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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

NAMORADEIRAS, SERENATAS E VIOLAS


Para as meninas, a vida na cidade, após a absoluta reclusão da casa-grande, não sofreu mudanças muito abruptas. Do alto dos sobrados, as garotas do século XIX não poderiam sequer se demorar demais nas janelas. O casamento continuava a ser arranjado pelo pai.

Mas o poder do “pater famílias” começava a erodir. Isto porque o poder antes concentrado sob sua batuta começava a ser compartilhado com outras instituições que emergiam: medicina governos, bancos escolas, poder judiciário, cada uma delas passava a exercer uma função na vida das mulheres, função esta que ficava a cargo do “pater” ou do padre. Se antes elas se confessavam para o padre, agora deveria dar informações completas e precisas ao médico; a educação dos filhos deixava o ambiente doméstico e passava à batuta do diretor da escola, que decidia o que deveria ser ensinado; agora era o juiz quem dizia o que era justo, independente do que pensasse o pai.

Apesar do olhar vigilante do pai, surgia um meio de comunicação entre meninas e meninos que superava os bloqueios paternos: a janela. A “sinhazinha” apoiada na janela, emitindo suspiros sonhadores, podia trocar olhares com transeuntes, eventualmente ouvir uma seresta. Foi uma evolução significativa se comparada ao total isolamento do campo.

Os encontros sociais ganharam um novo evento: os saraus. Oferecidos dentro de casa, nesses encontros jovens trocavam olhares ao som de modinhas tocadas à viola ou ao piano. Já os encontros públicos ainda se resumiam à missa e às quermesses. Era a ocasião em que se maquiavam e punham seus vestidos mais vistosos. Era quando se trocavam mensagens e olhares apaixonados. Olhares que buscavam ansiosamente um braço descoberta, uma perna descuidada, afinal a moça recatada deveria cobrir todo o corpo, deixando só pés e mãos disponíveis aos olhares masculinos.

De qualquer maneira, as poucas brechas deixadas pela família foram suficientes para que surgisse a idéia “tresloucada” do amor romântico. Como a família nunca estava disposta a aceitar as decisões da filha quanto a seu futuro marido, a segunda metade do século XIX viu uma explosão de uma nova modalidade de crime: o rapto por amor. Rapazes raptavam, literalmente, a amada e assim contraíam o desejado casamento.
Como se tratavam de atos criminosos, os jovens eram julgados por um juiz, não pelo pai da moça – e isso tirava ainda mais a autoridade paterna.

Os noivados eram curtos, para que a virgindade ficasse melhor protegida do marido, que somente a tirava na noite de núpcias, vigiado pela imagem de Cristo na cruz. E após o casamento, permanecia a tradição de separar as funções da esposa recatada, dona do lar e base da família, daquelas reservadas à amante, que exercia as funções que não se consideravam “dignas” da esposa.
     

Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”

MOCINHAS FRANCESAS, JOVENS POLACAS E BATALHÕES DE MULATAS


O cenário do Rio de Janeiro logo da chegada da família Real, em 1808, era o de uma cidade rural de 60 mil habitantes. A elite residia em chácaras nos arredores: atuais bairros de Botafogo, Catete, Laranjeiras.
As mulheres brancas vivam enclausuradas em casa. Podiam-se vê-las debruçadas nos peitoris das janelas, na missa ou em quermesses.

A cidade do Rio de Janeiro possuíam àquela altura 46 ruas, 4 travessas, 6 becos, 19 largos praças, todos imundos e mal cheirosos. Ali se ombreavam escravos, escravos libertos, comerciantes, funcionários da Coroa, clérigos.

Com a chegada da Coroa e seus asseclas, 15 mil pessoas se somaram àquele contingente. Eram funcionários reais, profissionais liberais, oficiais militares. Sendo a nova sede, ainda que provisória, do império português, a cidade do Rio recebeu inúmeras melhorias: instituições públicas, militares e civis, o Horto Florestas, a Biblioteca Real, Academia de Belas Artes, Laboratório Farmacêutico, Escola de Anatomia, Academia Militar... a lista de imensa.

Províncias agora empobrecidas, como Minas Gerais, viram um enorme afluxo de pessoas em direção ao Rio de Janeiro, incluindo muitos escravos em busca de alguma ocupação, servindo à elite da metrópole recém-chegada. Em 1821, a população já havia chegado a 116.444 pessoas. Em 1849 já contava com 266.466 habitantes e seu porto já estava integrado nas principais rotas comerciais do mundo.

Tendo esse cenário ao fundo, inúmeros viajantes fizeram seus relatos sobre o que viram na cidade naqueles anos. Todos afirmavam unanimemente que a devassidão e a luxúria imperavam pelas ruas, especialmente na classes mais baixas. Aqueles grupos de escravos reunidos em praças, dançando e cantando ao som de batucadas, vestindo roupas leves (apropriadas ao clima tropical), soavam como lassidão moral aos olhares europeus. E foi essa impressão que serviu para associar o negro ao pouco recato sexual. Também se testemunhou o efeito que o abuso sexual dos brancos sobre seus escravos negros teve para dificultar a formação de laços familiares estáveis junto às classes mais baixas.

Um outro efeito que a chegada da família real teve no ambiente da cidade foi o acentuamento do desequilíbrio entre homens e mulheres. Em 1848, havia duas mulheres para cada três homens – entre estrangeiros, era uma mulher para cada três homens. O primeiro efeito desse excesso de demanda foi uma inflação elevada no mercado da prostituição.

Pois bem: excesso de procura por prostitutas e classes sociais bem definidas levaram à segmentação das prostitutas de acordo com seu público alvo. Em 1845, o médico Lassance Cunha, professor na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, identificou três espécies de “mulheres públicas”, como chamavam as prostitutas: as de primeira ordem, geralmente estrangeiras, mas podiam ser brasileiras que residiam em sobrados ou hotéis caros, especializadas em atender membros da elite; as de segunda ordem eram negras, pardas, açorianas, ou “escravas brancas”, trazidas por traficantes de pessoas do Leste Europeu, que atendiam em sobradinhos da cidade, especializadas em homens das classes médias; as de terceira ordem buscavam seus clientes nas ruas, atendiam-nos em pensões e se especializavam nas classes mais baixas.
Doutor Lassance ainda identificou a “prostituição clandestina”: escravas prostituídas pelo seu senhor, mulheres que tinham outra profissão e quem praticava atos “contra a natureza”: lesbianismo, sodomia, coito pelo “vaso traseiro” etc.

