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quinta-feira, 6 de abril de 2017

CELTAS: CIVILIZAÇÃO DO FERRO EUROPÉIA


Os relatos mais antigos sobre os Celtas são de autoria de gregos e romanos, datados de 500 a.C. Mas essa civilização é bem mais antiga, conforme revelam descobertas arqueológicas na Europa, tão antigas quanto 900 e 700 a.C.

O aparecimento dos Celtas se deu com o início do uso do ferro. Foi a primeira civilização da Idade do Ferro.

A amálgama que dava unidade à cultura Celta era composta por uma língua comum, uma religião comum e estruturas socioculturais semelhantes.

Os chamados Celtas eram inicialmente uma pequena elite guerreira e intelectual que dominou a parte ocidental da Europa. A civilização Celta surgiu da submissão a que os povos aborígenes foram obrigados, após aquela pequena elite dominá-los, a partir do sul da Alemanha. Por volta de 500 a.C. a civilização Celta dominava regiões da Europa.  

Eram principalmente agricultores, organizados em tribos diversas. As lideranças eram exercidas por uma coligação de guerreiros e sacerdotes – mais conhecidos como druidas.

Os Celtas costumavam construir átrios, local onde se dava o convício social, por meio de festas ou escutando canções poéticas. As habitações eram tradicionalmente redondas, feitas de madeira e colmo. Possuíam cozinhas, embora bem arcaicas.   

Dentre os guerreiros mais famosos estava Vercingetórix, líder gaulês vitorioso em batalhas contra o império romano de Júlio César.

Quanto às mulheres, os celtas não costumavam diferenciar significativamente os sexos, tendo sido Boudicca uma importante rainha daquela civilização.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “As maiores civilizações da História” 

SUÉCIA: BECAUSE LESS IS MORE!


Trechos do livro “Suécia: um país sem excelências e mordomias”, de Cláudia Wallin.


“O Reino da Suécia, formado mos idos de 1200, é um dos reinos mais antigos do mundo. O Palácio Real domina o esplêndido panorama da capital, Estocolmo, espalhada sobre catorze ilhas banhadas pelo Mar Báltico e o lago Malaren.

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Longe vão-se os tempos em que os lendários vikings habitavam este território, lançando-se em mares açoitados para saquear, incendiar e aterrorizar terras alheias. Eram louros bárbaros, no pior sentido da palavra. Mas também foram grandes comerciantes e exploradores. E tinham um costume incomum para a época: tomavam suas decisões em conjunto, por meio do consenso. Reuniam-se em assembléias chamadas Ting, que existiam por todos os cantos do que é hoje a Suécia e as demais terras escandinavas. Eram como parlamentos embrionários.

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Na Suécia da Idade Média, outra cena incomum se produzia: camponeses do país tinham representação entre a nobreza, o clero e a burguesia o Parlamento, um fenômeno único na Europa de então.

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Até meados do século XIX, a Suécia foi um dos países mais pobres da Europa, com uma economia agrária atrasada. Mas a face do país seria mudada: entre os fatores decisivos que produziam a mudança, estavam investimentos substanciais em educação, infraestrutura e tecnologia. No século XX, a antes subdesenvolvida Suécia, praguejada pela pobreza, transformou-se em uma das mais ricas e sofisticadas nações industrializadas do mundo.

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Um país onde os deputados recebem cerca de 50% mais do que ganha, em média, um professor primário.
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Os suecos querem mais transparência e menos políticos desconectados da realidade das ruas. E o senso de autocrítica do poder persiste, como nas palavras do discurso feito, em 2002. Pelo então primeiro-ministro, Goran Persson, a uma platéia de estudantes:
“Não lidero o governo mais brilhante do mundo. O gabinete de ministros não é nenhum modelo de elite intelectual, e particularmente bonitos nós também não somos.”

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- É preciso aceitar os sacrifícios que se avizinham – murmura para si próprio um sueco no momento revelador em que a sua real vocação para a carreira política se manifesta como um desejo irrefreável. – Serão abomináveis os desafios – alerta um forasteiro: os cintos apertados como os da amorfa massa do povo, a ausência de alegres comitivas de inúteis, os apartamentos funcionais que lembram quartos de hotéis de duas estrelas, a falta que hão de fazer os batalhões de assessores e parasitas.

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Sem direito a imunidade, políticos suecos podem ser processados e condenados como qualquer cidadão. Sem carros oficiais e motoristas particulares, deputados se acotovelam em ônibus e trens, como a maioria dos cidadãos que representam.
Sem salários vitalícios, não ganham a merecida aposentadoria após alguns anos de trabalho pelo bem do povo. Sem secretária particular na porta, banheiro privativo ou copa com cafezinho, os gabinetes parlamentares são espartanos e diminutos, como a sala de um funcionário de repartição pública. Sem verbas indenizatórias para alugar escritório nas bases eleitorais, deputados suecos usam a própria casa, a sede local do partido ou a biblioteca pública para trabalhar quando estão em suas regiões de origem.

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No âmbito municipal, o desejo de exercer a atividade política poderia ser mal interpretado, fora da Suécia, como um caso clínico: vereadores suecos não ganham qualquer salário, e também não têm direito a gabinete – trabalham de casa.

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Na década de 1970, o então primeiro-ministro Olof Palme morava em sua própria casa no subúrbio de Vallinby, e costumava ir para a sede do Governo dirigindo um velho Fiat vermelho.

