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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

COMO SE DEU O DOWNSIZING DO IMPÉRIO BRITÂNICO


Durante os séculos XIX e início do XX, a Grã Bretanha tinha domínio sobre uma parte tão grande do Planeta que era famosa a frase: “o Sol nunca se põe no Império Britânico.” Desde o fim da II GM, contudo, o Sol não tem se mostrado no horizonte.

O Império Britânico trouxe mudanças profundas a todo o mundo – mas nas décadas desde seu rápido declínio, após a II GM, tornou-se uma espécie de piada histórica, algumas vezes de mau gosto. De tão mau gosto quanto a publicação, pela embaixada britânica em Washington, da foto do incêndio que os britânicos iniciaram na Casa Branca, em 1812, como represália à invasão americana ao Canadá.

Nos anos que se seguiram ao fim da I GM, a Grã Bretanha experimentou um downsizing econômico. As relações comerciais com suas colônias, que fez dela a maior potência do Globo, caíram nas mãos dos EUA e de outros países mais jovens. Além disso, os mercados preferidos das colônias estavam agora produzindo seus próprios bens, deprimindo assim a economia britânica. Sem os mercados para os quais exportar, a GB não podia nem mesmo gerar empregos para sua própria população.

As causas da mudança incluíam inflação interna galopante, a qual aumenta o custo de bens britânicos, relativos aos de outros países, e a descentralização da indústria, quando a produção econômica da Europa foi realocada para o esforço de guerra.

Desde o início da Guerra Fria, a América tomou a parte do leão do antigo Império. A Grã Bretanha, que colonizou a América, tornou-se de certa forma colônia.

O processo de downsizing foi longo e difícil. No seu auge, o Império compreendia 57 colônias, domínios, territórios ou protetorados da Austrália, Candá e Índia a Fiji, Samoa ocidental e Tonga. A partir de Londres, os britânicos governavam 20% da população mundial e aproximadamente 25% da área do planeta.

O aumento da influência britânica, incluindo a língua inglesa, deu origem aos EUA, a única superpotência global; a maior democracia do globo, a Índia; e, talvez inadvertidamente, disseminou os conceitos de liberdade, democracia e Estado de Direito ao redor do mundo.

Do lado negativo, a GB corrompeu toda uma nação, a China, com ópio, puramente para extrair recursos; e sua maneira altiva, racista de dominar e subjugar pessoas, que deixou gerações de ódio em seu rastro, em muitos países (alguns inclusive são seus vizinhos, como a Irlanda).

Como um banco não oficial do mundo, o papel da Grã Bretanha como financiadora da I GM eventualmente sofreu de depreciação de suas riquezas, desvalorização monetária e inflação. Conforme David French, a estratégia básica da I GM foi fazer um cerco à Alemanha por muitos anos. França, Rússia e o resto da aliança manteriam operações militares em ambos os lados da Alemanha, já que estavam lá de qualquer maneira, e a GB supriria-os com comida, roupas, armas e outros mantimentos.

Haveria menos derramamento de sangue se a Alemanha não fosse invadida diretamente, e a GB tinha as rotas necessárias para executar esse plano. Só deveriam esperar os alemães começassem a passar fome.
Infelizmente, eles subestimaram seriamente a força do exército alemão. Havendo abandonado as regras de honradez do séc. XIX, os alemães empregaram armas biológicas, gás tóxico, e tanques. Assim, tropas russas e alemães caíram muito mais rápido do que se imaginava. Os aliados passaram a demandar pessoas, aos britânicos, também.

Além disso, os submarinos U-Boat alemães afundaram muitos mais navios de suprimentos que se esperava. Tornou-se muito mais caro suprir tropas como planejado e as conseqüências da escassez de alimentos começaram a ser sentidas também na GB.

Hoje, aquele império está reduzido a 14 ilhas espalhadas, como as Ilhas Virgens Britânicas, no Caribe, e Ilhas Pitcairn, no Pacífico Sul. A Commonwealth of Nations, fundada antes a II GM e revivida após esta, compreende 54 ex-territórios britânicos mas significa pouco mais que um monumento ao passado.

De fato, há muitos anos a GB não age como um império, embora algumas ex-províncias ainda experimentem uma “pegada colonial” ao som do inglês britânico high-society. O império com sede em Londres começa a ruir durante a II GM, após o exército japonês marchar em direção à Índia e às praias da Austrália, quebrando a espinha dorsal do sistema colonial ocidental, antes que o Japão fosse derrotado em 1945. O surgimento do nacionalismo põe um fim na era colonial, o que se dá com a retirada da Índia e do Paquistão.
Alguns dirão que o império terminou oficialmente em fevereiro daquele ano quando – finalmente drenada por duas guerras mundiais – os britânicos enviaram telegrama a Washington dizendo que eles não tinham mais recursos e tropas para proteger Grécia e Turquia, conforme a União Soviética ameaçava estender sua influência durante a Guerra Fria.

“A Grã Bretanha chegou ao fim,”, Dean Acheson, que logo seria Secretário de Estado de Harry Truman, teria dito após ler a mensagem. Os EUA logo substituíram a GB como a potência estabilizadora no Ocidente.

O declínio do poder britânico não veio sem lutas. Em 1942, Winston Churchill disse e seria largamente citado por dizer: “Nós temos que resistir. Eu não fui escolhido primeiro-ministro do rei para presidir a liquidação do Império britânico.” Mas foi o que seus sucessores fizeram. Por décadas, a GB se retirou do leste de Suez e de suas colônias na África; Hong Kong, a cidade-estado que foi devolvida à China e 1997, que foi a última a ir embora.

Houve uma exceção: em 1982, em um esforço desesperado de permanecer com a minúscula Ilhas Falkland, no Atlântico Sul, o RU lutou uma guerra relâmpago contra a Argentina – venceu, como uma espécie de prêmio de consolação imperial.

Outra herança, ainda viva dos tempos daquele Império, é a presença da GB no Conselho de Segurança da ONU. Apenas a posse de armas nucleares não pode ser uma resposta eternamente.


Rubem L. de F. Auto




       

O OURO DE MINAS – VÃO-SE OS ANÉIS, FICAM OS DEDOS


Desde 1503, conforme consta em carta de Américo Vespúcio a Pietro Soderini, já se falava na existência de ouro no Brasil. Além dessa passagem, havia uma lenda sobre uma serra toda feita de prata: Sabarabuçu, na língua indígena.

Ansioso por encontrar tais metais preciosos, D. Pedro II de Portugal, o pacificador, no final do século XVII, enviou carta a alguns destemidos bandeirantes para que se lançassem ao interior do país em busca da tão sonhada fortuna, que salvaria o futuro do Reino.

A partir de São Paulo, em 1674, Fernão Dias, atendendo ao chamado real, atravessou o Vale do Paraíba e seguiu pela Serra da Mantiqueira. Após muita labuta, nada encontraram e a esperança de achá-los também se esvaiu. Uma rebelião tomava corpo entre os membros da bandeira. O próprio filho de Fernão, José Dias, tomou para si a tarefa de matar o pai e retornar para casa com os demais.

Contudo, uma índia do grupo soube dos planos e contou a Fernão. Este não pensou duas vezes e mandou enforcar o filho, para dar o exemplo. Achou algumas pedras, que julgava serem esmeraldas, mas eram águas marinhas. Por fim, antes de retornar, pegou uma febre e faleceu pelo caminho.

A despeito de seu fracasso em encontrar pedras preciosas, a bandeira de Fernão Dias teve o mérito de ligar a região de São Paulo ao interior da Bahia. Outro nome marcante do período de tentativas de descobrir ouro no Brasil foi Raposo Tavares.

Porém, é Antonil que dá melhores pistas sobre a maneira como foi achado ouro pela primeira vez nas Minas. Segundo Antonil, uma bandeira saída de São Paulo chegou às margens do rio Tripuí. Um mulato, com sede, baixou sua gamela e pôs-se a beber água, quando avistou pequenas pedras escuras no fundo da gamela. Desconfiado a respeito de tais pedras, vendeu-as a Miguel de Souza. Embora ninguém ainda soubesse do que se tratava, essas pedras foram parar nas mãos de Artur de Sá e Meneses, governador do Rio de Janeiro. Este descobriu que se tratava de ouro, escurecido pelo acúmulo de óxido de ferro na sua superfície.

Finalmente, ouro no Brasil!

Uma expedição, liderada por Antônio Dias, achou o local onde o mulato havia encontrado as pedras: localizava-se próximo ao pico Itacolomi. Evidentemente a notícia de tal achado levou a um afluxo enorme de pessoas de todas as partes em direção à região, inóspita e selvagem. No seu máximo, a população de Vila Rica chegou a 100.000 pessoas – a maior cidade brasileira.

A febre do ouro atingiu Portugal dramaticamente. Durante os 200 anos anteriores, os portugueses, em geral, não se interessaram por emigrar para o Brasil. Todavia, após as notícias de ouro, passaram a chegar o Porto do Rio aos milhares. O despovoamento de Portugal passou a causar tal preocupação que foi baixada uma lei, em 20 de março de 1720, proibindo a saída de portugueses do Reino, com pouquíssimas exceções, para ocupar cargos públicos na colônia.

Mesmo assim, nos primeiros 60 anos, estima-se em mais de 600.000 o número de reinóis saídos da metrópole em direção ao Brasil.
A cobiça estrangeira também se fez presente. Todos sabiam que o ouro saía das Minas e seguia em direção ao Porto do Rio, em comboios de mulas bastante inseguros. A metrópole simplesmente ignorava a inexistência de caminhos e estradas interligando as diversas regiões do Brasil, apesar dos impostos altíssimos. Por volta de 1700, Garcia Rodrigues Pais, filho de Fernão Dias, usou recursos próprios para abrir o Caminho Novo, para o Rio de Janeiro, retirando a necessidade de passar pela capitania de São Paulo.

Em 1710, um pirata francês mostrou do que a cobiça é capaz. Jean-François Duclerc atracou seis navios na Baía da Guanabara, tripulados por mil piratas. Ameaçado o saque, a cidade reagiu como pode. As Fortalezas de São João e de Santa Cruz dispararam tiros de canhão a esmo, mas conseguiram rechaçar a invasão momentaneamente. As autoridades portuguesas comemoraram a retirada de Duclerc e seus homens, porém estes apenas aportaram em torno da região de Guartatiba. Desembarcaram e marcharam em direção à capital, novamente. São Sebastião do Rio de Janeiro teve suas ruas invadidas pela retaguarda, de surpresa.

