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segunda-feira, 6 de março de 2017

A MAIOR CRISE DA HISTÓRIA: DOENÇAS, FOME E CAOS DA RESSACA FEUDAL


Por volta do século II d.C., doenças surgidas em locais isolados do planeta, porém disseminadas para diversas outras paragens por conta dos intercâmbios populacionais provocados por guerras, havia arrasado a população de diversos países do mundo.

Mas a tragédia não estava completa. Mudanças climáticas catalisaram os efeitos negativos. Cientistas calculam que o clima estava ficando mais e frio e mais seco a cada dia. O esfriamento global reduziu as estações dedicadas à colheita, reduzindo os alimentos disponíveis e lançando diversos refugiados às migrações por toda a Eurásia.

Com isso, diversas redes comerciais, construídas ao longo de séculos, começaram a desmoronar. Diante da falta de recursos, Estados deixaram de pagar seus soldados. O resultado foi a mutação de soldados em bandidos. Generais se tornaram chefes guerreiros, se uma autoridade suprema.

Na China, em 189 d.C., uma revolta interna resultou no incêndio da capital imperial e no seqüestro do imperador-menino, de apenas 8 anos de idade. Ao fim, o grande império se esfacelara em 3.

Roma seguiu destino bastante semelhante. Crises agrícola e comercial esvaziaram os cofres, de modo que os imperadores passaram a desvalorizar suas moedas (reduzindo a quantidade de prata), o que levou a uma crise inflacionária. O passo inevitável seguinte foi a suspensão do pagamento do soldo dos soldados.

Sem pagamentos e numa economia de preços crescentes, a revolta era inevitável. Em 193 d.C. (com repetição em 218), a guarda imperial se apossou do trono. Entre 218 e 222, Roma foi “governada” por um adolescente psicopata (mesmo para os níveis romanos). Entre 235 e 284, Roma contou 43 imperadores. Quase todos militares. Todos terminaram seus mandatos assassinados, exceto por um, que morreu de doença. Dos 42 assassinados, dois morreram pelas mãos dos godos e dos persas. Os 40 restantes foram assassinados por compatriotas romanos.  

Quando um general se sublevava contra o império, seus batalhões deixavam suas posições e se lançavam em inevitáveis guerras civis. As fronteiras ficavam desguarnecidas, permitindo movimentos ameaçadores dos povos vizinhos. Durante esses períodos: godos construíram navios e atacaram a Grécia; francos invadiram a Gália e a Espanha; a própria Itália foi atacada; mouros invadiram o norte da África; persas queimaram a Síria.

Sentindo-se completamente desprotegidas, as províncias romanas formaram governos próprios e, em 260 d.C., o Império Romano se cindiu em três.

A crise se arrastou até o século III. Após meio século, Roma recuperou o controle sobre toda a bacia do Mediterrâneo em 274. Em 280, a reunificação alcançou a China.

Mas o caldo entornou de novo e Roma retrocedeu ao caos no final do século IV.

Em 476, após mais 70 anos de violência e caos desnorteantes, um rei germânico anunciou que a metade ocidental do império romano não mais existia.

Na China, a dinastia Sui conseguiu enfim reunificar todo o império.

O Império Romano do Oriente, rebatizado para Império Bizantino, liderado por Justiniano, em 520 conseguiu reconquistar partes da Itália e da Espanha, além do norte da África. Contudo, no século seguinte, os bizantinos foram obrigados a recuar.

O processo seguia um curso cíclico. Seguidos ataques contra um império estabelecido lançava a região em uma onda incontida de violência e caos; após a vitória, o novo rei entronado procurava restabelecer a ordem e a lei; para tanto, extorquia impostos; o novo Estado, rico, passava a ser produto da cobiça dos vizinhos; e começa tudo outra vez.

A devastação provocada por guerras e conflitos traz conseqüências além da imaginação menos sofisticada. Incapazes de prover segurança, os governos lançavam os comerciantes locais num ambiente inviável, em termos de atividades comerciais. Não mais comerciando e lucrando, os governos não mais recolhiam impostos – sem falar na população, alijada do consumo de bens diversos. Sem renda, os governos ficavam sem os exércitos, os soldados engrossavam as fileiras do banditismo, que tinha os simples camponeses como vítimas. A reação dos camponeses foi procurar a segurança dos grandes senhores de terras.

A moeda de troca exigida pelos senhores de terras (mais tarde, feudais) foi organizar os camponeses em milícias, que policiavam as terras e coletavam impostos. Donos de suas próprias tropas, esses senhores se tornaram a cada dia mais independentes dos poder central. Ao mesmo tempo, os monarcas se viam com menos autoridade sobre os nobres.

Resumindo: a perda de poder pelos soberanos levou ao encolhimento dos exércitos, desmembramento das redes de comércio. Como as novas milícias eram bem rústicas, se comparadas aos disciplinados exércitos nacionais, a própria cadeia de comando deixou de existir.

Incapazes até de pôr em funcionamento um sistema tributário, os reis passaram a distribuir títulos de nobreza àqueles que conseguissem manter forçar de segurança que pudessem ser convocadas quando o rei estivesse em apuros.

Rapidamente os senhores de terras (ou feudais) descobriram uma maneira de conseguir mais soldados: concediam pedaços de terras a cavaleiros que se prontificassem a se apresentar em caso de conflito, além daqueles que conseguissem recrutar.

A principal consequência para os monarcas foi sua perda de ascensão sobre seus homens.        

