quando as 10 maiores Escolas de Samba, lideradas pelos “irmãos metralha”, anunciaram seu desligamento da Associação das Escolas de Samba, tradicional representante das Escolas.

A ideia de um Liga Independente seduziu a todos com promessas econômicas relacionadas com direitos de transmissão, de comercialização da marca, até então controlados pela Riotur. Com a Liesa, a negociação com o poder público ocorreria sem intermediários. A conseqüência mais importante foi o alijamento de 34 agremiações menores e sem recursos da contravenção. Até os sambistas mais tradicionais ficaram afastados das decisões referentes à festa que eles mesmos criaram.

Com a melhoria da imagem junto ao público, os bicheiros passaram a se apresentar como empresários e desejavam levar profissionalismo para a arena do samba. Foi com esse “enredo” que manipularam a criação de uma liga independente.

Na política nacional, 1984 foi um ano de indefinições e causou muitas preocupações. Afinal, foi o ano em que a emenda constitucional das Diretas Já foi rejeitada pelo Congresso. O apoio a Tancredo tomava proporções alarmantes para o governo que se despedia. O PDS, antiga Arena, racharia diante do apoio a Paulo Maluf nas eleições presidenciais seguintes – pelo mecanismo indireto, haja vista a rejeição à emenda.
Após a redemocratização, uma proposta de legalização do jogo do bicho foi enviada ao Ministério da Justiça por secretários estaduais de segurança, em 1983 – exceto o do Espírito Santo. Mas o governo Figueiredo não a levou adiante.

Um relatório do SNI denominado “Análise sobre os prós e contras referentes à regulamentação de jogos de azar no Brasil” defendia que a regulamentação era “necessária e urgente, como um meio de tornar lícito aquilo que existe e sobrevive ao arrepio da lei.”

Segundo o SNI, a ilegalidade “estimula a corrupção, incentiva o crime e proporciona,m a uma minoria, lucros fabulosos (enriquecimento ilícito)”. O documento elenca 9 argumentos pró-legalização e apenas 3 contra. “Reconhecer, por lei, essa situação é apenas sancionar o que de fato já é uma vibrante e evidente realidade, pois se o mal existe e se é tolerado, embora ilegal, é preferível legalizá-lo a permitir sua propalação, com visível afronta à ordem legal.”

Alerta também o documento para o desgaste da imagem da Administração Pública e do Poder Judiciário, após as freqüentes denúncias de envolvimento delas com os bicheiros.

Quanto aos impactos decorrentes da extinção dessas atividades, o documento trata também dos impactos sociais negativos sobre as pessoas mais humildes, que vêem no bicho e nos cassinos clandestinos um meio de sustento, com ganhos bastante razoáveis. Trata também do mercado artístico, com a criação de postos de trabalho para cantores, músicos, atores etc.

Em 1988, a emenda que legalizava os cassinos teve 2781 votos a favor e 118 contra. Eram necessários 280 votos para sua aprovação. A emenda referente ao jogo do bicho foi rejeitada por 208 votos.

Na eleição estadual para governador em 1986, os bicheiros apoiaram o antropólogo Darcy Ribeiro, do PDT. O bicho já desembarcara dos antigos donos do poder.

Foi desconcertante para Darcy participar de um almoço, numa churrascaria, ao lado de Capitão Guimarães, Anísio, Miro, Maninho, Turcão, Manola, e outros. O homem que fora inimigo do regime militar e obrigado a se exilar no exterior, agora buscava apoio junto a ex-torturadores e contraventores que apoiavam os ditadores.

Nas palavras de Guimarães: “Brizola deu a maior tranqüilidade de todos os tempos ao jogo do bicho e nunca nos pediu dinheiro por isso. Agora chegou a hora de retribuir e eleger Darcy Ribeiro governador, além de votar em Marcello Alencar e Frejat para o Senado.”, continuou. Frejat era advogado e pai do vocalista do Barão Vermelho.

Porém, nova reviravolta. Agora a vitória foi de Moreira Franco.

Ao final de seu mandato, Moreira mostraria novamente o poder dos bicheiros no estado. Em fevereiro de 1991, Moreira recebeu Capitão Guimarães, Anísio, Luizinho Drumond e Carlinhos Maracanã no Salão Verde do Palácio Guanabara. A cerimônia era para o anúncio da doação de um terreno para o Museu do Samba. O escândalo teve as mesmas proporções do almoço oferecido a Darcy, 4 anos antes.

Moreira se defendeu: “Fiz isso para causar uma discussão, rasgar uma hipocrisia.” Completou dizendo que aquele evento era equivalente à condecoração dada pela Rainha Elizabeth aos Beatles.

Em 21 de maio de 1993, a juíza Denise Frossard condenou a cúpula do bicho a seis anos de prisão por formação de quadrilha armada. Foram atribuídos a ele 53 homicídios – e um segurança armado foi preso nas imediações do Fórum.