A cidade de 12.000 habitantes se uniu contra os invasores. Brancos, negros, ricos, pobres, estudantes jesuítas, armados de pistolas e facas, mulheres com panelas de óleo quente derramados de suas janelas. Ao cabo, Duclerc foi preso. Após alguns meses, foi assassinado estando sob custódia do tenente Tomás Gomes da Costa, em sua casa.

No ano seguinte, mais um surpresa infeliz. Sob o pretexto de vingar o crime de guerra cometido contra Duclerc, que era inimigo de guerra capturado, portqanto merecedor de tratamento especial, outro corsário francês, René Guguay-Trouin aportou na Baía. No entanto agora não eram mais seis, mas dezessete navios. Fundearam e iniciaram o bombardeamento da cidade. Desta feita foi um ataque indefensável. O governador Francisco de Castro Morais fugiu da cidade.

Para deixar a cidade, Trouin exigiu um resgate: doze milhões de cruzados! Quantia impossível de ser amealhada, os portugueses juntaram tudo o que puderam achar: seiscentos mil cruzados, cem caixas de açúcar e duzentos bois. O governador acrescentou mais dez mil cruzados de seu bolso. Trouin aceitou a quantia, mas não sem antes saquear completamente a cidade, junto com seus homens, de casas particulares a edifícios públicos, passando por igrejas, nada foi poupado.

Por sua covardia, o governador foi demitido do cargo.

A exploração do ouro em Minas podia ocorrer por faiscadores, na beira de rios, ou nas lavras. Em geral, os mais pobres eram faiscadores e exploravam trabalhavam normalmente sozinhos. As lavras exigiam investimentos maiores e escravos. O imposto cobrado era o quinto, que os faiscadores quase nunca pagavam. As lavras eram exploradas sem a devida comunicação à Coroa, e o sistema de tributação era uma bagunça.

Em 1702 houve a publicação do primeiro regulamento das Minas e a distribuição das lavras passou a seguir critérios mais claros. O afluxo de pessoas foi enorme e os problemas do crescimento passaram a se fazer presentes.

Com a presença de milhares de pessoas que se dedicavam à extração de ouro em tempo integral, faltavam braços para a agricultura. Com isso, começou a faltar comida e o preço dos alimentos foi à estratosfera. Os indivíduos mais abastados conseguiam adquirir alimentos, mas os mais pobres enfrentaram fomes severas em 1698, 1700 e 1713. Acharam-se pessoas mortas por fome, mesmo tendo os bolsos repletos de ouro.

Aqueles que não conseguiam recursos pára voltar para casa, iniciaram o processo de povoamento da região. No caso de Vila Rica, o arraial tomou impulso entre 1700 e 1705.

Seu crescimento foi muito rápido e, em 1723, foi elevada a capital da Província. Poucos anos depois era a maior cidade do Brasil. Os homens mais ricos e os maiores intelectuais fixaram residência naquela cidade.

Como as primeiras minas de ouro foram encontradas por bandeirantes paulistas, estes achavam que tinham mais direitos sobre as lavras de ouro do que as pessoas de outras capitanias. Por outro lado, os portugueses também alegavam direitos, uma vez que se julgavam donos da terra. Dado este cenário, as pessoas de outras capitanias ficaram ao lado dos portugueses. OS paulistas os chamavam pejorativamente de “emboabas”.

Em pouco tempo, os paulistas se tornaram minoria, haja vista o enorme influxo de pessoas de outros lugares. O ex-bandeirante Manuel de Borba Gato era o chefe dos paulistas. O fazendeiro português Manuel Nunes Viana liderava os emboabas.

Em dado momento, pequenos conflitos descambaram na Guerra dos Emboabas, de 1707 a 1709. Com o tempo, os emboabas tomaram o controle político e administrativo. Manuel Nunes Viana foi aclamado governador e primeiro homem a ocupar um cargo público na América do Sul por vontade popular. Ressalte-se que não havia o desejo de ver um Brasil independente; tratava-se apenas de afastar os paulistas do poder local.

O ponto alto dessas batalhas contra os paulistas deu-se no local conhecido por Capão da Traição. Após traição dos paulistas, que fingiram rendição e atacaram os emboabas, estes se vingaram matando mais de 300 deles. A final, os paulistas foram expulsos do território mineiro. Alguns saíram à procura de novas jazidas e as acharam na região de Mato Grosso e Goiás.

Antevendo mais problemas, a Coroa agiu preventivamente ao desmembrar, em 1709, a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro da capitania do Rio de Janiero. Mainas do seria definitivamente desmembrada de São Paulo em 1720.

Um dos grandes problemas da produção de ouro era a arrecadação, da maneira mais eficiente, dos tributos incidentes – o Quinto, ou 20% do ouro lavrado. Tais tributos eram escorchantes e bastante sonegados.

Uma primeira medida foi a criação das Casas de Fundição, simultaneamente à proibição de se carregar consigo ouro em pó. Tal medida gerou transtornos, especialmente aos mais pobres, que usavam pequenas quantidades de ouro em pó como moeda de troca na região das minas. A Coroa também incentivava a canalhice, ao premiar delatores de quem tivesse ouro em pó nos bolsos. Houve inúmeras tentativas da Coroa de reduzir a sonegação ao mudar a maneira de arrecadar o quinto. Estima-se que pelo menos metade desse tributo era sonegada: cobraram por escravo; ou por trabalhador, escravo ou não. Tentou-se a quantia anual de 30 arrobas de ouro por ano. Mas nunca a arrecadação proporcionada gerava contentamento na metrópole. A suspeita de sonegação de grande monta estava sempre presente.

Um dos motivos para que a arrecadação tributária sobre as minas nunca satisfizesse foi a assinatura, em 1703, do Tratado de Methuen. Por este, vinhos, azeites e laranjas portugueses entravam em condições privilegiadas na Inglaterra que, por sua vez, encontrava condições privilegiadas para suas exportações de tecidos e produtos industrializados para Portugal. Com isso, as barras de ouro iam direto aos cofres ingleses, que vestiam e alimentavam a metrópole.

Embora criticadas, as receitas tributárias portuguesas foram infladas após a criação das Casas de Fundição. De 36 arrobas de ouro em 1724, foram para 133 arrobas no ano seguinte.

Se os mineiros já sofriam bastante com as medidas portuguesas para inflar sua arrecadação do quinto, esse cenário pioraria ainda mais após 1750, com a morte de D. João V e a assunção ao trono de D. José I. Embora bastante incapaz, este se cercou de bons ministros e, na prática, entregou a administração do reino a Sebastião José de Carvalho, o Marquês de Pombal.

Embora tenha arrecadado 1.800 quilos de ouro só em 1749, achava pouco. Naquele momento, as Casa de Fundição haviam sido fechadas e o quinto era cobrado pelo sistema de “capitação”. Cobravam-se valores proporcionais ao número de trabalhadores da lavra.

Pombal retornou o sistema de Casa de Fundição, porém acrescentou uma novidade: uma cota mínima de 100 arrobas, cobrada da capitania. Caso a produção não atingisse esse valor, a Coroa lançava mão da arrecadação compulsória, que chamava de contribuição coletiva, a derrama”, cobrada de todos os moradores, mineradores ou não.

Até 1766, essa cota mínima era atingida ano após ano. Contudo, com o exaurimento dos principais veios, o tributo foi se acumulando, ao passo que as despesas da metrópole se avolumavam como decorrência do terremoto de Lisboa, em 1755.

O exaurimento da produção, somado a tributos cada vez mais sufocantes, à pobreza crescente na região das minas e às notícias de cobrança da derrama, que prometia empobrecer ainda mais a população, já em 1788, levaram ao descontentamento e ao ódio contra o Reino, por parte de muitos.

A se somar ao exposto logo acima: 13 colônias inglesas, revoltadas por tributos crescentes, especialmente sobre o chá produzido localmente, iniciaram uma Guerra de Independência em 1776, que terminou em vitória e no reconhecimento da sua independência pela ex-metrópole, em Tratado assinado em 1785.

Sem dúvidas a independência dos EUA e as belas palavras escritas na sua Constituição iluminaram as mentes e deram a inspiração necessária à famosa Inconfidência Mineira.
   


Rubem L. de F. Auto

Fonte:
Livro “1789 – A Inconfidência Mineira e a Vida Cotidiana nas Minas do século XVIII.”




          


domingo, 23 de outubro de 2016

CIDADE DO CABO E O CHOQUE DE IMPÉRIOS NA ÁFRICA DO SUL


A Cidade do Cabo, na África do Sul, foi fundada por Jan van Riebeeck, comandante do assentamento colonial. Inicialmente era uma estação de comidas e suprimentos para fornecimento aos navios que transportavam mercadorias entre Holanda e Índias Orientais. Foi seu administrador entre 1652 e 1662. Até então, Cidade do Cabo limitava-se ao Forte da Boa Esperança e a uma crescente comunidade de fazendeiros.

A administração seguinte, de Zacharias Wagenaer, estabeleceu uma política de neutralidade em relação às tribos nativas da região.

A Companhia holandesa das Índias Orientais controlou a Cidade do Cabo, de 1652 a 1795. Neste ano, a colônia foi oficialmente entregue à Grã Bretanha. Após o enfraquecimento decorrente de uma guerra contra esta, o exército revolucionário francês invadiu a Holanda. Como medida preventiva contra a expansão holandesa, a GB aproveitou para tomar controle do Cabo. Em 1802, seu controle foi devolvido à Holanda.

Contudo, em 1806, a República Batava, que até então exercia o controle da colônia, perdeu seu controle para os britânicos, após derrota na Batalha de Blaauwberg.

Sir David Baird tomou controle da Colônia da Cabo: 194.000 km quadrados e uma população de cerca de 60.000 pessoas. Seus moradores, conhecidos como Boers, tinham um histórico de encontros violentos com os Xhosa, uma tribo nativa. Entre 1779 e 1803, houve três guerras entre ambos.

Sob o governo britânico, houve a Quarta Guerra Xhosa, em 1811, que durou um ano. Ao seu cabo, foi estabelecido um assentamento britânico às margens do Rio Fish, e levantaram Grahamstone, uma instalação militar.