As prostitutas de primeira ordem eram as “francesas”. Tentavam trazer para cá a sofisticação dos bordeis parisienses. Inicialmente atendiam à elite recém-chagada, mas o público se expandiu com os cafeeiros do Vale do Paraíba.

A rua do Ouvidor, no centro do Rio, era agora o centro da vida à parisiense. Comerciantes franceses lá estabelecidos viam a elite política e econômica se reunir em seus cafés, confeitarias e livrarias. Salões de dança e o teatro Alcazar completavam o cenário idílico.

As “francesas” estavam por toda parte, em busca de clientes ricos. Dos camarotes do Alcazar ou de dentro de suas carruagens, usavam olhares e sorrisos como convites para um encontro íntimo. OS hotéis mais caros da Ouvidor também serviam como bordéis de elite, ou “pension d`artistes”, no linguajar comum da época.
Notabilizou-se nesse período a cantora Aimée, o “demoninho louro” nas palavras de Machado de Assis, que seduzia os homens com sua voz, nos palcos, mas seu principal atrativo eram suas diabruras na cama.
Em pouco tempo, o dinheiro que a elite queimava em sua busca do prazer que os transportassem para a Europa fez despertarem preocupações com a estabilidade social, haja vista o luxo em que viviam afundadas as cortesãs afrancesadas.        

Foi por volta do século XIX que a autoridade do padre foi totalmente suplantada pela do médico. Agora, cada prática sexual que não fosse com o intuito de reprodução, recebia uma denominação específica: exibicionismo, fetichismo, automonossxualismo, homossexualismo, safismo etc. Ou seja, a carga moral ainda era muito forte;  a “normalidade” ainda era um conceito cristão.

No Brasil, a partir de 1808, com a fundação da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, ocorreu o mesmo. Mas aqui o alvo foi precipuamente a prostituição. E o alto número de contaminações por sífilis era a “prova” de que a medicina precisava para combater aquele “mal”. Além da sífilis, o Rio de Janeiro convivia com outras epidemias, como a de cólera, que denunciavam as péssimas condições sanitárias existentes. Mas, apesar disso, a sífilis e sua rápida associação com as prostitutas levaram à criação de políticas voltadas para a regulação da profissão, como já ocorria na Europa. Foi a maneira encontrada de manter aqueles seres “degenerados” distantes das esposas “angelicais e sadias.

Organizaram-se, portanto, locais específicos para a prática da prostituição. Na primeira metade do século XIX, o local escolhido pela polícia e pelos médicos foi a região da Lapa. Na segunda metade, mudam-no para a zona do Mangue (atual bairro do Estácio). A polícia vigiava o local e as prostitutas eram obrigadas a se registrar e a receber visitas médicas.  


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

NAZIFASCISMO, A REPRESSÃO DO PRAZER E A CURA GAY


O ambiente intelectual e boêmio fascinante de Berlim no entreguerras produziu feitos notáveis: o expressionismo alemão no cinema, Bertold Brecht no teatro, a escola de arquitetura Bauhaus, o método educacional inovador Waldorf.

Mas agora o fim se avizinhava. Se em meados da década de 1920 os empréstimos americanos tiraram a economia alemã do fundo do poço, agora o crash de 1929 fazia a fonte de recursos secar. OS desempregados que somavam 350 mil em 1930, em 1932 chegavam a 650 mil.

A crise econômica agora levava o centro do espectro político a abraçar a extrema-direita e seu principal líder: Adolf Hitler. Aquele que era chamado jocosamente de “cabo agitador” pelo presidente Paul Von Hindenburg, em 1933 venceu a eleição para chanceler. Declarou-se abertamente guerra a qualquer coisa que pudesse ser chamada de vanguardista.

A ferramenta usada por Hitler para conquistar tamanha vitória foi a mais simples possível: o medo. O líder do partido nacional-socialista inculcava o medo dos comunistas, dizendo que eles iriam destruir os valores tradicionais: família, propriedade e nação. Semeava o ódio aos judeus usando a imagem de judeus odiados naqueles dias: financistas, empresários, líderes comunistas, intelectuais e artistas “degenerados” (nome que usava para artes de vanguarda).

Pequenos comerciantes, empregados públicos, agricultores e toda uma multidão de recentes desempregados abraçaram o discurso do ódio e do medo.

No que se refere à libertação sexual, o nazismo pôs uma pá de cal sobre as aspirações de toda uma geração. Agora a mulher voltava ao trinômio conservador alemão “Kinder, Kuche, Kirche” – filhos, cozinha e igreja.

Segundo o ideário nazista, às mulheres eram proibidos pintar o cabelo, usar cosméticos: era obra de comerciantes judeus que desejavam vulgarizar a pureza das alemãs, transformando-as em prostitutas.
Em 1933, Hitler fez passar a “Lei de Incentivo ao Casamento”, pela qual forneciam-se empréstimos aos recém-casados. Se houvesse filhos, os valores eram incrementados. Obviamente os casamentos não poderiam ser miscigenados e as crianças deveriam ser “arianos” saudáveis. Se a mulher gerasse um quarto filho, o casal estava liberado das dívidas. Se desse à luz oito filhos, recebia uma medalha de ouro.

Mulheres solteiras – e arianas, claro - eram incentivadas a ter filhos de membros arianos puros da SS: elas fariam parte imediatamente de uma “elite” racial nacional. Os atestados de pureza racial deveriam regredir a, pelo menos, 1750. As habilidades mais cobradas das jovens recém-casadas eram habilidades domésticas e instinto maternal. Apesar das regras restritas, mais de 240 mil alemãs foram aceitas como “reprodutoras de arianos” de membros da SS.

Controles de natalidade e clínicas de planejamento familiar foram considerados ilegais. Mulheres judias, prostitutas, ciganas e portadoras de doenças genéticas (incluindo alccolismo e depressão) foram esterilizadas.

Algum resultado surtiu efeito: em 1935 o número de nascimentos chegou a 1,26 milhão, contra cerca de 900 mil em 1933. A profissão feminina mais comemorada era a de parteira e a emancipação feminina se tornou ideia subversiva.