Mas as atividades criminosas continuaram no mesmo compasso. As quadrilhas continuavam operando a partir de dentro da cadeia – além dos comparsas de fora dos muros.

Outra descoberta, um pouco mais recente, foi a existência de um Tribunal próprio:  Clube Barão de Drummond. É a Corte Superior do jogo do bicho: arbitra disputas, decide sobre bens, heranças etc. E, claro, elimina quem desrespeita suas decisões.

Sua jurisdição vale para todo o país, deixando os limites restritos do estado do Rio de Janeiro.

Em 13 de março de 2012, os bicheiros retornaram à cadeia. Agora, no âmbito da Operação Furacão. A juíza agora era Ana Paula Vieira de Carvalho. Cada um foi condenado a mais de 48 anos de cadeia. Os crimes agora são corrupção ativa e formação de quadrilha. Dos 23 condenados, 10 tiveram prisão decretada. Como alguns bicheiros já haviam falecido, seus familiares herdeiros das atividades criminosas ocuparam o banco dos réus.

Em maio, o Ministro do STF Marco Aurélio de Mello determinou a soltura dos presos, acatando o argumento da defesa, de que decisão do STF datada de 2007 determinava a prisão apenas após o trânsito em julgado.

As sentenças continuaram emitindo novas condenações contra os bicheiros, mas a decisão do STF os manteve respondendo em liberdade.

Para completar o quadro digno das máfias mais poderosas do mundo, a revelação do escândalo Swissleaks apontou a existência de uma conta no HSBC da Suíça em nome do Capitão Guimarães, em março de 2015.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Os porões da contravenção”

DO BICHO À MÁFIA: COMO TORTURADORES E BICHEIROS MOLDARAM O CRIME ORGANIZADO NO RIO DE JANEIRO – PARTE 14


O coronel Dalton Roberto de Melo Franco foi desligado do Exército em 1996. Seu crime foi implodir um monumento inaugurado em 1989, em frente à CSN, em homenagem a três operários mortos durante a invasão à companhia por tropas do Exército e, novembro de 1988.

A implosão ocorreu menos de 24 hortas após a inauguração.

O coronel foi acusado de desvio de armas e sofreu perseguição interna, até seu desligamento. No entanto, sempre repetia que agira a mando de seus superiores, e que se recusara por diversas vezes a cumprir aquelas ordens.

Cerca de três anos depois, em entrevista, o ex-coronel revelou que os explosivos era de origem civil. Foram conseguidos por meio de bicheiros da Baixada: Anísio e Castor. 20 quilos de explosivo plástico puseram abaixo a obra projetada por Niemeyer.

As dinamites teriam saído de pedreiras. O intermediário, na verdade, teria sido Paulo Andrade, filho de Castor, além de Anísio.

O monumento seria reerguido. Anos depois, no governo Fernando Henrique, seria criado o Ministério da Defesa, submetendo as três Forças ao poder civil.

Dalton recorreu da decisão, mas foi derrotado. Morreu em 2013. Os bicheiros, mais uma vez, não foram incomodados.

(Continua!)


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Os porões da contravenção”

DO BICHO À MÁFIA: COMO TORTURADORES E BICHEIROS MOLDARAM O CRIME ORGANIZADO NO RIO DE JANEIRO – PARTE 13


Castor de Andrade conquistou muita riqueza e poder em função de seus contatos oficiais, prestação de pequenos favores, e pagamento de propinas em larga escala.

Mas não era tudo. A fidelidade de Castor ao sistema em que estava imbricado seria seriamente testada por ocasião das eleição estaduais de 1982. No Rio de Janeiro, o pleito era forte: de um lado, Leonel Brizola, do PDT, inimigo declarado do regime militar, o candidato mais odiado pela Rede Globo, pelos demais jornais, assim como por todo o establishment formado desde 1964; de outro, Moreira Franco, sociólogo, candidato do PDS, partido de sustentação da ditadura.

Moreira Franco recebeu toda a ajuda que poderia: Figueiredo cumpriu uma maratona de comícios e atos oficiais, pedindo votos para seu candidato. Ao mesmo tempo, trabalhava para prejudicar de todas as formas a campanha do dileto opositor.

Nesse momento, Castor de Andrade e demais bicheiros surgiram como um aliados dos mais importantes.
Em um comício em Volta Redonda, Anísio convocou Joãozinho Trinta e trezentos membros da Beija-Flor para a dificílima tarefa de tornar a imagem do general carrancudo mais tragável. Moradores de Complexo da Maré compuseram o samba “Rei da democracia”, cujos versos eram: “Samba, meu povo / Hoje é dia de alegria / Viva Figueiredo / O rei da democracia.”    