Em 1818, houve uma guerra civil entre os Ngqika Xhosa (uma clã real), e os Gcaleka Xhosa, um outro clã. Os Ngqika tinha uma tratado de ajuda mútua com a Colônia do Cabo, que se viu forçada a render forças e assim nasceu a Quinta Guerra Xhosa. Após um ataque mal sucedido a Grahamstone, o chefe Xhosa foi capturado. O contra-ataque levou os limites mais adiante e criou uma zona de amortecimento com os territórios Xhosa.

De 1814 a 1826, os assentamentos britânicos foram incentivados, como uma medida para aliviar o desemprego criado com o fim das Guerras Napoleônicas. A colônia, até então holandesa, tornava-se bilíngue. O lado Oriental, britânico e que abrigava Port Elizabeth, sede do governo central, pouco a pouco ia de encontro ao lado ocidental, que abrigava a tradicional Cidade do Cabo.

A partir de 1827, os colonos britânicos passaram a iniciar mudanças legais que os opunham aos Boers, como: direitos de igualdade racial, punições por abusos cometidos a escravos, e o próprio fim da escravidão, em 1834. A maneira pela qual os Boers demonstraram sua total discordância com as medidas dos colonos britânicos foi laçarem-se à longa marcha para o norte.

Como resultado, em 1852, fundaram a República do Transvaal. Em 1854, fundaram o Estado Livre de Orange. Ambas eram repúblicas Boers.

A Sexta Guerra Xhosa ocorreu em 1834. Iniciada como um conflito por gado, levou ao assassinato de um chefe Xhosa, a rebelião seguinte levou à morte de colonos. O contra-ataque de britânicos e Boers terminou com a anexação de terras Xhosa com o nome de Província Rainha Adelaide.

Essa última Guerra marcou o início de uma aliança entre os colonos britânicos e os Fengu, tribo oprimida pelos Xhosa.

Apesar dessas vitórias, mortes e conflitos intermináveis, além da desconfiança com relação aos britânicos, levaram mais Boers e se lançarem em trilhas em direção a terras ao norte.

Em 1837, om grupo de Boers esbarrou com Dingane, o Rei dos Zulu. Todos os colonos morreram.
Desentendimentos decorrentes do uso privado da terra, conforme o entendimento dos Boers, e do uso comunal da terra, conforme a cultura Zulu, levaram a outro confronto, em 1838. Os Boers saíram-se vitoriosos, fundaram a República Natalia em 1839, que foi anexada pelos britânicos em 1843.

Após a Sétima Guerra Xhosa, estvam esses totalmente subjugados, 1857. Havendo ainda a Oitava e a Nona Guerras Xhosa, foi criado o estado independente Xhosa de Gcalekaland. Suas terras eram agora Território Britânico.

Seguiram-se poucos anos de paz. Em dezembro de 1880, iniciou-se a Primeira Guerra Boer. Durou até março de 1881 e envolveu o Reino Unido e os Boers da República da África do Sul (até então, Transvaal). As Trekboers não eram cerradas porque permitiama expansão das fronteiras da Colônia, pouco a pouco.

Até então, os Boers eram totalmente independentes, porém a descoberta de diamantes em 1867, próximo ao rio Vaal, atraiu colonos de todo o mundo. A Grã Bretanha anexou o Griqualand Ocidental em 1870. Temendo ataques Zulus, os Boers não se apuseram. Porém, 1880, puderam voltar sua atenção aos britânicos e aproveitaram a cobrança de um tributo contestado para declarar independência.

A vitória Boers representou a primeira derrota britânica desde a Revolução Americana. Essa vitória resultou em um armistício que permitiu aos Boers um governo autônomo, sob soberania britânica.

Todavia, após a descoberta de ouro na região do Transvaal, iniciou-se a Segunda Guerra Boer. Embora vitimada por enormes perdas, os britânicos venceram e anexaram a região em 1902.



Rubem L. de F.Auto
   


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

SOMOS COMO SOMOS PORQUE ASSIM NOS FOI ENSINADO


Quando os portugueses chegaram ao Brasil. Em 1500, sua situação como colonizadores era diferente daquela da Espanha no México e Peru. Não acharam uma civilização avançada com grande quantidade de metais preciosos para pilhar, ou disciplina social e organização capaz de permitir a criação tributos dos quais pudessem se apropriar.

Os índios nativos do Brasil eram principalmente caçadores coletores, embora alguns ensaiassem paços em direção à agricultura, usando técnicas de queimadas para cultivar mandiocas. Sua tecnologia e recursos significavam que eram iniciantes no trabalho com a terra. Não havia cidades, nem animais domesticados. Eram homens da idade das pedras, caçadores e pescadores, andavam nus, não conheciam a escrita nem os números.

No primeiro século da colonização, ficou claro que era difícil usar índios como escravos. Não eram dóceis, havia alta mortalidade quando expostos a doenças do mundo ocidental, poderiam correr e se esconder facilmente. Então Portugal voltou-se para a importação de escravos africanos para trabalhos manuais. O destino final dos índios brasileiros foi quase tão ruim quanto o dos índios norteamericanos. Foram empurrados para além das fronteiras da sociedade colonial. A maior diferença foi a grande miscigenação com invasores brancos e com escravos negros.

A maior parte da renda de Portugal com o Brasil veio com o desenvolvimento da exportação de commodities e dos lucros do comércio, mais do que nas colônias espanholas. Nos séculos XVI e XVII as rendas oficiais do Brasil eram pequenas – cerca de 3% das receitas públicas portuguesas em 1588 e 5% em 1619. No século XVI, a atividade econômica estava concentrada sobre uma população pequena de colonos que se dedicava à altamente rentável exportação – indústria açucareira orientada para o mercado externo, no caso do nordeste.

As técnicas utilizadas nessa indústria, incluindo escravidão de negros, foram previamente desenvolvidas nas ilhas da Madeira e São Tomé. Pecuária no sertão provia alimentos para essa população que trabalhava nas fazendas de açúcar.

As exportações de açúcar do Brasil atingiram um pico em 1650. Os lucros caíram após esse período, em razão dos preços decrescentes e da concorrência da produção rapidamente crescente no Caribe.

A recessão na produção de açúcar fez com que grandes áreas do nordeste se voltassem para uma economia de subsistência. Nos anos 1690, a descoberta de ouro e, em 1720, de diamantes, na região do sul de Minas Gerais, abriu novas oportunidades. Durante o século XVIII, havia considerável imigração européia, e migração interna do nordeste em direção a Minas, que permitiram o desenvolvimento da indústria do ouro e do diamante.

A properidade do século XVIII, em Minas, está retratada claramente no número de prédios sofisticados e igrejas de Ouro Preto, que era o epicentro da atividade mineradora. Como aquela região era de terras inférteis, as necessidade de comida e de transporte da região das minas estimulavam a produção de alimentos nas províncias vizinhas do Sul e do Nordeste, e criação de mulas no Rio Grande do Sul.
A produção de ouro alcançou seu pico em 1750, com a produção de cerca de 15 toneladas anuais. Mas, como os melhores depósitos se exauriram, a produção e as exportações declinaram. Na primeira metade do século XVIII, os lucros remetidos advindos do ouro equivaliam a 1.4 milhões de libras, em média, dos quais 18% pertenciam à Coroa portuguesa.

Os embarques totais de ouro brasileiro durante a maior parte do século XVIII ficaram entre 800 e 850 toneladas.

Na segunda metade do século XVIII, as finanças portuguesas estavam em estado lastimável. As rendas metropolitanas advindas do Brasil foram pressionadas pelo declínio na produção de ouro. As rendas vindas da Ásia entraram em colapso e Portugal tinha que arcar com os custos da reconstrução de Lisboa, após o terremoto de 1755. Para dar cabo desses problemas, o primeiro-ministro português, Pombal, expulsou os jesuítas do Brasil, em 1759, confiscou suas vastas propriedades, e os vendeu a ricos latifundiários e comerciantes a bem da Coroa. A maioria dos propriedades de outras Ordens religiosas foi confiscada nos anos seguintes.

Quando a produção de ouro entrou em colapso, o Brasil se voltou para a agricultura de exportação. Quando da independência, em 1822, os três principais produtos de exportação eram algodão, açúcar e café. A produção de café começou no início do século XIX, após a revolta dos escravos no Haiti quebrou a produção do país. O café era plantado no sudeste, enquanto que o açúcar e o algodão eram produções típicas do nordeste.

No fim do período colonial, metade da população era de escravos. Eles trabalhavam até a morte, após poucos anos na lavoura, e ingeriam uma dieta pobre de feijão e carne seca. Uma fatia privilegiada da população branca se beneficiava de alta renda, mas o resto da população (negros livres, mulatos, índios e grande número de brancos) era pobre. A atividade latifundiária se sustentava sobre a propriedade de escravos, portanto uma péssima distribuição de terras levou a uma péssima distribuição de renda. Havia desigualdades regionais relevantes. A área mais pobre era o nordeste. Minas Gerais já tinha deixado seus melhores dias para trás. A área mais próspera era o entorno da nova capital, Rio de Janeiro.

A independência veio muito suavemente, segundo os padrões latinoamericanos. Em 1808, a rainha de Portugal e o Regente fugiram de Portugal, em direção ao Rio, para escapar da invasão francesa na terra-mãe. Trouxeram cerca de 10.000 do establishment da metrópole consigo – a aristocracia, a burocracia, e alguns dos militares que organizaram um governo e uma corte no Rio e em Petrópolis, governando Brasil e Portugal com um reino unido (ambos tinham quase a mesma população). Após as Guerras Napoleônicas, os dois países se dividiram sem muita inimizade. O Brasil se tornou independente, com um Imperador, que era o filho do monarca português.

Com a independência, o Brasil cessou de enviar tributos a Portugal, mas o enorme establishment imperial reinante levou ao aumento da carga tributária. Os britânicos, os novos protetores (derivando de Protetorado) do Brasil, sacavam seus lucros comerciais crescentes. Entretanto, a independência significava poder criar seu próprio sistema bancário, imprimir dinheiro, afundar-se em inflação e pedir dinheiro emprestado no mercado internacional de capitais.

Houve um fluxo intermitente de capitais externos de 1820 em diante, a maior parte na forma de empréstimos diretos ao governo ou à venda de títulos do governo no exterior. Houve 17 empréstimos externos no período imperial. Não houve calotes e o Brasil tinha uma boa imagem com os banqueiros britânicos, que adiantavam todos os fundos.

