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terça-feira, 22 de maio de 2018

UM CONTINENTE CONFIGURADO PELO TRÁFICO DE PESSOAS


Inicialmente, conforme singravam suas costas e procuravam uma saída para a Ásia em seu périplo, a África não interessava diretamente aos portugueses. Tratava-se apenas de um local para fundarem entrepostos e bases que servissem de escala em suas jornadas para a Índia. Daí interessarem-se tanto por ilhas e portos litorâneos.

Dificilmente se aventuravam em seu interior. Uma exceção foram os franceses que, ainda em meados do século XVII, navegaram o Rio Senegal adentro.

O papel mais importante nesse período foi o executado pelos lançados – ou tangomaus. Eram chamados de lançados em referência à expressão “lançados às praias”. Eram aventureiros ou degredados, largados nas costas africanas, inicialmente, depois também na América e na Ásia. Foram eles que estabeleceram redes comerciais entre europeus e africanos.

A grande maioria sucumbia às doenças e aos ataques, mas os que sobreviviam adquiriam tanto imunidades quanto conhecimento da geografia local. Aprendiam a língua dos povos com quem travavam contato, seus usos e costumes comerciais. Muitos se tornavam responsáveis por atividades comerciais relevantes.

Importante lembrar que a Ilha de Cabo Verde, cuja colonização se iniciara em 1462, era ponto importante para o comércio com a África. E mais, a atuação comercial mais importante na ilha estava em mãos de mulatos, cuja miscigenação se dava com mulheres africanas. Este fato causou preocupação na Coroa portuguesa, que enviou grande contingente de mulheres brancas, pois temiam que os mulatos fossem menos leais à Coroa portuguesa por sua meai ascendência africana.

No início do século XVII, outras nações européias começaram a desembarcar na costa da África, como os holandeses e os ingleses. Os holandeses iniciaram suas aventuras africanas atacando as possessões portuguesas: atacaram El Mina, na Costa do Ouro, em 1637; depois, ocuparam Luanda, capital de Angola, entre 1641 e 1648. Finalmente, em 1652, fundaram a Cidade do Cabo.

Os ingleses faziam incursões regulares na África desde 1533. Em diversas oportunidades tiveram entreveros com os portugueses.

A Companhia Francesa da África Ocidental foi fundada em 1626 e os franceses logo se estabeleceram no Senegal.

Nesse período, o produto de exportação por excelência, o grande interesse europeu no continente, eram os escravos. Por esse motivo, durantes os séculos XVI e XVII houve a formação de novas organizações políticas cujas bases eram o comércio de escravos: os achântis e os iorubás, por exemplo. A contrapartida mais desejada pelos africanos eram as armas de fogo.

Em meados do século XIX, quando o comércio de escravos foi extinto, essas nações demonstraram toda a fragilidade sobre a qual foram erguidas, pois não restara qualquer atividade econômica relevante afora aquele degradante comércio de seres humanos. A atividade econômica costeira levou ao definhamento o tradicional comércio transaariano.

As mudanças políticas decorrentes da instalação de mais de trinta fortes europeuis na Costa do Ouro eram inevitáveis. Inicialmente, os europeus deveriam pagar tributos para os líderes locais, pelo direito de lá se estabelecerem. Mas em alguns lugares os europeus rapidamente passaram a prevalecer em relação aos povos locais, e então o dever de pagar tributos se inverteu. Outros efeitos foram mais sutis, mas igualmente importantes.

Os fortes europeus empregavam africanos, que lá trabalhavam segundo o esquema de trabalho assalariado. Lá, aprendiam diversos ofícios, além de aprenderem a realizar de maneira mais refinada o ofício que dominavam. Ainda, muitos europeus tiveram filhos miscigenados, que já cresciam em contato com estrangeiros.

Assim surgiram africanos que conseguiam estabelecer contato facilmente com os europeus, tornando-se intermediários no trato com chefes africanos. Muitos destes se tornaram pessoas bastante poderosas.
A sistematização do tráfico de escravos levou a uma restrição da moeda de troca em torno de produtos realmente valiosos. Agora, os comerciantes africanos exigiam, além do tradicional cauri (que servia como moeda local), tecidos, armas de fogo, facas, pólvora, bebidas alcoólicas, fumo, açúcar, bacias de cobre. Desnecessário dizer que produtos de consumo como esses eram incapazes de desenvolver qualquer atividades econômica na África (ao contrário do que ocorria na Europa, em que a demanda por esses produtos para as trocas comerciais ajudou a dar início à Revolução Industrial).

Completando ao cenário apocalíptico que se desenhava, a drenagem de mão de obra começava a dar sinais de sua perversidade, embora relativamente compensada por não envolver mulheres.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Desvendando a história da África”


ÁFRICA: DESDE QUANDO?