O cenário se repetiu em Nova Iguaçu. Mas parecia estar sendo improdutivo, pois pesquisas encomendadas pelo PDS apontavam larga vantagem a Leonel Brizola. E, dentre os bairros com maior vantagem para Brizola estavam Bangu e arredores. Castor, que até então agia às claras e de maneira discreta, sacou a carteira e convocou a tropa.

Montou comitês em Bangu, transformou o seu Cassino Bangu em ponto de concentração de cabos eleitorais de Moreira Franco, espalhou galhardetes, cartazes, organizou showmícios etc. Distribuía brindes e bugigangas, esforço que manteve até a votação.

Contabilizados os votos, Castor constatou o inevitável: Brizola contava amplo apoio da sociedade. Parecia impossível mudar a preferência do eleitorado.

Bom, como sabemos Castor era contraventor e criminoso. Portanto não se importava com o cometimento de atos ilegais. Se ele não obteve sucesso antes dos votos; tentaria agir depois, na contagem das urnas.
O modo como atuaria? Junto aos servidores e juízes da Justiça Eleitoral.

Em um dos pontos de apuração, em Senador Camará, onde se apuravam 168 mil votos, Castor era o responsável por fornecer mesas, instalou equipamentos de ventilação, frutas, água mineral e outros pequenos agrados. Em outro local de apuração, era visto constantemente com seus capangas, armados, apresentando-se como fiscais do PDS.

Um dos candidatos a deputado pelo PDT denunciou: “Castor coordena as parcialidades favoráveis ao PDS”.

Em outra oportunidade, um juiz eleitoral chegou ao extremo de expulsar uma repórter do local: “Quem manda aqui sou eu. Se pegar alguém nos banheiros, eu prendo. Retire à força essa repórter daqui!” A entrada de repórteres e cinegrafistas ó seria permitida após a intervenção de outro magistrado, que explicou: “Quando chegamos aqui, não tínhamos mesas, ventiladores, iluminação suficiente. Acordei todo mundo e o Castor de Andrade, como presidente do Atlético Clube Bangu, nos ajudou nessa infraestrutura. Se ele e fiscal ou delegado de algum partido, não sei, mas tem nos ajudado, sim”.

Difícil crer na lisura do pleito, quando os próprios magistrados agem de modo tão grato a quem os tirou da penúria, não?

Mas todo o esforço se revelaria improdutivo. Brizola recebeu 34,17% dos votos válidos, contra os 30,6% de Moreira Franco. Em Bangu, Brizola recebeu o dobro dos votos de Moreira Franco.

Castor entendeu o recado vindo das urnas e começou a buscar se afastar do regime que chegava ao fim. Nas sua declarações seguintes, passou a defender mudanças e criticar o “radicalismo” dos que apoiavam a situação.

Quanto à sua antiga amizade com Figueiredo, disse: “Não, não sou amigo do João. Só não fiu ao casamento (de seu filho, Johnny) porque quis evitar qualquer constrangimento. Só por isso. Eu já disse: tenho uma admiração por ele, mas acho que a administração do Planalto precisa ser renovada para que se aproveitem os acertos e se abandonem os erros. Vamos seguir acertando daqui pra frente”, contemporizou um diplomático Castor.

Em 1984, Castor geria seus investimentos pensando nos desafios de 1985. E o fez muito bem. Naquele ano seu time, o Bangu Atlético Clube seria vice-campeão carioca. No Carnaval, sua Mocidade conquistou o título em 1985, com o festejante “Ziriguidum 2001, carnaval nas estrelas.”  

Na política, não poupava elogios à política de Brizola em relação ao jogo do bicho. Castor investia jogando.
Em março de 1990, na casa de sua amante, Osman Pereira Leite foi morto com quatro tiros. Morria o policial, bicheiro, ex-presidente da Mocidade e, até poucos anos antes, braço direito do mais poderoso dos contraventores.

A parceria da dupla Castor e Osman se extinguiu no início dos anos 1980. O motivo foi uma acusação de que Osman estava fraudando o sorteio dos números da Paratodos, espécie de loteria dos bicheiros. Após ser alertado, Castor expulsou Osman do jogo do bicho e da Mocidade.

Osman, então se aliou a Marquinho, filho de Raul Capitão, e iniciaram, resolutos, uma guerra particular contra os antigos aliados. Esse episódio provocou o aumento dos índices de violência no Rio, nos estertores do regime que terminava.

Mas a dupla de intemeratos também lançava olhares ambiciosos em direção a outros estados. Na cidade de São Paulo, aliaram-se a Walter Spinelli Oliveira, o Marechal. Imediatamente entraram em conflito com todos os outros bicheiros locais.

Os novos inimigos logo se anunciaram. O carro de Marquinho foi metralhado no bairro da Lapa, em São Paulo, no momento em que ele não estava, milagrosamente, dentro do veículo. Dos outros quatro ocupantes, um morreu e outro ficou gravemente ferido. Marquinho sabia que o alvo era ele e suspeitava fortemente de que o mandante estava no Rio. Em setembro, revelou-se o nome do mandante: Castor de Andrade. Mas o alvo era, na verdade, Osman.