Em 1938 já não havia mais parlamentares alemães no Reichstag. Contudo, o sucesso inicial das blitzkrieg levou à expansão do território, o que abriu espaço para as leais arianas em escolas, hospitais e nos escritórios do Partido. E assim as alemães se tornaram responsáveis por inculcar aquele ideário asqueroso na cabeça dos futuros cidadãos.

No que se refere às práticas sexuais, valia o mais profundo conservadorismo à São Paulo: sexo, só para reprodução. Em 1936, o orgulhosamente homofóbico Heinrich Himmler fundou o Escritório Central do Combate À Homossexualidade e ao Aborto. Iniciava-se uma ofensiva contra os gays e transexuais. O Instituto de Pesquisa da Sexualidade foi atacado pelo bando da Juventude Nazista. O campo de concentração de Fuhlsbuttel pasosu a se especializar na recepção de presos homossexuais: pintavam a letra A neles; mas depois passaram a desenha um triângulo rosa. Com isso, supõe-se que entre 5 e 15 mil homossexuais foram para lá levados para serem “curados”.

A “cura gay” nazista se iniciava com sessões de estuproterapia, no caso dos homens, ocorridas num galpão transformado em bordel; as mulheres eram obrigadas a se prostituírem. Experimentos com hormônios e cirurgias também eram aplicados. Não foram raros os casos de mortes violentas, praticadas por soldados.

E assim a humanidade teria de aguardar pelo fim do segundo grande conflito para poder respirar novamente ares mais liberais.   


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”

A RESSACA DO RECATO NO ENTREGUERRAS


Após a I Grande Guerra, os EUA se fixaram na posição de mais rico do mundo, posição que ocupava desde 1890. Desde 1913 as linhas de montagem da Ford funcionavam sem parar. As classes operárias agora consumiam eletrodomésticos, geladeiras, rádios, máquinas de lavar, aspiradores de pó, telefones, torradeiras etc.  

Os sobreviventes do conflito, que o viveram ainda no início da vida adulta, eram chamados de “geração perdida”: vivenciar a morte de tantos milhões, viver sem a certeza de que haveria de fato um futuro para viver, os tornou pessimistas e desorientados, sem os referenciais tão claros que a geração anterior teve.

O ambiente político era marcado por agitações sociais, desejo de vingança e angústia devidfo às incertezas políticas. Também foram anos marcados por medidas autoritárias, como a Lei Seca dos EUA; pela descrença no capitalismo criador de conflitos, opondo-se ao medo trazido pela sombra do comunismo; pela violência das gangs de mafiosos de Chicago e de NY; pelo ódio ao nacionalismo e ao apego desmedido à família.

Tudo o que era identificado com as gerações anteriores era agora velho, anacrônico. E tudo o que era identificado como velho representava a desgraça, a destruição, o mundo em ruínas que os “velhos” entregaram aos jovens. Os jovens então tomaram uma decisão: jogar aquele trambolho no lixo! A autoridade da Igreja se esvaziou; o sotaque britânico “posh” foi rejeitado socialmente; métodos anticoncepcionais se popularizaram.

A guerra havia aberto o mercado de trabalho às mulheres. Deixando o ambiente doméstico, ocuparam postos em fábricas e escritórios. A quantidade de mortos durante o conflito levou à falta de mão de obra, criando a demanda por trabalhadoras. Ao fim do conflito, era impossível retroceder totalmente o estado das coisas.  

O voto feminino não tardou. Na década de 1920 norte-americanas, britânicas, australianas, canadenses, neozelandesas, austríacas, polonesas e russas podiam votar. A queda drástica da mortalidade infantil e a redução do número de filhos por casal (por causa dos métodos contraceptivos mais eficazes, que evitavam agora a gravidez indesejada) auxiliaram sobremaneira a emancipação feminina.

A Revolução Russa, uma revolução socialista, trazia consigo o ateísmo a si inerente. Esse fato ajudou a dilapidar ainda mais as bases tradicionais do mundo de então.

Quanto aos EUA... bem, eles eram os donos da banca e queriam esbanjar muito. A Era do Jazz que se iniciava foi marcado por jovens imersos em bebedeiras, pelos automóveis e pelo rádio. Nos nightclubs, desfilavam jovens fumando cigarros e correndo atrás de jovens de cabelos curtos e encaracolados, dançando e mostrando as pernas – o som enlouquecido produzido por músicos negros harmonizava muito bem com aquela atmosfera de perda do controle, de alegria transbordando.

Como costuma ocorrer nesses momentos de libertação, grupos que pensavam de maneira oposta buscaram conter o avanço liberal. O principal deles atendia por três letras: era a maldita KKK. A Ku Klux Klan foi criada em 1915. Por volta de 1920 contava entre 4 e 5 milhões de filiados: homens, brancos, protestantes e anglo-saxões (WASP), geralmente moradores do Meio-Oeste e do Sul do país, nascidos em ambientes rurais. Buscavam fazer “justiça com as próprias mãos” contra tudo o que ameaçasse a “América verdadeira”: criminosos, estupradores, traficantes de drogas, contrabandistas de bebidas alcoólicas (o consumo de álcool foi proibido), proxenetas, homossexuais, todos eles eram alvo em potencial da KKK. A aprovação da Lei Seca foi uma das vitórias desse grupo.

Já as grandes cidades eram quase imunes aos apelos mais conservadores da KKK: bebia-se sem tomar conhecimento da Lei Seca, gângsteres eram pouco incomodados vendendo álcool, ou mantendo bordéis e cassinos.

Intelectuais e grandes escritores como Scott Fitzgerald, Hemingway e Ezra Pound descreveram e criticaram a fundo a cultura yankee nesse período. O fato de todos eles terem se mudado para Paris também revela muito do que pensavam daquela sociedade.

Aliás, Paris vivia dias bastante intensos, também. Ainda era a cidade mais culta e bela do mundo e, além disso, os riscos de bombardeios acabaram. A vida noturna e intensa acendeu as luzes e saiu às ruas. Garotas da “Provence” deixavam suas cidades para trabalhar nos bordeis parisienses, que viviam uma explosão semelhante à da Belle Époque. Ou seja, Paris agora reunia belas prostitutas, álcool sem restrição e liberdade intelectual absoluta. A ponto de o pós-guerra ter sido marcado pelo surgimento de expressões artísticas novas, como o dadaísmo. Músicos como Sergei Prokofiev deixaram os EUA e se mudaram para Paris.

