Pesquisar as postagens

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

PREVISÕES SOMBRIAS DE WILSON DAS NEVES E PAULO CÉSAR PINHEIRO



O Dia Em Que o Morro Descer e Não For Carnaval

O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.


Rubem L. de F. Auto

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

COMO RIMAR LEI COM GREI? NOSSO JEITINHO



A sociedade brasileira vive há muito um dilema bastante particular: de um lado, há as leis, que deveriam valer para todos; de outro, há as relações pessoais, evidentemente exclusivas, que buscam a todo o momento neutralizar e superar as normas pretensamente universais. Este conflito dá azo a dois pilares sobre os quais se equilibra a vida em sociedade: o indivíduo, que é o sujeito das leis; e a pessoa, o sujeito das relações sociais, localizado numa escala da hierarquia do sistema. É do equilíbrio entre esses dois polos que surge o iconoclasta “jeitinho brasileiro” – assim como seu primo mais abusado, o “você sabe com quem está falando?”.

Nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, dentre outros, ou as regras são obedecidas, ou simplesmente não existem. É por esperarem uma plena coerência entre norma e vida cotidiana que os cidadãos daquelas sociedades simplesmente param diante um placa onde se lê: Pare! Algo que soa um tanto absurdo para muitos de nós. E mais: ficamos fascinados com a disciplina desses seres tão solícito diante de uma norma universal, que vale para todos...

Torna-se ainda mais curioso quando passamos a associar a disciplina obediente às normas como uma pretensa superioridade de dada “civilização” se comparada à nossa; ou como um suposto “adiantamento” em relação à nossa sociedade; ou ainda como se eles tivessem mais educação e apego à ordem, inexistentes em nós. Nada disso, trata-se não mais do que adequação entre normas jurídicas e prática social. Naquelas sociedades, a lei é um instrumento que pretende viabilizar a boa convivência social, não é um instrumento para submeter o cidadão ou para reinventar um “novo homem”.

Nas sociedades mais obedientes aos mandos legais, a lei não se submete a privilégios, à lei privada, isto é, à lei que é aplicada diferentemente, de acordo com a escala social do sujeito do crime ou da contravenção.

Um exemplo prolífico é a figura da prisão especial, privilégio extinto na França por ocasião da Revolução Francesa, e cujo fim deu origem a um sistema judicial ágil, que opera de acordo com o que é legal ou não, sem espaço para o mais ou menos.

Diante de leis que muitas vezes soam ilógicas ou, pior, que criam dificuldades e impedimentos desnecessários, adotamos postura que muitas vezes buscam driblar os obstáculos e atuar nas entrelinhas. Buscamos o “mais ou menos”, as zonas cinzentas onde se podem achar “furos”: eis o jeitinho. É o sistema legal da realidade social.

O jeitinho tenta, de modo pacífico e plenamente aceitável, resolver problemas ao unir pessoas e leis.
Contudo, existe o patamar beligerante do jeitinho, a que chamamos “você sabe com quem está falando?”. Este último é o argumento da autoridade, quando o jeitinho explode e vira um ato de força: Você sabe com quem está falando? Sou primo do governador!” Trata-se um apelo à hierarquia, quando se pretende inverter a ordem das coisas, quando o usuário do serviço estatal passa a ocupar o polo reservado à autoridade pública. E tudo isso se dá pela introdução da relação social, em lugar da aplicação automática da letra fria da lei.

A sociedade brasileira não se esgotou aqui no mecanismo de criação de normas sociais que burlem a incontinência estatal na criação de leis absurdas e desarrazoadas. Há ainda a “malandragem”, cantada e recantada em versos e prosas.

A malandragem é uma variação das duas primeiras. O malandro é o profissional do jeitinho; é aquele que consegue sobreviver fora da lei, mediante o uso de “histórias”, “contos do vigário”, isto é, procurando sempre “roubar com jeito”, invocando apelos emocionais, ao contrário da violência e rudez usadas pelos bandidos.

Figura muito próxima do malandro é a do inconfundível despachante. Este é o especialista em desvendar os meandros mais obscuros das repartições públicas. É ele quem consegue unir duas pontas que, de outra maneira, seriam inconciliáveis: normas e práticas sociais.

Quando o despachante consegue conectar ambientes impessoais (repartição) com relações sociais, o despachante faz lembrar a figura reconfortante do padrinho. É o despachante quem orienta o trâmite dos processos de seu interesse, de modo a evitar que fiquem “parados” ou durmam um sono profundo numa gaveta qualquer.

É nossa verdadeira aversão a ocupar um lugar social pleno de anonimato que nos leva a taxar de “caxias” ou “autoritário” quem quer cumprir as leis. Não é à toa nossa admiração por jogadores de futebol dotados de ginga – é nosso desejo latente de driblar e dobrar o mandamus frio das normas.

A mesma sociedade que criou dois mundos que, por vezes, agem isoladamente, o mundo da rua, impessoal, e o mundo da casa, dotado de alta pessoalidade, criou também modos socialmente aceitáveis e originais de sobreviver a esse turbilhão. Num mundo profundamente dividido e desigual, a malandragem e o jeitinho promovem a reconciliação harmoniosa e concreta entre as partes.

A regra é, de fato, a lealdade que devemos a amigos, parentes e compadres. E os fatos permeados por essas normas vêm de longa data, como denotado na famosa Carta de Pero Vaz de Caminha.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “O que é o Brasil?”, de Roberto da Matta.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

ESPÍRITOS PERDIDOS NO MUNDO DA MATÉRIA



SPIRITS IN THE MATERIAL WORLD – THE POLICE


There is no political solution
To our troubled evolution
Have no faith in constitution
There is no bloody revolution
We are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Our so-called leaders speak
With words they try to jail you
They subjugate the meek
But it's the rhetoric of failure
We are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Where does the answer lie?
Living from day to day
If it's something we can't buy
There must be another way
We are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Are spirits in the material world
Are spirits in the material world

Não há solução política
Para nossa evolução atrapalhada
Não tenho fé na Constituição
E não vejo nenhuma revolução sangrenta

Somos espíritos no mundo material
Espíritos no mundo material...



Nossos grandes líderes falam
Com as palavras de quem quer lhes prender
Subjugam os obedientes
Mas essa é a retórica do fracasso

Somos espíritos num mundo material ...



Onde reside a mentira?
Vivendo nosso dia a dia
Se há algo que não podemos comprar
Terminamos achamos outra maneira

Somos espíritos num mundo material...


Rubem L. de F. Auto

terça-feira, 13 de novembro de 2018

COELHOS, GUAICAIPURO, EMBARGOS E VENEZUELA: “O FUTURO É UMA CÂMARA DE GÁS”



Poucas crises internacionais tiveram mais publicidade no Brasil do que a crise econômica e política da Venezuelana. Quando os preços internacionais do petróleo despencaram após 2014, deixando o patamar anterior acima de U$ 100 para pouco mais de U$ 30, em 2016, o país se viu em meio a uma tempestade perfeita.

A crise política do início da década de 2000, que garantiu a permanência de Hugo Chavez no poder, após fracassada tentativa de detê-lo, levou ao poder um grupo político completamente destoante daqueles a que o cenário político Venezuelano estava acostumado. Identificado com bandeiras sociais, Chavez prometia combater a desigualdade e a pobreza extrema em seu país. Mas, com que dinheiro?