Marquinho vinha expandindo seus negócios: tomou bancas em Monte Claro, Três Corações e Patos de Minas, em Minas Gerais. Foi também acusado do seqüestro e homicídio do bicheiro Oziel Silva e sua esposa, em 1986. Este não queria vender suas bancas àquele.

Osman chegou a ser preso em Minas, pela polícia local, após estourarem uma “fortaleza” do bicho e prenderam 10 contraventores lá reunidos. A operação ocorreu em 1987, até quando Osman conciliava seu trabalho na 37ª DP com a contravenção, à sombra de Marquinho.

Osman saiu da presidência da Mocidade em 1979, por não ser permitida a reeleição. Ele acabara de ser campeão. Após sua saída, Arlindo Rodrigues também deixou a escola e foi contratado por Luizinho Drumond, bicheiro patrono da Imperatriz Leopoldinense. Foi contratado Fernando Pinto para seu lugar. Iniciou seu período na escola com o enredo “Tropicália Maravilha”.

Logo após ocorreu o imbróglio entre Osman e Castor.

Osman foi levado para a Unidos de Padre Miguel, vizinha da Mocidade. Mas não conseguiu recursos para fazer um bom desfile, pois a cúpula do bicho o isolara.

Osman tramou com Marquinho. Este, assumiu-se como patrono da União da Ilha. Osman ficou com a presidência e a representação da Escola na Liesa. Cobiçando um campeonato nos desfiles, levou Arlindo Rodrigues para sua nova agremiação.

Seu melhor ano foi em 1986, em quinto – deixando a Mocidade em sétimo.

Em 1988, Marquinho foi assassinado com seis tiros, na frente do seu prédio, no Leblon.

Com isso, Osman recebeu de Raul Capitão as bancas do filho. Na época do seu assassinato, Osman geria bancas na Ilha, Petróplis e Corrêas. Sua carreira na polícia estava suspensa, pois respondia a inquérito interno por atuar na contravenção. Apesar do desentendimento com Castor, o velório de Osman ocorreu na quadra da Mocidade.

(Continua!)


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Os porões da contravenção”

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DO BICHO À MÁFIA: COMO TORTURADORES E BICHEIROS MOLDARAM O CRIME ORGANIZADO NO RIO DE JANEIRO – PARTE 12


O primeiro desfile de Escolas de Samba no Sambódromo da Avenida Marquês de Sapucaí assistiu a uma Mocidade Independente rendendo homenagens a contrabandistas e muambeiros, como sói ser seu patrono, Castor de Andrade. Ele não temia processos, investigações ou prisões. Acusado de contrabando, respondeu na avenida, com muito samba: “Mamãe eu quero Manaus / Muamba, Zona Franca e carnaval”, entoava o público.

Vestidos de pirata, passistas eram liderados pela modelo Monique Evans, rainha de bateria pela primeira vez. Era 5 de março de 184 e o enredo “Mamãe, eu quero Manaus”, de autoria de Fernando Pinto contava a história do contrabando em Terra Brasilis, desde D. João VI.

Castor saiu na avenida, mas seus três camarotes com capacidade para 100 convivas, abrigava artistas, jogadores de futebol, autoridades civis e militares. Nos anos seguintes Castor ainda ostentaria um camarote exclusivo para oficiais das Forças Armadas. Consumia-se champagne, uísque e canapés em profusão.
Eram tempos de redemocratização, o uniforme verde-oliva se despedia do Planalto. De perseguido nos anos 1960, passou a protegido do regime. Desvencilhar-se-iam, porém sem mágoas. Deixou isso claro em uma entrevista à revista Playboy. Quando perguntado qual nota daria ao governo Costa e Silva, durante o qual foi preso, Castor respondeu: “Nota 10!”

O delegado Cláudio Guerra revelou qual a profundidade do relacionamento de Castor com o regime militar: “Fui apresentado a Castor de Andrade, que era o chefe dos bicheiros, o mais importante de todos. A relação entre Castor e as Forças Armadas era tão próxima que ele tinha até uma credencial do Cenimar. Ele gostava de usá-la para dizer que era agente, oficial da reserva. Ele era atrevido.” Nada mal para quem foi preso pelo mesmo Cenimar, anos antes...

O desfile de 1984 testemunhou outras cenas intrigantes. José Caruzzo Escafura, mais conhecido como Piruinha, era outro bicheiro dono de camarote na Sapucaí. Lá, podia-se avistar um efusivo Johnny Fugueiredo, filho do presidente da República na época, o general João Figueiredo.

Interessante notar que o sogro de Johnny, Ozório Paes Lopes da Costa, havia sido sócio de Castor numa metalúrgica, que levava o nome do sócio bicheiro.