Quanto ao império Bizantino, este foi destroçado por árabes recentemente islamizados, por volta de 630. Em 650, esses mesmos árabes conquistaram a Pérsia. Em 750, os muçulmanos já eram senhores do Marrocos ao Paquistão. Frequentemente atacavam aFrança e Constantinopla.

A noroeste da Europa, os germânicos que haviam invadido o império Romano e criado reinos próprios onde antes eram províncias do antigo Império não paravam de fazer guerras. Quando apresentavam um monarca mais forte e com soldados mais competentes, seus reinos cresciam por incorporação de outros. O que mais se destacara nesse período foi o rei Carlos Magno, que virtualmente unificou as Europas ocidental e central entre 771 e 814. Magno conseguiu tais sucessos ao se impor sobre a nobreza, cobrando-lhes pesados tributos e alfabetizando a população.

O sucesso de Magno foi coroado quando o papa o proclamou Sacro Imperador Romano. Seu sonho de império único se desfez com sua morte. Seus filhos dividiram o legado, dando origem ao que seria França e Alemanha, futuramente.

Completando o cenário de caos e violência, os vikings vinham se aproximando a cada dia mais, vindos do extremo norte, saqueando cada reino com que se deparavam no caminho.  

Dessa forma, o colapso de antigos impérios levou o mundo ocidental a um caos milenar, que foi superado apenas após os sucessos econômicos europeus, especialmente após a conquista da América.
       

Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.   

A BARBARIDADE CRIOU A IMUNIDADE - A VERDADEIRA ARMA DOS SOLDADOS


Poucas coisas pareciam mais odiosas aos olhos dos aristocratas romanos do que os bárbaros. E dentre as coisas mais odiosas que os bárbaros faziam, nada superava a prática dos escalpos pelos citas, outros povos nômades. Nas palavras de Heródoto: “Quando um cita mata seu primeiro homem, ele bebe um  pouco de seu sangue e leva sua cabeça para o rei. Depois, cortam a cabeça em círculo ao redor das orelhas e, segurando-a, arranca a pele fora. Em seguida, raspa essa pele com uma costela de boi e a amassa com as mãos até que fique maleável; então passa a usá-la como guardanapo.”

O romano Amiano Marcelino descreveu suas impressões sobre os hunos: “Eles têm um corpo atarracado, membros fortes e pescoço grosso. E são tão horrendos e deformados que parecem animais sobre duas pernas.”

Contudo, apesar do largo uso da violência, a mais desumana concebível, o maior assassino em guerras, desde sempre, foram as doenças. A rotina de juntar milhares de homens, pô-los em espaços minúsculos, submetê-los a uma alimentação sofrível e em locais fétidos criou o melhor ambiente possível para a proliferação de doenças. Daí surgiu um arsenal mortífero que há muitos séculos nos acompanham: disenteria, diarréia, tifo, tuberulose...

Em 161 d.C., ouviu-se sobre uma nova e mortal doença na fronteira noroeste da China, onde ocorria mais uma guerra contra povos nômades. Essa nova doença havia rapidamente matado um terço dos soldados. Apenas quatro semanas após, relatos idênticos vieram da Síria. Em 167 d.C., finalmente, a misteriosa praga chegava a Roma. O número de vítimas nessa última foi de tal monta que Marco Aurélio adiou sua partida em direção ao Danúbio, para tentar achar uma solução. Não apenas não a achou como ainda levaram a nova praga consigo.

Analisando os sintomas relatados, supõe-se que se trate de varíola.

Após apenas um ano do nascimento, entre um quarto e um terço de todos os bebês morriam em até um ano do nascimento. Poucos adultos sobreviviam após os 50 anos. Doenças como a varíola se desenvolveram isoladamente, contudo as guerras mudaram o cenário.

Algumas pessoas traziam anticorpos para aqueles vírus e bactérias, mas seriam necessários muitos anos até que seus germes se espalhassem para os demais. Estimativas para o Egito apontam para uma redução de 25% da população, entre 165 e 200 d.C.

As milhares de mortes causadas por essas doenças deixaram os exércitos em frangalhos, diversas cidades bem protegidas caíram diante dos inimigos e a crise social conseqüente estraçalhou sociedades, da China a Roma.     


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.   

POVOS DAS FRONTEIRAS: O VIETNÃ DO IMPÉRIO ROMANO


Por muitos séculos, o Império Romano vinha sendo sitiado por povos vindos do leste, das estepes e pradarias. Um desses povos era conhecido como sármatas, povo nômade que viviam ao longo do rio Don, no século I d.C.

Eram conhecidos pela sua violência: segundo Heródoto, descendiam das amazonas e nenhuma mulher sármata poderia se casar sem que antes houvesse matado ao menos 1 homem em batalha.

Quando os sármatas se aproximaram da margem norte do rio Danúbio, Domiciano temeu pelo seu império e solicitou auxílio dos soldados que estavam na Bretanha.

O contato entre povos nômades vindos de longínquas estepes com povos germânicos de agricultores deu origem a povos que uniam o melhor dos dois mundos: os agricultores adotaram cavalarias e táticas de guerras mais modernas, seus chefes receberam o título de reis, exibindo poderes absolutos, liderando exércitos e cobrando tributos.

Um desses povos bárbaros que se formavam, conhecidos como Godo, habitantes da região do mar Báltico. Em 15 d.C. começaram uma marcha ao sul, em direção ao mar Negro. Após formarem uma federação, começaram a cruzar o rio Danúbio. Os romanos os chamavam de Marcomanos, ou Povos da Fronteira.