Houve mudanças na política comercial após a independência. Até 1808, os portos brasileiros estavam abertos apenas a navios britânicos ou portugueses, e restrições mercantilistas impediam a produção de produtos manufaturados. Essas barreiras foram retiradas em 1808, mas o Reino Unido reteve direitos especiais extraterritoriais e tarifas preferenciais até 1827. As preferências foram então abolidas, mas o Brasil foi obrigado a obedecer a um teto de 15% ad valorem até 1844.

Isso foi um obstáculo fiscal sério a um governo que já tinha de sustentar todos os penduricalhos de uma monarquia, e sem a força política para impor impostos sobre terra e sobre a renda. Isso encorajou a tendência de seguir uma rota inflacionária e de depreciação monetária. Em 1844, quando o Brasil recobrou sua autonomia alfandegária, o nível geral de tarifas foi elevado em 30% para bens manufaturados, mas impostos sobre matérias primas e máquinas foram retirados.

Essas medidas estimularam a criação de uma indústria de fiação de algodão e têxtil. No período imperial, receitas tarifárias provieram 2/3 das receitas tributárias do governo e seus efeitos na proteção da indústria local foram significantes. Receitas tarifárias conformaram uma proporção maior das importações do que em qualquer outro país, exceto Portugal.

Em 1833, o Reino Unido aboliu a escravidão nas Índias Ocidentais e começou a interferir ativamente no tráfico de escravos. Entre 1840 e 1851, o influxo de escravos no Brasil foi de 370.000, mas após isso a marinha britânica pôs um fim nisso. A escravidão continuou por cerca de mais quatro décadas. Mas a economia se modificou significativamente com o fim do tráfico de escravos. O efeito imediato foi dobrar o preço dos escravos e fazê-los menos lucrativos para o trabalho, até a breve morte. O sexo e a estrutura etária da população negra começou a mudar. Em 1888, a escravidão foi abolida desacompanhada de qualçquer compensação, ou qualquer ajuda aos ex-escravos. Por esse tempo, a população escrava era de apenas 7% do total, se comparado com os 13% nos EUA em 1860, nos estertores da Guerra Civil americana.
O Imperador foi deposto em 1889 pelos militares, os quais estabeleceram uma república oligárquica. Igreja e Estado estavam separados. A entrada na festa era restrita a proprietários. A presidência geralmente se alternava entre políticos de São Paulo e de Minas Gerais em um esquema preordenado. A monarquia exerceu um poder centralizado, mas agora as províncias tornaram-se estados com uma boa autonomia, incluindo controle sobre tributos alfandegários, os quais poderiam ser cobrados tanto sobre o comércio exterior como o interestadual. No nível estadual, o poder estava concentrado nas mãos de uma pequena classe política que favorecia seus apadrinhados e parentes.

No nível local, o coronelismo prevalecia. Esses pequenos-burgeses-meio-gângsteres construíram seus latifúndios por meios nem sempre legais e exerciam poderes do tipo senhoriais sobre os cidadãos menos prósperos.

Nos anos iniciais da República, as dores do processo de sair da escravidão e ir em direção ao trabalho assalariado eram óbvias. O café não era mais rentável nas regiões em torno do Rio de Janeiro, as quais se tornaram áreas pecuárias. A posição competitiva de São Paulo foi fortalecida. O clima e o solo eram melhores para a cultura do café do que os vales erodidos no estado do Rio. Fora constituída uma força de trabalho de imigrantes brancos desde 1840, quando o Senador Vergueiro introduziu-os em suas plantações. 

O governo estadual subsidiou a imigração (principalmente de italianos) em larga escala de 1880 a 1928. Nos anos 1920, muitos dos imigrantes em São Paulo eram japoneses. Essa parte do país foi muito auxiliada pelo crescimento das estradas de ferro e do desenvolvimento do porto de Santos. A educação média dos imigrantes também era consideravelmente melhor do que a média dos brasileiros. Tinham o dobro da capacidade de leitura e três vezes mais em termos de educação média e superior. Sua média de rendimentos os tornou mais caros do que escravos, mas sua produtividade era maio e seu número poderia ser rapidamente expandido por imigração.

A economia do nordeste estagnou na República nesse período. Lá e em outras partes, a população negra e mulata normalmente absorviam poucos dos benefícios do crescimento, num país em que não tinham direito ao voto, acesso à terra, educação ou qualquer forma de auxílio governamental para que se ajustassem a uma economia baseada no salário.       

O governo português no Brasil teve diversas conseqüências duradouras:
a)      O Brasil é caracterizado por muitas e enormes disparidades em renda, patrimônio, educação e oportunidades econômicas. São números mais extremos do que na Ásia, Europa ou América do Norte. A estrutura social ainda faz ressoar ecos  da era colonial, quando havia grandes desigualdades no acesso à terra, e os trabalhadores, em geral, eram escravos. A negligência contínua da população pública é muito marcante, mesmo para os padrões latinoamericanos e tem impedido o aumento da produtividade. Outro aspecto da desigualdade é regional. A disparidade da renda per capita entre o estado mais pobre, Piaui, e o Distrito Federal é de cerca de 7:1. Os únicos países em que há esse nível de desigualdade são México e China.
b)      Desigualdades de renda e oportunidade no Brasil são associadas intrinsecamente com a etnia, mas a herança da escravidão tem produzido menos tensão social do que nos EUA. Gilberto Freyre argumentava que os brasileiros são mais ou menos cegos para cores, e que o Brasil apresenta uma uniformidade social dos ricos aos pobres sem antagonismos sociais específicos. O Brasil era diferente dos EUA principalmente porque a sociedade portuguesa e, naquela época, os colonizadores portugueses foram fortemente influenciados pelo mundo muçulmanos. Florestan Fernandes foi muito mais crítico da sociedade brasileira, que dizia praticar a discriminação social de forma discreta.
c)       O Brasil foi favorecido por transições políticas suaves, mais do que em outros países da Amércia Latina. O Tratado de Tordesilhas dividiu as Amércias amigavelmente entre Portugal e Espanha. O pedaço de Portugal se estendia 48º a oeste de Greenwich, mas suas fronteiras, naquele momento, mostravam extensões de terras três vezes maiores – situação resolvida pacificamente pelo Tratado de Madri, em 1750. A maior parte dos ganhos territoriais foram produto do esforço das pessoas que moravam junto às fronteiras. A única invasão substancial foi a ocupação holandesa do nordeste. Conflitos para preservar as fronteiras contra os franceses e espanhóis foram insignificantes, e a última aquisição territorial, o Acre, foi uma compra feita junto à Bolívia. A maior guerra externa foi contra o Paraguai. É um contraste completo com o México, o qual perdeu metade de seu território em guerras contra os EUA, ou com a experiência européia ou asiática de guerras de fronteiras.
d)      As transições políticas domésticas tranquiilas são outra característica nacional. A independência foi conquistada sem lutas relevantes, com o príncipe português tornando-se imperador do Brasil. A escravidão foi abolida sem guerras civis. O império tornou-se República sem guerras. A ditadura Vargas começou e terminou com relativamente pouca violência, o mesmo é verdade para a ditadura militar.
e)      A combinação de transições suaves de governo, afastamento de conflitos externos e relativa paz nas relações sociais entre grupos étnicos distintos permitiu ao Brasil assimilar a mistura cosmopolita de colonos originais portugueses, descendentes de escravos africanos, imigrantes tardios da Itália, Japão, Alemanha e do Líbano. É um países de fronteiras com um alto grau de auto-confiança. É uma Federação mais descentralizada do que muitos países de grandes extensões e tem uma vida cultural bem variada.



Rubem L. de F. Auto
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WHITE GOLD IN BRAZIL – O AÇÚCAR NO PAÍS DA SOBREMESA


Quem não gosta de bolo, sorvete e tantos docinhos feitos com o acionador favorito da região do prazer no nosso cérebro, o açúcar?

Todos gostam, como se pode constatar pelas cinturas avolumadas e pelas cáries nos dentes. É improvável que amantes de coisas açucaradas pensem em História enquanto se deliciam com estimados 45 quilos de açúcar por ano (nos EUA), mas o doce já teve papel importante num dos períodos mais azedos da era moderna.

O ouro branco, como os colonos britânicos o chamavam, foi o motor do tráfico de escravos, que trouxe milhões de africanos para as Américas, a partir do século XVI. A história de todas as nações do Caribe, da maior parte da América do Sul e de parte do sul dos EUA foi, para sempre, moldada pela cana de açúcar, cultivada com fins econômicos por superpotências européias.

O lucro advindo do comércio de açúcar era tão significativo que pode ter ajudado os EUA a alcançarem sua independência da GB.

Por milhares de anos, pessoas de todo o mundo foram atraídas pelo gosto doce. Antes que o açúcar se tornasse conhecido, nossos ancestrais comiam mel, tâmaras e outros alimentos doces, os quais usavam como adoçantes. Sabemos disso por registros ancestrais de povos do Mediterrâneo.

O mel é nosso adoçante mais conhecido. Nas cavernas de Arãna, na Espanha, pinturas rupestres de 12.000 anos mostram mulheres coletando mel. Elas usavam o mel para cozinhar, como se faz hoje, para fazer hidromel (bebida alcoólica) e para limpar machucados. O primeiro tipo de mel que nossos ancestrais usaram foi o mel selvagem, tirado de ninhos de abelhas selvagens. Mais tarde, as pessoas começaram a deixar as abelhas nas colméias, como fazemos hoje.

Embora o açúcar tenha chegado à Europa por volta do ano 1100, não foi amplamente usado até o século XVI. Até então era reservado a pessoas ricas, que o usavam tanto para adoçar comida quanto como remédio.   

A primeira planta da qual se extraiu açúcar foi a cana de açúcar. As espécies gramíneas das quais a cana de açúcar evoluiu se originaram de algumas pequenas ilhas no Oceano Pacífico, Polinésia e Melanésia, dentre outras. Especialistas estudaram essas espécies gramíneas até sua origem, de 10.000 a 15.000 anos atrás.

As espécies originais foram transportadas à Índia, Indonésia e China há aproximadamente 8.000 anos, e desde então estão extintas. A cana de açúcar atual pode alcançar 6 metros de altura. Cresce em climas tropicais e subtropicais. Requerer muita água e calor. Os maiores produtores mundiais são: Brasil, Cuba, Índia, Filipinas e México.