Aliás, essa Metalúrgica Castor renderia um episódio escandaloso, que marcaria o apagar das luzes do regime ditatorial. Fornecedora de produtos metálicos para o Exército, a metalúrgica estava quebrada, quando uma operação ocorrida nos bastidores do SNI obrigou o Grupo Coroa-Brastel a assumi-la.
O nível de amizade entre Castor e o presidente Figueiredo pode ser exemplificado com o convite de casamento expedido para o bicheiro e sua família, para o casamento de Johnny com Rosana, filha do sócio Ozório. O bicheiro não comparecer à cerimônia por temer prejudicar a imagem pública do amigo.

Quando a Metalúrgica se encaminhava a passos largos em direção à falência, Ozório escreveu a Delfim Netto, então da Secretaria de Planejamento, pedindo ajuda financeira, proveniente do Banco do Brasil, ou BNDES, ou Caixa Econômica. Justificava seu pedido pelo fato de políticas recessivas adotadas pelo governo terem desequilibrado as contas da empresa.

Fundi-la a um grupo econômico mais forte parecia ser uma solução mais viável, pois evitaria especulações acerca de tráfico de influência na imprensa.

Escolheram o empresário Assis Paim Cunha, controlador do grupo Coroa-Brastel. Empresário bilionário, seu sucesso se devia às Lojas Brastel. Foi obrigado a comprar o abacaxi, mas impôs a condição de ter acesso facilitado a empréstimos de bancos públicos.

O império de Paim veio abaixo quando foi obrigado a assumir outro abacaxi, a corretora Laureano, em iminente intervenção do Banco Central. Em junho de 1983, o grupo Coroa-Brastel foi liquidado pelo BACEN, deixando atrás de si 34 mil investidores lesados.

Paim alegou ter sido ludibrido por Álvaro Armando Leal, que prometera ao empresário que seria recompensado pelo governo caso assumisse o pepino. Leal confirmou tudo ao Senado. Paim foi condenado a 8 anos e 3 meses de prisão, que cumpriria em regime semiaberto. Perdeu tudo. Morreu em 2008.

(Continua!)


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Os porões da contravenção”


DO BICHO À MÁFIA: COMO TORTURADORES E BICHEIROS MOLDARAM O CRIME ORGANIZADO NO RIO DE JANEIRO – PARTE 11


Em flagrante contraste com seus anos de ouro em meados dos anos 1970, no carnaval de 1981, Anísio não desfilou. Ainda na área de concentração, anterior à entrada na Passarela do Samba, Anísio foi vaiado, foi xingado. Ouviu gritos: “Oh, Anísio, cadê o Jatobá?”, “Cadê o Jatobá? Cadê o Jatobá?, “Assassino!”. Anísio se limitava a xingar de volta: “Tá na casa da mãe!”.

Com medo de contaminar a Escola com as ofensas desferidas contra di, abrigou-se no seu camarote.
Anísio recebia uma sequência de golpes fortes por conta do duplo seqüestro e assassinato do pintor de paredes Misaque José Marques e do publicitário Luiz Carlos Jatobá. Anísio conseguia envernizar sua imagem de bicheiro por meio da Beija-Flor e de sua história vitoriosa na Escola, mas cultivar uma boa imagem sendo acusado de seqüestro e homicídio poderia ser demais.

O crime ocorreu em Piratininga, região de praiana de Niterói. As investigações apontavam como motivo, vingança; a execução teria sido levada a cabo por policiais, a mando de Anísio. A vingança era motivada pelo furto de jóias e dinheiro da casa do contraventor, dias antes. O objeto mais sensível foi um cordão de ouro com um medalhão. Anísio afeiçoava-se tanto com o objeto que teria oferecido recompensa em troca.  
As vésperas do desfile de 1981 foram marcadas pela visível irritação de Anísio com seu indiciamento no caso Misaque-Jatobá. A imprensa não largava do seu pé. O recente passado vitorioso – Beija-Flor foi campeã em 1976-77-78 e 1980, empatada com a Portela; vice em 1979 – não poderia ser manchado por causa de crimes cometidos pelo seu patrono.

Joãozinho Trinta trouxe como enredo para 1981 “A oitava das sete maravilhas do mundo”. Esse tema buscava explorar o sucesso das Escolas de Samba ao pô-las como a oitava Maravilha. A grandiosidade dos carros-alegóricos era inédita.

Apesar do desfile brilhante, a Escola de Nilópolis ficou em segundo lugar. O título foi conquistado pela Imperatriz Leopoldinense. O enredo de Arlindo Rodrigues, “O teu cabelo não nega”, homenageando Lamartine Babo, tornou-a favorita do público.

Os problemas de Anísio durariam um pouco mais. Em 11 de maio, ele e cinco policais tiveram a prisão preventiva decretada. Apenas se apresentou à justiça dois dias depois. Ficou preso até dia 20. Respondeu em liberdade.    