Segundo Samir Amin (O desenvolvimento desigual), a análise dos diversos modos de produção pode levar ao entendimento acerca do nível de desenvolvimento de uma sociedade e seus passos até alcançar o estágio capitalista.

Mas o conceito de Modo de Produção é algo abstrato e seus diversos estágios não ocorrem de forma “pura”, mas se sobrepõem em diversos momentos. Samir aponta a existência de 5 modos de produção: 1) modo de produção comunitário, primitivo, anterior a todos os outros. 2) modo de produção tributário. 3) modo de produção escravista. 4) modo de produção mercantil simples. 5) modo de produção capitalista. Esses modos de produção são articulados com os demais modos de produção, muitas vezes submetidos a um modo predominante.  

Samir Amin identifica em todas as sociedades pré-capitalistas os seguintes elementos: 1) dominância do modo de produção comunitário ou tributário. 2) relações mercantis com âmbito limitado. 3) existência de comércio de longa distância, permitindo a transferência de excedente de uma sociedade para outra. Sociedades que dependem do comércio de longa distância denunciam a existência de poucos excedentes internos, o que pode levá-la ao apogeu ou à decadência, sem que isso dependa do modo de produção nela predominante.

Quando da chegada dos europeus à África, os modos de produção praticados eram predominantemente o comunitário e o tributário. O modo de produção comunitário variava desde modelos menos hierarquizados no sul do continente até outros mais complexos, mais ao norte, em territórios do Senegal, Gana e Nigéria. Como a terra é garantida a todos os membros de um clã, não pode haver a proletarização da mão de obra, que separou o produtor dos meios de produção.

Mas prevalecia o modo de produção tributário, que pode ser de 3 tipos: 1) formaç~eos tributárias ricas, com excedente volumoso, como Egito e China. 2) formações pobres, com poucos excedentes, como as sociedades medievais e feudais européias. 3) formações tributárias comerciantes, dependentes das rotas de comércio e do lucro daí advindo, como a Grécia Antiga, as sociedades árabes e diversos Estados da savana africana.

O escravismo era um fenômeno de intensidade variada, pois era praticado marginalmente na África, ao mesmo tempo em que era praticado intensamente na Grécia Antiga.

O impacto resultante do encontro da África com a Europa deu surgimento ao capitalismo na Europa, na África do resultado não foi o mesmo. Ali ocorreu o bloqueamento do desenvolvimetno europeu, e a razão está ligada justamente à pobreza relativa dos Europeus frente aos africanos. A chave para o sucesso europeu foi a desestruturação do modo de produção existente até então: o feudalismo. Na África não houve a desarticulação dos modos de produção tradicionais, e a razão era justamente seu sucesso relativo.

O segundo fator para o sucesso relativo da Europa foi a acumulação de capital. Esta existiu em algumas sociedades do norte da África, durante o apogeu de alguns grandes impérios africanos, mas o excedente era pouco volumoso e o lucro advinha do comércio de grande distância, inexistindo portanto articulação complexa da produção local. Este foi o caso das grandes sociedades surgidas no Magreb, estruturadas sobre o comércio do ouro da África Ocidental. Todo o mundo antigo ocidental se abasteceu do ouro daquela região.

O declínio de civilizações do norte da África se deu após o desvio das rotas comerciais mais importantes. Até o surgimento do capitalismo mercantilista, as civilizações africanas estavam plenamente articuladas com suas contrapartes da Ásia, do Mediterrâneo e do Oriente Médio, e seu desenvolvimento era comparável em todos os aspectos. É o que se depreende dos relatos de viajantes maravilhados daquela época.

O fim desse concerto quando da chegada dos portugueses, no século XV. O comércio mercantilista, do século XVI ao XVIII, caracterizou-se pelo desequilíbrio das relações comerciais, em absoluta contraposição às práticas comerciais existentes até então. A razão eram duas: especialização e divisão do trabalho. Os reinos africanos ficaram com a tarefa de abastecer o sistema de mão de obra escrava e de poucos produtos extrativistas.

Assim, com a completa destruição do comércio saariano e com a subseqüente rearticulação em torno do comércio atlântico, as nações existentes africanas iniciaram sua trágica derrocada.

O exemplo mais prolífico foi o do Império Songai, última grande nação do Sudão Ocidental. Estavam na iminência de iniciar uma transformação interna magnífica, em direção à especialização e organização dos modos de produção, com claros aspectos classistas. Ou seja, deveriam surgir em breve classes sociais semelhantes às dos burgueses europeus.