Como as pessoas usavam o açúcar no interior da cana de açúcar, antes que os métodos de produção modernos fossem inventados? Os indianos chupavam a cana, como se faz ainda em muitos lugares do mundo. Mais tarde, passou-se a ferver o suco da cana, formando cristais de açúcar sólido.

De acordo com a lenda, foi Alexandre o Grande quem primeiramente trouxe cana de açúcar – ou pelo menos histórias a respeito dela – para a Grécia, após uma expedição militar à Índia. Por volta de 300 aC, seu almirante, Nearchos, navegou desde o Golfo Pérsico, ao longo do rio Indo, onde a cana de açúcar crescia às suas margens, balançando ao vento. Nearchos pegou uma, provou-a, e exclamou: “Canas indianas que produzem açúcar e sem abelhas!”

Os árabes trouxeram o açúcar à região do Mediterrâneo. Eles cultivaram canas de açúcar no sul da Espanha e na Sicília, após a ocupação dessas áreas. Na Idade Média, Veneza era o maior exportador e importador de açúcar da Europa. Cana de açúcar bruta era importada da Índia e refinada em Veneza, antes de ser exportada para o resto da Europa.

O açúcar era muito caro e conhecido como ouro branco. Pessoas ricas estocavam açúcar como uma forma de poupança. Uma história diz respeito a um bispo que comprou açúcar de comerciantes portugueses, por muitos anos, e o estocou em seus aposentos. Quando morreu, suas posses foram repartidas entre os monges que lhe eram mais próximos. Entre as posses estava o açúcar. Os monges o experimentaram com grandes expectativas, mas desgostaram dele. Em vez de ser doce, estava amargo. Eles não sabiam que esse açúcar era transportado pelo Egito por meio de camelos, cujo suor foi absorvido pelo açúcar, deixando azedo e sem qualquer valor comercial.  

A produção de açúcar cresceu no final do século XV, quando exploradores trouxeram cana de açúcar mais para o sul. Por exemplo, Henrique o Navegante espalhou-o da Sicília a Creta. Inicialmente, o suco era extraído usando-se prensas manuais. Mais tarde as pessoas começaram a usar rodas movidas por animais e, após, rodas d`água.

Durante sua viagem, Colombo descobriu que o Caribe tinha o clima perfeito para cultivar cana de açúcar. Aprendera sobre seu cultivo nas ilhas Madeira, e levou a cana à América (Índias ocidentais), onde era plantada e colhida em grandes plantações. O açúcar bruto era despachado para a Europa para ser refinado e comercializado. Com o incremento da produção, tornou-se mais amplamente comercializado e já não era mais reservado às classes mais altas.

No século XVII, a maioria dos países europeus tinha colônias por todo o mundo, onde plantavam cana de açúcar. Um aspecto degradante da história do açúcar eram os escravos retirados da África e enviados às colônias, para laborar naquelas tormentosas plantações.

Durante as Guerras Napoleônicas, Napoleão bloqueou as rotas comerciais oceânicas para impedir que o açúcar fosse importado por mar. Como conseqüência, os europeus procuraram um substituto da cana. Eles descobriram que o açúcar poderia ser extraído da beterraba. Entretanto a beterraba tinha uma concentração muito baixa de açúcar, o que levou ao aumento do preço do açúcar.

Após aquelas Guerras, a França retomou o controle das rotas comerciais e a cana de açúcar tornou-se disponível de novo. A produção do açúcar de beterraba tornou-se redundante. Contudo, as coisas mudaram novamente quando a escravidão foi abolida, em meados do século XIX e o trabalho barato desapareceu – causando a subida do preço do açúcar, de novo. Por essa época, a beterraba foi aperfeiçoada e agora passou a contar com a mesma concentração de açúcar encontrada na cana. Iniciava-se assim um novo capítulo completamente novo na história do açúcar na Europa.

Todavia, mais da metade da produção global de açúcar ainda vem da cana.

Hoje, produz-se mais açúcar no Brasil que em outro lugar qualquer do mundo, embora, ironicamente, a planta nunca tenha se desenvolvido muito na América do Sul. A cana de açúcar – nativa do sudeste asiático – fez sua primeira aparição no Novo Mundo com Cristóvão Colombo, durante sua viagem em 1492, na República Dominicana, onde ela se adaptou bem ao clima tropical.

Notando o potencial econômico da cana de açúcar para as novas colônias americanas – os europeus já consumiam o açúcar vindo de colônias no Oriente –, colonizadores espanhóis transmudaram sementes das fazendas de Colombo, na República Dominicana, e as plantaram ao longo de suas florescentes colônias caribenhas. Em meados do séc. XVI, os portugueses haviam trazidos algumas para o Brasil e logo a cana de açúcar foi parar nas colônias britânicas, holandesas e francesas, tais como Barbados e Haiti.

Não demorou muito, entretanto, até que os primeiros colonos percebessem que eles não tinham mão de obra suficiente para plantar, colher e processar a laboriosa cultura.

Os primeiros escravos chegaram em 1505 e continuaram a chegar incessantemente por mais de 300 anos. A maioria veio da África Ocidental, onde colônias portuguesas já tinham estabelecido postos comerciais para marfim, pimenta e outros produtos. Para a maioria dos mercadores portugueses, as pessoas que eles punham em navios cargueiros para atravessar o Atlântico – uma viagem medonha conhecida como “Passagem do Meio” – eram meramente um extensão do sistema comercial posto em prática.

A escravidão nas plantações de cana de açúcar era o componente-chave, que os historiadores denominam de Comércio Triangular: uma rede, onde escravos eram enviados para trabalhar em plantações do Novo Mundo, o produto de seu trabalho era enviado a uma capital européia para ser vendido, enquanto outros produtos eram enviados à África para serem trocados por mais escravos.

Em meados do século XIX, mais de 10 milhões de africanos foram forçadamente removidos para o Novo Mundo e distribuídos entre as plantações de açúcar do Brasil e do Caribe.

Durante esses três séculos, o açúcar era de longe a mais importante das commodities de além-mar, que respondia por um terço da economia européia inteira. Conforme a tecnologia avançava e se diversificava, adicionando-se melado e rum aos coprodutos das plantações de cana, os barões do açúcar de St. Kitts à Jamaica enriqueciam enormemente.

Essas colônias ricas em açúcar, especialmente aquelas pertencentes a britânicos e franceses, tiveram enorme conseqüência para o delineamento do mapa das Américas no séc. XVIII.

A GB perdeu suas 13 colônias americanas, ao se tornarem independentes, em parte, porque suas forças militares estavam ocupadas protegendo suas ilhas de fazendas de açúcar, dizem muitos historiadores.

Os escravos empregados em plantações de açúcar no Sul dos EUA, na África e no Caribe, eram muito mais numerosos que os seus proprietários europeus. Os fazendeiros britânicos viviam constantemente com medo de revoltas e demandavam soldados para que os protegessem. Muitas batalhas decisivas da Revolução Americana teriam tido final distinto caso os britânicos tivessem enviado sua força total.

Guarnições enormes estavam estacionadas nas Índias Ocidentais para proteger fazendas de açúcar que os britânicos tinham abandonado, no fim da Guerra dos Sete Anos, em 1763. Ao dividir as Américas após o fim dos conflitos, o Rei George III decidiu pela cessão algumas de suas ilhas caribenhas produtoras de açúcar à França, com o fim de assegurar um pedaço mais relevante na América do Norte.

Como se pode avaliar essa negociação?

Ao permutar a doce e lucrativa Guadalupe pelas estéreis e amargas terras do Canadá, somadas  a terra a leste do rio Mississipi, muitos ingleses acharam que o rei fez um mau negócio.


Rubem L. de F. Auto

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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

CANAIS INGLESES – SINÔNIMO DE TRANSPORTE BARATO E DE DESENVOLVIMENTO DE ÁREAS INTERIORES


Na história dos canais, a Grã Bretanha não foi pioneira. Os chineses podem reclamar para si o primeiro deles: o Grande Canal da China, construído no século X. Entretanto, existem exemplos anteriores até mesmo na própria China.

O canais mais antigos se conectavam com rios naturais, por meio de pequenas extensões ou por meio de melhoramentos feitos nesses rios. A diferença entre um rio natural, e um canal totalmente artificial é bem clara, mas entre esses dois extremos há muitas variedades de tipos de canais, portanto é difícil dizer qual foi o primeiro canal da história. O tipo de canal mais comum na Inglaterra, diz-se, foi inventado por Chhiao Wei-Yo, no ano de 983 dC, na China, embora haja exemplos de canais do tipo cuja invenção é creditada a Leonardo da Vinci (1452-1519) – os “mitre gate”.

Os romanos construíram na Grã Bretanha o Fossdyke, de Lincoln ao rio Trent, para drenagem e para navegação, além do Caer Dyke, por volta de 50 dC. Um caminho fluvial notável, concluído em 1566, foi o canal Exeter, o qual encurtou a distância em parte de um rio, fazendo sua navegação mais fácil. Foi o primeiro canal a contar com uma eclusa, portões verticais. Os canais do estilo “mitre gate”, que possuem comportas em forma de V mantidas juntas pela pressão da água, foi inaugurada na GB no rio Lee, em Waltham Abbey. Outros canais britânicos mais antigos são seções melhoradas do rio Welland, em Lincolnshire, construídos em 1670, e o Stroudwater Navigation, em Gloucester, construído entre 1775 e 1779 e o canal Sankey, em Lancashire, aberto em estágios, entre 1757 e 1773.

A idade de ouro da construção de canais se iniciou com a construção do Bridgewater Canal. Esse caminho fluvial pioneiro foi iniciativa do Duque de Bridgewater. Ainda como um jovem bem educado, o Duque visitou um grande canal recém-construído, o Canal Du Midi, na França, com 150 milhas de distância, cuja construção foi finalizada em 1681.

O Duque tinha minas de carvão em Worley, noroeste de Manchester, uma grande cidade consumidora de carvão. O Duque elaborou seus planos com John Gilbert, um dos gerentes de suas propriedades, e ambos trouxeram o engenheiro James Brindley, quem já possuía reputação por seus trabalhos em engenhos, rodas d`água etc.

A lei de regulação foi promulgada em 1759 e ainda sobrevieram leis parlamentares para emendar e ampliar o objeto. Finalizada em 1776, o Canal Bridgewater foi o catalisador de um período de meio século de construção de canais. Brindley construiu um aqueduto o qual ainda é lembrado como uma grande realização, e havia tuneis adentro a mina em Wosley, onde o carvão era embarcado. O preço do carvão em Manchester caia conforme novos meios de transporte tornavam as entregas as mais baratas possíveis.

Após, seguiram-se um grande número de navegações de longa distância, sendo Bridley o engenheiro principal desses tempos. Ele construiu a maior parte do que se denomina “Grande Cruzamento” de canais, os quais ligam as quatro grandes bacias hidrográficas britânicas (Severn, Mersey, Humber e Tâmisa), sendo a Bacia do Tâmisa alcançada a partir de 1790, via Canal de Oxford, rota que liga o norte a Londres.

Houve dois períodos de construção de canais: de 1759 ao início dos anos 1770; e de 1789 até o final do século XVIII. A Guerra de Independência Americana separou esses dois períodos. Londres e o sudeste não constavam muito no primeiro período. Canais eram construídos para servir à indústria pesada do norte e da área central e, embora Londre tivesse indústrias e o maior porto do país, não dispunha de minas de carvão, e toda a região no sudeste do país era primordialmente agrícola.

Foi apenas em 1793 que uma lei aprovada que autorizava o Grande Canal de Junção, de Braunston, no Canal Oxford, a Brentford, no rio Tâmisa, oeste de Londres. Londres não estava ligada diretamente à grande rede nacional de canais até 1801, com a inauguração do braço do Grande Canal em Paddington.   


Rubem L. de F. Auto

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COMO FUNCIONA O SISTEMA DE DRENAGEM DE TERRENOS ALAGADOS E DIQUES DA HOLANDA


O sistema de drenagem na Holanda começou a ser construído do séc. XII em diante, quando as pessoas iniciaram a utilização de terras aráveis por drenagem de pântanos, em deltas de rios localizados nas redondezas.

Por séculos os agricultores adaptaram sua agricultura para solos cujo nível se reduz ao longo dos anos e para inundações periódicas. Inventaram também novas formas de manter as águas dos rios e do mar à distância – resultando na construção de centenas de moinhos de vento para drenagem e, mais tarde, em estações de bombeamento, para levar a água das áreas de drenagem de volta para os rios e para o mar.

Desse processo, resultou a criação das atuais áreas drenadas, caracterizadas por pastagens em áreas de turfas, com canais de drenagem, economicamente sustentados por fazendas de laticínios, abrigando flora e fauna riquíssimas.

Esses sistemas funcionam em um contexto de (entre outros) nível do mar crescente, rebaixamento do solo, uso crescentemente multifuncional do solo (urbanização, recreação e turismo, conservação da natureza, conservação da cultura), interferência de políticas agrícolas, e outros. Um conjunto enorme de atores governamentais, não governamentais e organizações privadas assumiram ações de governança nas áreas drenadas.

Os mais tradicionais são os “conselhos de águas”, com responsabilidade de prover segurança aos cidadãos. A cultura de drenar áreas alagadas e expandir suas áreas em direção ao mar é um aspecto crucial da cultura holandesa.

A Holanda é um país localizado no delta de três rios europeus. O maior deles é o Rhine, que corre dos Alpes, pelo oeste da Alemanha, até a Holanda. O Meuse corre da França, passa pela Bélgica, até o sul da Holanda. O rio Schelde forma uma área a sudoeste do país. O contato dessas áreas banhadas por rios com o Mar do Norte formou enormes pântanos e areais. Grande parte só foi ocupada após o a II GM, e em áreas de terreno argiloso.

 Alguns dos sistemas de drenagem são modernos (pós II GM), mas há os tradicionais. O mais famoso é conhecido como “coração verde da Holanda”. Situa-se entre as cidades de Rottedam, The Hague, Amsterdam e Utrecht, constituída de diferentes diques. Trata-se de área conservada e protegida do mar, não é área tomada do mar.

A Holanda é ameaçada pelas águas do mar ou dos rios. Ao longo dos séculos, as áreas que fazem contato com rios melhoraram o sistema de drenagem, tanto urbano quanto rural. Como conseqüência, nas estações chuvosas o nível desses rios varia muito, criando um desafio para os diques localizados no seu curso. Depois de uma série de quase-alagamentos, nos anos 1990, o país decidiu-se por um programa de rebaixamento do leito dos rios e de alargamento de suas margens, criando áreas de alagamento – projeto nomeado “Espaço para o rio”. Criaram, assim, áreas para prática de uma agricultura mais tradicional.

O mar impõe perigo mais relevante. Com o aquecimento global, tanto o gelo polar derrete quanto o nível do mar sobe, resultando no seu crescimento contínuo. Isso tem implicações sérias para áreas às margens dos rios, porque nível do mar mais elevado implica nível de rios também elevados – áreas há muito desabitadas podem ser alagadas, e a água irá escoar pelos diques, em direção às terras mais baixas. A questão é: até que ponto a elevação do nível das águas é uma novidade? Como os holandeses têm lidado com a água ao longo de sua história? Bom, já se encontraram projetos de diques e de canais de drenagem construídos há mais de mil anos.

A drenagem dos pântanos ocorre em direção aos rios. Assim, fazendeiros deram forma à geografia atual. Um conjunto complicado de canais, de pequenos drenos até grandes canais. Assim, pôde-se permitir a plantação de diversas culturas.

O solo do país é à base de turfas. Essas, quando em contato com o ar, oxidam-se. Esse processo levou ao rebaixamento do solo. Em poucos anos, após as drenagens iniciais, o solo já estava rebaixado ao nível dos rios. Precisava-se bombear água. Inicialmente a energia utilizada era a humana. Contudo, deram início à construção de sistemas de bombeamento por moinhos de vento. A água era levada para os canais, mas apenas próximos ao local onde desembocam para o mar.

Ao mesmo tempo, as pessoas precisavam construir diques para manter as águas dos rios fora de suas terras. Originalmente, esses diques eram construídos por fazendeiros, individualmente, ou por pequenas comunidades. Entretanto, caso o dique da fazenda vizinha quebrasse, sua fazenda também seria alagada. Era necessária alguma coordenação. Alguns se organizaram em “conselhos de águas”, que criaram normas de responsabilidade e multas, que eram impostas em caso de culpa de algum indivíduo. A primeira área totalmente drenada chamava-se Alblasserwaard, no séc. XII, onde a gestão das águas era realizada por diferentes conselhos. Ordenado pelo Conde de Floris V, criou-se um anel de diques em torno da área.

Após alguns alagamentos no séc. XVIII, percebeu-se que o sistema não era suficiente para manter a água fora de suas terras. Um passo extra foi a construção de um complexo de 19 diques movidos a vento para bombear água, próximos à cidade de Kinderdjik.

Durante a II GM, o país ficou sem combustível, sendo portanto os moinhos a única fonte de energia disponível. Após a guerra novos sistemas foram instalados, desativando-se assim o sistema de bombeamentos de água por força dos ventos. Após, foram reconstruídos com propósitos turísticos. Cerca de 1.100 foram recuperados com recursos do governo ou de particulares. Muitos são usados.

O sistema funciona mais ou menos assim: a água é drenada dos terrenos alagados; bombeada para um canal; de lá, seguem para um reservatório; quando a maré desce, a água segue para o rio e, de lá, para o mar. Interessante notar que os moinhos de vento podem ser totalmente redirecionados, para acompanhar a direção dos ventos.

Após 1970, uma nova geração de fazendeiros procuraram alcançar produtividade e conservação da natureza, simultaneamente. Além de áreas de reserva natural, biótipos preservados por fazendas são motivo de preocupação. Pessoas procuram clubes de fazendeiros para ver como eles têm mantido sua produtividade, ao mesmo tempo em que preservam a variedade de pássaros locais.

Em geral, campos com nível de água mais elevado são mais apropriados para criar vacas leiteiras do que para plantações. Devido à saída de pessoas em direção a cidades como Schiedan, Rotterdam e Dordrecht, criou-se um bom mercado para laticínios. Como a produção das vacas era irregular, e o leite tinha de viajar de 40 a 50 km, portanto mais de um dia, precisava-se criar métodos de conservação do produto. Até que descobriram que o coalho do estômago das vacas fornecia esse método. Esse ainda é o método básico utilizado na indústria de laticínios até hoje.

Por volta de 1890, a primeira cooperativa adotou esse processo e com ele produzia toda sorte de queijo. Muitas dessas fábricas floresceram na forma de um setor de laticínios que exporta até 60% da produção e fatura em torno de 600 milhões de euros.  

Recentemente, o queijo de cabra foi adicionado à lista de queijos tradicionais holandeses. Por volta de 3.000 atacadistas e 6.000 varejistas estão envolvidos no setor de laticínios, na Holanda.

São 62.000 empregos, gerados por um mercado que ajuda a manter as terras holandesas devidamente drenadas ...


Rubem L. de F. Auto

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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

CONTABILIDADE – HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO NOS EUA


Em 1913, a 16ª Emenda foi ratificada. Isso significa que, além dos tributos sobre empresas criados poucos anos antes, havia agora um tributo federal a ser pago por todas as pessoas que trabalhavam nos EUA. Tributos sobre a renda e sobre empresas eram pouco compreendidos e duramente combatidos nos seus anos iniciais. Como conseqüência, a maioria dos indivíduos e das corporações não os estavam pagando, ou os apuravam incorretamente. Contadores não tinham certeza sobre certos itens como depreciação e deduções de impostos. A carga de trabalho e a demanda por contadores, entretanto, cresceu em conjunto com alíquotas de impostos.

Em 1917, o Federal Reserve publicou Uniform Accounting (Contabilidade Uniforme), um documento que procurava criar padrões de como as finanças deveriam ser organizadas, tanto para relatar tributos quanto para interpretações financeiras. Não havia, entretanto, leis que sustentassem essa normas, tendo portanto pouco impacto.

A quebra do mercado de ações em 1929, que deu origem à Grande Depressão, expôs massivamente fraudes contábeis de Companhias listadas na NYSE. Fazia-se necessário criar medidas mais específicas, como a auditoria independente dos relatórios financeiros antes de seu registro em Bolsa.