Os corpos de Misaque e de Jatobá nunca foram encontrados. Em 1983, Anísio, denunciado como mandante dos crimes, foi absolvido. Três policiais foram sentenciados a três anos de prisão – depois reformada para quatro.

Pelos 10 anos seguintes, Anísio sofreria pequenos percalços, os quais superaria com relativa facilidade. O que ele não poderia prever era o Calvário que estava se aproximando. Deste, ele nunca se recuperaria totalmente. E esse Calvário tinha nome: Eliana Santos Muller de Campos, sua ex-esposa.

Eliana foi morta a tiros no dia 12 de agosto de 1991, ao lado do namorado, Hercílio Cabral Ferreira, em Nilópolis. Antes, porém Eliana deixou uma carta, guardada com a família de Hercílio, em que contava tudo o que sabia sobre a vida do ex-marido. Sua missiva acusava Paulo Crespo, o Paulinho, como um dos assassinos no caso Misaque-Jatobá. Sobre Anísio, ela escreveu: “Sabia de tudo.”

Eliana morreu aos 44 anos. Hercílio conta 27, na época. Foram mortos em frente de casa. Após pararem para conversar com um amigo, outra pessoa se aproximou e desferiu os disparos. Um menor, apelidado de Pixinguinha, testemunhou a cena. O menor também foi atingido por um disparo no olho, fingiu-se de morto e escapou com vida.

Antes do homicídio, Eliana comparecera duas vezes à delegacia, denunciando ameaças contra sua vida. Os denunciados foram seu próprio pai e seu irmão. Ambos eram empregados de Anísio no jogo do bicho. Hercílio tinha a mesma atividade, até começar seu envolvimento com a mulher do chefe e ser demitido.

Eliana expôs tudo em uma carta de nove páginas e pediu que somente fosse publicada nos jornais caso algo ocorresse com ela e o namorado. Eles seriam assassinados apenas dois meses depois. Além das denúncias referentes aos caso Misaque-Jatobá, Eliana denunciou Anísio no homicídio do policial Mariel Maryscotte e de ter se iniciado no crime como traficante de drogas. Em suas próprias palavras: “Com 16 anos, enrolei muita maconha, para que ele e eu tivéssemos uma sobrevivência e vendíamos...”

O envolvimento com Hercílio somente ocorreu após sua separação de Anísio. Este irrritava-se ao vê-los juntos. Anísio chegou a exigir que eles deixassem o município, mas aceitar ameaças não era do feitio da ex-mulher.

As denúncias que Eliana havia registrado na 57ª DP deram início à persecução dos criminosos, levando ao indiciamento do pai e do irmão de Eliana: Dauro e Raul. Após, Anísio apelou a sua rede de proteção oficial. O escrivão de polícia João Carlos Viriato atrasou o quanto pôde a liberação dos mandados de prisão. Pouco tempo depois, tornou-se Procurador-Geral do Município de Nilópolis.    

Mas não durou muito. Dauro e Raul foram presos. Raul foi reconhecido por Pixinguinha.

Contudo, levar as investigações a cabo era virtualmente impossível. O secretário de Polícia Civil e de Justiça, Nilo Batista, e o diretor-geral da Delegacia da Baixada, delegado Hélio Luz, pediram a prisão temporária de Anísio. Segundo Luz: “Não há condições de a polícia investigar nada em Nilópolis com Anísio fora da cadeia. Seu tráfico de influência é muito grande, inclusive na própria polícia. Queremos evitar possíveis subornos e intimidações de testemunhas”.

Pouco mais de um mês após o homicídio de Eliana, Nelson Abraão David se suicidou com um tiro na cabeça. Deixou um bilhete: “Peço perdão aos meus amigos, à minha família, não consigo escrever nada...”
Embora tenha sido surpreendido por esses eventos trágicos, do final do julgamento não trouxe muitas surpresas: o julgamento ocorreu em Nilópolis; Anísio não foi indiciado; Dauro foi absolvido; Raul foi sentenciado a 24 anos de prisão, pela morte de Hercílio e pelo olho perfurado de Pixinguinha; ninguém respondeu pelo assassinato de Eliana.

(Continua!)  


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Os porões da contravenção”

DO BICHO À MÁFIA: COMO TORTURADORES E BICHEIROS MOLDARAM O CRIME ORGANIZADO NO RIO DE JANEIRO – PARTE 10


Em novembro de 1984, a disputa pelo samba que seria apresentado no carnaval seguinte pela Unidos de Vila Isabel foi quente, bem mais quente do que costumava ser todos os anos.

Além dos sambas em disputa, dois grupos se digladiavam pelo poder. De um lado, o bicheiro Waldemir Garcia, o Miro, presidente de honra da Escola, e seu filho, Waldemir Paes Garcia, o Maninho; do outro, Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, presidente da Escola e nosso velho conhecido. Todos devidamente escoltados por seus seguranças, apenas esperando uma ordem para dar início derramamento de sangue.