Outro símbolo sintetizador do entreguerras foi o cinema. Diversos estúdios se estabeleceram em Hollywood na década de 1920 e a produção cinematográfica européia, indiscutivelmente a maior do mundo até 1914, era agora superada pela produção hollywoodiana.

Com a popularização das películas, agora todo bordel de luxo deveria contar com um projetor de filmes pornográficos. Surgiram até grupos de pessoas nos EUA que alugavam rolos de filmes pornô para exibir em festinhas. Normalmente o tema era algo relativo a voyeurismo e traziam cenas de lesbiansimo, masturbação feminina e ménage à trois.

Mas nenhuma cidade foi mais afetada pelos novos tempos do que Berlim. O fim da I Guerra Mundial apresentava uma Berlim tomada por greves, manifestações marchas lideradas por grupos comunistas, como a Liga Espartaquista – cujos líderes, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, foram assassinados poucos dias antes da eleição para a Asembléia Constituinte que inauguraria uma nova Alemanha, sucessora do Império que demolira, que ficou conhecida como República de Weimar.

Os primeiros anos dessa República foram um caldo prestes a entornar: crises e ressentimentos mil tomaram conta dos alemães. Mas também houve muita produção intelectual e uma revolução sexual parecia tomar forma. O ambiente de liberdade da cidade, nascido após a derrubada das leis de censura do tempo dos Kaiseres, fez com que Berlim rapidamente passasse a competir com Paris em intelectualidade e boemia. As fronteiras abertas da nova Alemanha fizeram para lá afluírem artistas de vanguarda franceses, russos e americanos.

A economia que, por sua vez, encontrava-se no limbo, foi anabolizada pelos dólares norte-americanos: após anos de crise, em 1924 um plano econômico conseguiu o parcelamento das dívidas referentes a reparações de guerra, além de ter injetado bilhões na economia, fruto de empréstimo concedido por Washington. A hiperinflação foi-se embora e o país voltou a crescer. Em 1928 o padrão de vida alemão era igual àquele que tinham antes do conflito mundial. O Partido Social Democrata conseguia avanços na legislação social inéditos.

Se o país pouco a pouco se tornava um lugar bom para os mais idosos e pais de família, os jovens pouco tinham do que reclamar: a noite berlinense fervilhava de prostitutas, cafés viviam lotados, bordeis para homossexuais se multiplicavam e os transgêneros adquiriam uma visibilidade difícil de se conceber pouco antes. Completando o cenário: cabarés que apresentavam comediantes contando sátiras sociais e políticas, dançarinas e cantoras estavam por toda parte, atrizes se vestiam de homens, atores se vestiam de mulheres.

Em 1919, o médico Magnus Hirschfeld deu início ao que seria um dos nomes mais emblemáticos do entreguerras na Alemanha: o Instituto de Pesquisa da Sexualidade. Fundado em defesa dos homossexuais, esse instituto contribuiu para a emancipação feminina, para o planejamento familiar, promovia educação sexual e a popularização de métodos contraceptivos, tratava de doenças sexualmente transmissíveis, lutava contra leis homófobas e antiaborto e muito mais. Hirschfeld não considerava o homossexualismo uma doença, portanto não buscava a cura deles, mas tentava fazê-los viver naquela sociedade desfavorável a eles.

O Instituto possuía um Museu, que ficou bem famoso: tinha gravuras eróticas, retratos de travestis famosos, tinha uma coleção de cintos de castidade, ferramentas de masoquistas, pênis artificiais e muito mais.

O cinema alemão foi, naquelas décadas, o mais prolífico da Europa. E essas produções fervilhantes deram à luz uma diva: Marlene Dietrich. Saída dos cabarés mais famosos de Berlim, encarnou a femme fatale como poucas. Logo foi levada à Hollywood, sedenta por talentos. Em seu primeiro filme em solo yankee, chamado Marrocos, de 1930, encantaria como uma cantora de cabaré que se vestia de homem e se notabilizou com uma cena de beijo lésbico.

Essa era a Berlim que o fantasma do nazismo espreitava...  


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

LEIS DE CONTROLE DA PROSTITUIÇÃO – COMO MANTER A SUJEIRA DEBAIXO DO TAPETE


A falsa moralidade da classe média exigia que se fizesse algo com relação às prostitutas, exceto proibi-las, claro. A solução foi instituir a regulação dos bordeis e submetê-los às fiscalização da polícia. Essa história teve início na França.

Devido ao contágio de doenças nos campos de guerra, o retorno dos soldados de Napoleão passou a ser um problema, pois trazia o risco de uma epidemia em todo o país caso as prostitutas contraíssem doenças venéreas deles e as disseminassem para a população. A partir de então todas as prostitutas passaram a se submeter a diagnósticos médicos mensais, pagos por elas mesmas. Se se verificasse que portavam doenças venéreas, eram logo internadas em hospitais e submetidas a tratamento médico.

Somente prostitutas autorizadas poderiam trabalhar.

Após o período napoleônico, a monarquia foi restaurada na França. Com isso, a política direcionada às prostitutas retrocedeu: foram proibidas de freqüentar as áreas próximas aos Palácios, as praças e espaços públicos próximos a edifícios oficiais. Em 1830, todas as ruas, avenidas e jardins públicos estavam vedados às prostitutas. Exporem-se em janelas e portas também estava proibido.

Restava a prostituição nos bordeis licenciados, que foram beneficiados pela redução da concorrência. Com o tempo foram também se especializando no tipo de público que desejavam atrair: havia desde as tavernas até os estabelecimentos de alto padrão.

Em 1848, quando Napoleão III subiu ao trono, Paris era a capital mundial dos bordéis e das prostitutas famosas. A transformação da monarquia católica num império burguês dirigido pelo sobrinho do Terrible Enfant veio acompanhada de todo um projeto megalomaníaco de reconstrução de Paris. Aquela aglomeração medieval de edifícios teria de dar lugar a uma metrópole moderna e o encarregado da transformação foi o barão de Haussmann, então prefeito da cidade.

Paris agora era a Cidade-Luz, atraindo ricos e poderosos de todo o mundo, ávidos por desfrutar um pouco da luxúria com que a cidade se confundia.

Fosse nos cafés, fosse nas Óperas, fosse nos grandes “magasins” as prostitutas estavam por toda parte. Sempre vestidas em veludo ou penas, desfilavam pelos salões. A mais famosa de todas se chamava Alphonsine Plessis, referida como “a Divina Marie Duplessis”.  