Em 1933 e 1934 foram publicadas duas normas: Securities Act, sobre valores imobiliários, e Securities Exchange ACT, sobre oferta pública inicial. Essas foram as bases da criação da SEC – Securities and Exchange Commission. A SEC instituiu a revisão regular dos relatórios financeiros e começou a longa tendência de regulações governamentais sobre tanto a prática contábil como de investimentos.

A SEC, agindo verdadeiramente como governo, mudou a maneira como agia e delegou a responsabilidade para padronizar a contabilidade a uma sucessão de Comitês e Conselhos como siglas as mais diversas: AIA, CAP, AICPA e APB. Finalmente, o atual FASB surgiu em 1973. Embora esses Conselhos preenchessem páginas e páginas de padrões contábeis ao longo dos anos, a aprovação final sempre foi deixada a cargo da SEC. A SEC raramente interfere.

Conforme as normas sobre os relatórios financeiros se avolumassem e as empresas devessem usar diferentes firmas para serviços de auditoria externa e outros serviços, as mesmas grandes firmas contábeis continuaram a dominar mais e mais o mercado. Isso especialmente porque elas tinham os profissionais e a experiência para o trabalho, e ainda havia a sensação de prestígio ao se tornar cliente de empresas que nunca paravam de crescer.

Como parte de suas estratégias de crescimento, essas firmas se fundiam com empresas menores para dar conta de uma carga de trabalho crescente, conforme mais empresas tornavam-se públicas e regulações (e gerenciamento) demandavam relatórios financeiros cada vez mais freqüentes e rigorosos. P9or volta de 1970, havia oito firmas que lidavam principalmente com contabilidade para empresas listadas.

Como todas as empresas tinham que contratar duas firmas, uma para auditoria outra para serviços contábeis que não auditoria, a competição entre as oito principais ficou mais cerrada, levando a mais fusões. Por volta de 1989, as “oito grandes” ficaram reduzidas a seis. Em 1998, os “seis grandes” tornaram-se apenas cinco. Este grupo ficou desfalcado em uma firma quando, em 2002, o escândalo Enron arrastou a Arthur Andersen consigo. As quatro restantes compraram seus espólios.

Essas quatro possuem agora uma espécie de oligopólio, porque a competição foi reduzida significativamente enquanto as necessidades de regulação e reporte, por parte delas, cresceu. Disso resultaram Companhias listadas em Bolsa tendo de pagar mais por serviços, tanto de auditoria quanto outros.

A despeito do fato de que essas quatro firmas dominam o mundo da contabilidade corporativa, alguns dos maiores empregadores de contadores certificados de empresas que negociam ações em Bolsa (nos EUA, CPAs) incluem também American Express e outros bancos e bandeiras de cartões de crédito. Imposto de renda e crédito afetam milhões d epessoas que nem sabem que existe uma tal de FASB. Elaborar Relatórios Financeiros pode ser a luz da ribalta da contabilidade, mas o coração da indústria contábil ainda é fazer as pessoas apurarem e pagarem seus impostos em dia.

Além das tarefas tradicionais da contabilidade, como prover informações importantes para tomada de decisões, verificar a adesão da Cia às normas do setor em que atue e análise de informações gerenciais, outra atribuição se avizinha: informação sobre valor corrente. Muitos argúem que o modo de utilização do Custo Histórico leva informações incorretas; o custo atual é mais relevante para os investidores. Os Balanços seriam mais representativos da realidade. Contudo, muitos discordam desse entendimento.

Outra mudança na contabilidade empresarial é a introdução de publicidade na indústria contábil. Historicamente a publicidade é feito boca a boca, por recomendação de clientes. Conforme o mercado fica concentrado, mais regulações deverão surgir, como proteção aos clientes dessas firmas.

Até lá, espera-se que a contabilidade entregue mais informações  a investidores e gerentes, tão rápido quanto possível.


Rubem L. de F. Auto
  
Fonte:


terça-feira, 18 de outubro de 2016

URSS – COMO SE DEU O FIM DO IMPÉRIO SOVIÉTICO


O colapso da URSS pode ser observado já na década de 1960, quando houve a deterioração completa das relações sino-soviéticas (China e URSS). Entretanto, esse também foi o momento em que foram se estabelecendo as primeiras limitações às armas nucleares, o início das tratativas do SALT e outras medidas que realocariam parte dos recursos do orçamento de defesa para outras áreas.   

Nas décadas de 1970 e 1980, a União Soviética parecia ser um dos países mais estáveis do mundo. Internamente também, parecia forte a cada dia ainda mais forte. Seus regimes-clientes, como diversos países africanos, estavam seguros na órbita soviética. Mas havia muitas coisas acontecendo, embora ainda ocultas.

Em 1974, houve um encontro entre o presidente dos EUA, Gerald Ford, e sua contraparte soviética, Leonid Breznev, numa cidade próxima a Vladivostok. Finalizado o encontro, Breznev dirigiu-se a seu trem. Contudo, o trem não partiu. Ninguém foi informado do motivo do atraso, que se estendeu ao dia seguinte. Pela manhã, houve o comunicado de que Breznev havia sofrido um infarto. Seu médico depois esclareceu que o real motivo foi uma overdose do remédio que usava para dormir. Ele estava viciado nessa medicação. O que, aliás, é bastante compreensível em se tratando de um Chefe de Estado em meio a uma Guerra Fria.

Uma das razões para não se compreender com facilidade a quebra do regime econômico soviético era a quantidade colossal de exportações a partir do país. Em termos de quantidades, nunca se produziu e exportou tanto naquele país como nos seus últimos anos. Contudo, havia um detalhe pondo toda aquela construção abaixo: a falta de produtividade.

Esse problema advinha da falta de incentivos à produtividade. Como se costumava dizer: o Governo finge nos pagar, nós fingimos trabalhar.  O economista russo Grigory Yavlinski, conselheiro de Mikhail Gorbatchev, convenceu-se da necessidade de reformas quando analisou a baixa produtividade das minas soviéticas. Percebeu que os mineiros não estavam trabalhando por falta de incentivos.

Ao lado desse, havia muitos outros problemas. Em meados dos anos 1980, cerca de 70% do PIB industrial soviético ia para o complexo militar. Oleg Gordievsky, um membro da KGB que fugiu para a Grã Bretanha, disse que pelo menos 1/3 do PIB total esta indo para os militares. A inteligência do Ocidente não poderia crer em números tão altos, mas chegaram à estimativa mínima de 50%. Pode-se imaginar o que a escassez de bens industriais pode prejudicar com o resto da economia.

A Administração Reagan aumentou o orçamento militar e pretendia implantar o Sistema de Mísseis Antibalísticos Star Wars – Strategic Defense Initiative ou SDI. Para conseguir competir, a URSS deveria aumentar ainda mais a participação do complexo militar no PIB do país. OS burocratas soviéticos perceberam que era virtualmente impossível fazer esse acréscimo. Finalmente, decidiram por finalizar a guerra armamentista – pediram o fim da Guerra Fria. Quando a ameaça externa foi removida, não mais havia razão para os russos tolerarem medidas políticas que tinham o fim único de enfrentar um inimigo externo. Assim, todo o regime foi demolido.

O acordo entre Ford e Breznev levou à assinatura do SALT – Strategic Arms Limitation Talks. Enquanto os negociadores soviéticos falavam em desarmamento com o Oeste, em Helsinki, Finlândia, o exército soviético instalava mísseis nucleares de médio alcance SS20. Somente o núcleo do complexo militar-industrial sabia desses mísseis. Os negociadores no SALT não sabiam; mesmo os níveis mais altos da inteligência soviética (KGB) não sabiam. Esses negociadores somente souberam acerca dos mísseis quando fontes ocidentais publicaram os locais em que se encontravam. Os EUA e a Europa ocidental reagiram aos SS20 por meio da instalação dos mísseis Pershing e Cruise na Europa ocidental. Os soviéticos reagiram com a proposta de um processo de paz.

Os líderes soviéticos sempre focaram o poderio militar. Por volta de 1970, os russos haviam atingido paridade militar com os EUA. Conseguiram isso mesmo com metade ou até 1/3 do orçamento militar americano. Mas paridade com os EUA não era o suficiente. O líder soviético Andropov sugeriu que a URSS alcançasse paridade com as forças da OTAN somadas às da China.

Parte do poderia militar soviético estava na capacidade de construir milhares de itens, como tanques de guerra por exemplo. Tinham 25.000 apenas na Alemanha Oriental. Esse poderio lhes causava prazer e lhes dava confiança. Essa confiança se desfez quando o presidente Carter anunciou que os EUA estavam considerando a construção de uma bomba de nêutrons. Essas bombas são capazes de produzir radiação que atravessa blindagens, matando assim os soldados dentro de um tanque de guerra sem causar qualquer impacto sobre o tanque. O perigo para os soviéticos vinha em dobro, haja vista o inimigo poder usar esses tanques após matar os soldados dentro deles. Os soviéticos iniciaram uma campanha internacional contra as bombas de nêutrons. O sucesso foi tamanho que Jimmy Carter anunciou o fim do programa apenas um ano depois.

A administração Carter pode ser lembrada ainda por outras medidas contra a URSS: boicote aos Jogos Olímpicos de Moscou, treinamento de guerrilhas para resistirem à invasão soviética do Afeganistão (guerrilhas de árabes treinadas pela CIA) e uso da ameaça soviética como justificativa para maiores gastos militares. Também foi no seu governo que se iniciaram conversas sobre o SALT II.

Em 1980, os EUA elegeram Ronald Reagan como presidente. Este nunca acreditou – nem desejou – numa distensão com a URSS. Em julho de 1983, em um discurso, chamou a URSS de “Império do Mal”. No outro hemisfério, esse discurso teve resposta. Os líderes militares soviéticos receberam um aumento significativo nos seus orçamentos.

Esse aumento de orçamento foi realizado em detrimento de investimentos no resto da economia. Nikolai Leonov, general na KGB, descreveu a situação nesses termos:
“Primeiramente, houve um declínio visível na taxa de crescimento, então a completa estagnação. Houve uma recessão, uma crise profunda e que se avolumava na agricultura. Foi um amedrontador e verdadeiramente terrível sinal da crise. Esses foram os fatores cruciais para transição para a Perestroika."