Essa pergunta foi respondida a partir de 2003. Quando da entrada da China na OCDE, tornando-se membro ativo do comércio internacional, o crescimento exponencial do gigante asiático elevou o preço internacional das commodities, entre elas o petróleo. Surgiram então os Golden Years dos países em desenvolvimento: saindo do patamar dos U$ 20, o petróleo bateu os U$ 140 em meados de 2008. A crise internacional de 2008 deixou sua marca, mas os preços internacionais se recuperaram rapidamente.

A riqueza que afluiu desse cenário foi usada para irrigar programas sociais e financiar obras públicas, que garantiram emprego e renda à população. De fato, a oposição política a seu governo minguava, a ponto de se utilizarem de veículos internacionais para “denunciar” uma eventual ditadura bolivariana, associando-a a governos de esquerda da América Latina, como Brasil, Argentina, Bolívia, Uruguai, Equador etc. Mas de nada adiantava. Note-se, contudo, que a dependência das rendas do petróleo não garantiu mais investimentos em exploração e produção. O petróleo produzido se manteve no mesmo patamar dos anos anteriores.  

Contudo, por volta de 2014, Arábia Saudita decidiu aumentar a sua produção de petróleo. Inevitavelmente, o efeito que se segue a essa decisão é queda dos preços internacionais. O motivo, provavelmente, era tornar inviável a produção de petróleo a partir de fontes alternativas, como o shale gas norte americano (cujo custo de produção é mais elevado). Mas o impacto sobre a renda dos países exportadores de petróleo foi dramático (a Arábia Saudita se preparou para a redução de preços acumulando elevadíssima reserva internacional).

No caso da Venezuela, o cenário que se armou foi apocalíptico. Dependendo da manutenção de programas sociais para conter a sanha da oposição, que contava com muitos dos principais empresários do país e que passou a lançar mão de artifícios como redução dramática de investimentos, redução da oferta de itens básicos, dentre outras táticas para tirar popularidade do governo eleito. Pretendendo não abrir mão de suas conquistas eleitorais, o governo manteve seus gastos sociais, o que desencadeou um processo dramático de inflação no país. E a espiral do descenso não parece ter um fim previsível.

A inflação que já atingiu o patamar histriônico de 1 milhão por cento e já demoveu mais de 2 milhões de venezuelanos de seu país. São refugiados transpondo fronteiras em direção à Colômbia, Peru, Equador, Panamá, ilhas caribenhas e até mesmo ao Brasil, embora em número bastante inferior aos demais, talvez pela diferença linguística.

Ao cenário acima, somam-se os bloqueis comerciais decretados pelos EUA e por países europeus. Este último obstáculo previne o país, notório importador de produtos industrializados, de conseguir de alimentos a medicamentos no mercado interno. Ainda mais grave é a impossibilidade de adquiri máquinas e equipamentos relacionados à indústria petroquímica. O resultado disso é o encolhimento vertiginoso da produção de petróleo: do pico de quase 3 milhões de barris em meados de 2014, o país já se encontra produzindo menos de metade desse valor.

Diversas medidas foram adotadas para lidar com a tragédia que se abatia sobre as contas públicas (o déficit orçamentário já supera os 20% do PIB). Uma das mais comentadas foi o lançamento de uma moeda digital estatal lastreada em barris de petróleo (embora muitos digam que foi uma maneira de competir com os Bitcoins, cuja adoção batia recordes no país). O lançamento das moedas no mercado primário ajudou a aliviar o peso sobre as contas públicas.

A Venezuela tem uma das maiores reservas de ouro do mundo, talvez a quarta maior, embora a produção esteja bem abaixo de suas potencialidades. Recentemente o governo lançou o programa de poupanças em ouro, usando barras certificadas de 1,5g e 2,5g. A compra desses certificados também injetou receitas nos cofres públicos.

Outra medida polêmica foi o incentivo à criação de fazendas urbanas. O presidente Maduro apareceu em cadeia nacional alimentando suas galinhas e colhendo seus ovos: a mensagem era clara, todos deveriam seguir o exemplo. Também se distribuíram coelhos para engorda e abate – mas os venezuelanos terminaram por adotá-los como pets. Difícil crer que isso mudaria a situação do país, mas pelo menos deu uma ideia do potencial criativo da mente humana...

Em agosto de 2018, finalmente foi adotada uma política mais ortodoxa: a moeda do país foi renomeada e foram-lhe cortados 5 zeros. Também se prometeram cortes de subsídios sobre a gasolina e outros produtos.

Mas tudo isso soou como uma gota d`água no oceano. Tendo dar conta de uma economia em frangalhos, despesas insustentáveis e um bloqueio internacional insuperável, a Venezuela só conseguiria respirar razoavelmente se contasse com o apoio de um país economicamente forte e disposto a estender a mão: surge então ao largo a China! Evidentemente ela trazia consigo o preço desse apoio.

Em setembro deste ano, Maduro esteve na China, para uma visita de quatro dias e que incluíam algumas providências, como a assinatura de 28 acordos bilaterais (em áreas tão diversas quanto energia, mineração, ouro, ferro, tecnologia, educação, saúde e cultura) e um empréstimo de 5 bilhões de dólares – além de acertos para a construção do quarto satélite venezuelano.

Foi a quarta visita de Maduro a Pequim, desde que assumiu a presidência, em 2013. Contudo, sem dúvidas, a que ocorreu em momento mais conturbado: Maduro enfrenta hostilidades de governos latino-americanos, subcontinente esse que viu a direita assumir o posto máximo em diversos países; os EUA ameaçaram a Venezuela com uma eventual intervenção militar para derrubar o governo constituído; sanções financeiras mais extremadas foram decretadas pelo governo de Donald Trump.
Os Yuans vertidos aos cofres venezuelanos são fundamentais para financiarem o “Programa de Recuperação Econômica, Crescimento e Prosperidade”.

Mas os acordos internacionais buscados por Caracas incluem mais algumas nações na Ásia, no Oriente Médio e na Europa. Essa é a saída almejada para ter acesso a crédito externo, apesar das sanções financeiras. Conforme as palavras de Maduro aos líderes chineses: “Eu tive de superar as sanções econômicas decretadas pelos EUA e pela Europa, que perseguem contas bancárias do governo venezuelano, sequestram bilhões de dólares e contas no estrangeiro e bloqueiam nosso comércio”.

Outro empréstimo de U$ 5 bilhões foi concedido especificamente para retomar a indústria petrolífera do país. É um alívio, após uma queda vertiginosa na produção, ações judiciais internacionais e desvio de dinheiro em inúmeros casos de corrupção. Existe ainda a possibilidade de se renegociarem os termos de empréstimos anteriores.

Os recursos devem ser investidos em inúmeras companhias na região do Orinoco, que tem 300 poços de petróleo prontos para a exploração, possivelmente contendo 31,2 bilhões de barris.
Quanto ao preço cobrado pelo governo chinês... bom: 9,9% das ações que a PDVSA, estatal de petróleo do país, detinha junto à SINOVENSA, consórcio sino-venezuelano, foram cedidos à CNPC – Chinese National Petroleum Consortium. A SINOVENSA produz 130 mil barris de petróleo na Venezuela atualmente.

Não são poucas as denúncias de que a Venezuela está privatizando sua produção petrolífera para empresas chinesas.