A resistência romana foi liderada pelo imperador Marco Aurélio, que reinou de 161 a 180 d.C. Amante do conhecimento, Marco Aurélio se deliciava passando longas horas estudando filosofia, quando debatia com maestria com professores gregos e romanos.

Mas os ameaçadores bárbaros interromperam os estudos do sábio imperador. Marco Aurélio liderou seus soldados nas dolorosas marchas ao longo de florestas densas e úmidas, após atravessarem o Danúbio. A invencível armada romana foi treinada para atuar em terrenos semelhantes àqueles do norte da Itália: planícies abertas e amplas, que permitiam realizar manobras militares complexas. Se movimentar por trilhas estreitas, em florestas chuvosas eliminava quase todas as táticas confiáveis dos romanos e os expunham a um terreno que não dominavam, ao contrário desses novos inimigos.

Mesmo assim, Marco Aurélio encontrou tempo para escrever sua grande obra, Meditações, onde expunha todo seu entendimento sobre a filosofia estóica.

Enfrentar uma guerra indesejada, contra um inimigo indesejado e usando táticas e se movendo por terrenos desconhecidos e para os quais seu exército não foi treinado não foi “privilégio” do imperador Marco Aurélio. Os sucessores do presidente Eisenhower sofreram transtornos semelhantes no Vietnã.

Harry Summers, coronel do exército dos EUA, contou sobre sua experiência quando foi enviado a Hanói, em 1975, logo após os americanos e seus aliados perderem o Vietnã do Sul.

Um general vietnamita chamado Tu, falante fluente de inglês, recebeu o coronel americano no aeroporto. Tendo em vista o clima de tenso entre os dois países, a conversa logo descambou para a provocação.
Summers disse a Tu: “Sabe, vocês nunca ganharam de nós no campo de batalha”. Tu replicou: “Talvez isso seja verdade, mas também é algo irrelevante.”

As semelhanças envolvem os dois lados dessas disputas. Os exércitos romano e norte-americano tinham plena consciência de sua superioridade e, portanto, buscavam o embate direto, franco; por sua vez, tanto os germânicos quanto os norte-vietnamitas, igualmente conscientes de sua inferioridade em campo de batalha, procuravam evitar esse tipo de batalha, buscando táticas que melhor lhes favorecessem.

No túmulo de Marco Aurélio, a ornamentação lá insculpida, em homenagem aos seus longos anos massacrando germanos, apresenta ao público cenas de romanos queimando aldeias, roubando animais e matando prisioneiros. Uma pequena amostra do que foi a carnificina encenada pelos seus soldados.
Mesmo quando os romanos conseguiam enfrentar batalhas campais, as táticas dos inimigos tornavam o cenário bastante diverso daqueles que estavam acostumados. As muitas dificuldades e as táticas utilizadas foram expostas nas linhas escritas pelo historiador Cássio Dio:

“Eles formaram um quadrado, de frente para todos os oponentes. A maior parte dos homens deixava os escudos no chão e ficava parada, com um pé em cima do escudo, para que este não escorregasse. Então recebiam a carga do inimigo. Agarravam as rédeas, escudos e lanças dos cavaleiros. Puxando-os para frente, arrastavam homens e cavalos por cima deles. Se um romano caía para trás, puxava o inimigo para cima dele, e então, com as pernas, o fazia voar por cima, como um lutador de luta livre, e se safava. Se caísse para frente, mordia o sármata ... Os bárbaros, não acostumados a esse tipo de coisa, e usando armadura leve, entraram em desespero. Poucos escaparam.”

Após essas batalhas e tendo enfrentado o inferno que os sassânidas, povos persas cujos soldados e cavalos entravam em batalha completamente vestidos de cotas de malhas bastante maleáveis e confortáveis, que também ameaçavam as fronteiras romanas, o império montou sua cavalaria, cada vez mais numerosa. Por volta de 500 d.C., era a fileira mais numerosa nas legiões.
    

Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.   

sexta-feira, 3 de março de 2017

DERRETIMENTO DE FRONTEIRAS: IMPÉRIOS DESMORONAM! ONTEM, HOJE E SEMPRE


Na região de Vindolanda, localizada no norte da Inglaterra e antiga fortaleza romana no país, existe um conjunto de fossas cuja escavação tem se mostrado bastante interessante.

Entre pilhas de fezes e urina, foram achadas centenas de cartas de soldados, escritas sobre pedaços de madeira. A mais antiga data de 90 d.C., portanto contemporânea das batalhas de Agrícola no país.  

A grande maioria dessas correspondências conta o tédio de que padeciam os antigos guerreiros deslocados para a Bretanha.Outras missivas davam notícias de casa, comentavam sobre o tempo ruim, além das centenas delas implorando o envio de cerveja, meias e comida com o tempero de casa. Certamente os soldados atuais, lutando suas batalhas longe de casa, escrevem linhas bastante parecidas com essas.

Por 40 anos, esses soldados guarneceram as fronteiras do império contra os caledônios e suas escaramuças mortais. Porém, cerca de 120 d.C., os soldados lá posicionados passaram labutar na construção de uma murada, cruzando todo o norte da Bretanha: a grande muralha de Adriano – nome do imperador que emitiu tais ordens. Foi o reconhecimento pelos romanos de que não seriam capazes de continuar a expandir seus domínios na região.    

O imperador que primeiro reconheceu as fraquezas que começavam a solapar o império foi Domiciano. Este já vinha retirando tropas de outras regiões e as enviando para reforçar as fronteiras ao longo do rio Reno. As tropas deslocadas da Bretanha eram transferidas para a região do Danúbio, cujas fronteiras desmoronavam. Inicialmente o plano de Domiciano foi um sucesso.