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O antecessor de Palme, Tage Erlander, tomava o bonde para a sede do Governo, ou ia de carona com a mulher, que trabalhava perto dali.
Os suecos só decidiram criar uma residência oficial para o primeiro-ministro depois de 1986, quando Olof Palme foi assassinado a tiros na saída de um cinema quando caminhava para casa sem escolta, em um crime brutal e nunca solucionado. Seu sucessor, o também social-democrata Ingvar Carlsson, mudou-se aparentemente contrariado para a nova residência oficial. Diz-se que Carlsson, que renunciaria so poder tempos depois, achava inapropriado para um primeiro-ministro sueco morar num lugar chamado de palácio – ao construir a casa em 1884, a abastada família Sager a batizaria de Palácio Sagerka.

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Sagerska é uma bela mansão. Mas não há serviçais no apartamento do primeiro-ministro sueco, Frederik Reinfeldt.
- A limpeza dos aposentados privativos do primeiro-ministro deve pagar impostos e sua declaração de renda – diz Anna Dahlén, assessora de imprensa do governo sueco.
Sem provocar reações de espanto sobrenatural entre a população, Frederik Reinfeldt fala com naturalidade que lava, passa e cozinha como a maioria dos cidadãos deste país. – E por que ele não faria isso, se todos nós fazemos? – ouço de vários suecos.
Há quem vá sentir o cheiro acre da demagogia populista ao saber que na Suécia o primeiro-ministro dá dicas de limpeza em reportagens de jornal, e aconselha seus concidadãos a ajoelhar para raspar a sujeira.

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Na Suécia, como em tantos outros países do mundo, a instituição da empregada doméstica não existe. Entre os suecos mais radicais, o zelo pela igualdade e o medo do ressurgimento de uma subclasse social chega a provocar reações exaltadas. Em um debate da campanha eleitoral de 2006, flechas voaram contra a então líder do partido de Centro (Centerpartiet), Maud Olofsson, quando ela defendeu a introdução de abatimentos fiscais para permitir aos suecos contratar faxineiros e aliviar assim sua dupla jornada.
- E quem limpa o banheiro da empregada? – perguntou, irritado, o intermediador do debate na TV4, Goran Rosenberg.
- E quem pinta a casa do pintor? – retrucou Maud. – A faxineira também pode contratar ajuda quando precisar – argumentou ela.
A inesperada proposta de Maud também foi atacada pelo primeiro-ministro da época, o social-democrata Goran Persson.
- Cada pessoa deve cuidar das próprias tarefas domésticas, é o que eu digo – falou o primeiro-ministro.
Persson disse mais. Contou, com orgulho indisfarçável, que era capaz de passar sua camisa social em um minuto.

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Mas naquele ano, depois de dez anos no poder, Persson perdeu as eleições. Maud tornou-se vice-primeira-ministra, e muitos suecos passaram a ter a ajuda ocasional de faxineiras, em sua maioria imigrantes polonesas. No entanto, praticamente todos continuam a lavar, cozinhar e passar, como Goran Persson.
Ministros também vivem sem luxo. Eleito pelo jornal britânico Financial Times como o melhor ministro das Finanças da Europa em 2011, o sueco Anders Borg, segundo confirma seu porta-voz, mora em Estocolmo durante a semana, em um apartamento funcional conjugado de cerca de vinte e cinco metros quadrados.     

(...)

Nem ministros, nem prefeitos e nem o presidente do Parlamento têm direito a residência oficial. Apenas políticos com base eleitoral fora da capital recebem auxílio moradia para viver em apartamentos ou mesmo quitinetes funcionais, que têm em média dezoito metros quadrados.
Parece pouco para criaturas tão excelsas, mas está muito melhor do que já foi: até o fim dos anos 1980, apartamentos funcionais nem sequer existiam na Suécia. Todos os parlamentares dormiam em sofás-cama, em seus próprios gabinetes.

(...)

O apartamento funcional pode ser um direito garantido. Mas a cama, não. Em grande parte dos imóveis parlamentares, onde um único cômodo serve como sala e quarto de dormir, há apenas um sofá-cama.

(...)

- Carros com motorista para parlamentares?  Meu Deus, não! – sobressalta-se Lena. – Benesses deste gênero criam problemas que você não precisa ter. Como a corrupção. Para obter um emprego desses na política, muitos não hesitariam em cometer atos sujos – poderá Lena.

(...)



Rubem L. de F. Auto 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

GOLPE DE 1964: ANISTIA QUE DÁ EM ZÉ, DÁ EM JOSÉ?


A Lei da Anistia foi promulgada em agosto de 1979. Sua aprovação foi precedida por longas e tortuosas discussões que, embora tratassem de um passado bastante recente, conseguiram criar versões as mais fictícias possíveis.

Em um desses episódios, os demandantes da Anistia apresentaram as esquerdas revolucionárias como braço armado do grupo que exigia a manutenção da democracia, contra ao Golpe desferido em 1964. Agindo assim, enterraram o período no qual abandonaram as lutas democráticas e agiram no sentido de promover revoluções igualmente autoritárias, porém no extremo oposto do espectro político.

Já os apoiadores da ditadura responderam com o velho discurso, que repetiam há mais de uma década: diante das ações armadas provocada por guerrilheiros revolucionários, o regime respondeu como julgava adequado. A conclusão era óbvia: se havia um conflito, os dois lados eram igualmente culpados. Daí conseguiu-se introduzir dispositivos na Lei da Anistia que anistiavam os dois lados, torturados e torturadores. Chamaram essa obscenidade de “anistia recíproca”.