Mas o movimento acima foi interditado após a derrota para o sultão do Marrocos, em 1591. Foi o fim do império e de seu possível futuro brilhante. O estabelecimento de europeus na região levou à criação de ilhas de comércio desarticuladas, que puseram fim à complexidade exigida para a manutenção de um império.

A migração do centro de gravidade econômico na África da savana em direção à costa refletiu em larga medida a migração do centro econômico europeu do Mediterrâneo em direção ao Atlântico. Sem falar no fundo capitalista mercantilista, que levou o desenvolvimento desigual entre os pólos africano e europeu.

Impossível saber o que seria o continente caso o episódio acima descrito nunca tivesse ocorrido. Mas é fato que dificilmente as sociedades lá surgidas, mesmo as mais bem sucedidas comercialmente, teriam acumulado todos os recursos necessários para o surgimento do capitalismo mercantilista e, após, do capitalismo industrial que moldou nosso mundo.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Desvendando a história da África”

VISÃO DO PARAÍSO... PARA UNS; DO INFERNO, PARA OUTROS


O poeta e historiador Alberto da Costa e Silva escreveu um primor a respeito das relações luso-africanas, que descambaram em relações luso-indianas e, finalmente, luso-brasileiras.

Ele alertou para o estranhamento que os africanos sentiram ao avistarem aqueles seres humanos de baixa estatura, de cabelos lisos e longos, de faces rosadas e barbudas, nariz comprido, lábios estreitos e pele desbotada. Pareciam não ter artelhos e seu cheiro era fétido. Os que contraiam escorbuto chegavam desdentados e com a boca sangrando.

Em geral, quem descia à terra nos primeiros contatos eram aqueles que traziam um péssimo aspecto, em geral adoentados, febris e infestados de pulgas e piolhos.

Por outro lado, logo perceberam os africanos que tratavam com gente extremamente curiosa, estavam interessados nos aspectos da região, quais riquezas exploravam, qual religião praticavam. Pareciam frágeis às doenças locais, mas traziam consigo armas que cuspiam fogo e faziam um estrondo como um trovão.
Algumas das mercadorias que ofereciam lhes interessavam, outras não. Moviam–se em embarcações enormes e velozes, chegavam a destinos inimagináveis aos africanos restritos à navegação de cabotagem.
Passaram o século XV quase inteiramente descobrindo a costa atlântica da África. Selaram alianças com alguns povos, entraram em conflito com outros. Muitos desses forasteiros tiveram descendentes mestiços, alguns se enriqueceram, enriqueceram outros comerciantes, reis, por vezes empobreceram outros.
Enriqueceram também a variedade de mercadorias comercializadas localmente, o mesmo fizeram em seu terra natal. Mas retiraram dali muitos de seus filhos, comprados como escravos. Profanaram locais sagrados segundo a religião alheia, queimaram ídolos, introduziram uma nova religião.

Introduziram animais e vegetais europeus ou asiáticos na costa atlântica da África, ergueram cruzes, construíram capelas, fortalezas. As relações daí advindas marcaram as relações futuras de Portugal com o resto do mundo.

Em sua segunda viagem à Índia, o capitão-mor Pedro Álvares Cabral mandou descer a uma praia desconhecida um batel, um barco pequeno que permitia ser aportado em praias rasas. Esse era exatamente o procedimento adotado na exploração da África.

Um negro grumete, um marinheiro de baixa graduação, desembarcou e se dirigiu na língua da Guiné às pessoas que avistava, “de cor baça e de cabelo comprido e corredio, e a figura do rosto coisa mui nova”. O risco e era conhecido e esta forma de contato terminou de maneira trágica em diversas incursões portuguesas na África.

A primeira tentativa foi falha. Tentaram então fazer contato em árabe. Obtiveram igual insucesso.

Logo os portugueses se lembraram da descrição dada pelos castelhanos dos povos que encontraram no Poente, isto é, naquilo que seria batizado de América.

Sim, agora sabiam que estavam na outra margem do Atlântico.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Desvendando a história da África”

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A ÁFRICA ENCONTRA A EUROPA


Até a Idade Média européia, as referências que existiam sobre negros se baseavam ou em preceitos bíblicos – eram referenciados como filhos de Cam - e nos textos Greco-romanos. Mas o comércio atlântico trouxe outra referência, mais real.

No Museu do Prado, em Madri, existem diversos quadros contendo pessoas negras. Um deles é o quadro Adoração dos Reis Magos, de Hans Memling e Jerônimo Bosch. Bosch produziu ainda O Jardim das Delícias, contendo também diversos negros – além de animais africanos como elefantes, girafas e outros.
Alberto Durer retratou um negro em 1508 e uma negra, em 1521. Esta última teve como modelo Catarina, doméstica do português João Brandão.