Tendo trilhado uma carreira meteórica, Duplessis passoua  divertir os ricos freqüentadores do Jockey Club. O pianista Franz Liszt declarou num jornal, após sua morte: “Ela era a mais absoluta encarnação da mulher que já existiu”. Foi ela quem inspirou Alexandre Dumas a escrever A Dama das Camélias e a ópera La Traviata.

As cortesãs mais caras poderiam receber seus clientes em suas mansões luxuosas, servindo jantares sofisticados.

O período que antecedeu a I Guerra Mundial, A Terceira República, ficou conhecido também como Belle Époque: relaxamento moral, euforia cultural e otimismo econômico davam o tom. E nunca até então se buscou tanto o prazer.

O bordel mais famoso de todos funcionava na rue des Moulins, 24. De tão esplendoroso foi imortalizado nos quadros de Toulouse-Lautrec e recebia até excursões vindas de outras cidades. Os bordeis de classe média também eram bastante freqüentados, sendo um deles, Pensão Tellier, descrita num conto de Guy de Maupassant.

As classes se enfileiravam em frente a bordeis baratos, em pensões ou cortiços.

Conforme o tempo da monarquia se distanciava, o controle sobre a prostituição foi se afrouxando e os bordeis passaram a sofrer a concorrência de prostitutas clandestinas.

Em 1895, entrou em cena o cinema. Apresentado pela primeira vez pelos irmãos Lumière, poucos anos depois a invenção já divertia freqüentadores das novas salas em Paris ou Nova York, exibindo mulheres em posições sujestivas, pelo custo de apenas 1 níquel.

Rapidamente as autoridades perceberam que o tal do “cinematógrafo” poderia ser usado com fins educativos. Fitas didáticas sobre doenças venéreas e educação sexual foram produzidas. A indústria pornográfica logo usou a motivação didática para produzir fitas de sexo explícito. Assim nasceu a antológica produção “Positions”, em que um sexólogo comentava as posições sexuais de um casal.

Todo o progresso tecnológico e econômico, resultado de quase um século de relativa paz entre as grandes potências, criou as bases para o progresso social que se viu no século XIX. Mas tudo isso desembocaria no primeiro dos dois conflitos mundiais que marcariam o século XX.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

MORALIDADES E BOÇALIDADES: SEMPRE DE MÃOS DADAS


O cenário da cidade de Londres na era vitoriana, longe da estrita moralidade doméstica, era mais ou menos esse: “bebedeira, blasfêmia, palavreado profano, xingamento, indecência, profanação do dia do Senhor e outras práticas dissolutas, imorais e desordeiras”. Para enfrentar esse estado de coisas, em 1822, criou-se a infame Sociedade pela Supressão do Vício.

Inicialmente ela travou guerras contra a pornografia: em 1845, por exemplo, foram apreendidos 12.346 ilustrações e 393 livros com conteúdo pornográfico. Em 1857, ela tinha promovido a prisão de 159 pessoas, por motivos relacionados à pornografia.

Finalmente, em 1857 a Sociedade fez o Parlamento aprovar a Lei das Publicações Obscenas. Centenas de lojas foram fechadas.

Mas a pornografia era apenas parte da paisagem que a ínclita Sociedade pretendia purificar. A região metropolitana de Londres contava com cerca de 80 mil prostitutas por volta de 1840. Cerca de 1.800 prostíbulos foram contabilizados pela polícia. Esse foi o ambiente em que surgiu o serial killer Jack, o Estripador, assassino em série de prostitutas.

A identidade visual da era vitoriana foi sua extrema desigualdade social. Pelas ruas, viam-se crianças de doze anos pedindo esmolas pelas ruas, muitas vezes sendo forçadas pelos pais a se prostituírem com esse fim. Viam-se também mulheres trabalhadoras, que viam na prostituição seu complemento de renda – nas fábricas, recebiam uma fração do que recebiam os homens; como empregadas domésticas, tinham uma vida de escravidão; a prostituição era uma escolha bastante razoável, portanto.

As meninas virgens logo passaram a conformar um mercado concorrido: era deflorando tais meninas que os homens se curavam da sífilis e da gonorréia, acreditava-se na época. O tráfico de meninas virgens moveu os mercados de todo o continente. Trens chegavam trazendo meninas virgens de toda parte, movimentando o caixa de bordeis especializados no novo filão.

Os meninos estavam distantes de alguns pesadelos que aterrorizavam o universo feminino, mas não escaparam de outros. Um dos mais inquietantes, sem dúvidas, foi a guerra à masturbação, deflagrada por uma nova medicina, que tomava o lugar antes reservado aos padres e bispos. Se os clérigos viam nisso pecado, os médicos viam transtorno mental.

Houve até mesmo uma teoria médica, a Kraft-Ebing, que tratava a masturbação como uma via em direção à homossexualidade, pois terminava por imprimir a imagem do pênis na mente do menino. No Kansas, EUA, entre 1893 e 1898, médicos destruíram os testículos de 44 homens internados num hospício, por se masturbarem frequentemente.

Um médico inventou um aparelho que descarregava choques elétricos sempre que o menino tinha uma ereção durante o sono. Em 1864, um médico francês costurou a vagina de uma menina, para ela não se masturbar. Outros médicos o criticaram: ele devia extrair o clitóris inteiro!

Um menino teve o pênis cauterizado, para impedir de se masturbar.

Outra vertente da medicina procurava associar a mulher que caia na prostituição com desvios de caráter e até mesmo com propensão inata à atividade. Falta de sentimentos maternos e insanidade moral eram apontados como motivos catalisadores que as levavam, primeiramente, ao “deboche”, depois, ao bordel. Logo a “falta de inteligência” e a “frigidez sexual” entraram na exação dos motivos.  

Multiplicavam-se experimentos que faziam uso de choques, eletrodos, uso de cobaias humanas. A desumana perseguição promovida pelas igrejas foi, pouco a pouco, sendo substituída por médicos frios e que as tratavam como um objeto de pesquisa desprovido de sentimentos.    


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”

A INGLATERRA VITORIANA E OS VIBRADORES FEMININOS


A vida doméstica da Inglaterra do século XIX girava em torno da dona de casa. Não era uma mulher que exercia precipuamente o papel de reprodutora, mas alguém que gerenciava o lar, por administrar a criadagem, por comprar os produtos necessários para a casa. O marido deveria ser ativo, forte, empreendedor; a esposa deveria ser graciosa, amável, discreta, paciente, maternal. Esses eram o patrão e a patroa.