Até as esquerdas engoliram esse discurso, não sem demonstrar uma pontinha de orgulho diante do perigo que elas representavam, ao menos nos discursos interessados do regime.

Uma outra tentativa, bem sucedida até certo ponto, de reescrever a história pode ser bem observada, conforme o regime chagava ao fim. Os episódios do início dos anos 1960, como a eleição de Jânio, as Marchas pela Família, os políticos reacionários eleitos aos montes, os governadores eleitos com discursos anti-Vargas, anti-Jango, as centenas de jornalistas e suas matérias que insuflavam o povo contra os “comunistas”, o ódio contra políticas distributivas de renda, as denúncias contra pessoas que se opunham à ditadura, jogando-os os calabouços fétidos, o silêncio complacente diante dos eventuais bons números da economia, tudo, tudo foi esquecido. Ao fim, a ditadura era um corpo indesejado que se apoderou da sociedade, a contragosto desta.

Ninguém mais era responsável por aquilo. O bom brasileiro, ser de bom coração, pacífico e honesto havia sido violentamente atacado por militares autoritários, decididos a por dezenas de milhões de pessoas no cabresto. Ninguém queria assumia qualquer responsabilidade pelos fatos, velhos de décadas. Ninguém queria ser visto como apoiador de torturadores, especialmente quando empregos sumiam, salários eram achatavam e a crise da dívida externa atormentava o país.       

Literalmente, os brasileiros comeram e agora queriam defecar a ditadura.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades”

GOLPE DE 1964: GEISEL E A NEGAÇÃO DA REALIDADE


Assim que se iniciou o governo do presidente-general Ernesto Geisel, em 1974, tornou-se claro que a nova realidade internacional não auxiliaria a repetição dos números brilhantes dos anos anteriores.

Em 1971, os EUA deram adeus à ordem monetária baseada em Bretton Woods. Em 1973, ocorreu o primeiro choque do petróleo: o produto ficou 10 vezes mais caro no mercado internacional. Poucos anos após viria um segundo. As conseqüências para o Brasil foram dramáticas, posto ser o país um grande importador do ouro negro.

O mercado internacional degringolou, as principais nações adotaram medidas protecionistas, revertendo os anos de aumento dos intercâmbios comerciais entre 1967 e 1973.

No entanto, a medida tomada pelo governo brasileiro foi uma quase negação da realidade. Lançou-se o II Plano Nacional de Desenvolvimento – PND, cuja meta era: autonomia para conquistar o desenvolvimento segundo os interesses nacionais.

Na vertente educacional e intelectual, o governo enveredou pelos currículos dos cursos de pós-graduação, buscando direcioná-lo às necessidades nacionais. Criaram-se as agências de incentivo cultural: Embrafilme, Funarte, Serviço Nacional de Teatro/SNT.

A oitava maior economia do mundo não poderia ter seu crescimento arrefecido. Embora Geisel fosse identificado com o grupo mais moderado, da linhagem de Castelo Branco, o caminho do crescimento não retomou a ideologia internacionalista-liberal.

O objetivo de alcançar a autonomia do país nas suas decisões perpassou a política externa, também. Reconheceu-se a independência de Angola tão logo este país se livrou de Portugal; estabeleceram-se relações comerciais com a China; por meio de visitas de Geisel à Inglaterra e à França, o Brasil se aproximou substantivamente da Comunidade Européia – destes acordos surgiu o programa nuclear brasileiro, firmado com a Alemanha, apesar dos protestos yankees.

Com relação aos EUA, o governo brasileiro denunciou o acordo militar firmado em 1952, deixando um sabor amargo, devido à maneira brusca como se deu o episódio.   

Impossível não comparar a nova política externa, de não-alinhamento automático, com aquela desenhada por Jânio, Jango e Vargas, tão defenestrada décadas antes pela direita empedernida de outrora.

No plano político, a estratégia era semelhante a uma retirada de tropas durante uma batalha: abertura lenta, gradual e segura. Embora a sociedade já não demonstrasse tanta empolgação com o governo dos generais, houve resistências, especialmente oriundas da chamada “comunidade das informações”, isto é, a polícia política. Eram oficiais que forneciam as informações de que o aparelho repressor necessitava para empreender suas torturas, assassinatos, prisões e desbaratamento de organizações clandestinas.

Esses oficiais não punham a “mão na massa”, ou seja, não praticavam o mal diretamente, mas forneciam tudo o que era necessário para que este se realizasse, por outras mãos. Sobre eles pode-se ler “A banalidade do mal”, de Hannah Arendt. Estes e outros “homens do sistema” tinham consciência que apenas os “anos de chumbo” os manteriam impunes e imunes. O fim do regime significava o fim dos seus doces anos de salários polpudos e autorização para fazer o que bem quisessem.  

E eles se opuseram à abertura como puderam, explodindo bombas, matando pessoas e pondo a culpa nos “comunistas”.

Do outro lado da cerca, havia o que um dia foi chamado de “esquerdistas revolucionários”. Presos, no exílio ou alienados das militâncias políticas, eles ainda incomodavam quando abriam a boca e recebiam o foco das câmeras. E o incômodo maior se dava quando as denúncias partiam do exterior, chamando atenção de outros países, consternados pelas histórias brutais do submundo da repressão brasileira.

Os grupos acima evoluíram até a campanha pela anistia – ampla, geral e irrestrita.