Mas estava claro que muitos obstáculos se avizinhavam. O império sofreria sobremaneira para manter seus domínios.

Entre 11 a.C. e 9 d.C., o imperador Augusto empurrou as fronteiras em direção ao rio Elba – atuais Holanda, parte da República Tcheca e quase toda a Alemanha. Foi uma tremenda conquista, mas os 15 quilômetros de caminhos sinuosos, florestas densas, clima úmido e chuvas incessantes foram pontuados por emboscadas. Uma batalha de 3 dias chegou a vitimar mais de 20 mil soldados romanos.

A vingança romana foi cobrada ao longo de 10 anos de estupros, saques e matanças. Mas os contratempos os fizeram repensar a estratégia para a região. Augusto, pouco antes de morrer, aconselhou a manutenção das fronteiras onde já se encontravam.

E os imperadores seguintes seguiram a recomendação de Augusto, até Cláudio. Este quebrou a sequência de políticas prudentes e resolveu invadir a Bretanha, em 43 d.C. Tais campanhas se estenderam até 80 d.C.
Mas o cenário ficaria ainda pior. Depois de 101 d.C., Trajano decidiu invadir duas regiões: a Romênia atual e o Iraque atual.

Foi Adriano, seu sucessor em 117 d.C., quem pôs um ponto final nesses desvarios.

Embora agindo quase exclusivamente por instinto, os romanos descreviam um modus operandi que seria teorizado pelo grande pensador militar alemão Carl Von Clausewitz, 17 séculos mais tarde: “Até mesmo a vitória tem um ponto culminante. Além desse ponto, a balança oscila e a reação se segue com uma força que comumente é mais forte do que a do ataque original”.

O peso representado por fronteiras vertiginosamente alargadas passou a representar um problema relevante quando os romanos se afastaram do mar. Enquanto próximos do Mediterrâneo, o transporte aquático tinha custos reduzidos e velocidade suficiente para garantir a viabilidade econômica das novas fronteiras. Afinal, transportar 1 tonelada de grãos por 15 quilômetros de estradas em carroças puxadas por bois tinha o mesmo custo que despachar essa mesma carga do Egito à Itália por barcos.   

A partir de dada distância, os custos deixavam de justificar os deslocamentos.

O mesmo ocorreu na China, quando os deslocamentos se afastavam muito dos rios Amarelo e Yang-Tsé.
Por volta do século I d.C., os impérios romano e chinês contavam com aproximadamente 5 milhões de quilômetros quadrados cada, com população em quase igual número.

Quando os cavaleiros nômades começaram a perpetrar ataques ao império chinês, algumas medidas semelhantes às fortificações e muralhas romanas na Bretanha foram tomadas.

Os primeiros ataques registrados de nômades são oriundos do império assírio, por volta de 700 a.C. O império em foco contratou, por sua vez, nômades para ajudá-los a se defenderem. Quando esses mercenários nômades tomaram conhecimento do poder de que desfrutavam, passaram a atacar seus contratadores. Em pouco tempo controlavam grandes áreas do império assírio. O historiador grego Heródoto relatou: “A vida virou um caos devido à sua agressão e violência, pois eles cavalgaram por toda parte, levando tudo embora”.

Após esse caos, rebeldes que lutavam contra o governo assírio contrataram esses nômades, que arruinaram completamente o antigo império. Quando a poeira baixou, os rebeldes conseguiram embebedar os líderes nômades e exterminaram os agressores das estepes.

Enfrentar os nômades em seu próprio terreno foi uma das tarefas mais inglórias que os EUA enfrentaram nas últimas décadas. Antes mesmo do ataque às Torres Gêmes, Osama Bin Laden já era um inimigo conhecido de Washington. Desde o final dos anos 1990 era caçado em seus esconderijos afegãos.

No entanto, guerrear contra ele – e seu bando – era um exemplo perfeitamente acabado de uma guerra assimétrica. De um lado, os americanos disparavam seu mísseis, ao custo de 1 milhão de dólares cada; do outro, habitantes das estepes, nômades, que dormiam em tendas de 10 dólares ou em buracos nas montanhas – os vulgos terroristas.

Era o típico exemplo de um império e sua pesada infantaria armada até os dentes, tentando caçar cavaleiros que se deslocavam a uma velocidade estonteante por terrenos que conheciam como a palma de suas mãos.
Temendo ter um fim tão trágico quanto seus antecessores imperiais, os persas se decidiram por uma guerra preventiva: atacar esses nômades de antemão, antes que perpetrassem ataques contra os persas. Mas logo descobriram que aqueles cavaleiros só brigavam quando queriam. Era muito fácil se esconder de soldados a pé em seu próprio terreno.

Quando decidiram enfrentar os persas, os nômades provocaram mais um estrago no antigo império: mataram o rei Ciro. O rei Dario conseguiu sobreviver após um ataque de flechas.

Em 134 a.C., o imperador chinês Wudi queimou todo o superávit que seu império acumulara tentando eliminar os nômades que ameaçavam suas fronteiras. Após 15 anos, o que obteve foi um rotundo fracasso.
A única saída encontrada pelos impérios foi a contenção: construção de enormes muralhas. A Grande Muralha da Chna remonta a 210 a.C., a de Adriano data de 120 d.C. Não impediam a entrada dos inimigos, mas a canalizava para uma entrada específica.

Outra saída contemplada era a propina, o suborno. Partindo-se do fato de que guerras custam dinheiro, pagar subornos abaixo do custo de uma guerra para que Lea não corresse poderia ser interessante. Poupavam-se dinheiro, vidas e aborrecimentos mil.