Outro objetivo almejado pelo governo AMduro é tomar parte no projeto “Nova Rota da Seda”. Estipulado em algo em torno de 900 bilhões de dólares, este projeto visa unir Europa, Ásia e Oriente Médio por emio de rotas econômicas e marítimas, abarcando 60 países, 75% das reservas de energia do mundo e 70% da população mundial. A Venezuela é o segundo membro latino-americano, seguindo logo atrás do Uruguai.

Outro ponto essencial foi a construção do satélite Guaicaipuro – nome de uma importante liderança indígena a dificultar a invasão espanhola. É o quarto, sucedendo ao Bolívar, Miranda e Sucre. A tecnologia é inteiramente chinesa e Venezuelana.

A impossibilidade de importar medicamentos (especialmente insulina e antirretrovirais) foi amenizada com o acordo firmado com a Meheco, empresa de medicamentos chinesa.
O Comitê de supervisão desses acordos conta, atualmente, com 124 firmas chinesas e 49 venezuelanas.  

Importante notar que a Venezuela tem os EUA como principal mercado para seu petróleo desde que se encontrou petróleo no país, nos idos da década de 1930. As crises recentes têm reduzido significativamente a quantidade de óleo cru que chega aos portos norte americanos, a ponto de refinarias especializadas em processar o petróleo da Venezuela terem de substituí-lo pelo petróleo de outras partes, como México, Colômbia e Argentina. Este movimento demonstra como a Venezuela está se descolando da influência do Hemisfério Ocidental e se movendo para o Oriente.

Em outubro passado, uma notícia acrescentou mais um ator importante ao caldo que já se formava: a Rússia tomou parte numa reunião, ao lado do governo chinês, tendo como objetivo a recuperação econômica da Venezuela. A reunião se deu com a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez.

A Rússia já tomou a iniciativa de enviar especialistas econômicos a Caracas para assessorarem o governo Maduro. Essas informações coincidem com testemunhos de brasileiros que garantiram terem visto inúmeros assessores russos e chineses junto aos principais integrantes do governo Venezuelano.
Por todo o acima exposto, tendo-se em mente os recentes desentendimentos envolvendo EUA e China em torno do comércio bilateral, é de se temer que futuros enfrentamentos bélicos descambem para uma guerra ao norte do Brasil. Se houver, que não envolva armas nucleares.

Enquanto isso, a Arábia Saudita anunciou a redução de sua produção de petróleo, o que põe os preços acima de 80 dólares, de maneira sustentável. Caso a produção venezuelana retome, muito da tragédia econômica e humanitária atual deverá ficar para trás.


Rubem L. de F. Auto


Fontes:

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O FREIO DE MÃO DA ECONOMIA OCIDENTAL



As últimas décadas têm demonstrado um efeito sobre a economia ocidental batizado de “grande reconvergência”. O crescimento econômico acelerado na Ásia tem levado à redução do “gap” que separa a riqueza do ocidente daquela do oriente, levando o centro de gravidade da economia mundial cada vez mais em direção ao Leste. E esse era mais ou menos o cenário em 1500, quando da ascensão do Ocidente, a reboque da “descoberta” da América.

E a palavra que melhor define o fenômeno acima é “desalavancagem”: reduzir dívidas e reequilibrar orçamentos. Só nos EUA, a soma das dívidas pública e privada excede em 250% o valor do PIB. A situação não é muito diferente na Grã Bretanha, na Austrália, no Canadá, na Coréia do Sul e nos países desenvolvidos da Europa continental, como a Alemanha.

O raciocínio é o seguinte: famílias se endividaram excessivamente, estimuladas pelo aumento estratosférico do preço dos imóveis; para pagar suas dívidas, as famílias tiveram de reduzir seu consumo; tal redução levou à desaceleração da demanda agregada; o governo passou a temer uma eventual deflação (redução de preços) acompanhada de desaceleração da economia, o que prejudicaria o pagamento da dívida; para tanto, o governo interveio na economia por meio de injeção de moeda e aumento dos gastos públicos; evitou-se a contração da economia, mas a crise da dívida privada se transformou numa crise da dívida pública.

Quanto aos Bancos Centrais, inflaram seus balanços para ajudar a fechar os balanços patrimoniais dos bancos privados. Seja como for, a recuperação econômica observada ficou bem abaixo do que se esperava.

Ao cenário um tanto cinzento acima descrito, somam-se o aumento do desemprego provocado pela automação e a enorme concentração econômica das últimas décadas.

A teoria econômica fornece três métodos básicos para se lidar com  a dívida pública: 1) elevar a taxa de crescimento do PIB acima da taxa de juros incidente sobre a dívida; 2) declarar moratória da dívida pública e cessar os pagamentos da dívida privada; 3) utilizar a inflação para forçar a redução da dívida real.

Todas essas hipóteses já foram postas em prática. A Alemanha pós-I Guerra Mundial usou a inflação para fazer frente às despesas brutais impostas pelos vencedores do conflito no Tratado de Versalhes – terminaram convivendo com uma hiperinflação épica. Já os EUA pós-Crise de 1929 optaram por declarar moratória da dívida pública e inadimplir quanto às privadas. Ressalte-se que o mundo que saiu a Segunda Guerra usou largamente a inflação a seu favor, como foi o caso dos países europeus em geral.

Mas a capacidade de dada sociedade conviver com inflação é algo que deve ser analisado sob o ponto de vista político. São fatores importantes para que ela venha a ocorrer: a educação da elite local; competição ´; o funcionamento do sistema judicial, os índices de violência ; o cenário político local.

Por fim, vale expor o fato de que apenas 10 instituições financeiras atualmente manejam ¾ de todos os ativos financeiros dos EUA. E, pasmem, faltam cerca de 50 bilhões de dólares para que elas atendam aos requisitos mínimos de capital bancário para atender aos critérios dos Acordos da Basileia III.

Somam-se a esses obstáculos um tanto desanimadores: atualmente é cem vezes mais caro lanças um medicamento novo no mercado do que há 60 anos; os critérios atuais utilizados pela FDA (Food and Drug  Administration) são de tal monta incompreensíveis que vedariam a venda de sal de cozinha nos EUA (afinal, em grandes quantidades é tóxico); um jornalista norte-americano levou 65 dias para conseguir a permissão para montar uma barraca de limonada em New York (foram cinco semanas de espera até o Certificado de Segurança Alimentar), problema tipicamente citado por economistas para explicar o desempenho ruim de países em desenvolvimento.

Hoje, é 50% mais improvável que uma pessoa nascida no estrato 25% mais pobre dos EUA consiga ascender ao estrato 25% mais rico da sociedade, comparando-se com 30 anos atrás.

Tudo isso somado leva a crer na tal “elite cognitiva”, conforme descrita por Charles Murray: pessoas educadas em universidade privadas caríssimas; que contraem matrimônio entre si, num círculo social bastante exclusivo; que residem em endereços muito valorizados. Essa nova “casta” de super-ricos cria os mecanismos que garantem o sucesso de seus descendentes, ainda que estejam distantes anos-luz de qualquer sombra de brilhantismo.

Talvez resida aí o motivo da sociedade de oportunidades ter se tornado um tormento aos mais pobres.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “A grande degeneração”, Niall Ferguson

terça-feira, 30 de outubro de 2018

AS MUITAS FACES DO FASCISMO EM FACE DE SEUS FÁUSTICO FASCÍNORAS



É natural que se relacione uma teoria com o local em que esta veio à luz. Portanto o locus do nazismo é a Alemanha da República de Weimar; o locus do fascismo é a Itália pós-I Guerra Mundial, a monarquia encabeçada pelo rei Vittorio Emanuel.