Muita informação sobre populações habitantes do interior da África surgiram no encalço do comércio mediterrâneo. Essa experiência foi se acumulando desde a tomada pelos portugueses da cidade de Ceuta, em 1415, até o término do périplo africano, em 1498. Essa jornada foi marcada pela passagem do Cabo Bojador, em 1434; e pela chegada à Guiné e ao Cabo Verde, na década seguinte. A Costa da Malagueta 
foi alcançada em 1470.

Em 1482 ergueram a fortaleza d`El Mina. Ainda naquela década, Diogo Cão navegou pela Rio Zaire, enquanto Bartolomeu Dias chegava ao extremo sul do continente.

Finalmente, em 1497, Vasco da Gama legou padrões ao longo da costa africana, antes de desembarcar na Índia. Diversos contatos com povos africanos foram travados, embora muitas vezes com resultados trágicos. Já nessa época se tornou comum o comércio de escravos, mas a escala era minúscula se comparada àquela após a conquista da América.

Mesmo após terem travado contato com agentes da Guiné, as hostilidades contra os portugueses eram constantes. Somente após o português Diogo Gomes adentrar a região da Senegâmbia as relações comerciais com Portugal se tornaram constantes, especialmente na região do Rio Gâmbia, o Casamansa, o São Domingos e o Rio Grande.

A chegada dos portugueses coincide historicamente com o declínio do império de Mali e a ascensão do império Songai, mas é difícil estabelecer uma correlação confiável entre esses fenômenos.
A exploração da Guiné se fez por Portugal em parceria com a iniciativa provada: o comerciante português Fernão Gomes recebeu do Rei D. Afonso V o monopólio comercial da Guiné. Desde o início este monopólio enfrentou a concorrência de castelhanos, levando a capturas de embarcações e enforcamento da tripulação. Mais tarde foi a vez dos flamencos enfrentarem o monopólio lusitano.

Somente após a assinatura de um tratado luso-castelhano em 1479, ratificado em 1480 pelos reis, o cenário se tornou menos caótico. Em 1481, o papa Xisto IV emitiu a bula papal Aeterni Regis, no qual ficava ratificada a divisão entre territórios de influência exclusiva de Portugal e da Espanha. Foi então que Portugal decidiu pela construção de um forte no litoral que explorava.

Mas a construção imprescindia de um acordo com líderes locais. Tal entendimento foi conquistado e a fortaleza de São Jorge da Mina foi erguida em poucas semanas. Daí em diante os portugueses barganharam por vantagens comerciais – além de se lançarem à odioso prática da conversão ao cristianismo.
Foram inevitáveis e cada vez mais comuns conflitos com povos locais, levando à recusa absoluta de tolerar estrangeiros no seu litoral. A permanência desses europeus necessitou da adoção de costumes locais, isto é, os portugueses se africanizaram na chamada Costa da Mina; dessa forma conseguiram se manter intermediando o comércio de riquezas africanas.

Outra saída encontrada foi a aliança com povos vizinhos, como os de Eguafo e Fetu. Com a alinça com os ntotila do Congo, em 1482, os portugueses conseguiram fazer parte de uma imensa rede comercial africana. Mercadorias européias e africanas eram trocadas intensamente a partir de então. A navegação portuguesa levou esse comércio a atingir proporções intercontinentais. Foi inevitável a reorganização social em diversas partes do continente surgida com essa inédita atividade comercial.

No entanto, a aliança entre Portugal e os povos do Congo terminou de maneira trágica, quando foram atacados por outros povos, solicitaram ajuda a seu aliado europeu, que respondeu com a mais cínica omissão.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Desvendando a história da África”

          

ESCRAVIDÃO NA ÁFRICA – TÃO ABOMINÁVEL QUANTO GOBAL


O Sudão africano era chamado pelos árabes de Bilad al-Sudan, ou “terra dos negros”. Foi ali que provavelmente nasceu a deplorável instituição da escravidão, a partir do estreitamento do contato entre populações nômades do deserto do Saara e os povos sedentários da região do Sahel.

Não se pode dizer que não havia qualquer tipo de escravidão até então, pois já havia uma espécie de escravidão de linhagem.

O camelo foi introduzido no deserto do Saara entre os séculos I e III. A partir de então as tribos berberes iniciam sua expansão, que incluiu as regiões dos oásis e a criação de diversas rotas comerciais.
Eram comuns ataques de nômades (inclusive os sedentários que habitavam os oásis) a povoados limítrofes, o que levou diversos desses povos a serem cativos dos berberes.

O estreitamento do contato entre povos das savanas - cultivadores da terra, criadores de animais, pescadores – e tribos nômades – pastores e caçadores – levou ao nascimento de relações comerciais, que trazia o gene da escravidão dentro de si desde o berço – porém de maneira incidental, não estava ainda na base da estrutura de produção e comércio.