Pois bem. Como se poderia esperar, a estratégia do suborno ainda esbanja vitalidade. Ao entregar 70 milhões de dólares em dinheiro aos chefes militares do Afeganistão, mais de 2 mil anos depois dos episódios citados, em 2001, a CIA dá provas de que a história não cansa de se repetir, seja como tragédia, seja como farsa, como já dizia titio Marx.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.  


DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO MODERNO X CLÁSSICO: QUÃO MELHORES ESTAMOS?


Ao se discutirem episódios do passado clássico, seus governos, batalhas e inovações, tem-se a curiosidade natural de saber como viviam aquelas pessoas, qual o nível de riqueza de que usufruíam e, especialmente, o que teriam se comprados com as sociedades modernas.

Por volta de 83 d.C., os romanos enfrentavam a batalha do monte Graupius, sob o comando de Agrícola. Naquela época, estima-se que o desenvolvimento social romano era comparado àquele de que dispunham os europeus do século XVIII.

A China da dinastia Han ficava um pouco atrás, por volta do nível europeu no século XVI. Os indianos do Império Máuria usufruíam de um desenvolvimento social equivalente aos dos europeus no século XV.

A imensa crise que se abateu sobre a Europa, após o fim do império Romano foi o responsável por garantir um declínio econômico, seguido por uma lenta retomada, que somente permitiu àquelas sociedades verem algum sinal de riqueza e de cultura mais de mil anos após o fim da última civilização clássica. Depois disso, a Idade das Trevas, caracterizada por um cristianismo sufocante e por toda uma ignorância obtusa que mantinha reis inúteis e incompetentes no comando.

Esse cenário trágico se repetiu na China e na Índia, quase simultaneamente.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.   

QUANDO ELEFANTES VENCIAM GUERRAS


Na Índia, as armas de ferro substituíram as de bronze no século V a.C. A cavalaria surgiu no século IV a.C. No século III a.C os exércitos já contavam com milhares de soldados.

Mas algumas tradições são mais difíceis de se aposentarem. A infantaria indiana era especialmente deficiente, bastante aquém dos soldados assírios, gregos, romanos ou chineses, bem treinados, armados e carregando pesadas armaduras.

Isso ocorria porque no topo da hierarquia das infantarias se encontrava um personagem inusitado: os elefantes.

O livro indiano Arthashastra, que analisava as melhores maneiras de se administrar o Estado, sentenciava: “Um rei depende principalmente de elefantes para a vitória”.  

Embora poderosos, aqueles animais eram muito pouco confiáveis. Eram necessários anos de intenso treinamento para que se tornassem mais disciplinados. Ainda assim muitos fugiam se tornavam muito assustados durante as batalhas.

Caso o animal debandasse em direção a seu próprio exército, deveria ser abatido o quanto antes, para que não pisoteasse seus soldados. Fazia-se isso martelando um pedaço de madeira na nuca do animal. Era comum o abate da maioria dos elefantes, mesmo entre os vencedores – animais cujo treinamento havia sido caro e demorado.

Mas quando se comportavam conforme o esperado, eram quase imbatíveis. Cada animal pesava de 3 a 5 toneladas, além de 1 tonelada extra em armaduras. O papel que executavam era o de pisotear tudo à sua frente, além de causarem grande temor nos inimigos quando pisavam violentamente no chão ou emitiam seus ruídos ensurdecedores.

Os cavalos costumavam, compreensivelmente, permanecer distantes dos elefantes. Mesmo Alexandre temia uma tropa de elefantes com armaduras. Após imprimir perdas significativas contra o rei Puru, governante da região onde hoje se localiza o Paquistão, Alexandre desistiu de seguir adiante logo que foi informado da quantidade de elefantes que o aguardavam mais à frente.

Quando os reinos da bacia do Mediterrâneo souberam daquelas armas de guerra fantásticas, cada qual passou a montar sua própria tropa de elefantes. Foi o caso de Aníbel, general de Cartago, que os usou contra os romanos, fazendo-os atravessarem os Alpes, em 218 a.C.

Certamente não são as armas mais eficientes do mundo, mas parece ser menos dramático assistir a um ataque de elefantes do que uma bomba atômica incinerando a vida de 100 mil pessoas.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.   

MONTE SEU PRÓPRIO EXÉRCITO E SAQUEIE UMA CIDADE – POR TIGLAT-PILÉSER III


As densas colunas, quase impenetráveis, de soldados foram produto da imaginação de um rei, que tomou a coroa após usurpar o trono assírio, em 744 a.C.: Tiglat-Piléser III.

Pelo fato de chegar ao poder sem alcançar a necessária prévia legitimidade, Tiglat viu-se tendo de sobrepor o poder da nobreza, que o separava do povo. Tiglat deveria tornar o poder mais centralizado, de maneira a não mais ter de contar com a boa vontade dos nobres para arregimentar soldados – além de ter de convencer os nobres de que tal batalha se fazia necessária.

No caso de soldados arregimentados por intermédio de aristocratas, o pagamento dos soldados seguia a fórmula clássica de saques: cada soldado levava para casa tudo o que fosse capaz de saquear das cidades atacadas. Era uma maneira barata de formar exércitos, mas tirava muito da ascendência dos reis sobre o povo. Tiglat sabia que deveria encurtar a hierarquia e tratar diretamente com os camponeses.