Quando Guimarães abocanhou a tão almejada presidência da Escola do bairro de Noel, em 1983, esta já tinha seu patrono-bicheiro: Miro e família. Desde sempre – Miro foi presidente de 1966 a 1968.

Inicialmente, Guimarães buscou uma convivência pacífica com Miro, evitando o conflito. Procurou se tornar uma pessoa reconhecida pela comunidade, subiu o Morro dos Macacos, tentou parecer simpático aos membros da bateria, aproximou-se dos sambistas.

Observando os feitos dos “capi” Castor e Anísio, da Mocidade e da Beija-Flor, respectivamente, Guimarães sabia que uma vitória no carnaval seria fator fulcral para seu sucesso dentro da Escola. A Vila nunca havia vencido um carnaval.

Guimarães investiu. Para o desfile de 1985, trouxe o carnavalesco Max Lopes, campeão no ano anterior pela Mangueira. Max exibira o enredo “Yes, nós temos Braguinha”, naquele que foi o primeiro desfile no recém-inaugurado Sambódromo.

Foi justamente nos preparativos para o carnaval de 1985 que o clima entre ambas as facções ficou tóxico, dentro da azul e branco. O motivo foi o samba-enredo.

Tradicionalmente, quem escolhia o samba era Miro, monocraticamente. Nesse ano, decidiu-se pelo samba de Pedrinho da Flor. Guimarães, por sua vez, trouxe o compositor David Corrêa, autor do vibrante “Skindô, Skindô”, do Salgueiro de 1984, assim como do belíssimo “Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite”, da Portela de 1982. Guimarães queria um samba de David na Sapucaí.
A briga prometia... A certa altura, Maninho reuniu seus capangas, avisou que seu pai não seria desrespeitado e deixou Guimarães saber. Percebendo uma tragédia se aproximando, Elizabeth Nunes, diretora do Salgueiro, interferiu e demoveu Miro de levar adiante uma guerra contra Guimarães. Convenceu Miro a recuar, deixar a velha Vila que tanto amava e assumir como padrinho do Salgueiro. A contragosto e muito contrariado, aceitou.

David Corrêa viu seu samba ser escolhido. A Escola que cantou “Puro amor na clausura / A prisão sem tortura” em 1980, agora era apadrinhada por um sádico, ex-torturador e homicida com longa ficha-corrida.
A Escola do “bairro com nome de princesa” ficou em terceiro lugar, trazendo o enredo “Parece que foi ontem”. NO ano seguinte, amargou um 11º lugar, com “De alegria cantei, de alegria pulei, de três em três pelo mundo rodei”. Em 1987, Martinho, Ovídio Bessa e Azo compuseram “Raízes”, samba audacioso, não fazia uso de rimas, mas a Escola só conseguiu uma 5ª colocação. Durante sua passagem pela presidência, a Escola não atingiu a primeira colocação.

O destino não deixaria de pregar uma peça em Guimarães. Para o na seguinte, a Unidos de Vila Isabel elegeu novo presidente; ou melhor, uma nova presidente: Licia Maria Maciel Caniné, a Ruça, a então senhora de Martinho da Vila. Ex-militante do PCB, essa mulher levaria a escola a ser campeã pela primeira vez, sem apoio de bicheiros, sem quadra e contando apenas com sua comunidade fiel e apaixonada. O samba de Luiz Carlos da Vila, Rodolpho de Souza e Jonas embalou corações verdadeiramente apaixonados.

A “comunista” desferiu um golpe certeiro contra o torturador.

Ruça conhecia bem quem a precedia na presidência da agremiação. Ao cruzar com Guimarães em ensaios, na quadra, Ruça não deixava de cumprimentá-lo, “Olá, doutor Pablo”, seu codinome no tempo de DOI.  
A aproximação entre Guimarães e o Morro dos Macacos renderia infortúnios os mais diversos. Ainda na segunda metade da década de 1980, um informe confidencial do SNI apontava o envolvimento do Capitão com o contrabando de armas e drogas destinado a traficantes do Morro dos Macacos. O título do documento: “Contrabando de armas – Ailton Guimarães Jorge”.

Deixando a presidência da Vila Isabel em 1987, assumiu a presidência da LIESA.  

No mesmo Informe, é citado o nome de Laíla, na época diretor de harmonia da Unidos de Vila Isabel, como proprietário do imóvel onde as armas ficavam guardadas. Laíla fora levado para a Vila por Guimarães, saindo do Salgueiro.

(Continua!)
    

Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Os porões da contravenção”


DO BICHO À MÁFIA: COMO TORTURADORES E BICHEIROS MOLDARAM O CRIME ORGANIZADO NO RIO DE JANEIRO – PARTE 9


Desde que a guerra pelo domínio do jogo do bicho se iniciara, no Espírito Santos, muitas vítimas tombaram em meio violência que se instalou no estado. Uma dessas vítimas era chamada Agneis da Silva Araújo, de 20 anos. Trabalhava na boate Le Chat Noir, um prostíbulo localizado na Praia do Canto, onde atendia seus clientes por Geovana.

Nunca mais foi vista após prestar depoimento na sede da Polícia Federal em Vitória. Lá, após perguntada, forneceu o que os agentes buscavam: “O Capitão Guimarães comenda o grupo de extermínio que atua aqui, no Espírito Santo.”

Agnes, ou Geovana, teve conhecimento dos meandros do submundo da contravenção após namorar o investigador Romualdo Eustáquio Luís Faria, o Japonês, que, hipnotizado pelos lábios da morena, revelou seu papel na quadrilha de Guimarães, e muito mais.

A jovem se recordou de algumas passagens, ao lado do namorado, especialmente das conversas sobre crimes, violência, gravações de homicídios, quando os membros da quadrilha se deliciavam assistindo suas vítimas morrerem.

Basicamente, Guimarães reproduzia em terras capixabas a sua estratégia bem sucedida em Niterói. Associou-se ao bicheiro local, José Carlos Gratz, e ao delegado miliciano Cláudio Guerra. Unificaram o controle de todas as bancas do jogo do bicho. Pouco tempo depois, todos os talões da jogatina traziam uma imagem de um periquito vestido de uniforme verde-oliva, o logotipo do Capitão.

Outra vítima da matança capixaba foi Jonathas Bulamarques, proprietário de um cassino clandestino. Após se recusar a vender seu negócio para a quadrilha do Capitão, ficou gravemente ferido quando seu carro explodiu, ao voltar à casa: teve a perna esquerda amputada, assim como os dedos da mão esquerda e ficou praticamente cego. Antes que pudesse se vingar, três homens armados invadiram sua casa e o fuzilaram.

O único condenado por esse crime foi o delegado Cláudio Guerra, a 42 anos, dos quais cumpriu 10, até ser libertado.

Capitão Guimarães e José Carlos Gratz se tornaram, em 1986, os comandantes da contravenção no Espírito Santo, domínio este garantido por uma enorme rede de autoridades devidamente cooptadas à base de muita propina: políticos, juízes, advogados, empresários e policiais.

Gratz foi eleito deputado estadual em 1996 e depois lideraria a Assembléia Legislativa estadual.
As atividades da quadrilha logo se ramificaram em casos de violência, lavagem de dinheiro, extorsão, envolvimento de políticos aliciados com o narcotráfico. O crime organizado logo impulsionaria o estado ao posto de “terra sem lei”.

A primeira reação oficial somente ocorreu em 1989, com a Operação Marselha. Esta se iniciou após denúncia de troca de carros roubados por cocaína, nas fronteiras do Brasil com Bolívia e Colômbia. De plano, apreenderam-se mais de 30 carros roubados.

Dentre os indiciados, figurava o nome do delegado Cláudio Guerra, ao lado de outros 30. As acusações foram: furto, roubo, receptação de carros roubados, favorecimento a contraventores, estelionatários e traficantes (como José Carlos dos Reis Encina, o icônico Escadinha), cárcere privado e mandante de múltiplos homicídios.

O lutador-torturador-fora-da-lei Marco Antônio Povoleri, padrinho de um dos filhos de Guerra, foi preso anos antes ao ser flagrado com um carregamento de 5 carros roubados, que seriam entregues à quadrilha de José Carlos de Carvalho, o Carlinhos Gordo – responsável por 80% dos roubos de carro no Rio.
Povoleri cumpriria 4 anos e meio em regime fechado. Suspeitava-se de que tais veículos seriam convertidos em cocaína, a ser distribuída no Brasil.

Embora acusados e por vezes relacionados a uma série de crimes, os bicheiros perdiam mesmo o brio quando enfrentavam suspeitas de envolvimento com tráfico de drogas. Sabiam que este crime poderia pôr em risco todo o resto, incluindo a imagem pública, mais seriamente que qualquer outro.   

O dia 12 de outubro de 1989 começou com a prisão de Guerra, na casa de Capitão, em Itaipu, Niterói. Poucas horas depois, Capitão, que estava em uma churrascaria, também seria preso por uma equipe da PF, que adentrou o estabelecimento ainda no meio da refeição. Ao lado de Capitão, dois policiais civis e Povoleri. Todos saíram de lá presos, em decorrência do depoimento da falecida Agnes – ou Geovana.

Era o final glorioso da Operação Marselha. Mas um Capitão exibindo um sorriso aliviado, ainda no camburão da PF, levantava uma certa desconfiança em quem assistia à cena.

(Continua!)


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Os porões da contravenção”