Como ocorre em toda parte, entre os extremos havia  a maioria, moderada. Esses foram os grandes vencedores nas eleições de 1974, sob a legenda do MDB. O poder quase hegemônico da ARENA foi derrotado.

Inicialmente, Geisel deu ainda mais poder à polícia política. O resultado trágico foram os assassinatos do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho. O governo respondeu com a demissão do general Ednardo D`Ávila, comandante do II Exército.

O recado foi claro: a polícia política já não mais podia fazer o que quisesse.

Com a demissão seguinte, do Ministro do Exército Sylvio Frota, a perspectiva do fim do regime se avizinhava.

Mas, como bem dissera o presidente-general, a abertura era lenta, segura e gradual. Para conter a onda emedebista, fez passar a Lei Falcão, que silenciava os programas eleitorais, não deixando ressoar os discursos oposicionistas.

Na sequência, veio o Pacote de Abril, de 1977, que reformulou todo o sistema eleitoral do país. Mandatos foram cassados, surgiram senadores biônicos (eleitos indiretamente), alteraram-se os coeficientes eleitorais, fortalecendo os estados federados dominados pela ARENA etc.

Com tudo isso, Geisel conseguiu eleger seu sucessor: o general João Baptista Figueiredo, o último general-presidente. Não sem antes estender em um ano seu mandato.  

Com a perspectiva de devolução do poder aos civis e tendo garantido a retaguarda necessária para conter a oposição, Geisel suspendei a censura aos jornais em 1978. E ainda garantiu a eleição de seus apoiadores nas grandes cidades, nas eleições de 1978.

A atmosfera mais leve fez ressurgirem as manifestações públicas, após mais de 10 anos. Movimentos estudantis e pela anistia tomaram a frente, pouco antes das greves anunciadas pelo movimento operário de São Bernardo.

Embora significativas, tais manifestações ainda se deram em ambiente de repressão, com respostas duríssimas vindas do Estado.

O AI-5 expirou seus efeitos junto com o ano de 1978. 1979 se iniciava com um arremedo de Estado de Direito: a Constituição era aquela autoritária, de 1967, emendada por diversas restrições de direitos, dando fulcro a uma miríade de leis repugnantes, conjuntamente conhecidas como “entulho autoritário”.

Mas as baionetas estavam caladas... Ao menos temporariamente.   


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades”

GOLPE DE 1964: POR QUEM OS SINOS DOBRAM


Os grupos mais radicais, desiludidos sobre a possibilidade de qualquer ação moderada trazer o país de volta à normalidade democrática, lançaram-se à luta armada. Esta pode ser dividida em guerrilhas urbanas e rurais.

As guerrilhas urbanas existiram especialmente entre 1969 e 1972. Praticaram-se expropriações de armas, arrecadação ilegal de fundos para usar em atentados, ataques a quartéis, seqüestros de embaixadores e muito mais. Apesar dessas ações inusitadas, que renderam a libertação de 15 prisioneiros políticos foram desmantelados tão logo o regime jogou o foco sobre eles.

Entre 1972 e 1975, houve o desmantelamento do grupo guerrilheiro que se concentrava na região do Araguaia, no norte do país. Foi a maior ameaça que o regime sofreu desse tipo.

Esse período de maior violência, quando se multiplicaram as denúncias de tortura nos porões da repressão, coincidiu com os doces números do PIB, que fazia crer num sucesso econômico espetacular. Esse fator, somado à naturalidade com que a sociedade encara episódios de violência policial, levou a um silêncio complacente por parte da mesma com relação ao regime autoritário de então.   

Aqueles que se beneficiavam do crescimento da economia se encantavam com as notícias: em 1970 o PIB saltou 9,5%; em 1971, 11,3%; em 1972, 10,4%; em 1973, 11,4%. A indústria exibia tacas de 14% anuais, tendo as indústrias automobilística e de eletroeletrônicos à frente. As exportações cresceram 32% ao ano, nesse período.

O Brasil também mudava qualitativamente, com pesados investimentos em infraestrutura e telecomunicações, sistema financeiro, agricultura. Bens de maior valor agregado tomaram maior proporção na pauta de exportações.

O período que se seguiu à saída de Castelo Branco do poder viu também o fim do projeto internacionalista-liberal. Agora o Estado, além de incentivador de investimentos, regula, financia e protege o mercado. Para tanto, foram criadas, ou agigantadas, diversas empresas estatais: Petrobras, Vale do Rio Doce, CSN, herdadas da era Vargas; ou Eletrobras e Siderbras, debruçadas sobre outros setores estratégicos nacionais.   
Medidas que estimulavam fusões e associações entre capitais públicos e privados foram tomadas.
No campo moral, lemas ufanistas tomavam conta do país. Buscava-se o otimismo no brasileiro ressoando mensagens positivas: Pra frente, Brasil!; Ninguém mais segura este país; Brasil, terra de oportunidades; Brasil, potência emergente.

A punição a quem não compartilhasse desse espírito, vinha com o infame: Brasil, ame-o ou deixe-o.
A soberba e o isolamento dos homens de verde-oliva no Planalto ficaram bastante evidentes quando da sucessão de Costa e Silva, em 1969. Adoentada, o presidente se afastou do cargo. Seu vice, Pedro Aleixo, foi impedido de assumir o cargo. Assumiu uma junta militar, nos moldes do Comando da Revolução de anos anteriores. Os próprios generais escolheram o sucessor: general Garrastazu Médici.