Uma dificuldade para que se conceitue o fascismo é o fato de que seu criador, Mussolini, não se preocupou em momento algum em dar maior consistência intelectual à sua fétida teoria. Portanto, analisar o fascismo, e seu filho ainda mais diabólico, o nazismo, é, antes de tudo, analisar a trajetória histórica nefasta de ambas.

Embora o Brasil seja um país recente na história da humanidade, cuja independência remonta a 1822, tanto a Itália quanto a Alemanha são ainda mais recentes como nações independentes. Em meados do século XIX ocorreram transformações intensas do mapa da Europa, causadas pelo desmoronamento de antigos e caducos impérios – caso do império turco-otomano. Nesse ambiente de transformações surgiram dois Estados, poderosos desde o berço: Alemanha e Itália, ambos entre os mais ricos, industrializados e populosos de toda a Europa desde o primeiro dia de suas existências.

Ambos os Estados eram conformados por reinos independentes e teimosamente beligerantes, diversos deles possuíam inclusive moeda e leis próprias, contudo compartilhavam línguas muito semelhantes e pertenciam ao mesmo grupo étnico. A partir do século XIX se tornou comum identificar povos por sua nacionalidade, isto é, todos deveriam fazer parte de uma nação, e o principal critério era a língua local.

Para o reforço dessa identidade nacional, artistas lançavam mão de mitos e lendas de um pseudo-passado remoto, exposto em músicas folclóricas e que deram origem a tradições cuja ancestralidade é mais do que questionável.

A unificação italiana partiu do Reino do Piemonte, no norte da Península Itálica. Era o reino mais rico e mais industrializado da região. Desde 1852, seu primeiro-ministro, Camillo di Cavour, deu início a ações de diplomacia e de guerra que levaram à fundação do Reino da Itália, em 1861. O rei do Estado nascente era o rei do Piemonte, Victor Emmanuel II – Roma seria anexada em 1870.

No caso da Alemanha, o Estado a liderar o movimento de unificação dos reinos germânicos (a maior parte dos quais fazia parte do império Austro-Húngaro) foi a Prússia, cujo primeiro-ministro, Otto von Bismarck, usou das mesmas táticas diplomático-beligerantes, que incluíram a fomentação de três guerras, para unir os Estados e Reinos germânicos em torno de um ente nacional apenas. Tendo amealhado um conjunto invejável de vitórias na execução de seu intento, em 1871, Bismarck viu o rei da Prússia, Guilherme, ser entronado como kaiser do Império Alemão. O novo império surgia com o domínio sobre as regiões da Alsácia e da Lorena, cuja posse seria um dos fatores a desencadear a I Guerra Mundial.

Pois bem. O surgimento de Estados fortes e industrializados a disputarem a liderança econômica num mundo dividido entre Impérios europeus poderosos levou a um fim inexorável: a I Guerra Mundial. O fim daquela carnificina revelou um continente agora exausto, paupérrimo, povoado por seres amargurados, muitos dos quais soldados ressentidos com seus governos, os quais julgavam fracos e não confiáveis, sem falar naqueles que sentiam não terem feito o bastante pelos milhões de irmãos que viram perecer nos campos de batalha.

Isto é: os esforços empregados ao longo dos quatro anos infernais do conflito pareciam ter sido em vão; o retorno da paz trazia consigo políticos repudiados pelos cidadãos; a democracia se mostrava inútil frente desgraça do conflito que não foi capaz de evitar. Só um desejo parecia ecoar desse monte de entulhos que se tornara a civilização: um líder forte, carismático, que pudesse unir a Nação, tirá-la do lamaçal e lança-la rumo ao progresso e à riqueza material.

Esse foi o locus originador da, talvez, mais ignóbil teoria que uma mente doentia poderia arquitetar. De raízes nacionalistas e militaristas, o fascismo deitou raízes em todo o continente europeu nas décadas de 1920 e 1930, mas tomou de assalto especialmente a Alemanha e a Itália.

Em face de sua aridez intelectual, o fascismo foi adquirindo aspectos locais onde quer que fosse praticado – por exemplo, o antissemitismo foi mais forte na Alemanha do que na Itália. Mas em alguns aspectos eles concordavam: o fascismo é autoritário e violento, a xenofobia faz-se sempre presente; o ódio às minorias étnicas é uma constante; assim como o repúdio total a socialistas, comunistas, liberais, democratas; o desejo de conquistas militares é outro aspecto sempre presente no diversos fascismos postos em ação.

O temor de uma Revolução Comunista atingia especialmente a classe média europeia: após a Revolução russa de 1917, um evento semelhante em seu solo tirava o sono dos mais abastados. Esse temor jogou essa classe social nos braços da extrema-direita. Essa extrema-direita na Itália era representada pelo partido político Fasci di Combattimiento – ou simplesmente os fascistas. A palavra “fascismo” deriva da palavra latina “fasces”, como se chamava um feixe de varas, amarrado fortemente e que servia como cabo para um machado comumente carregado por magistrados da Roma Antiga, como símbolo de seu poder. Trata-se de uma metáfora, segundo a qual o povo bastante unido é mais forte, assim como varetas podem se tornar rígidos cabos de machados.
Em 1922, um jornalista italiano, até pouco tempo antes filiado ao partido socialista italiano, partido aliás que dominava a política italiana após a I Guerra Mundial, chamado Benito Mussolini, liderou 25 mil filiados ao seu partido (portanto, fascistas) vestidos de camisas pretas numa marcha que atravessou toda a cidade de Roma. O impacto daquela demonstração de poder foi tamanho que o rei Victor Emmanuel II delegou a Mussolini plenos poderes para formar um governo nos moldes que melhor desejasse. Após liquidar todos os demais partidos, nascia a ditadura fascista, liderado por Mussolini, agora ostentando seu pretensioso título de Il Duce (o líder).

A história não transcorreu de maneira muito diversa na Alemanha. O fim do conflito mundial levou grupos de esquerda a disputarem o poder, sendo o partido comunista alemão um dos mais presentes na política nacional. Mas seus adversários de direita não se davam por vencidos.

Em 1923, um dos muitos partidos de extrema-direita, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, cujos membros eram denominados nazistas, impetrou um golpe contra o governo da Baviera num episódio conhecido como Putsch da Cervejaria, na cidade de Munique. O líder do malfadado golpe era um ex-cabo do exército alemão, Adolf Hitler, que passou alguns anos preso, quando escreveu um livro, Mein Kampf (ou Minha Luta), em que expunha seus mais íntimos pensamentos racistas: ao logo de seus páginas, Hitler definia o que denominava de “Untermenschen”, ou “sub-humanos” - em oposição à “raça ariana”, conformada por loiros de olhos azuis e descendentes de germânicos ou nórdicos. Eram eles africanos, eslavos, ciganos, judeus, dentre outros. Ao apagar das luzes da II Guerra Mundial, os nazistas haviam dado cabo à vida de mais de 14 milhões de “Untermenschen”.

Outro conceito apresentado por meio do seu livro era denominado Lebensraum, ou “Habitat”: era a posse das terras cultiváveis da Rússia ocidental, que garantiriam os recursos necessários para que a “raça ariana” desenvolvesse seu tipo almejado de sociedade.

Outro ponto abordado por Hitler foi o ressentimento que os alemães sentiam pelos termos severos do Tratado der Versalhes, que havia jogado grande parte dos custos e indenizações da I Guerra Mundial nas costas dos alemães. Em decorrência disso, as dificuldades enfrentadas pelas pessoas comuns se avolumavam. Outra provocação lançada pela obra foi o boato de que o exército alemão não havia sido derrotado nos campos de batalha, mas por políticos democratas que traíram a nação quando havia plenas chances de vitória.

Quando os impactos da Crise de 1929 alcançaram a Alemanha, Hitler declarou que  responsabilidade por aquela hecatombe financeira era de banqueiros judeus. A popularidade dos nazistas subia incontida. Nas eleições de 1932, os nazistas conseguiram se tornar maioria no Reichstag (Parlamento alemão) e Hitler saiu ddas eleições legislativas como o novo chanceler, assumindo o cargo em janeiro de 1933.

Em fevereiro, ocorreu o que mais se temia. O prédio do Parlamento amanheceu em chamas e os nazistas logo agiram para pôr a culpa nos comunistas, que passaram a ser perseguidos pela polícia. Logo depois passaram a fazer o mesmo com o restante da oposição. Já em agosto de 1934 não restava mais nenhum partido, exceto os nazistas, e seu líder, Hitler, passou a ser designado como “Fuhrer” (Líder). Para garantir os desígnios do grande líder, o partido nazista contava com polícia secreta, a Gestapo, e com paramilitares, a SS. Todos os desafetos estavam automaticamente na mira dessas duas corporações fascistas.

Se Hitler ambicionava a construção de um Reich (Reino) de perduraria por mil anos, Mussolini sonhava com a reconstrução do Império Romano. Em 1935, Il Duce decidiu invadir o reino africano da Abissínia, atual Etiópia. Embora agisse contra a decisão da Liga das Nações, primeira edição da ONU e criada após a I Guerra Mundial, Mussolini não recuou nem mesmo quando a Liga decretou sanções econômicas contra a Itália.

Aliás, agir contra a decisão da Liga (relembrando, instituição antecessora da ONU e criada nos mesos moldes daquela) foi uma atitude igualmente adotada pela Alemanha nazista em 1934, após se retirar da Liga em 1933 e reintroduzir o recrutamento de soldados e o reaparelhamento de suas Forças Armadas, medidas vedadas pelo Tratado de Versalhes.

O passo seguinte do almejado Reich milenar foi a expansão territorial baseada em critérios nacionalistas: onde quer que se falasse alemão, Hitler julgava ser Alemanha. Iniciando pela Áustria, a Alemanha promoveu sua anexação, a Anschluss (união), medida também vedada pelo Tratado de Versalhes; depois, passou à região dos sudetos da Tchecoeslováquia, habitadas primordialmente por falantes de alemão; diante da total falta de contraposição, Hitler terminou por anexar a Tchecoeslováquia toda e completou sua obra de provocação anexando a Polônia à sua Alemanha anabolizada.

Esta foi a gota d`água que fez o copo da II Guerra Mundial transbordar.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “50 Ideias de História do Mundo”

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

AS RAÍZES ÉTNICAS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA



As origens da música brasileira são mapeadas, em geral, desde a década de 1870. E o elemento que melhor a identificava desde o nascedouro era a influência cultural negra.

Isso só foi possível por causa da força da cultura negra, cujo símbolo mais resistente era a religião, responsável por manter vivos a dança e os cantos de origem africana.

Foi essa mesma origem religiosa comum que manteve a coesão étnica, inesperada e temida pelo poder estatal, entre os africanos aqui escravizados - o que ajudou a manter uma unidade cultural. Essa unidade cultural poderia descambar em rebelião e, assim, pôr em xeque a construção social daquela nação de base escravista.

Passou então o Estado, ao lado de sua sócia, a Igreja, a profanizar toda cultura de origem negra, com o fim de enfraquecê-la e torna-la inócua no que se refere a uma eventual mobilização de elementos da sociedade.

A solução apontada passava pela assimilação do elemento negro pela religião branca. Daí surgiu um calendário de festividades católicas que pretendia oferecer um espaço “sagrado”, segundo a Igreja, para a manifestação cultural negra, enquanto seus espaços de fato sagrados, os terreiros, eram perseguidos e proibidos pelo Estado.

Este sincretismo, pretendido e planejado pelo elemento “branco”, revelou ao mesmo tempo uma prática religiosa que poderia ser acusada de pagã por católicos europeus e uma criação musical única, sugerindo assim que os negros abraçaram o sincretismo com o fim único de manter viva sua orgulhosa bagagem cultural.

]Um elemento cultural que, historicamente, causava alvoroço entre os estratos brancos das inúmeras sociedades em que inseridas eram as danças, geralmente muito sensuais. Como é usual, a inserção cultural das danças ocorreu por meio da aculturação, da retirada de seus elementos constitutivos e sua substituição por um outro correspondente, típico da cultura local. O fandango ibérico, tido por muitos como a matriz a partir da qual surgiram todas as outras danças populares do Brasil, suscitou o seguinte comentário do sedutor Casanova, ao assisti-la na Espanha, em 1767: “uma manifestação de amor do princípio ao fim, desde o olhar de desejo até o êxtase de gozo.”

Embora de extração popular, as danças de origem africana atraiam também pessoas brancas das classes mais privilegiadas, embora a sua adesão mais decidida só tenha surgido após a entrada em cena da polca – branca, por ser polonesa; sensual, como uma dança africana.

Contudo, no Brasil, as acusações acerca dos excessos voluptuosos dos corpos quando os negros se lançavam à dança fizeram nascer a suspeita de que aquela maneira de dançar era também uma expressão de rebeldia: se seu corpo era propriedade de outro, liberá-lo por meio de movimentos exagerados era uma forma de liberá-lo. O mesmo vale para a tão propalada indisciplina do brasileiro, provável herança dos mal fadados séculos da escravidão.

Era um equilíbrio sutil: permitir o lazer dos escravos, com o fito de tornar o trabalho escravo mais suportável; mas condenavam o que consideravam um excesso de despudor.

A modernidade se encarregou de tornar aquele tipo de sociedade insustentável. Os negros alforriados que retornavam da Guerra do Paraguai engrossavam o corpo de cidadãos livres em busca de oportunidades de trabalho assalariado; o fim do tráfico negreiro tornavam a mão de obra escrava escassa; a urbanização criava oportunidades profissionais para os estamentos inferiores da sociedade. E tudo isso gerava oportunidades de ascensão social a negros e mestiços. Com o incremento da renda, surgia a necessidade de se ofertarem atividades de lazer para toda essa gente.

Fenômeno que corria em paralelo a isso tudo, a crise econômica da segunda metade do século XIX gerou a multiplicação de um tipo bem particular de escravo: o escravo de ganho. Senhores de escravo empobrecidos, mas apegados à possibilidade de possuírem um ser humano para chamar de seu, empregavam sua força de trabalho para trabalhos fora do lar. Se o escravo fosse do sexo masculino, atuava como marceneiro, ourives etc. Se fosse uma mulher, empregavam-na como vendedora de quitutes ambulante.

Estes escravos tinham o direito de guardarem parte dos ganhos para si. O resultado disso era que muitos conseguiam os recursos para comprarem sua liberdade: a carta de alforria. Esses ex-escravos logo encaravam o problema da falta de moradia. Com isso, muitos foram habitar nos pés do morro de Santo Antônio, no centro do Rio de Janeiro: era uma espécie de pro-favela, embora essa nomenclatura só fosse nascer um pouco mais tarde.

Foi justamente o escravo de ganho quem realizou a conexão entre a cultura branca, à qual acostumara-se nos tempos de servidão na casa do seu senhor; mas também tinha plena afinidade com a cultura negra, sua cultura e cultura dos seus.

O período final de vigência da escravidão viu o contingente de homens livres inflar bastante em função das muitas fugas de escravos e de concessões desenfreadas de cartas de alforria. Com isso, inúmeros negros livres buscaram nas cidades novas colocações sociais.

Tudo isso posto, nada no Brasil floresceu mais decididamente do que a música de raízes negras. Primeiramente, a execução musical ficava a cargo de tocadores - o pessoal do sereno - e das bandas. As bandas, aliás, eram presença aguardada nas festas religiosas, nas datas nacionais e nos coretos das praças públicas – estas últimas eram festividades que ocorriam invariavelmente todos os domingos.

E de nada seria o mundo da música feita no Brasil sem os negros: era ele quem mais se familiarizara com a música naquela sociedade. Afinal, o canto o acompanhara nos seus ritos religiosos, na lida do campo, nas ruas, anunciando seus produtos e serviços, assim como nas liturgias dominicais, no caso dos cristãos convertidos.

Foi esse ambiente que viu a transformação do Brasil e uma sonolenta colônia agrícola num importante mercado consumidor dos produtos industrializados europeus. Esse fenômeno foi responsável por uma completa transformação da música brasileira, dando origem a diversos estilos, produto de fusões da nossa música com as novidades vindas de fora.

Primeiro, veio a polca; depois, instrumentos musicais como o piano, instrumentos de cordas e de sopro; mais um pouco, flauta e violão caem no gosto popular. Nascem editoras e indústrias tipográficas se multiplicam. Escolas de música são fundadas.

Logo desembarcam no Brasil estilos de música popular europeias: valsa, tango, schottisch etc. E o público consumidor dessa novidade toda se firmava a cada dia: a classe dos homens livres se torna classe média com a agregação de mestiços, pequenos comerciantes, funcionários estatais, estrangeiros que para cá migravam etc.            

Paralelamente, claro, desenvolvia-se o mercado de trabalho para músicos: cafés-dançantes, confeitarias, praças e coretos, bailes, saraus, músicos de lojas de músicas... Já é possível viver como músico profissional, e assim o músico mestiço ganhou destaque, afinal conhecia aquilo que mais agradava as massas.

Embora os aristocratas, tão embevecidos pela alta cultura europeia e seu idioma oficial, o francês, do qual faziam uso rotineiramente, não se sentissem particularmente atraídos pela cultura popular de raízes negras e escravas, esta ganhou toda a sociedade como adepta e manteve vigente aquela ordem social capenga. Foi a música popular, num primeiro momento com destaque para a modinha, quem garantiu algum tipo de coesão entre classes sociais que se diferenciavam até pelo que ouviam.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Chiquinha Gonzaga: uma história de vida”

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

NÃO PRECISO FAZER NADA – VOCÊ SERÁ SUA PRÓPRIA RUÍNA



BIG BROTHER – STEVIE WONDER

Esta canção foi inspirada no livro 1984, de George Orwel, na qual o Grande Irmão é visto como um político pedindo votos. A letra mistura temas da Guerra do Vietnã (crianças, no caso jovens soldados norte americanos, morrendo) e termina criticando o assassinato de Marthin Luther King, Malcolm X e muitos outros importantes líderes negros.

Your name is big brother
You say that you're watching me on the telly
Seeing me go nowhere
Your name is big brother
You say that you're tired of me protesting
Children dying everyday
My name is nobody
But I can't wait to see your face inside my door

Your name is big brother
You say that you got me all in your notebook
Writing it down everyday
Your name is I'll see ya
I'll change if you vote me in as the pres
The President of your soul
I live in the ghetto
You just come to visit me 'round election time

I live in the ghetto
Someday I will move on my feet to the other side

My name is secluded
We live in a house the size of a matchbox
Roaches live with us wall to wall

You've killed all our leaders
I don't even have to do nothing to you
You'll cause your own country to fall
Seu nome é O Grande Irmão
Você diz que me vê pela sua tela
Indo a lugar algum
Seu nome é O Grande Irmão
Diz que está cansado dos meus protestos
Crianças morrendo todos os dias
Meu nome é “ninguém”
Mas não posso esperar para vê-lo entrando na minha casa

Seu nome é O Grande Irmão
Você diz que eu estou na sua lista negra
Você a complementa todos os dias
Seu nome é “vou te encontrar”
Mudaria tudo se você me elegesse presidente
O presidente de sua alma
Eu moro na favela
Você só vem me visitar em ano de eleição


Eu moro na favela
Um dia eu saio desse lugar

Meu nome é “solitário”
Moramos numa casa do tamanho de uma caixa de fósforos
Baratas dividem o espaço conosco

Você matou todos os nossos líderes
Não tenho que fazer nada com você
Você será a causa da destruição de seu país




Rubem L. de F. Auto 

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

CONFEITARIAS DO RIO: O DOCE SABOR DA MODERNIDADE



O período que se estende do final da Guerra do Paraguai, em 1870, até o fim do Império, 1889, foi marcado por mudanças muito significativas na vida urbana da cidade do Rio de Janeiro. Embora a economia do país houvesse melhorado bastante desde o advento do café como o principal produto de exportação do país, a Guerra provocou um incremento de despesas insuportável para os cofres públicos, ao passo que o preço do café no mercado internacional despencava como não se havia visto ainda. A dívida externa que o país contraiu de bancos ingleses explodiu: armas e capitais vinham da Ilha do Norte, enquanto que os recursos necessários para quitá-los escasseavam. Não se olvide também a mudança estrutural por que passava o Exército, a cada dia mais tomado por ideias abolicionistas e republicanas, o que se devia ao aumento do contingente total e dos membros vindos da classe média e dos escravos.

A situação econômica preocupante chega ao ponto de parte da imprensa chamar o país de “orçamentiroso”. O grande aumento dos lucros advindos das exportações de café converteu o Brasil num grande importador de produtos industrializados vindos das nações mais desenvolvidas. A consequência disso foi o enfraquecimento do processo de industrialização nacional, tornando as indústrias brasileiras não competitivas. Com a crise, o país perdia divisas rapidamente.

Tudo isso corria pari passu com as seguidas leis que punham, lentamente, um fim na pérfida instituição da escravidão. Após a lei dos Sexagenários, de 1885, movimentos de rua puseram um ponto final naquela situação vergonhosa.

As agitações políticas, sociais e culturais levaram ao surgimento associações, grêmios, clubes, políticos, literários, recreativos, abolicionistas, de choro, carnavalescos etc. Essa aproximação dos membros da sociedade leva à substituição de algumas das funções antes a cargo da família pelas sociedades civis, o que enfraquece o poder do patriarcado.

As condições de higiene, tradicionalmente sofríveis na imunda capital, passavam por transformações revitalizadoras. Foi por essa época que Alexandre Gary firmou contrato com o município para realização da limpeza urbana; outro empresário, Joseph Fogliani, recebeu a concessão de banhos públicos em estabelecimentos hidroterápicos. Pela primeira vez as pessoas tomariam banho de ducha – ou “banho de chuva”. Parecia que a contínua e quase ininterrupta epidemia de febre amarela, o grande inimigo público da cidade ao longo de toda a segunda parte do século XIX, estava com os dias contados.

Documentado pela primeira vez no verão de 1849, os surtos de febre amarela eram constantes. Muitos criam ser aquela uma punição divina pela decisão de se excluir a imagem de São Benedito da Procissão das Cinzas naquele ano.

Mas aquela epidemia incontida trouxe graves consequências: impediu um movimento imigratório mais intenso, manchou a imagem do país junto às nações mais desenvolvidas e chegou ao ponto de impedir a atracagem de navios saídos do Rio de Janeiro em portos de todo o mundo.

Um dos símbolos da entrada do país na modernidade foi a revogação do “toque de Aragão” na capital. Mecanismo utilizado na Europa medieval, devia seu nome ao seu fundador, o intendente de polícia Francisco Alberto Teixeira de Aragão, no primeiro Império. Consistia na proibição de tráfego de pessoas após as 21h no inverno e 22h no verão e até a alvorada seguinte. O sinal era dado pelo sino da igreja de São Francisco de Paula. A não observação da norma tornava o cidadão sujeito a revista pela polícia.

Mas havia os insujeitos de sempre: os capoeiras (os “vagabundos” da época), as mulheres da vida. O fim da ordem levou ao surgimento dos boêmios, tipo social que se tornaria símbolo da cidade.
A vida noturna, pelo aspecto musical, levou ao surgimento dos seresteiros; nasceu o choro.

A vida literária também teve impulso, mas muito limitado pelo fato de a sociedade brasileira ser ainda notoriamente conformada por analfabetos. Poetas e escritores ficavam um tanto restritos a servirem de ornamento social: exibiam seu vocabulário sofisticado e rebuscado em reuniões com seus pares, especialmente em confeitarias – não à toa conhecidas como “colmeias dos ociosos”.

Outra maneira de os intelectuais passarem seu tempo era defendendo seu “time” em rodas de boêmios. Eram as famosas “panelinhas”, que reuniam os simpatizantes daqui contra os antipáticos dacolá (de outra “panelinha”). As disputas se davam em torno de polêmicas, guerras de metáforas, proteção de membros contra ataques literários do “inimigo” e até perseguições.

As primeiras confeitarias brasileiras remontam à chegada da Corte, em 1808. Mas somente após 1834, quando o sorvete enfim aqui aportou, não era um local de reuniões familiares. Mas as mulheres estrangeiras, mais acostumadas àquela novidade, abriram caminho para que as brasileiras o fizessem. 
Entretanto, somente até as 17h. Após esse horário-limite, as únicas mulheres ali avistáveis eram as concorridas “cocotte”: prostitutas, elegantes, geralmente francesas, atuantes nos cafés-cantantes e moradoras das pensões de artistas.

Uma das confeitarias mais afamadas da cidade era a Confeitaria Castellões, localizada na rua do Ouvidor, 19. Era bastante frequentada por atores e músicos – o mais famoso era Carlos Gomes, amigo pessoal do proprietário. Era também um dos pontos de venda de ingressos de teatro.

Seguindo pela rua do Ouvidor, no número 128 havia a Confeitaria Paschoal. Quem batia ponto ali era o poeta Olavo Bilac, além do jornalista José do Patrocínio. Aliás, após um desentendimento entre o poeta e o proprietário do estabelecimento, toda a “panelinha” do literato se transferiu para a concorrente Confeitaria Colombo.

Esta última, após se tronar ponto de encontro dos membros da Academia Brasileira de Letras, recebeu o apelido de Sucursal da Academia.

Uma novidade que foi adotada com ardor pelos cariocas foram os espetáculos de variedades dos cafés-dançantes – alguns viraram locais de quase veneração. Inaugurados pelo Alcazar Lírico, os homens e as cocotas, que formavam seu público fiel, animavam-se diante da possibilidade de um eventual “rendez vous”. Os locais eram animados também por canções de letras maliciosas, de duplo sentido.

A mobilidade urbana sofreu um salto tecnológico com a inauguração das primeiras linhas de bondes, a partir de outubro de 1868. A companhia pioneira chamava-se Ferro-Carril do Jardim Botânico. O nome bonde foi dado em razão do momento difícil por que passava a economia brasileira: o Ministro da Fazenda Visconde de Itaboraí criou um programa de financiamento público mediante a colocação de títulos públicos (bonds, em inglês), também chamados de vales – os credores do governo eram portadores desses bonds. Como a moeda continuava sendo coisa rara naquela época, a companhia Ferro-Carril seguiu o mesmo procedimento do governo e passou a emitir bilhetes de mil-réis que tanto poderiam ser usados no pagamento das passagens como eram meios circulantes, aceitos pelo comércio em geral como se moeda fossem. Daí para o veículo puxado por burros sobre trilhos ser chamado de bonde foi um pulo.

O ponto final da primeira linha de bondes ficava na esquina das ruas do Ouvidor e Gonçalves Dias. Lá, agrupavam-se os “voyer” da época: os “bolina” e os “espia”, atentos para não perder nenhuma perna descuidada ou um tornozelo de fora, quando as moças saltavam dos carros.

A chiquérrima rua do Ouvidor tinha muitos nomes: rua-salão, clube ao ar livre, França Antártica, rainha da moda e da elegância, fórum de debates, via dolorosa dos maridos pobres, pátria dos franceses de todos os países e dso boêmios de todas as idades, beco dos faladores e muito mais.

Toda a elegância da rua e sua exclusividade que tanto encantava as pessoas mais abastadas se devia à proibição de que por ela transitassem pessoas descalças: portanto os escravos eram proibidos de andar ao longo dela. Era uma rua estreita, onde se acotovelavam pessoas vestidas elegantemente, em busca das muitas lojas – a grande maioria pertencente a franceses - de roupas, cabeleireiros, confeitarias etc. O jornal Gazeta de Notícias tinha sua sede na Ouvidor e sua coluna social abordava os aspectos intrigantes da famosa boulevard.

Outro evento que deixava a sociedade carioca em polvorosa era as companhias de teatro estrangeiras quando aqui aportavam. Desde o início das viagens transoceânicas por navios a vapor a chegada dessas “troupes” se tornou frequente. Eram companhias francesas, italianas, espanholas e, a maioria, portuguesas que causavam até o fechamento do comércio mais cedo.

Os rapazes mais afoitos exigiam até intervenção policial para desgrudarem das jovens atrizes. Os petiscos mais consumidos eram os biscoitos Sinhá com refresco de groselha com polpa de tamarindo. Os menos abastados se juntavam na “torrinha”, a galeria mais alta dos teatros e mais barulhenta.

O Teatro mais exclusivo era o Teatro Lírico – muito frequentado por D. Pedro II. Embora fosse o teatro mais aconselhável às damas da sociedade, era onde se reuniam mais numerosamente as cocotas.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Chiquinha Gonzaga: uma história de vida”

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

UM RIO DE MODERNIDADE: DO LAMPIÃO ÀS LEIS DE TRÂNSITO



Em meados do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro contava cerca de 250 mil almas, metade aproximadamente conformada por escravos. A área habitada desenhava um arco indo do Campo de Santana ao Largo do Machado, a oeste, tendo o mar como limitador a leste. Era ali que se desenrolava a vida urbana.