Pouco a pouco, o número de empregados que se possuíssem seria a medida do sucesso do casal. Na virada para o século XX, a Inglaterra tinha mais de 1,5 milhão de pessoas trabalhando como empregados domésticos, a maioria residindo na casa dos patrões. Era o segundo maior empregador do país.

A patroa passava seu tempo livre lendo revistas de etiqueta, novelas sentimentais, estudava piano convidava as amigas para o chá da tarde... A esposa representava o equilíbrio moral e espiritual do lar: não precisava ser inteligente, deveria apenas ser uma santa. E essa cobrança causaria diversos transtornos na mente feminina: todo desejo deveria ser reprimido.

Desde o Egito antigo, toda alteração no comportamento da mulher que trouxesse desmaios, nervosismo, insônia etc. era chamada de “histeria” – nome derivado da palavra grega para útero. O tratamento vitoriano para a histeria surgiria em 1880: o vibrador elétrico.  

Na Grécia antiga, acreditava-se que a “hysteria” surgia dos movimentos do útero pelo corpo da mulher. Em Roma, acreditava-se que os humores do corpo criavam a hysteria. Somente o contato com o corpo do homem curaria. Na Idade Média, o exorcismo era o tratamento. Agora os médicos ingleses acreditavam que o tratamento passava por massagens na genitália da paciente até o paroxismo histérico, o que nós chamamos de orgasmo.

Pois bem, essas massagens demoravam horas e muitos médicos chegavam a lesionar as mãos. Daí a invenção do dr. Joseph Mortimer Granville, que tornou o tratamento mais cômodo aos profissionais dedicados da era vitoriana.

Não demorou para tomar outros usos mais recreativos, claro.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”

ONDE HOUVER BURGUESIA, HAVERÁ PUTARIA?


Após a superação de séculos de mandos e desmandos da nobreza, uma nova classe social despontava. Apesar das intermináveis guerras, externas ou civis, a era do absolutismo fez crescer o comércio internacional e a geração de riquezas. Tendo deixado o campo e surfado no progresso urbano, residiam em cidades, eram donos de manufaturas, de tecelagens, eram boticários, donos de armazéns, eram profissionais liberais, como médicos e advogados.

Não eram pobres como os camponeses nem ricos como nobres. Com o dinheiro que amealhavam compravam imóveis cada vez maiores, estudavam cada vez mais. Com a redução da mortalidade, causada pelo controle de pestes e pelo aumento da disponibilidade de alimentos, a burguesia deu nascimento à família nuclear. Esta família reduzida deixava de fora sogros e cunhados – mesmo os nobres viviam em casas enormes no campo, rodeados de parentes da família estendida. Além disso, exigia uma fonte de renda que permitisse a independência familiar. O resultado dessas mudanças foi que o homem passou a se casar por volta dos 30 anos, enquanto as mulheres o faziam por volta dos 28.

O desenho das casas também se alterou. A cozinha foi deparada da área de serviço e passou a ser o habitat da criadagem. As funções que eram da cozinha passaram para a sala de estar. A mulher ganhou um cômodo, onde podia exercitar sua intimidade à vontade: o boudoir. O homem poderia ter seu gabinete próprio.

Essas mudanças levaram à inevitável prática do sexo antes do casamento: o número de bebês abandonados explodiu; as camisinhas (feitas de intestino de ovelha ou de bexiga de peixe) passaram a ser vendidas em lojas populares, os bordéis voltaram a funcionar de maneira mais aberta.

Na Inglaterra, as práticas sexuais de antes do casamento eram chamadas de bundling: o rapaz e a moça se deitavam nus, faziam carícias, conversavam, sem a presença de qualquer familiar, mas era proibida a penetração. Na França essa prática era chamada maraîchinage: diversos casais dividiam a mesma cama e cada qual fiscalizava o outro para que não ocorresse penetração. A virgindade era o “tesouro” a ser preservado, mas agora o risco maior era a gravidez resultante da fornicação.

O final do século XVIII trazia um cenário bastante diverso daquele de seu início: as Igrejas estavam com seu poder moral enfraquecido, os bordéis e a carreira na prostituição voltaram à tona. E houve uma especialização da diversão: casas de moças refinadas, casas de masoquismo, peep shows com muito sexo explícito...

Em Londres, miss Fawkland era dono de um concorrido bordel, em Westminster: formado por três casas geminadas, a primeira era chamada Templo de Aurora e trrazia meninas de 12 e 16 anos, que poderiam apenas ser acariciadas; O Templo de Flora era uma espécie de bordel de luxo; o Templo dos Mistérios era para os sadomasoquistas. Em outros, as meninas eram apresentadas em cardápios, no estilo das cartas de vinhos.

A conseqüente praga de doenças venéreas, desenvolvidas pelo avanço da vida boêmia, era tradicionalmente combatida fazendo sexo com virgens. Essa “medicação” levou ao aparecimento de diversos bordeis especializados em virgens – além do próprio tráfico de meninas virgens para trabalharem nesses bordeis.
As irmandades de libertinos amantes das orgias e do “swing” de casais se multiplicavam, como o Hell-Fire Club londrino. O “vício inglês” – autoflegelação e msoquismo – levou ao surgimento de fortunas, como a amealhada por Theresa Berkeley: 1,4 milhões de dólares atuais em apenas oito anos atuando nesse mercado.

A subcultura homossexual também floresceu. Na França, orgias desse tipo ocorriam em até mesmo em jardins, como o de Versalhes; em Estocolmo, a sodomia corria solta em banheiros e em parques públicos; em Haia, uma pisada no pé era a senha para o flerte entre homens – o mesmo se se agitassem lenços. As Molly houses londrinas eram administradas por homens que usavam nomes femininos.

A transferência de funções das Igrejas para o Estado também desviou o poder cerceador sobre a sexualidade para este último. Diversos países criaram patrulhas de informantes que dedurassem pederastas. Criaram-se listas com nomes de suspeitos. Na França, apenas após a Revolução francesa a homossexualidade deixou de ser crime.

A masturbação também passou a ser perseguida por um novo ator: a medicina. O médico suíço Samuel-Auguste Tissot comparava-o a um suicídio no longo prazo. A guerra contra o onanismo somente se arrefeceu após a II Guerra Mundial.

O século XVIII também viu o fortalecimento do mercado da pornografia “implícita”: isto é, livros de medicina, autos de processos judiciais por crimes sexuais, publicações sobre casamento, tudo passou a trazer algum conteúdo pornográfico votado aos ávidos onanistas...

Os famosos libelos, livretos que se dedicavam a difamar poderosos por conta de escândalos sexuais, feitos famosos nos anos da Revolução Francesa, caíram no gosto popular. A mais famosa vítima desses antepassados das revistas de fofocas foi a rainha Maria Antonieta. Era chamada por eles de: lésbica, prostituta, sodomita, ninfomaníaca, incestuosa – diziam que se deitava com o próprio filho. Sobre seu marido. O rei Luís XVI, diziam: que seu pênis não ficava ereto, que não era mais grosso do que um canudo, e que era incapaz de dominar a fúria vaginal da esposa.

Um símbolo prolífico desse período atendia por marquês de Sade. Passou 27 anos preso POR crimes sexuais capazes de envergonhar até a um libertino contemporâneo. Cinco meses após casar-se, em 1763, foi preso por espancar uma prostituta. Cinco anos depois, seqüestrou uma viúva de 36 anos, num domingo de Páscoa – amarrou-a e a açoitou na cama. Depois disso cortou seu corpo com um canivete e pingou gotas de cera de vela derretida sobre as feridas. Quando a viúva se rendeu e passou a contar-lhe suas confissões, Sade chegou finalmente ao orgasmo. Ficou preso por mais sete meses.

Em 1772 foi condenado mais uma vez: em meio a uma orgia que se estendeu por vários dias, ao lado de um servente e quatro prostitutas, foi condenado por envenenamento e sodomia. Passou mais quatro meses na cadeia, até que conseguiu escapar para a Itália, com a cunhada. Descoberta a fuga, Sade foi condenado à morte na França.

Na Itália, Sade não deixou seu desejos exóticos arrefecerem: Florença e Nápoles também se chocaram com alguns de seus feitos sexuais.

Surgiram muitas histórias envolvendo seu nome e sexo com bebês, com defuntos, com desmembrados e também fazendo uso de orifícios furados no corpo de crianças.  

Retornou à França, ao seu castelo, onde investiu mais quatro loucos anos em orgias. Terminou preso, condenado a 13 anos. Agora, nem mesmo seu título nobiliárquico pôde ajudá-lo.

Na prisão da Bastilha, deu início a suas obras, que ligariam para sempre seu nome a expressões como “sadismo”, “sádico” e “sadomasoquismo”. Publicou primeiramente suas cartas à esposa: uma série de confissões sobre seus desejos sexuais. Depois, veio sua obra maior, “Os 120 dias de Sodoma, ou a escola de libertinagem”. Era a história de 4 homens ricos que seqüestraram 46 adolescentes e deram início a mais de 600 experiências sexuais, sempre aumentando o nível de crueldade, variando os orifícios explorados, as ferramentas usadas. A história era narrada por quatro cafetinas.              

Essa obra foi publicada em 1785, apenas quatro anos antes da Revolução Francesa. Após o estouro do conflito, Sade foi libertado e se juntou aos revolucionários – contava já 50 anos de idade. Chegou mesmo a ignorar sua origem nobre e se apresentava como “cidadão de Sade”. Mas a derrubada da nobreza esvaziou seus bolsos.

Em 1801, Napoleão ordenou que fosse preso novamente, agora pela publicação de outras duas obras. Dois anos depois foi transferido para um manicômio. Neste, manteve um romance com uma filha de uma das funcionárias. Morreu lá internado.
   

Rubem L. de F. Auto         

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

ANCIEN RÉGIME DO ADULTÉRIO


O período seguinte à morte de Luís XIV ficou conhecido como Regência, de 1715 a 1723. Quem assumiu o trono provisoriamente foi Felipe, duque de Orléans. Seu nome vinha acompanhado de epítetos: “fanfarrão de vícios”, “depravação moral que desconcertava e indignava”. Vivia bêbado, teve uma série de filhos bastardos, blasfemava contra tudo e contra todos. Foi também acusado de dormir com a filha – tão depravada quanto o pai, aliás. Seu prazer eram a depravação e as orgias.

Em Paris, surgiam naquele período diversos grupos e associações que tinham como objeto o prazer: a Ordem da Felicidade endeusava a galanteria acompanhada de muita safadeza; a Ordem Hermafrodita se dedicava a organizar orgias.

Também foi nesse período que veio a público a obra “120 dias de Sodoma”, do marquês e Sade – quem, aliá, estava preso naquela altura pelo cometimento de uma série de crimes sexuais.

Passados os anos insanos da Regência, Luís XV assumiu o trono francês. Logo distribuiu cargos oficiais a suas amantes: madame de La Tournelle; e duas plebéias, madame de Pompadour e madame du Barry.
Madame de Pompadour foi preparada desde a infância para ser cortesã: cantava, tocava cravo, atuava. Depois de conquistar o coração do rei, exibiu o status de quase rainha por mais de 20 anos. Mesmo sendo frígida (ela e o rei não faziam sexo desde 1750), manteve o posto de amante oficial até sua morte, em 1764. Mantinha o rei entretido lançando mão de outros artifícios: adornava seus aposentos com flores, preparava deliciosos pratos, servia ótimos vinhos, contava histórias divertidas, cantava e tocava no cravo, declamava poemas, tecia observações sobre novos palácios em construção, mostrava suas descobertas em botânica, obtidas por meio de experimentos realizados nos jardins de Trianon.

Em 1768, após um luto de quatro anos, Luís XV nomeou sua nova maîtresse-en-titre: madame du Barry, uma jovem prostituta. Se esta não tinha um décimo da sofisticação de Pompadour, sobrava-lhe vigor na cama. Além disso, dominava técnicas de higiene encantadoras para a época: banhava-se em água perfumada com rosas em diversos dias da semana.

Mas a Corte francesa, acostumada a mulheres sofisticadas e inteligentes, não aceitava aquela mera prostituta deslumbrada e extravagante. E seus dias ficaram ainda mais difíceis quando Luís XVI, ainda príncipe, casou-se com Maria Antonieta, quem tinha apenas 14 anos à época. Antonieta e Du Barry duelaram abertamente pelo posto de amante oficial (evidentemente ela não tinha idéia do motivo daquele cargo), o que divertia os membros da Corte. Ao final da disputa, quando Du Barry entrava em Paris a bordo de sua carruagem, o povo gritava: “Puta Real”.

Após assumir o trono, Luís XVI baniu Du Barry da Corte, como sua esposa desejava.

Tantos gastos e privilégios exorbitantes acabaram por levar o Estado francês à bancarrota. Aquela nobreza ociosa, que vivia basicamente dos rendimentos provenientes da posse da terra, pagos pelos pobres camponeses que labutavam no arado diariamente, ou de pensões e cargos públicos, recebidos sem qualquer contrapartida, estava isenta de impostos.

Não era difícil supor aonde aquele estado de coisas levaria o país...  


Rubem L. de F. Auto         

Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”


NOBREZA: LUXO, ÓCIO E SACANAGEM


A entrada em cana dos reinos absolutistas marcou o fim da soberania que os nobres tinham sobre seus feudos. Tornaram-se vassalos, isto é, ocupantes de posições de confiança do rei. Ganharam cargos e privilégios: altas posições no Exército e na Igreja.

Sem poderes ilimitados em suas terras, restava aos nobres bajular o rei e esperar que caísse algumas migalhas em seus bolsos. Assim, criou-se uma espécie de competição entre os nobres pela atenção e, por conseguinte, pelos favores do Rei.

Nessa toada, não faltavam oportunidades para que o nobre exercício da bajulação ocorresse. No palácio de Versalhes, peças de teatro, óperas e balés faziam sua estréia antes de irem ao circuito de Paris. Três vezes por semana o rei promovia noites de diversão: no Salão de Vênus, oferecia um enorme bufê; no Salão de Diana, jogava-se bilhar; no Salão de Apolo, o móvel era a música; no Salão de Mercúrio, os jogos eram o tema; o Salão de Marte recebia os amantes da dança.

Outra oportunidade muito concorrida de bajular Vossa Alteza ocorria diariamente: tanto seu adormecer quanto no seu despertar eram cerimônias públicas, quando interessados podia para lá acorrer. Aliás, o despertar era dividido em duas partes: o petit lever e o grand lever. As refeições também eram cerimoniosas: havia o petit couvert e o grand couvert.

Em todos esses momentos, reis que se fizeram sinônimo de absolutismo, como o monumental Luís XIV, deveriam olhar para os lados e ver pessoas que não gostariam de ser esquecidas por ele. Espiões a seu serviço se encarregavam de informar nomes de quem viesse a fazer algum comentário desagradável sobre Sua Majestade.

As regras de convivência social se tornaram complexas e passaram a ocorrer em grande parte dentro de salões. Esse foi o momento em que as mulheres finalmente saíram de casa. Agora deveriam ser vistas, e essa regra não servia apenas para as cortesãs. Nessa sociedade já bem menos cristã do que as anteriores, às mulheres não bastava se comportarem como se santas fossem: agora elas deveriam amáveis e graciosas no trato pessoal; deveriam conhecer bem as regras de etiqueta à mesa; deveriam saber usar o tom de voz mais adequado a cada ocasião; deveriam conhecer razoavelmente sobre artes (mas sem ser pedantes, claro); era recomendável saber usar frases espirituosas, de fino humor, mas sem despertar polêmicas; apreciavam-se aquelas que declamassem poemas ou prosassem divertidas histórias; saber servir convidados e ser cortês com os mesmos conquistava admiradores, também.

Esse tipo de sociedade abriu guerra contra o fedor. A dama francesa poderia gastar até seis horas preparando sua beleza: envolta por criadas, claro, que permaneciam bastante ocupadas. Esse período viu o fornecimento de água em Paris esmaecer, o que forçou os hábitos de higiene a não usarem água: toalhas e pós ocuparam seu lugar. O cabelo era limpo com pó de arroz. O corpo era limpo com toalhas perfumadas, que se passavam pelo rosto, torso e axilas.

As maquiagens das mulheres eram tão carregadas que elas criavam personagens para desfilar pelos salões à noite. Perfumes e incensos revelavam o estrato social que o indivíduo ocupava. Essências de violeta, rosa, íris, almíscar e âmbar eram disputadas.

Já o trabalho, na corte, era sinônimo de sofrimento e de vergonha. O ócio e a falta de utilidade eram aquilo que trazia admiração, de fato.

Em Versalhes residiam mais de 10 mil pessoas, que acompanhavam a Corte como se espetáculo fosse. A burguesia poderia ter acesso àqueles fatos pela imprensa; mas só os nobres os presenciavam.
Se ver o rei era um privilégio, que dirá de se deitar com ele? Luís XIV era casado com Maria Teresa, mas teve diversas amantes. A duquesa de La Valliére, foi uma delas. A casa de caça em que se encontravam para seus momentos reservados, após diversas reformas, tornou-se Versalhes. A amante-real seguinte foi madame de Montespan. Ao mesmo tempo, Luís começou a trocar afagos com a viúva Scarron. Algum tempo depois, entrou em cena Marie Angélique de Acorailles, de apenas 18 anos – faleceu após engravidar do rei.   

A amante oficial era intitulada maîtresse-em-titre: recebia pensões e o cargo de conselheira íntima do rei.
 La Montespan caiu em desgraça após ser acusada de orquestrar o “Caso dos Venenos”: uma série de mortes por envenenamentos, ocorridas na Corte. Não foi condenada, mas teve de se manter distante do rei.
O resultado das aventuras amorosas de Luís XIV foi o seguinte: teve uma filha com La Villiére, dois filhos e duas filhas com La Montespan; um filho com a rainha. Não se contabilizam aqui os filhos bastardos.

Os inimigos do rei gostavam de repetir: “Foges da guerra, mas persegues as belas”. Diversas obras exploravam esse lado obscuro de Sua Majestade.

O reinado do Rei Sol marcou uma revolução na imagem da França em todo o mundo: o francês era agora uma língua diplomática importante; cozinheiros franceses eram muito respeitados; móveis franceses eram os mais desejados; tapeçarias, jóias, vestidos, penteados, tudo vindo “de França” era tido como o melhor, mais nobre.

Paris era um centro de estudos importante, para onde acorriam membros da elite dirigente e econômica de todo o mundo. A Academia de Belas Artes francesa serviu como modelo a todas que surgiram posteriormente.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Luxúria: como ela mudou a história do mundo”