Tentou-se disfarçar a limpidez com que se apresentava a ditadura por meio da reconvocação do Congresso Nacional. Mas este concedeu apenas uma irrelevante unção à escolha oficial.

No período de finais dos anos 1960 e início da década de 1970, os únicos golpes desferidos no regime vinha do exterior, de fato único ambiente incontrolável para os gorilas do governo. Organismos internacionais propagavam a dramaticidade da concentração de renda, fazendo explodir a desigualdade social. Como bem disse o presidente Médici, a economia ia bem, mas o povo ia mal... Para um regime que se iniciou pondo o homem como meta, soava desconcertante.

Outro capítulo tratava das iniciativas mal sucedidas, atoladas em burocracia, corrupção ou má vontade. Por exemplo, o Programa de Integração Nacional, PIN, cuja meta máxima era a construção da incompreensível Transamazônica. Os problemas se multiplicavam, como a pretensa instalação de centenas de milhares de camponeses sem-terra nordestinos em agrovilas, substituídos por empreendimentos agropecuários de grande porte.

O programa foi descontinuado em 1974, tendo instalado cerca de 6 mil famílias, bem longe da meta inicial de 1 milhão.

Outro programa governamental foi o Mobral, movimento brasileiro de alfabetização, que prometia erradicar o analfabetismo do país alfabetizando 8 milhões de adultos entre 1971 e 1974, foi abandonado sem ter cumprido seu objetivo. Dentre os atendidos pelo programa, eram muitos os que não sabiam ler, escrever ou assinar o próprio nome.

Existiram muitos outros exemplos como esses.

O cansaço com a sequência de anúncios retumbantes e execução pífia levaram a novo recorde de votos brancos e nulos: 30% em 1970.

Mas o chamado Milagre Econômico dos anos Médici beneficiaram alguns grupos sociais: as classes médias adquiriram imóvel e automóvel próprios, os funcionários das estatais viveram anos dourados, assim como funcionários qualificados das multinacionais.

Tragédia social das mais dramáticas e menos lembradas ocorreu no campo. Pequenos posseiros e proprietários de terra perderam suas poucas glebas ao longo do processo de concentração fundiária em curso no país. Tornaram-se os boias-frias, cuja saída do campo em direção às cidades criou um dos maiores movimentos migratórios do mundo e gerou problemas urbanos diversos.

Os excluídos se multiplicavam.

Para reconfortá-los, diverti-los e desviar sua atenção estava o grande agente integrador nacional: a Rede Globo. O mundo das novelas, programas de humor e de auditório, ao lado de um telejornal desavergonhadamente apoiador do regime instalado se tornou o grande interlocutor junto à sociedade.

A década de 1970, que se iniciou exibindo promessas de riqueza, de repressão dura, embalada por músicas de protesto, terminou com anistia, recessão e Disco Music.

Mas quem daria o tom seria outro general...


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades”

terça-feira, 4 de abril de 2017

GOLPE DE 1964: REVOLUÇÃO, CONFUSÃO E REPRESSÃO

No seu discurso de posse, Costa e Silva prometeu quase tudo que sabia ser impossível cumprir – democracia, estabilidade jurídica e reformas – e finalizou com uma frase a um só tempo abstrata e de cunho fascista: “A meta do meu governo é o homem”. Quase uma referência implícita ao “homem soviético” ou ao “homem ariano”.

O novo Ministro da Fazenda, Delfim Neto, enfatizava aquilo que considerava relevante para a retomada da economia: queda dos juros, redução de tarifas, ampliação do crédito, incentivo aos investimentos e Às exportações.

O resultado positivo começou a despontar em 1967: crescimento de 4,8%. Em 1968, o dobro: 9,3%., assim distribuídos: indústrias 15,5%, construção civil 17%.

Essa retomada teve alguns fatores impulsionadores. A ociosidade do parque industrial, a demanda reprimida e contas públicas menos endividadas, resultantes dos anos anteriores de medidas recessivas, ajudaram; assim como um cenário externo, que viveu anos de bonança entre 1967 e 1973 (crescimento médio de 18% ao ano), que garantiram a demanda externa alentadora.

Mas essa recuperação não garantiu dias menos conturbados ao novo governo. Dissidentes do movimento golpista passaram a protagonizar movimentos de oposição. Formou-se a Frente Ampla, composta por Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitscheck, ainda em 1967.

Havia também uma oposição liberal, composta por grandes jornais (Jornal do Brasil e Estado de SP). Ao seu lado, setores da Igreja Católica igualmente dissidentes, que denunciavam a política econômica concentradora de renda e protegiam perseguidos políticos.

Foram os anos em que floresceram as músicas de protesto: Geral Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso e muitos outros. Dentro dos círculos intelectualizados, também vicejavam manifestações em oposição.
Mas não uma única posição. Havia também a Jovem Guarda (Roberto e Erasmo Carlos, dentre outros), que fazia grande sucesso e demonstrava qualquer posicionamento político, nem a favor nem contra.
No cinema, filmes “politizados”, como os de Glauber Rocha e Rui Guerra, empolgavam o público mais “engajado”, embora os filmes mais que mais populares fosse os de Roberto Farias e José Mojica, o Zé do Caixão.

Mas para as massas, o grande público, sem dinheiro para freqüentar cinemas, teatros ou comprar bons livros, o programa diários eram as novelas, programas de humor, todos devidamente domados pela censura prévia.