A cidade se encontrava no limiar entre uma cidade dos tempos medievais e uma outra, dos tempos modernos: falta de esgoto, calçamento precário, lama e poeira, mendigos, “capoeiras”, epidemias... tudo isso convivendo com incipientes serviços de entrega de água em domicílio, o que se dava por meio de carroças com pipas, serviços de entrega de correspondências, operado pelo Correio.

Em 1847, uma novidade surpreendeu os cariocas: a Câmara Municipal editou uma postura (lei) que estabelecia mão e contramão nas vias da capital do Império. As melhorias das antes estreitas e imundas vias públicas levaram à necessidade de se estabelecer uma ordem no tráfego de veículos puxados por animais, liteiras, seges, caleches, cabs, tílburis, vitórias, berlindas, ônibus e gôndolas que disputavam espaço no trânsito em ebulição – ah! Com as lanternas acesas à noite, exceto se fosse noite de lua cheia.

O ano de 1850 viu um dos eventos de maior repercussão na história nacional: a abolição de tráfico de escravos, embora ainda tivéssemos de conviver com o instituto da escravidão por mais algumas décadas.

Este fato levaria ao incremento de investimentos de capitais em diversas áreas da economia, afinal o volume de capitais investidos no tráfico de escravos era imenso. Sem falar que o Brasil dera um passo importante para ser admitido no clube das nações civilizadas.

Embora a chegada da família real portuguesa tivesse dado o impulso inicial à modernização da colônia americana, a primeira metade daquele século ainda vivia sob a gravíssima crise econômica provocada pelo declínio da atividade de mineração. Contudo, já a partir de 1850 o progresso vertiginoso observado nas lavouras de café deixava o pior para trás. A produção crescia, as exportações de café galopavam, em breve o Brasil conquistaria a dianteira do mercado internacional do grão. Capitalistas enriquecidos disponibilizavam capitais para empreendimentos ligados À construção de ferrovias, telégrafos, iluminação pública etc.

A cidade do Rio de Janeiro viu suas ruas iluminadas pelos postes a gás já em 1854. O empreendimento foi levado a cabo por Irineu Evangelista de Souza, o incansável Barão de Mauá. Seu termo de compromisso quanto à qualidade do que empreendera previa uma iluminação pública “superior à de Londres e nunca inferior à de Manchester”. Mas a prática já dava sinais de desentendimentos que acompanhariam as obras públicas brasileiras: a polícia acha a iluminação dispensável nas noites de luar; o Ministro da Justiça discorda e obriga o funcionamento mesmo nas noites de “lua oficial”; a imprensa crê que manter os lampiões acesos todas as noites “apagará” a bela poesia do luar e afundará as já combalidas finanças do Império... O carioca não perdeu o humor: o gás (lampião a gás) virou lamparina.

Como consequência da interrupção do tráfico de escravos e, por extensão, da entrada de escravos novos no país, a proporção de escravos em relação à população total do país entrou em declínio: em 1850 era de 31%, em 1872 se reduziu a 15% e em 1887 representava meros 5%. Simultaneamente, a população livre saiu da insignificância para se consolidar como uma classe social importante. Se a sociedade brasileira era dividida até então dividida em duas classes sociais sem qualquer interseção, senhores e escravos, surgia agora uma terceira: os homens livres, a mais urbana das três.

As divisas advindas das exportações de café, somadas aos homens livres produzindo riquezas, o comércio em franca expansão, tudo isso levou a obras de transporte urbano e à abertura de ruas e avenidas, novos bairros explodiam e levavam os limites urbanos a regiões a cada dia mais distantes. A primeira linha de bonde é inaugurada; artistas e intelectuais se tornavam a cada dia mais numerosos.

Esses artistas e intelectuais saiam, em geral, da nova classe dos homens livres. Além de poderem pretender à ascensão social por meio da arte e da literatura, contavam com o prestígio advindo do fato de não exercerem atividades manuais – atividades localizadas no fundo do poço da reputação num país escravagista e admirador do ócio.

Antes desses proto-artistas tupiniquins, a cultura brasileira era marcantemente europeia. Embora os negros escravizados trouxessem e até mesmo desenvolvessem uma cultura popular própria, a condição de escravos desvalorizava e desestimulava seu consumo pelo restante da sociedade. Até 1808 não fazia sentido falar em cultura nacional – Aleijadinho, Domingos Caldas Barbosa eram exceções que confirmavam a regra. Mesmo as realizações artísticas brasileiras eram carregadas de elementos alienígenas, notadamente franceses.  Nas palavras de Nelson Werneck Sodré: “Trata-se, no conjunto, de arte estrangeira, elaborada no Brasil por coincidência ou acidente”. Creia: os brasileiros eram os assinantes mais numerosos da publicação francesa Revue des Deux Mondes, depois dos franceses.

Mas então surgiu o barco a vapor. Esse meio de transporte revolucionário encurtou a travessia do Atlântico, aproximando a Europa da América. Saem os degradantes navios negreiros e entram em cena os paquetes franceses. As remessas de escravos africanos são substituídas por passageiras francesas e polonesas, a cada dia mais frequentes e numerosas, importadas por donos de pensão de dos novos cafés à parisiense que pululavam as novas ruas cariocas. Mas nem todos comemoraram os novos tempos. Como disse um político conservador, por volta de 1859, citado por Caio Prado Junior: “Antes bons negros da costa da África do que todas as teteias da rua do Ouvidor”.

Os novos estabelecimentos de diversão, inspirados no que havia de mais moderno na França, trouxeram o espetáculo de variedades. Os locais eram de propriedade de franceses que se estabeleceram na rua da Vala, atual rua Uruguaiana. Ali nasceu aquela que se tornaria a casa mais famosa dentre os boêmios da cidade: Alcazar Lírico. Sua programação girava em torno de canto e dança, surgindo daí o apelido dado pelos cariocas ao gênero daquele tipo de espetáculo: café-dançante. Mais tarde surgiriam os “chopes-dançantes”.

Pouco a pouco o Rio de Janeiro faria jus ao apelido que receberia: barulhópolis. Ao barulho das festividades religiosas – com os gogos de artifício importados da China -, das bandas desfilando pelas ruas, dos sinos das igrejas, dos escravos de ganho anunciando seus produtos, somavam-se agora os sons emitidos pelas novíssimas casas noturnas.

Outro efeito que surgia pouco a pouco era o afrouxamento dos costumes e regras morais. Uma das responsáveis por isso atendia por Aimée, atriz francesa estrela-maior do Alcazar Lírico, e tormento maior das mulheres casadas da cidade.

Ao par das atrações citadas, havia o teatro lírico, bailes, saraus para os senhores mais finos; cavalhadas, touradas e regatas para os amis populares; podiam-se assistir também a apresentações de animais exóticos, como elefantes e baleias. As famílias se reuniam para disputadas partidas de voltarete, dominó, gamão, baralho. Mas o povo gostava mesmo era de cantar e dançar.

Os cariocas se deliciavam ao som de rabecas e pianos, especialmente. Flautas e atabaques eram acompanhados por descontraídas palmas e por assobios. Festas religiosas e coretos davam uma oportunidade a mais para as pessoas se divertirem ao som de muita música.

Se os salões mais disputados eram dedicados à valsa, as reuniões familiares eram animadas pela polca. Já a gente escrava e mais pobre se divertia com rodas de dança ao ritmo do lundu, precursor do samba.

E assim se vivam os dias da capital do Império brasileiro...


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Chiquinha Gonzaga: uma história de vida”