Não existem registros que descrevam com exatidão qual medida foi tomada por Tiglat, mas se sabe que o rei concedeu aos camponeses a propriedade direta das terras em que trabalhavam e viviam. Dessa forma, os nobres perderam o grande trunfo que tinham: a propriedade das terras, cuja permissão concedida aos camponeses para que lá habitassem rendia gratidão, que os levaria aos campos de batalha e a abrir mão de parte da sua produção, para pagar o dono daquelas terras.

Quebrado o clientelismo, Tiglat passou a cobrar impostos dos camponeses, que também serviam em seu exército.

A renda tributária arrecadada permitia o pagamento de supervisores e administradores. Como seus soldados eram agora remunerados, a disciplina militar se tornou mais rígida. Outra mudança importante foi o fim dos saques das cidades atacadas como método de pagamento dos homens arregimentados, haja vista o soldo inaugurado pelo rei.

Por volta de 500 a.C., reis passaram a copiar a estratégia de Tiglat.

Com essa “wehrmacht”, os assírios fizeram jus a sua fama de empaladores (comumente vistos nos campos de batalha nos séculos VIII e VII a.C., deixados como uma lembrança dos assírios). Mas também deram origem a uma série de cidades belíssimas, que floresciam sob os gastos sem limites dos governos assírios em jardins e bibliotecas belissimamente ornamentados.

É notável a semelhança da estratégia de Tiglat-Piléser com os governos absolutistas europeus do final da Alta Idade Média, especialmente na península itálica.

O fim do Império Assírio se deu por volta de 612 a.C., após mais de 60 anos de guerras que entronaram os aquemênidas, que inaugurariam o Império Persa, até hoje o mais extenso da história.

No entanto, os persas não resistiram a apenas quatro anos de agressões provocadas por Alexandre, o Grande. Em 330 a.C., chegava ao fim o império aquemênida persa.

As maiores batalhas registradas após esse episódio, ocorreram entre dois reinos que nasciam àquele tempo: Roma e Cartago – esta última fundada por fenícios que deixaram suas terras originais. Tais batalhas ocorreram no século III a.C., tendo a rendição de Cartago ocorrida em 202 a.C.

Roma e sua máquina de guerra encampariam séculos após toda a bacia do Mediterrâneo, adicionando o próprio Crescente Fértil aos seus domínios.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.   

quinta-feira, 2 de março de 2017

UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA: COMO O FERRO FORJOU O FUTURO


Com o desmantelamento do proto-sistema comercial, que alcançava boa parte do Mediterrâneo, desfez-se o sistema de trocas que levavam estanho a diversas cidades. Com isso, exércitos ficaram sem suas armas e armaduras de bronze.

No entanto, por volta de 1050 a.C., os engenhosos metalúrgicos do Chipre encontraram a solução para a escassez de bronze. Eles já tinham conhecimento prévio de como trabalhar o ferro. Este é mais abundante que o estanho, embora menos nobre e mais difícil de trabalhar.

O processo de forja incluiu o acréscimo de carbono. Logo desvendaram a fabricação de armas e de ferramentas resistentes. Na verdade, eram inferiores às de bronze, mas bem mais baratas.

Pode-se fazer o paralelo entre espadas de ferro e fuzis AK-47, como agentes democratizadores da violência.

Por volta de 900 a.C., criadores de cavalos localizados no que é hoje a Ucrânia, desenvolveram raças tão fortes e grandes que se podia montar em suas costas e cavalgar um dia inteiro. Criaram-se, após, rédeas e freios para controlá-los. Não criaram estribos, mas usavam a técnica de cavalgar com os joelhos apoiados, além de conseguirem cavalgar e atirar flechas ao mesmo tempo.

Com a nova arma de guerra, mulheres passaram a lutar, dando origem às lendas acerca de amazonas.
Rapidamente, Assíria, China e diversos outros reinos e impérios perceberam a utilidade das cavalarias – além do preço. Cavaleiros nômades eram importados para exércitos os mais diversos.

Espadas de ferro, cotas de malhas de ferro e pontas de lança, também de ferro, fizeram as guerras serem tão baratas que os carros de guerra terminariam em desuso, dando espaço às cavalarias.

Os campos de batalha agora ficavam entulhados de soldados de infantaria, a pé, além da cavalaria.  


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.   

CAVALOS E CARRUAGENS: COMO AS GUERRAS FICARAM MAIS SANGRENTAS


Um dos maiores saltos tecnológicos relacionados aos jogos de guerra se deu na região onde hoje é a Ucrânia. Conhecida por suas amplas estepes, os caçadores que lá habitavam conseguiram domesticar cavalos selvagens por volta de 4.000 a.C.

Inicialmente, aqueles animais serviam apenas como alimentação. Mas, por volta de 3.300 a.C., passaram a usá-los como meio de transporte, atrelando-os a carroças.

Por volta de 2.100 a.C., os pastores da região onde hoje é o Cazaquistão criavam cavalos maiores, de pernas mais compridas, embora ainda fossem menores que as raças atuais, que puxavam carroças mais leves (chamados carros de guerra). Comerciantes e outras pessoas levaram tais progressos até a região do Crescente Fértil por volta de 1.900 a.C.

Inicialmente serviam como meio de transporte, mas logo foram adaptadas com fins militares. Ao acrescentarem o elemento velocidade às guerras, homens a pé passaram a ser alvos de flechas, cuja quantidade lançada se adensava no céu de tal forma que “o sol desapareceu diante das flechas disparadas de ambos os lados”, nas palavras do clássico indiano Mahabharata.