Inicialmente, a oposição a Costa e Silva era encarnada pelos movimentos estudantis. Culminaram com a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. A repressão policial desmesurada e desproporcional se fez presente, mas não impediu que estudantes secundaristas, escritores, cineastas e outros se unissem a eles.
O capítulo da lutas democráticas viria o surgimento das lutas armadas. Ainda em 1965, o ten. cel. Jeferson Cardim tentou constituir uma coluna saindo do Sul do país. Em 1966, a Serra do Caparaó sofreu uma invasão militar que desmantelou o grupo guerrilheiro que lá se abrigava.

A sociedade assistia espantada ao desenrolar dessas ações.

A reação do governo Costa e Silva foi explosiva. Ainda no segundo semestre de 1968, os movimentos estudantis perderam força. A repressão dava sinais de que vaia tudo, vida ou morte estavam em jogo, e a grande maioria não estava disposta a atuar nesses extremos.

O capítulo final das lutas estudantis se deu quando as principais lideranças foram presas em Ibiúna, por ocasião do XXX Congresso da UNE.

Em abril de 1968, a tal Frente Ampla foi tornada ilegal. As principais lideranças liberais ficaram sem um grupo político que os representassem. Restava apenas o MDB, que se tornava um balaio de gato, um partido que abrigava um espectro exageradamente amplo de posições políticas.

No meio de todo esse redemoinho, um fato que poderia ser considerado insignificante a princípio elevou o regime ditatorial a um novo patamar, frente ao qual o ambiente de 1964 seria uma quase-democracia. Após um discurso veemente contra as Forças Armadas, proferido pelo deputado Márcio Moreira Alves, a base do governo exigiu a abertura de uma CPI que punisse o parlamentar rebelde. O Congresso se recusou a processá-lo. Em retaliação, Costa e Silva decretou o AI-5, em dezembro de 1968.

A partir de então o Congresso foi fechado e o presidente passou a deter em suas mãos todo o poder da nação.

Na opinião de muitos analistas, ocorreu então o golpe dentro do golpe.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades”

GOLPE DE 1964: NÃO ERA UMA CHUVA, ERA UMA TEMPESTADE


O governo de Castelo Branco deixou atrás de si desânimo e ranger de dentes. Poucos ainda criam que de fato se tratava de um democrata e liberal. Antes de deixar o posto ainda editou mais um Ato Institucional, de nº 2. Este visava a reverter o quadro eleitoral após a derrota dos candidatos afeitos ao governos nos estados de Minas Gerais e da Guanabara, em 1965.

O que antes parecia grassar com a ditadura agora se revestia de todos os seus caracteres: milhares foram cassados (no total, mais de 3.500 pessoas foram vitimadas por tais arbitrariedades), políticos eleitos foram depostos, o recesso foi posto em recesso, partidos foram extintos, governadores e presidente passariam a concorrer em eleições indiretas e muito mais.

Como se abrisse a Caixa de Pandora, Castelo Branco perdeu o controle até mesmo sobre sua sucessão: teve de aceitar a candidatura de Costa e Silva, imposta pelo regime.

No campo das medidas legais, Castelo Branco promulgou uma nova Constituição, uma nova Lei de Imprensa e uma nova Lei de Segurança Nacional. O Congresso que restou após os expurgos não ofereceu resistência a nenhuma delas.

Quando das eleições legislativas de 1966, encenou-se o triste espetáculo mambembe no qual dois partidos apenas disputaram o pleito: Aliança Renovadora Nacional, a infame ARENA, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Impossível alcançar legitimidade política: os votos brancos e nulos bateram todos os recordes anteriores.   

E assim se encerrava o primeiro governo pós-golpe. Não demonstrava quaisquer ares daquele movimento que, pouco tempo antes, arrebatara multidões contra um governo impopular.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades”

GOLPE DE 1964: O LIBERALISMO A REBOQUE DO AUTORITARISMO


O governo do primeiro dos generais-ditadores, Castelo Branco, iniciou-se com um programa de governo claro e bem delineado.

Um dos elementos do período que se iniciava era o internacionalismo. Este rompia o nacional-estatismo, que se caracterizava pela busca da autonomia nas relações externas. Pretendia-se alcançar um alinhamento com os EUA. Pretendia-se a busca pela integração com o mundo ocidental e a abertura ao fluxo de capitais internacionais.

O aval do FMI não demorou e o medicamento prometia debelar a doença, no caso, a recessão que se abatia sobre a economia brasileira: em 1963 a inflação bateu nos 80% e o crescimento foi de -1,6%. Para combater essa degringolada econômica, o velho receituário ortodoxo foi trazido à luz: corte de gastos públicos, contenção de créditos, arrocho dos salários etc etc etc.

Para incentivar o investimento externo, o governo resolveu as pendências que existiam com concessionárias de serviços públicos, ofereceu amplas garantias ao capital que aqui se instalasse, promulgou uma lei de remessa de lucros mais atraente do que aquela de Jango, além de costurar um acordo com os credores brasileiros, internos e externos, no que se refere ao pagamento da dívida pública.

Os players internacionais também se obrigados a render homenagens ao novo aliado: o governo norte-americano e instituições financeiras internacionais fizeram declarações elogiosas.

Apoio político e crédito ao país se multiplicaram imediatamente. Contudo, as previsões do governo no que se referia ao influxo de capitais decepcionou o presidente e sua equipe econômica.