As relações sociais de ambos os povos era baseada nas relações étnicas e de parentesco, conformando uma estrutura social comunitária, portanto ligada à linhagem do indivíduo – não existiam classes em conflito. Portanto, mesmo que um indivíduo fosse reduzido à condição de escravo, ele não faria parte de uma classe de escravos; este exerceria as mesmas tarefas de qualquer outro indivíduo – até mesmo porque os escravos eram muito pouco numerosos.

Os escravos poderiam futuramente vir a fazer parte do núcleo familiar, o que poderia ser desejado pelo próprio clã familiar, pois ser numerosos era precondição para aumentar o poder e a influência.

Por seu turno, haviam os escravos vistos como meras mercadorias. Estavam restritos a exercerem as funções para as quais foi designado. Este era o destino dos escravos adquiridos por tribos berberes, ou mesmo daqueles que faziam parte de tribos conquistadas, caso fossem reduzidos à condição de escravo.
Aos poucos, tarefas muito estafantes foram sendo exercidas majoritariamento por escravos, como o trabalho de extração de minérios: o ferro era conhecido e muito usado no Sudão, há muito tempo; o sal vinha de minas no Saara; o ouro vinha de regiões ao sul, e era adquirido delas. Em todos esses trabalhos a mão de obra escrava se fazia presente.

As relações de conflito eram, até certo ponto, equiilibradas: se, por um lado, os nômades conseguissem prevalecer usando de sua superioridade militar; por outro, os povos sedentários agrícolas possuíam uma estrutura social mais sólida, uma cultura mais enraizada, o que obrigou aos nômades, por diversas vezes, a se adequarem à sociedade que eventualmente conquistassem.  

Conforme as relações comerciais se desenvolviam, diversas aldeias pululavam ao longo das rotas comerciais do deserto. Aos poucos, tornavam-se importantes centros comerciais, levando o comércio da África negra a outros continentes. Audagost e Ualata evoluíram para portos caravaneiros relevantes.

Enquanto o comércio e as rotas comerciais tomavam corpo, um outro “produto” da região se tornava cada vez mais comum: os escravos. Exportados para o norte da África e para o Oriente Médio, os escravos se converteram nas mercadorias mais valorizadas no comércio transaariano, ao lado do sal e do ouro.

Inicialmente eram direcionados para o trabalho nos oásis e nos canaviais da África mediterrânea, porém, com a expansão dos reinos muçulmanos, viram sua demanda ampliada para o trabalho nos palácios: fosse no exército, fosse nos haréns. Serviços domésticos e a lavoura, pouco a pouco, passaram a demandar quantidades enormes de cativos. Meninos e pré-adolescentes eram desejados para serem educados militarmente e, futuramente, integrarem as forças militares.

Aliás essa conformação militar foi batizada de “Força Palaciana”, e também se trornou comum nos reinos de Gana, Mali e Songai: os soldados eram geralmente mercenários ou escravos; os oficiais eram membros da nobreza.

Eunucos eram demandados para as tarefas administrativas, assim como para montarem guarda nos haréns. Os escravos homens adultos eram os mais baratos e eram usados nas tarefas mais penosas.

A escravidão no mundo muçulmano não atingia os descendentes do escravo. Os filhos eram assimilados pela sociedade e uma nova importação de escravos repunha o contingente cativo. Também não havia uma classe de escravos conscientes de sua condição: eles atuavam nas mais diversas atividades, tinham as mais diversas origens, provinham de etnias as mais variadas e normalmente eram incorporados à sociedade em que passavam a habitar. Além do mais, os escravos nas sociedades islâmicas não eram necessariamente africanos: eram comuns escravos vindos da Europa, da Rússia, do Oriente etc.

A condição básica para ser escravo no mundo islâmico eram não praticar o islamismo: um islâmico não poderia escravizar outro islâmico. Daí serem capturados nas regiões de fronteira do Islã. Mas as quantidades foram bastante irrisórias do seu surgimento até o século XV. Deste período até o século XIX o montante praticamente não se expandiu. Exportavam-se alguns milhares por ano, porém saídos de regiões muito extensas, provocando quase nenhum impacto local.

Mas é fato que o islamismo, os grandes reinos africanos e a escravidão se imbricavam a cada dia mais, conformando um novelo reciprocamente auto-alimentado.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Desvendando a história da África”

sexta-feira, 18 de maio de 2018

ROTAS COMERCIAIS AFRICANAS: IMPÉRIO SONGAI


Os songais iniciaram seu desenvolvimento independente após o século XIII, quando se libertaram do império do Mali. Já no século XIV assumiram o controle das cidades de Gao, cidade que se tornaria a capital do futuro império.

Sua construção se assentou na Curva do Níger, utilizavam esse rio como via de transporte em direção ao interior e suas incursões visavam unicamente à pilhagem. No século XV, os songais entraram em conflito contra o Mali, contra os tuaregs e muitos outros.

A expansão militar songai se deu durante o reinado de Sonni Ali, de 1464 a 1493. Abandonaram-se as táticas de pilhagem e adotaram a conquista territorial. Conforme dominava novos centros comerciais importantes, enquanto sua estrutura política se centralizava baseada em princípios islâmicos e consuetudinários. Comissários reais eram enviados periodicamente às províncias para realizarem o recolhimento de impostos.

Quatro grandes cidades comerciais se destacaram com o tempo: Tombuctu, Walata, Djenne e Gao. Estas mantinham laços comerciais estreitos com mercados do Saara e com a Europa mediterrânea. OS comerciantes se estabeleciam ao longo das rotas comerciais, mantendo sucursais em aldeias, mantinham frotas comerciais no rio Níger, possuíam camelos, bois e jumentos para o transporte de mercadorias e mantinham referências de valor, que serviam como moedas – as ais comuns eram baseadas no ouro, no sal e no cobre.

Mais bem organizado e coeso, o império Songai se tornou tão extenso que englobava o litoral atlântico, o sul do Saara, o Sahel, as savanas e se desdobrava em direção ao leste. Suas rotas comerciais alcançavam territórios fora do continente africano.

Foi então que o poderio songai, em franco progresso, entrou em conflito com o Marrocos, outro poder regional e que pretendia controlar as fontes de sal do Saara central, que os songais controlavam.

No século XVI, o reino do Marrocos conquistou o controle das fontes de ouro. Foi quando reivindicaram ter o direito sobre as fontes de sal. Na guerra que se seguiu, apenas os marroquinos tiveram acesso às armas de fogo.

O Estado Songai foi destruído em 1591.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Desvendando a história da África”

ROTAS DE COMÉRCIO: MALI CINTILANTE


O Império do Mali teve sua ascensão no século XIII. Invasões provenientes do norte do continente africano deslocaram o eixo do comércio transaariano para o sul. As fontes de ouro também se deslocaram para o sul, em função da perda de controle das fontes mais antigas, conquistadas por outros povos.

Os governantes do Mali eram originalmente caçadores. Passaram a controlar as minas de Buré e impor tributos sobre os que desejavam explorá-las. Foi o exercício desse controle que deu origem às diferentes formas políticas de grupos existentes nas savanas.

O Império do Mali se conformou a partir de associações cuja extensão atingia fontes de ouro, portos caravaneiros e as rotas que os uniam. Estavam aí incluídas as cidades de Gao, Walata, Tombuctu e Djenne, as jazidas de sal de Tagaza, as minas de cobre de Tadmekka. A riqueza circulava principalmente ao longo do rio Níger. Relatos de diversos viajantes davam conta da segurança e da existência de infraestrutura elogiável ao longo das rotas do Mali.

A cidade de Djenne era produtor agropecuário importante, ligando a região de savana com a floresta, de onde se extraía a valiosíssima noz-de-cola. Também foi nessa floresta que os primeiros comerciantes passaram a trocar sal por ouro. Isso expandiu o império para o sul e ajudou a interiorizar ainda mais a influência islâmica.

Na verdade, a influência islâmica na região data do século XI. Comerciantes muçulmanos eram presença constante na corte do imperador Sundjata Keita. Num império extremamente heterogêneo, o islã foi a amálgama que uniu a todos e propiciou o surgimento de uma atividade comercial intensa. No seu momento máximo, a rede comercial atingia o litoral, a floresta, e existiam diversas companhias comerciais que contavam com escolta e serviço de correio próprios.

A expansão islâmica em Mali tomou impulso após a viagem do Mansa Mussa a Meca, em 1325. A quantidade de ouro transportada por sua comitiva era de tal monta que desvalorizou o preço local do ouro quando chegou ao Egito.

Quando de seu retorno, levou consigo credores, artistas, que deram origem à elite letrada do império. Em seu auge, o império do Mali atraiu olhares ambiciosos de nações européias. Algum tempo depois, o eixo comercial deixou o deserto e passou a ocupar a costa atlântica africana, já no século XV.

A derrocada do império se deveu a diversos fatores: disputas internas pelo controle da política local, novos inimigos em ascensão, especialmente na região do Sudão, e o não menos importante descolamento do eixo das redes comerciais em direção ao litoral atlântico.

Esse descolamento abriu caminho para outra nação africana em ascensão: o Gâmbia. Devido ao aumento dos riscos da rotas que cortavam o Mali, houve o deslocamento das mesmas em direção ao Gâmbia. Esta região era, de fato, parte do império do Mali, então sem a menor importância. Contudo passaram a comerciar com os portugueses, ainda na segunda metade do século XV. O Gâmbia tornava-se assim um grande centro de trocas, suplantando a região de comércio com os muçulmanos.

Os portugueses se esmeraram em conquistar a confiança dos chefes locais, enviando diversas missões diplomáticas com o fim de estabelecer laços comerciais. Já no século XVI o declínio do poder local era indisfarçável e diversos povos foram obrigados, mais uma vez, a se deslocarem para o sul.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Desvendando a história da África”

COMÉRCIO INTERAFRICANO: A SUPERFEIRA DO SAHEL E O OURO DE GANA


O local onde se desenvolveram as principais civilizações africanas atende pelo nome de Sahel: é onde se encontram o deserto do Saara e as savanas africanas, isto é, local de encontro dos pastores nômades do deserto com os agricultores sedentários. Inevitável que ali surgisse uma relação de troca comercial complementar.

Pelo Sahel passavam as principais rotas comerciais do deserto, com suas caravanas e cidades intermediárias, que conformavam uma rede comercial imensa. Essa imensa atividade econômica desenvolveu toda uma gama de serviços correlatos: tributos de passagem, hospedagem, serviços de guias, serviços de guarda e proteção etc.

Por exemplo, iam para o Sudão africano o sal, o cobre, artefatos em vidro, pedras raras, perfumes, panos de algodão, tâmaras e espadas. Na direção contrária iam goma, âmbar, pimenta malagueta, marfim, peles e homens escravizados.

O deslocamento se dava por camelo ou no lombo de jumentos. As mercadorias mais valorizadas eram sal, ouro e escravos.

O alicerce sobre o qual se ergueram as grandes civilizações locais foi a tomada de controle sobre as regiões produtoras dessas riquezas. O acesso às salinas, às minas de ouro, o controle sobre cruzamentos de vias comerciais relevantes, verteram para si montantes de recursos que financiaram a criação de centros de poder e formas de Estados.

Exemplo mais dramático era o tráfico de cativos na região subsaariana. Aristocracias guerreiras dominavam e escravizavam outros grupos, que eram posteriormente trocados por mercadorias, em geral ligadas à guerra, como cavalos.

Provavelmente a história do reino de Gana, cujo início teria se dado no século VIII, deu-se nesses termos. Localizado entre o Saara e as cabeceiras dos rios Níger e Senegal, era estratégico para a dominação das rotas de comércio entre o deserto e a savana.

Logo conhecida como “terra do ouro”, controlava o fluxo de ouro que provinha do sul, por um lado, e o fluxo de sal, em sentido inverso. A riqueza que se acumulava necessitava de proteção, o que foi alcançado com a emergência de um poderio militar, além da coordenação administrativa necessária para governar tal território, a cada dia mais complexo.

Crê-se que a primeira dinastia governante do Gana tenha sido de cameleiros do deserto, que se instalaram nos portos do Sahel com vistas ao comércio do ouro. Essa também foi a porta de entrada no Islã na região, como se lê nos textos de viajantes árabes da época.

Interessante notar que o controle administrativo recaía muito mais sobre as pessoas do que sobre o território, isto é, a influência do governante era exercida sobre diversos grupos de súditos, não importando tanto o território que ocupavam. Assim é que cidades distantes, porém importantes centros de comércio, contavam com certa autonomia, mas eram suseranas; por outro lado, a capital Kumbi Saleh era dividida em duas, uma cidade era o centro administrativo do reino de Gana, enquanto a outra metade era um centro de reunião de comerciantes muçulmanos, portanto quase soberana em seus desígnios.

O comércio foi fulcral tanto para o nascimento quanto para a derrocada do reino de Gana. A perda do controle sobre as rotas comerciais cujo monopólio do ouro e da cunhagem de moeda caía agora em mãos de povos islamizados. Já no século XII o resultados desse enfraquecimento era bastante aparente.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Desvendando a história da África”

quinta-feira, 17 de maio de 2018

CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: MALI, REINO DO SABER E DA CULTURA


O grande reino africano a suceder em relevância o reino de Gana foi o Mali, que o superou em magnificência e esplendor.

O fundador do Mali foi Sundjata Keita, que viveu de 1230 a 1255. Após uma série de vitórias de tirar o fôlego, dividiu seu império em províncias, entregou o poder local a governantes de sua confiança e reduziu os povos derrotados à servidão. Nascia aí o Império do Mali. Sundjata foi de tal forma marcante que ainda hoje é lembrado em oferendas.