A invenção do arco composto, em algum local ainda não mapeado do Cresscente Fértil, por volta de 1.600 a.C., proveu um salto evolutivo aos arqueiros, então limitados a seus arcos simples com alcance de meros 100 metros. Agora o alcance das flechas superava os 400 metros. As pontas só não perfuravam armaduras de metal.

O citado Mahabharata afirma que as guerras passaram as ser decididas pelos “guerreiros dos carros de guerra que se circundavam mutuamente em seus carros, arremessando flechas com a mesma prodigalidade que as nuvens disparam seu jorros de água”.

Pelos 3.500 anos que se seguiram, a cena de campos de batalha por toda a Eurásia seria a mesma: toneladas de carne de cavalo ensangüentadas, tanto quanto de humanos esvaindo-se em sangue, aos berros”.

Os preços dos carros de guerra eram bastante elevados. A Bíblia cita o rei Salomão, que teria pago 600 shekels de prata por uma, quando o preço de um escravo girava em torno de 30 shekels. O Império Hitita, do século XIV a.C., relata que dia a dia um programa de treinamento de sete meses para os cavalos de guerra.

A agricultura de expandiu rapidamente, do Crescente Fértil até grande parte da Europa, chegando ali por volta de 4.500 a.C. Nos 3 milênios seguintes, viu-se uma explosão populacional e uma evolução importante na “arte” da guerra. Por volta de 1450 a.C., ferreiros localizados no que é hoje o norte da Itália e a Áustria tiraram o continente da era do arco e da adaga.

O bronze até então produzido servi bem à finalidade de produzir adagas e espadas curtas. Mas, então, os trabalhadores de bronze já produziam um metal resistente, capaz de fundir espadas longas, retas, uma peça única que fundia cabo e lâmina, evitando assim o seu desprendimento. Em poucos séculos, tais espadas eram vistas comumente em toda a Europa.

As regiões que se espalhavam pela Europa eram a periferia do Crescente Fértil. Dominado pelo Egito, os faraós desdenharam do poder das lâminas em detrimento dos poderosos carros de guerra. Por volta de 1.200 a.C., espadachins começaram a se espalhar pelo Mediterrâneo.

Quando o enfrentamento entre os exércitos egípcios em carruagens passaram a enfrentar exércitos invasores portando inúmeras espadas modernas, perceberam que era bastante desvantajoso ver cavalos caros sendo mortos por dardos e espadas baratas.  

Por volta de 1.100 a.C., migrantes já dominavam o delta do Nilo.

O impacto sobre o império dos faraós foi imediato. A burocracia se desintegrou, a alfabetização declinou. O sistema tributário se desfez, descontinuando o pagamento dos soldados. Isso deu ainda mais fôlego às invasões. A pobreza aumentou e a população despencou.

Era a era do terror grassando no nascedouro da civilização...


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.   

DAS PEDRAS ÀS FORMAÇÕES MILITARES: QUANDO A HUMANIDADE SUPEROU OS MUROS


As poucas batalhas testemunhadas por antropólogos, na Nova Guiné ou na Amazônia, mostraram o estilo de batalha mais primitivo praticado por humanos: movimentos desordenados, linhas irregulares conformada por puçás dezenas de homens.

Tudo se iniciava nas provocações: realizadas fora do alcance de flechas, ocorriam mutuamente.
O passo seguinte eram os ataques pontuais e furtivos: um ou dois homens avançavam, atiravam e voltavam correndo.

Esses “rituais bélicos” poderiam durar o dia inteiro, parando apenas na hora da janta, podendo ser reiniciados no dia seguinte. Os feridos poderiam levar à interrupção dos ataques. Mesmo a chuva era capaz de causar esse mesmo efeito.

Esses fatos levaram, naturalmente, a que as guerras de Idade das Pedras tivessem uma feição mais próxima dos rituais de virilidade, quando os mais jovens davam mostras de sua valentia.

Em razão da periculosidade dessas batalhas, quando qualquer um poderia ser atacado por uma flecha lançada em sua direção, ou por uma achadinha num ataque mais corpo a corpo, o real perigo se escondia entre essas batalhas, em ataques de surpresa.

Homens se escondiam e empreendiam ataques contra os mais distraídos. Um pequeno grupo de corajosos provocava a tribo inimiga. Quando percebiam alguns membros daquela tribo sozinhos, desprotegidos, matava-nos rapidamente. Caso o grupo fosse de mulheres, estupravam-nas e, em geral, as raptavam para sua tribo. Se o grupo de inimigos fosse mais numeroso, escondiam-se.

Outra tática usada pelas tribos humanas mais primitivas envolvia as emboscadas ao amanhecer. Sorrateiramente alcançavam a tribo inimiga antes do amanhecer, ainda na escuridão; atacavam logo que amanhecesse. O número de vítimas não passava de uns poucos infelizes que saíam para urinar quando acordavam. Após os golpes certeiros, fugiam em debandada.

Relatos de um ataque de uma tribo Awatori, do Arizona, por volta de 1700, contam sobre um ataque que terminou com uma tribo queimando todos os membros da outra tribo dentro de suas habitações de madeira.
O modo de vida radicalmente igualitário dentro dessas sociedades não permitiu o surgimento da disciplina militar própria dos espartanos, por exemplo, que enfrentavam os ataques inimigos de frente, sem recuar nem debandar.

O maior risco para quem atacava era um eventual contra-ataque, quando toda uma tribo poderia ser punida em represália.

Esses eram os episódios que elevavam substancialmente os índices de violência nas tribos da Idade das Pedras.

Tribos claramente caracterizadas pelo alto nível de violência de seus membros se lançaram à criação de áreas de exclusão, isto é, trechos de terras em que os ataques de emboscada eram tão comuns que ninguém se atrevia a morar nelas.

Quando a necessidade de terras férteis se tronou premente, essa área de segurança entre as tribos passou a ser encarada como desperdício de um recurso valoroso. Em lugar de relevar terras preciosas, passaram à construção sem muros quilométricos, visando a manter possíveis invasores à distância.

Nesse momento, a disciplina e a logística passaram a ser itens importantes nas sociedades que se formavam. São ingredientes importantes na criação de muralhas. Deve-se levar em conta, também, que cada obstáculo construído levava o outro lado a criar maneiras criativas de superá-los. No caso dos muros, deu-se origem aos cercos – que também exigem disciplina e boa logística.  

A “Corrida Armamentista” por melhores fortificações levou à construção de uma torre em Jericó, por volta de 9.300 a.C., na região do vale do Rio Jordão. Alguns não crêem que ela tivesse funções militares, pois se seguiram 5 séculos sem qualquer outra torre além daquela.

A outra construção do tipo somente foi registrada na Turquia, na região de Mersin, em 4.300 a.C. Essa última, sim, deu início a uma sequência de fortificações (torres, muros etc.) no sudoeste da Ásia.

Por volta de 3.100 a.C. foi construído um muro de 9,5 quilômetros de extensão na região de Uruk, na Suméria, correspondente ao atual Iraque. Mas as evidências arqueológicas demonstram que a tecnologia dos inimigos, no sentido de superar essas fortificações, evoluiu bastante também.

Evidentemente s[ó sentia necessidade desses tipo de fortificação quem tinha algo valioso a defender. Uruk, após a construção de sua murada de 9,5 km passou a exercer controle sobre quase toda a Suméria.        

A estrutura interna que surgiu com o desenvolvimento de Uruk deu mostras de um Estado galgando complexidade cada vez maior. Havia dentro de suas fortificações, cidades novas, cada uma contando com dezenas de milhares de pessoas, além de deuses que se diziam descenderem de deuses.

Mais algum tempo de passou e surgiram códigos de leis, burocracia estatal, arquivos públicos, impostos. Os dirigentes se denominavam pastores de seu próprio povo.

Nesse mesmo período, na região do vale do alto Nilo, três reinos de digladiaram até que apenas uma prevaleceu. Seu rei, Narmer, denominou-se faraó de toda o Egito – correspondente a um reino de 500 quilômetros de extensão.

O novo estágio de desenvolvimento levou os faraós a de declararem deuses, não eram mais filhos de deuses ou quase-deuses. Levantaram pirâmides, como provas de sua superioridade em relação a todas as demais sociedades. A Pirâmide de Gizé pesa mais de 1 milhão de toneladas e ainda é a fortificação mais pesada da Terra.

O poder centralizado do faraó suplantou a aristocracia, que passou a depender de favores reais, não mais podendo manipular o poder à sua vontade.     

Interessante também é notar a correlação estreita entre o nascimento das primeiras sociedades complexas, com poder centralizado, e o desenvolvimento da agricultura. Os primeiros exemplares surgiram no Crescente Fértil (sudoeste da Ásia e Egito). Esse fenômeno se repetiu em diversas outras paragens, nas mesmas latitudes afortunadas.

O enredo incluía a domesticação de plantas e animais, em geral 2 ou 3 mil anos depois do cultivo. As cidades muradas – com seus reis divinos, monumentos grandiosos, escrita e serviços públicos – aparecem de 3 a 4 mil anos após a domesticação: 2.800 a.C. no Paquistão, 1.900 a.C. na China e 200 a.C. no Peru e México.

Um ingrediente muito importante nesse progresso histórico envolveu a tecnologia de armas e armaduras. Artesão do sudoeste asiático haviam começado a trabalhar com cobre – na época, apenas com motivos ornamentais –, cerca de 7 mil a.C.

Por volta de 3.300 a.C., surgiram os primeiros trabalhos em bronze (liga de cobre e estanho ou cobre e arsênico). Esse metal era duro o suficiente para usar em armas de guerra. O bronze testemunhou Uruk quase desde o seu início.

Não sabe bem como, mas um dos grandes feitos das primeiras civilizações foi a persuasão de jovens no sentido de se lançarem a situações com risco real e iminente de morte – como ao aturem como soldados em uma guerra.

Os testemunhos são dados por meio de pinturas. Pinturas da Idade das Pedras descrevem regularmente bandos de homens atirando flechas uns contra os outros. Contudo, uma pintura conhecida como Estela dos Abutres, data de 2450 a.C., é diferente: fileiras densas de soldados, aparentando uma disciplina inédita, claramente de infantaria, liderados pelo rei Eannatum de Lagash. Eles pisoteiam inimigos mortos. Uma inscrição revela que Eannatum liderou uma campanha vitorisa contra a cidade de Umma. Esta última foi incorporada ao reino de Eannatum, a Suméria.

O rei Sargão da Arcádia se vangloriava repetindo sobre seu exército de 5.400 homens, ainda em 2.330 a.C.

Deu-se início aí ao moderno soldado, que não recua nem debanda diante de um inimigo forte.
Os resultados alcançados foram de um estrondoso sucesso: Acádia conformou um reino que corresponde ao atual Iraque; Sargão unificou o que é hoje a Síria e estendeu seu reino até do Cáucaso ao Mediterrâneo.

E imaginar que milhares de anos depois, a solução pelos “muros” voltaria à ordem do dia...


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade”.