Provavelmente essa foi a explicação para os números da economia nos anos imediatamente seguintes. A inflação em 1964 foi de 86%, em 1965 foi de 45%, em 1966 bateu nos 40%. Apesar da queda vertiginosa, a recessão permanecia viva.

A pressão sobre o governo não arrefecia. Comerciantes, industriais usavam suas organizações defensoras de interesses corporativos para criticar o crédito escasso e caro, que levava diversos empreendimentos à falência e à quebra de cadeias produtivas.

Os salários eram sempre reajustados abaixo dos índices de inflação. Em termos reais, o trabalhador empobrecia mais a cada dia. A insatisfação decorrente, que em um ambiente democrático se materializaria em imensos protestos, era reprimida à clássica maneira autoritária e os líderes, perseguidos.

Não tardou para que o coro dos descontentes passasse a ameaçar a própria estabilidade do governo. Os resultados econômicos que não empolgavam, os excessos autoritários que depunham contra o discurso liberal, tudo isso levou lideranças civis importantes, aliados até há pouco, a se afastarem do governo de então. Carlos Lacerda e demais, preocupados com os resultados das urnas nas eleições de 1965 e 1966, iniciaram uma série de críticas, desferidas especialmente contra a equipe econômica, justamente aquela que era encarada como uma constelação de nomes relevantes no pensamente econômico: Roberto Campos e Otávio Gouvea de Bulhões, Planejamento e Fazenda, respectivamente.  

A mídia ajudou a amplificar o tom das críticas, num claro sinal de que também pretendia desembarcar do barco golpista.  

Sem o manto de proteção de que os golpistas se revestiam, abriu-se espaço para o contragolpe. Estudantes, artistas e intelectuais, ao lado de humoristas e cartunistas, aproveitaram a maré contra para exprimir todo o seu descontentamento com os autoritários do poder. Sobretudo após a prorrogação do mandato de Castelo Branco, em julho de 1964.    

Os novos incumbentes do Planalto, desejando calar os oposicionistas e utilizando-se dos modos “sutis” da caserna, iniciaram centenas dos odiosos IPMs: Inquéritos Policiais-Militares, abertos contra quem quer que considerasse em campo oposto ao do governo. Essa atitude troglodita ajudou a aumentar as fileiras dos descontentes. E foram estes últimos que ajudaram a rearticular as esquerdas após serem condenadas à clandestinidade, após 1964.

Seja como for, o empobrecimentos dos trabalhadores urbanos e rurais, somado às ameaças oriundas de uma repressão desmesurada, jogou os trabalhadores na mais resignada das amarguras.

Capítulo à parte foi encenado pelos estudantes universitários. À época do golpe, estavam profundamente divididos e poucos saíram em auxílio a Jango. No entanto, após os primeiros movimentos do novo governo, eles entenderam a profundidade das mudanças em curso, plasmadas em IPMs e truculência policial, tornando-se assim os primeiros e articularem movimentos relevantes de repulsa ao governo.      

De certa forma, os golpes leves, mas constantes desferidos contra o governo pareciam enfraquecê-lo, levando a crer que os gorilas do governo em algum momento passariam a bola e o poder retornaria às mãos dos civis. Ao fim, o país retomaria ao programa de reformas de base, único capaz de alterar significativamente a realidade nacional.

Dentre os grupos mais radicais, nasceu a “utopia do impasse”. Apesar considerarem o golpe recente uma verdadeira tragédia, tais grupos nunca nutriram grande simpatia pela democracia. Para eles, o golpe serviu para afastar da política políticos que de fato faziam mal ao país: lideranças populistas, corruptas e excessivamente dadas a acordos e à moderação.

Tais grupos criam que as massas, lentamente desencantadas e desiludidas se tornariam classes. Por fim, a verdadeira revolução tomaria corpo.

Mas tudo isso seria soterrado pela única mudança que o país realmente testemunharia: uma modernização conservadora, acompanhada de muito chumbo e coberta do recheio dramático da desigualdade social crescente, que nos faria superar dezenas de países africanos.
  

Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades”

segunda-feira, 3 de abril de 2017

GOLPE DE 1964: O PÓS-GOLPE E OS ARREPENDIDOS DE PLANTÃO


O governo Jango foi derrubado por uma frente ampla, que exibia um discurso genérico e apelativo: salvar o país da subversão e do comunismo, da corrupção e do populismo. Além do restabelecimento da democracia.

A amálgama que mantinha um grupo, em princípio diverso, unido era o medo! Medo de que um processo de distribuição de renda que se radicalizasse e saísse do controle levassem à desordem, ao caos e à perda do parco patrimônio amealhado em tempos recentes.

Os interesses dos grupos envolvidos na derrubado do presidente eleito variavam. Havia os que desejavam a queda de Jango, para depois buscar a legitimação do golpe pela via jurídica, com o ato final sendo encenado pelo Parlamento, aprovando tudo.

Passo seguinte, os militares retornariam à caserna, deixando no seu rastro uma democracia limpa dos elementos indesejados de outrora. Deve-se ter em mente que grande parte dos políticos e militares aderentes de última hora assim desejavam que o golpe se desenrolasse.

Mas havia um outro grupo que pensava de maneira diversa. Estes desejavam dos novos donos do pode atitudes mais duras com relação ao ambiente político, que julgavam apodrecido, não confiável, ideologicamente diverso do Hemisfério em que o Brasil se encontra.

Claro estava apenas que o grupo enxotado do Poder não retornaria via democrática, por ocasião das eleições de 1965/66.