O sucessor no trono foi Mansa Uli, filho de Sundjata. Desde então o nome Mansa passou a designar o título do governante maior.

Como muitos governantes o fizeram, Mansa se converteu ao islamismo, certamente por motivações comerciais. Como ocorria comumente também, a populações em geral continuava a praticar suas crenças animistas normalmente.

Mansa Uli, convertido, lançou-se à sua viagem a Meca, tanto por motivos religiosos quanto por interesses comerciais, ao firmar uma rede de relacionamentos relevante, tanto dentro quanto fora do Mali.

De fato, deu resultado:  após a viagem, Djenne e Tombuctu emergiram como duas das cidades comerciais muito importantes. Tombuctu, em fins do século XVI, possuía cerca de 25 mil habitantes, 26 alfaiatarias, que contavam com mais de 200 aprendizes, 150 escolas alcoranistas. Além disso, a cidade contava com muitos juízes, médicos, estudiosos, todos pagos diretamente pelo rei. Em Tombuctu, um dos bens mais concorridos eram o livros manuscritos, muitos deles importados da Barbaria. O comércio mais lucrativo era o de livros.

Tombuctu virou centro do comércio internacional de sal, escravos, marfim etc. Além desses, comercializavam-se livros de História, Medicina, Astronomia e Matemática. O número de estudantes ali residentes tornavam-nos uma classe relevante.

Por tudo isso, era comum o brocardo: “O sal vem do norte, o ouro vem do sul, mas as palavras de Deus e os tesouros da sabedoria vêm de Tombuctu.”

Mansa Kanku Mussa, quem viveu de 1307 a 1332, deu prosseguimento à pujança dourada do Mali. Quando de sua peregrinação a Meca, Mussa levou consigo cerca de 8 mil cortesãos, guerreiros, servos e algo entre 10 e 12 toneladas de ouro.

Em Meca, adquiriu casas e terrenos, distribuiu esmolas e presentes. Quando de seu retorno, levou consigo letrados, comerciantes e religiosos. Mussa era fluente em árabe.

Se, por um lado, a jornada esplendorosa de Mussa ficou marcada na memória coletiva, sendo festejada em versos e prosas pelas décadas que se seguiram, por outro trouxe um mal agouro: aquela demonstração de riqueza atraiu a cobiça de povos europeus.

Já por volta do século XV, a decadência do Mali era visível. Após seguidos ataques de tuaregs, povos nômades do deserto do Saara, o Mali foi dividido e reinos minúsculos, dando adeus a seus anos gloriosos.      

Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Desvendando a história da África” 

CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: GANA, O IMPÉRIO DO OURO


Gana foi o primeiro grande Estado africano surgido ao norte do Equador; localizava-se no Sudão Ocidental, entre os estados do Mali e da Mauritânia atuais. O ouro era sua principal fonte de riqueza.

O comércio em torno do ouro envolvia especialmente os árabes, que o trocavam por tecidos, sal, cobre, dentre outros bens.

Com a expansão do islamismo, as classes dirigentes adotaram massivamente a nova religião, conversão esta motivada principalmente por interesses comerciais.

Com o tempo, qualquer nação expansionista localizada na região do Mediterrâneo tinha Gana como seu fornecedor de ouro, tornando estratégicas suas parcerias. Gana tinha diversos reinos sob seu domínio, figurando-se assim como Estado tributário, isto é, que cobrava tributos sobre a passagem de mercadorias por seu território; além das atividades relacionadas à extração do ouro.

Gana é uma palavra local que significa “senhor da guerra”, é em sua origem portanto um título concedido ao chefe do reino.

A capital do reino se chamava Kumbi Saleh, protegida por um grande exército, que se encarregava também de proteger as rotas comerciais, cujo controle vertia vultosas somas aos cofres do reino.

A posse da terra era coletiva, o que permitia seu uso individual ou coletivo. Praticavam a caça, a pesca e a coleta de frutos. Entre as atividades profissionais mais comuns estavam as de ferreiro, pastor, mercador e outras funções semi-especializadas.

Havia uma relevante desigualdade social entre os habitantes das cidades e os do campo. A influência islâmica foi perceptível nas cidades, com suas casas de pedras, cercada por muralhas; ao contrário da zona rural, cujas casas feitas de barro.

Os comerciantes árabes e arabizados, endinheirados, vivam numa cidade próxima, onde contavam com bazares, plantações irrigadas e dezenas de mesquitas.

O primeiro reino do Gana sucumbiu após a ascensão do reino de Mali. No auge, contava com mais de 1 milhão de habitantes.

Sua capital foi tomada em 1076. Dez anos depois retomou sua independência, mas sem a pujança de outrora, muito em razão de nãos mais conseguir controlar as minas de ouro.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Desvendando a história da África”