A administração Reagan tem justificadamente o crédito pela implosão do Império do Mal, mas a ironia foi o fato de que esse sucesso derivou mais de um erro do que de uma decisão racional. David Stockman, chefe do OMB (Office of Management and the Budget), disse que o aumento dramático no orçamento da defesa surgiu de um engano. A técnica usada pelo OMB na elaboração dos orçamentos é, primeiramente, fazer projeções de quantidades, sem alterações de preços (sem inflação). Após, multiplica-se o número final por uma constante que caracterize a projeção para a inflação anual. Stockman disse que nesse ano a constante utilizada estava incorreta. Esse erro só foi percebido após a publicação do Orçamento. Quando descoberto, informaram a Administração Reagan, que tentou corrigir o orçamento junto ao Pentágono. A resposta foi: “De jeito nenhum! Se vocês ajustarem o que foi publicada, vamos dizer às pessoas que vocês estão cortando o Orçamento da Defesa.”

O prejuízo político seria muito grande para a administração Reagan. Não apenas sancionaram o orçamento publicado como ainda fizeram um segundo ajuste inflacionário. Isso explica o aumento dramático do orçamento do Pentágono nesse período.

Muitos cientistas duvidavam do sistema Star Wars, mas a URSS deveria presumir que funcionaria, ao elaborar seus planos estratégicos.

Quando Mikhail Gorbatchev teve certeza de que ganhara o controle do Partido Comunista e do governo da União Soviética, procurou Aleksandr Yakiblev, um especialista em América do Norte, e o convidou para ser um de seus principais conselheiros políticos. Nenhum dos dois desejava destruir o sistema comunista. Ao contrário, desejavam fazê-lo funcionar.

Yakoblev disse em uma entrevista:
“Parecia a nós que tudo o que tínhamos que fazer era remover algumas proibições, alguns freios. Liberaríamos tudo e começaria a funcionar. Funcionaria. Há um bom motor lá. Estava velho e enferrujado. Precisava de óleo. Então, apenas pressione o botão de ligar e começará a seguir o rumo. E ficamos nessa ilusão por um ano e meio a dois anos.”

Mas logo que iniciamos as reformas radicais, em política externa, por exemplo, enfrentamos imediatamente a resistência do sistema, o complexo industrial-militar, que é o núcleo do sistema. Resistiram.

Entendemos então que se quiséssemos reformas radicais, deveríamos enfrentar essa resistência. Foi o que ocorreu. E daí em diante as pessoas começaram a dizer que o sistema e o Partido eram irreformáveis. Embora houvesse esperanças de que tudo poderia ser feito sem maiores conflitos.”

Andrei Grachev, o chefe do Departamento de Inteligência do Comitê Central, resumiu o desfecho da queda quase convincentemente:
“Gorbatchev realmente percebeu que o golpe final na resistência do sistema era matar o medo das pessoas. Esse país ainda era governado assim e mantido unido, como uma só estrutura, como uma estrutura de governo, por medo dos tempos de Stalin.
Outra coisa que mantinha esse país unido foi a invenção da ameaça externa. Então a política externa de Gorbatchev confirmou às pessoas que não havia inimigo lá fora, de fato fez uma piada, engraçada ou não, com seu país, pois a partir de então não tínhamos mais razão para manter aquela estrutura. Então, o sistema desabou.”

A implantação das reformas por Gorbatchev foi resultado de uma luta intensa. Tais mudanças mostraram-se impossíveis durante o governo Brezhnev. Após seu falecimento, 1982, foi sucedido por Yuri Andropov, que faleceu em 1984. Foi sucedido por Konstantin Chernenko, que faleceu em março de 1985. Daí surgiu Mikhail Gorbatchev, favorito de Andropov. Diferenciava-se dos demais até na idade: Gorbatchev tinha 54 anos, um sopro de juventude em meio a uma gerontocracia dominante.

De sua mente mais flexível, surgiu a Perestroika (reestruturação econômica) e, após o desastre de Chernobyl, a Glasnost, reforma política que permitiu maior independência da mídia estatal e abertura para novas idéias – por exemplo, ele libertou o dissidente Andrei Sakharov do exílio, em 1986. Em seus discursos procurava atacar o que identificava como cinismo, apatia e corrupção na sociedade. Percebeu que a sociedade estava madura o suficiente para retirar o poder do politburo e aumentar a transparência pública. Propôs eleições multipartidárias, por voto secreto e fomentou grupos de interesse civil.   

Mas havia uma explicação mais imediata para o colapso soviético, conforme Yegor Gaidar, que foi primeiro-ministro da Rússia de junho de 1992 a dezembro de 1992 e uma figura chave na transformação da economia russa. Em seu último trabalho, Colapso de um Império: Lições para a Rússia moderna, publicado em 2007, Gaidar oferece uma explicação poderosa para o colapso. A agricultura soviética estagnou nos anos 1980, mas a demanda por grãos nas cidades aumentava. Precisavam importar grãos do mercado internacional (especialmente dos EUA). Enquanto o preço do petróleo estava elevado, era possível financiar essas compras. Mas quando o preço do petróleo caiu, no final dos anos 1980, a URSS precisou pegar recursos emprestados de bancos ocidentais (especialmente da Alemanha Ociental). Isso restringiu seriamente as atividades internacionais da União Soviética. Não poderiam mais enviar tropas para conter rebeliões na Europa oriental, pois esse movimento poderia levar à recusa dos bancos ocidentais em financiar o país. Da mesma maneira, a tentativa de Golpe de Estado estava destinada a falhar, pois os líderes do golpe não conseguiriam pegar emprestados os recursos necessários para fazer cessar a fome nas grandes cidades.”

A URSS precisou, mesmo, de lançar mão do ouro acumulado durante os anos de Stalin.

Trata-se de aspecto interessante da história. Muitos especialistas aconselhavam o governo dos EUA a utilizar instrumentos financeiros e comerciais para sufocar a URSS. Interrompendo os fluxos de alimentos e de dinheiro emprestado por bancos ocidentais entrando no país levaria ao colapso do regime. Contudo, essas medidas nunca foram implantadas e tanto os EUA quanto a Europa ocidental continuavam realizando negócios com o regime de Moscou.  

Em razão da impossibilidade de aplicar mais recursos na produção de bens industriais, por ter de arcar com custos muito altos do complexo militar-industrial, o padrão de vida da população era baixo para os padrões ocidentais. Apenas 9% dos soviéticos tinham automóveis. Poucos tinham computadores, devido ao estado constante de paranóia sobre uso de telecomunicações por parte de movimentos contrarrevolucionários.

Embora o livro de Gaidar não entre no mérito das razões que levaram ao declínio do preço do petróleo no final da década de 1980, há evidências de que foi causado por uma conspiração entre a CIA e os líderes da Arábia Saudita, como uma punição aos soviéticos pela invasão do Afeganistão. A Arábia Saudita aumentou drasticamente sua produção, derrubando os preços.

Em 1988, fruto das reformas de Gorbatchev, a propriedade privada foi permitida na indústria. No entanto, a cultura formada por anos de mercado protegido e ausência de competição levou à desestruturação dos processos produtivos até então praticados, levando à falta de alimentos e de itens de vestuários, algo inédito em muitos anos.

Daí em diante formaram-se os grupos contra e pró reformas, com Boris Yeltsin liderando aqueles pró, enquanto Yegor Ligachev liderava os contra. Yeltsin teve de renunciar ao Politburo e como chefe do Partido Comunista para poder continuar a dar apoio às reformas. Nas eleições seguintes, sob novas regras e com novos atores, a derrota dos candidatos do Partido Comunista foi monumental. Yeltsin foi eleito para representante por Moscou com 89% dos votos.

Quanto ao que se denominava de Império Soviético, a reunião de nações comunistas unidas sob o Pacto de Varsóvia (a contraparte oriental à OTAN), foi abalado pelos movimentos ocorridos na Rússia. Como conseqüência dos problemas externos e até internos, Gorbatchev, em visita à Polônia, disse que não pretendia enviar tropas para conter qualquer rebelião separatista, e pretendia retirar as tropas que ainda restavam na Europa Oriental.

Na Polônia especificamente, o enfraquecimento do Partido Comunista levou à candidatura própria do Partido Solidariedade, que recebia recursos tanto do Vaticano quanto dos EUA. Embora essa vitória e a queda do muro de Berlin pudessem ter tido o condão mágico de fazer sumir o regime, apenas a decisão russa de não interferir pode explicar o desmoronamento completo da URSS, conforme prometido por Gorbatchev. A famosa frase de Reagan, “Mr. Gorbatchev, tear down this wall!”, foi um pedido a um líder, não um grito de ordem às pessoas. Até mesmo crer que o desmembramento das antigas repúblicas constituintes da URSS causaria algum prejuízo econômico à Rússia é falso, haja vista que agora poderiam concentrar recursos em áreas mais importantes.

Os movimentos secessionistas seguintes confirmaram que as divisões que surgiam na URSS eram causadas pela crise econômica e política (não mais justificando uma união em torno do comunismo), não tendo relação com nacionalismo ou outra razão política.

Gorbatchev sabia que suas medidas estavam levando À dissolução da URSS. Visando a manter ao menos parte da União, propôs um Tratado pelo qual a antiga URSS tomaria a forma de uma Confederação. Oito Repúblicas assinaram o acordo e apenas a Ucrânia permanecia discutindo os termos, mas dando esperanças de se integrar. Contudo membros do Politburo, amedrontados com a dissolução da União, orquestraram um golpe de estado contra Gorbatchev.

Após invadir sua dacha (espécie de casa de campos onde passava férias), fizeram-no refém e mandaram suas tropas para as ruas. A resistência contra o Golpe foi liderada por Yeltsin. Tendo o Exército vermelho prometido que não interferiria contra os protestos, Gorbatchev voltou a Moscou dois dias após a tentativa de Golpe. Forçado por Yeltsin, acordou em extinguir o Partido Comunista. Embora Gorbatchev não tenha tomado essa atitude, Yeltsin, assim que assumiu o governo, tomou a decisão e extinguiu o CPSU – Partido Comunista da União Soviética em todo o território russo.

Outra atitude tomada por Yeltsin foi a extinção da tentativa de criar uma Confederação Soviética. Restou apenas uma tentativa de manter os benefícios econômicos advindas da URSS por meio de uma espécie de Commonwealth das ex-República Soviéticas.

Em 25 de dezembro de 1991, foi oficializado o fim da antiga URSS.


Rubem L. de F. Auto

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