No grupo dos interessados na derrubada do governo e imediato retorno à democracia estavam políticos tradicionais, em geral líderes civis do movimento e próximos do espectro ideológico de direita: Ademar de Barros, Magalhães Pinto, Carlos Lacerda.

Dentre os que desejavam uma mudança mais drástica e profunda, abortando veleidades democráticas, estavam os grupos que pretendiam enterrar o passado de políticas nacional-desenvolvimentistas, intervencionistas, que pregavam uma política externa independente, por uma alternativa internacional-liberal: abertura para o mercado internacional, atração de capitais privados, nacionais e estrangeiros. Pregavam uma visão de Estado regulador.

Logo após o golpe, o novo presidente da Câmara chamava-se Ranieri Mazzili. Mero rito. O poder se deslocava em direção à junta militar instalada, o Comando Supremo da Revolução, representada pelos chefes das três Armas.    

Essa Junta editou o Ato Institucional nº 1. Cassaram-se mandatos, suspenderam-se direitos políticos por 10 anos, civis foram aposentados compulsoriamente, militares foram reformados. Nos demais casos, uma caça às bruxas à “macartismo” foi deflagrada em todo o país: prisões, censuras e ameaças de prisão aos montes.
A atitude mais ingênua dos comandantes do golpe foi chamá-lo de Revolução. Essa expressão denotaria o caráter mais profundo que queriam imprimir às mudanças em curso no país. Não se tratava de algo temporário, seria bem duradouro...

A legitimação necessária seria decorrente do nome que queriam emplacar na presidência. Tomou assim a dianteira o nome de Castelo Branco. Tinha prestígio nos meios militares e boas conexões do IPES, braço local da CIA e do Departamento de Estado dos EUA, que financiava grupos interessados no golpe perpetrado.

Castelo Branco foi eleito, pro forma, pelo Congresso Nacional, já esvaziado dos políticos indesejados de outrora. Seu vice se chamava José Maria Alkmin, velho companheiro de JK e posteriormente agregado ao PSD. Este foi outro aderente de última hora, que também desejava surfar na política nacional após o golpe.

Seria apenas mais um político macunaímico prontamente descartado pelos novos residentes no Poder...


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades”

GOLPE DE 1964: A PANELA DE PRESSÃO ESTOUROU


Acuado pela oposição, a cada dia mais forte e em maior número, e ao mesmo tempo pressionado por sua base, aguerrida e desejosa de reformas decisivas, Jango resolveu partir para a ofensiva.

Pretendendo lutar pela aprovação das reformas de base, decidiu-se por realizar uma série de comícios em todo o país. O primeiro seria no Rio, enquanto o último foi simbolicamente marcado para o dia 1º de maio, em São Paulo. Decidiu-se também por fazer passar tudo o que pudesse ser veiculado por meio de Decretos.

Daquela série de comícios, apenas o primeiro e único foi realizado, no dia 13 de março de 1964. Reuniram-se todas as esquerdas, num total de 350 mil pessoas. Defendiam o programa de reformas de base, celebravam os decretos recentes que expropriavam pequenas refinarias particulares, que delineavam os rumos da reforma agrária (no caso, por meio de desapropriações de faixas de terra improdutivas que se estendiam ao longo de eixos rodoferroviários).

A reação foi instantânea. Em São Paulo, no dia 19, menos de uma semana depois, ocorreu a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A resposta da direita reuniu mais de 500 mil pessoas. Após, diversas outras manifestações como essas ocorreram por todo o país.

No meio desse caldeirão em fervura, Jango aproveitou o feriado da Semana Santa e foi pescar, numa de suas fazendas, no Rio Grande do Sul. Certamente os apoiadores do governo e de suas reformas não aparentavam ter noção da tempestade que se armava.

Por fim, o fósforo foi aceso. A Associação dos Marinheiro e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB) se reuniu na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, contra as ordens do Ministro da Marinha. Como convidado de honra, foi convidado João Cândido, o “almirante negro” que comandou a Revolta da Armada, em 1910. Uma reunião à Encouraçado Potenkim de pessoas vistas como comunistas... era demais.
A luta política ganhou contornos dramáticos com a quebra da hierarquia no âmbito das forças armadas.

A gota d`água ocorreu no Automóvel Cube do Rio de Janeiro. Discursos de sublevados subalternos das Forças Armadas conseguiram fazer se unirem contra si quase todas as forças do espectro político. Faltava agora apenas algum “cachorro louco” puxar os demais em direção ao golpe. E esse alguém tinha nome e era bastante conhecido desde a década de 1930, quando deu início a uma tentativa fracassada de golpe conhecida como Plano Cohen: general Olímpio Mourão, que respondia por Minas Gerais.

Jango, então, respondeu com um ensaio de fuga. A partir de Brasília, partiu para Porto Alegre e, finalmente, Montevidéu. Provavelmente antevendo uma guerra civil que de maneira alguma desejava, temeroso da radicalização a que a direita poderia levar o cenário político, abandonado pelo Estado armado (Forças Armadas), preferiu abandonar as trincheiras no seu país e procurou abrigo no Uruguai. Com raríssimas  e irrelevantes exceções, as esquerdas se calaram, parvas.

Quanto às direitas, realizaram outra Marcha da Família, agora no Rio de Janiro, na qual se reuniram centenas de milhares de pessoas, em comemoração ao golpe recentemente desferido na democracia brasileira.

Situação essa que se manteria pelos mais de vinte anos seguintes...


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades”