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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A VIDA NORMAL DAS CELEBRIDADES ENTEDIANTES, SEGUNDO MARILYN MASON



I Don't Like the Drugs (But the Drugs Like Me) - Marilyn Manson


Norm life baby
"We're white and oh so hetero and
Our sex is missionary"
Norm life baby
"We're quitters and we're sober
Our confessions will be televised"

A vida normal, querida
“Somos brancos e... Oh! Tão heterossexuais e
Nosso sexo é evangelizador”
A vida normal, querida
“Somos proteladores e sóbrios
Nossas confissões serão televisadas”

You and I are underdosed and we're ready to fall
Raised to be stupid, taught to be nothing at all

Eu e você estamos caretas e a ponto de afundarmos
Educados para sermos estúpidos, ensinados a não sermos nada

I don't like the drugs but the drugs like me
I don't like the drugs, the drugs, the drugs

Eu não gosto das drogas, mas as drogas gostam de mim

Norm life baby
"Our God is white and unforgiving
We're piss tested and we're praying"
Norm life baby
I'm just a sample of a soul
Made to look just like a human being
Norm life baby
"We're rehabbed and we're ready
For our 15 minutes of shame"
Norm life baby
"We're talkshown and we're pointing
Just like Christians at a suicide."

A vida normal, querida
“Nosso Deus é branco e impiedoso
Nós passamos no teste da urina e estamos rezando”
A vida normal, querida
Sou apenas um modelo de uma alma
Feita para apenas parecer um ser humano
A vida normal, querida
“Estamos reabilitados e prontos
Para nossos 15 minutos de vergonha”
A vida normal, querida
“Participamos de talshowd e estamos apontando o dedo
Como fazem os cristãos em um caso de suicídio”

You and I are underdosed and we're ready to fall
Raised to be stupid, taught to be nothing at all

Eu e você estamos caretas e prontos para nos afundarmos
Educados para sermos estúpidos, ensinados a não sermos nada

I don't like the drugs but the drugs like me
I don't like the drugs, the drugs, the drugs

Não gosto das drogas, mas as drogas gostam de mim
Não gosto das drogas, mas as drogas gostam de mim

There's a hole in our soul that we fill with dope
And we're feeling fine

Há um buraco em nossas almas que preenchemos com narcóticos
E estamos nos sentindo melhor

I don't like the drugs but the drugs like me
I don't like the drugs, the drugs, the drugs


Rubem L. de F. Auto

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

TRAVESTISMO E CLEPTOMANIA DE ARNALD LAYNE - PINK FLOYD


ARNOLD LAYNE – PINK FLOYD

Esta canção fala de um garoto que tinha por hábito roubar roupas femininas dos varais e usá-las em casa. Embora tenha sido censurada no Reino Unido quando de seu lançamento, foi um dos primeiros sucessos da banda.


Arnold Layne had a strange hobby
Collecting clothes
Moonshine washing line
They suit him fine
On the wall hung a tall mirror
Distorted view, see through baby blue
He done it



Oh, Arnold Layne
It's not the same, takes two to know
Two to know, two to know
Two to know
Why can't you see?
Arnold Layne
Arnold Layne
Arnold Layne

Now he's caught - a nasty sort of person
They gave him time
Doors bang, chain gang
He hates it

Oh, Arnold Layne
It's not the same, takes two to know
Two to know, two to know
Two to know
Why can't you see?
Arnold Layne
Arnold Layne
Arnold Layne
Arnold Layne
Don't do it again


Arnold Layne tinha um passatempo
estranho
Apanhando roupas
Varais ao luar
Elas vestiam-no bem
No muro, pende um espelho alto
Uma imagem distorcida, vejo-a através dos olhos azuis
Ele conseguiu

Oh, Arnold Layne
Não são a mesma coisa (meninos e meninas), ambos devem saber disso
Ambos devem saber...
Por que você não consegue ver isso?
Arnold Layne...



Agora, ele foi flagrado – pelo pior tipo de pessoa
Deram-lhe um tempo
Bate portas, arrasta corrente
Ele odeia isso

(...)









Arnold Layne
Não faça isso de novo


Rubem L. de F. Auto

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

LISERGIA – A QUÍMICA DO LSD


Qualquer livro razoável sobre drogas descreve experiências milenares, de tribos que descobriram determinados compostos existentes em substâncias facilmente encontradas nos arredores, capazes de provocar sensações e alucinações, mormente utilizadas em rituais e cerimônias de fundo religioso.

Mas o LSD, pouco menos de 30 anos após sua descoberta, foi eleito a droga oficial do “Verão do Amor”, em San Francisco, em meados da década de 1960. Até sua proibição, em meados de 1966, seu consumo atingiu escala industrial e embalou multidões em shows ao ar livre. Difícil crer que tudo isso começou a partir de um acaso.

Albert Hoffman era um químico empregado no Laboratório Sandoz, em Basiléia, na Suíça. Trabalhava pesquisando sobre um fungo chamado ergotina. Na Idade Média, esse mesmo fungo costumava atacar plantações de trigo, provocando em quem os consumisse a temida síndrome do “fogo de Santo Antão”. Além de gangrenar os dedos das mãos, por força da má circulação sanguínea – o que levava à mutilação dos mesmos -, ainda provocava contrações musculares fortíssimas. Em geral, levava a vítima à morte.

Contudo, já no período do Renascimento, mulheres descobriram que pequenas doses de ergotina auxiliavam no trabalho de parto, na medida em que aumentava a força das contrações uterinas. Hoffman direcionou seu trabalho para a descoberta de um remédio para enxaqueca a partir da ergotina, e para tanto necessitava sintetizar o ácido lisérgico, presente na ergotina.

Em 1938, Hoffman sintetizou sua 25ª fórmula do ácido lisérgico, a qual trazia uma molécula de dietilamida. Embora o composto sintetizado fosse considerado definitivo, a droga isolada não mostrou qualquer efeito nos testes de laboratório e o trabalho de Hoffman foi deixado de lado.

Entretanto, após cinco anos de ocaso, Hoffman resolveu trazer seu experimento à luz novamente. O cientista preparava seu LSD-25, mas não vestia luvas apropriadas naquele momento. Sua pele absorveu um pouco da substância e Hoffman foi então “tomado por um estranho, mas não desagradável estado de intoxicação, caracterizado por um intenso estímulo de imaginação e alterado estado de consciência do mundo”, em suas próprias palavras. “Enquanto eu me deitava numa agitada condição, de olhos fechados, surgiu a mim uma sucessão de fantásticas imagens, rapidamente mutantes, de uma realidade chocante e profundamente alterada, como um vívido e caleidoscópico mosaico de cores. Essas sensações cessaram após três horas.”

Três dias depois, um novo teste. Hoffman dissolveu 250 microgramas de LDS em água e bebeu. Embora cresse que os efeitos seriam agora mitigados, seu volta para casa, de bicicleta, é considerada a primeira viagem de ácido da história. Embora pedalasse com a sensação de que seu corpo estava imobilizado, seu assistente, que vinha sóbrio e na bicicleta de trás testemunhou que Hoffman pedalava em alta velocidade. O cientista também relatou que “via” o asfalto subindo e descendo à sua frente, como ondas no mar; os prédios ao seu redor pareciam destorcidos, como se houvesse um espelho de refração entre si e a paisagem urbana. Ao chegar a casa, o assustado Hoffman ligou para seu médico, pois parecia que estava enlouquecendo. “Ocasionalmente eu me sentia como se estivesse fora do meu corpo... achei que tivesse morrido. Meu ego parecia suspenso em algum lugar no espaço. Eu vi eu corpo estirado, morto no sofá.” Aliás, a palavra “psicodélico” é um neologismo formado pelas palavras gregas “psyche” (mente ou alma) e “delein” (o que se mostra, se manifesta).

Ao ser informado sobre o andamento das pesquisas, o Laboratório Sandoz decidiu realizar uma série de experimentos em ratos, gatos e chimpanzés. Mas um grupo de cientistas, que incluiu o próprio autor dos experimentos, o Hoffman, resolveu usar a substância diretamente em si – tudo pela ciência!
Não tardou para que o tal LSD-25 se popularizasse. O filho do dono do Laboratório Sandoz, o psiquiatra Howard Stoll, passou o usá-lo em testes com esquizofrênicos, obtendo ótimos resultados.

Em 1947 foi a vez do próprio Werner Stoll, o dono do Sandoz, que anunciou que os resultados impressionantes obtidos por meio da droga o levaram a se prontificar a enviar a substância a qualquer professor do planeta que a requisitasse. Os testes também despertaram o interesse da CIA, que exigiu que o Sandoz não atendesse a pedidos que partissem da órbita comunista e ainda encomendou 100 gramas de LSD por semana. A droga seria usada no âmbito do programa MK-ULTRA, de desenvolvimento de agentes químicos e biológicos a serem usados como arma durante a Guerra Fria.

Na década de 1950, o LSD chega finalmente aos EUA. Ao contrário de seu ambiente natal, composto por cientistas e pesquisadores enfurnados em laboratórios, a chegada do LSD em solo americano se deu por meio de intelectuais e pensadores do porte de Aldous Huxley, Alan Watts, Oscar Janiger, dentre outros. Este último, desde as primeiras horas, defendia o efeito positivo da droga na realização de trabalhos artísticos.

O foi justamente no meio do cinema que o LSD ganhou entusiastas mais rapidamente. O ator Cary Grant foi um deles. Jack Nicholson, que vivera um pouco da atmosfera do Flower Power, assinou o roteiro de “The Trip” (Viagem ao mundo da alucinação), em 1967.

Aldres Hubbard, em militar da Marinha americana na Segunda Guerra e, posteriormente, milionário atuante no setor de urânio, teve sua primeira experiência psicodélica após os 50 anos. O que sentiu fez-lhe decidir levar a boa-nova ao resto da humanidade como se fosse uma missão de via. Adquiriu 400 frascos e os distribuiu por toda a costa leste, até o Canadá. Recebeu o apelido de “Johnny Aplessed of LSD”, ou Johnny Semeador de Ácido.

Outro ambiente fecundo para o LSD foi o dos escritores beatniks, cujos primeiros frascos provieram das doações de Hubbard.

Em Harvard, o professor de física Timothy Leary se tornou apóstolo dos efeitos do LSD sobrea “expansão da mente”. Seu colega,o professor Richard Alpert chegou a escrever o livro “A experiência psicodélica”, base inspiradora de John Lennon para a canção “Tomorrow Never Knows”.
Leary e Alpert foram expulsos da Universidade, mas levaram consigo diversos alunos de pós-graduação que apoiavam as ideias da dupla para a o uso construtivo da droga. Terminaram por fundar a Federação Internacional para a Liberdade Interior. Visavam a “estabelecer centos de pesquisa por todo os Estados Unidos para que nele fossem conduzidas sessões de treinamento com drogas psicodélicas.”

Foi então que surgiu o “breaking bad” seminal: Augustus Owsley Stanley III. Filho de um procurador da República e neto de um senador, Augustus chegou a ser aclamado o “prefeito extraoficial da Height-Ashbury”, área que congregava os hippies nos anos 1960, em San Francisco. Era popularmente conhecido como o mago do LSD.

Owsley recebeu uma bolsa de estudos para cursar engenharia química na Universidade da Virgínia, mas foi para Berkley, onde morava com sua namorada, também estudante de química. Juntos, passaram a produzir LSD no banheiro do cômodo.

O namora terminou, mas o comércio promissor de Owsley continuou. Produzia aquilo que seus clientes chamavam de melhor LSD do mundo. Inicialmente, seu LSD era vendido em formato líquido – a que chamava de “leite materno”. Mas esse formato permitia a falsificação muito facilmente, daí Owsley decidiu produzir pequenas pílulas, que eram levadas ao forno e saíam com cores diversas a cada etapa. A pílula de cor laranja, conhecida como Orange Sunshine, fez tanto sucesso que os membros da banda Jefferson Airplane arremassaram várias delas para a plateia, no final de um show.

O preço cobrado por Owsley era de dois dólares por pílula. Mas a cada pílula vendida, Owsley doava uma, pois desejava que seu produto despertasse consciências. Mas o negócio de Owsley era lucrativo a tal ponto de ter sido chamado de “Henry Ford do LSD” pela revista Newsweek.
Ainda antes da proibição do LSD, Owsley comprou por 20 mil dólares 500 gramas de monoidrato de ácido lisérgico e produziu, com isso, 1,5 milhão de pílulas.

Owsley, que preferia ser chamado de “Urso”, era muito próximo dos integrantes da banda que se tronou símbolo dos anos de psicodelia, Greatful Dead. Uma parte do dinheiro amealhado com a venda de LSD virou equipamentos de ponta para sua banda predileta.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “O som da revolução”

terça-feira, 14 de agosto de 2018

FEMINICÍDIO NO ROCK – HEY JOE



HEY JOE – AUTORIA AMPLAMENTE DISCUTIDA


Hey Joe
Where you going with that gun in your hand?
Hey Joe
I said, where you going with that gun in your hand?

I'm going down to shoot my old lady
You know, I caught her messing around with another man
I'm going down to shoot my old lady
You know, I caught her messing around with another man
And that ain't too cool

Hey Joe
I heard you shot your woman down
You shot her down, now
Hey Joe
I heard you shot your old lady down
You shot her down to the ground
Yeah

Yes I did, I shot her
You know, I caught her messing around, messing around town
Yes I did, I shot her
You know, I caught my old lady messing around town
And I gave her the gun
I shot her!

Hey Joe, alright
Shoot her one more time, baby

Hey Joe, said now
Where you going to run to now?
Where you going to run to?
Hey Joe, I said
Where you going to run to now?
Where you, where you going to go?
Well, dig it

I'm going way down south
Way down to Mexico way
Alright
I'm going way down south
Way down where I can be free
There's no one going to find me

There's no hangman going to
He ain't gonna put a rope around me
You better believe it right now
I got to go now

Hey Joe
You better run on down
Goodbye everybody, ow!
Hey Joe, uh
Run on down
Hey, Joe
Aonde você vai com essa arma em sua mão?
Hey Joe
Eu perguntei, aonde você vai com essa arma na sua mão?

Eu vou lá, matar minha mulher
Você sabe, eu a flagrei se esfregando com outro homem
Vou lá matá-la
Você sabe (...)

E isso não é legal

Hey Joe
Eu ouvi você atirando em sua mulher
Você a matou, agora
Hey Joe
Ouvi você atirando em sua mulher
Você a matou estirada no chão
Sim

Sim, fiz isso, matei-a
Você sabe, eu a flagrei se esfregando por aí,
Pela cidade
Sim, matei-a, atirei nela
Você sabe, eu a flagrei...

Eu eu lhe dei uma arma
Eu a matei!

Hey Jor, tudo bem
Mate-a uma vez mais

Hey Jor, diga agora
Para onde você vai agora?
Para onde você vai correr?
(...)

Para onde você, aonde você vai agora?
Bem, ache um lugar

Eu vou em direção ao sul
Em direção ao México
Tudo certo
Você para o sul
Em direção a onde posso ser livre
Ninguém me achará

Não haverá enforcamento
Não colocarão uma corda no meu pescoço
Melhor você crer nisso agora mesmo
Tenho que ir agora

Hey Joe
Melhor você ir logo
Adeus a todos, uau!
Hey Joe, eh
Vá agora


Rubem L. de F. Auto

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

FOLK MUSIC E POLÍTICA – A EFERVESCENTE DÉCADA DE 1950



Impossível falar de folk music sem falar de Bob Dylan. Impossível falar de Dylan sem falar de seu maior idoso: Woody Guthrie.

Guthrie foi o maior compositor folk americano. Carregava consigo um lendário violão, em que se lia “esta máquina mata fascistas”. Passou a década de 1940 cantando de graça em sindicatos, dormindo em trens, na caçamba de caminhões. Em represália, apanhou muito da polícia, dos seguranças das fábricas, dos capangas dos ruralistas. Sua composição “This Land is Your Land” foi pedra fundamental na luta dos direitos civis – sua filmografia em português se chama Este Terra é Minha Terra. Satirizava os ricos, como em “Old Man Trump”, na qual fazia troças de Fred Trump, pai de Donald Trump e maior especulador de imóveis de NY.

Dylan se mudou de Minesota para NY com o objetivo de conhecer seu ídolo – e apresentar-lhe uma composição que fez em sua homenagem, “Song for Woody”.

Em NY, Dylan se dirigiu ao centro da boemia norte-americana, o bairro de Greenwich Village, que possuía a maior concentração de artistas, traficantes e prostitutas dos EUA.

Mas o renascimento do folk se iniciou pouco antes, ainda nos anos 1950, quando o folk servia como trilha sonora do Partido Comunista dos EUA, papel equivalente ao da literatura beatkink no meio literário, em meio à paranoia e ao punitivismo persecutório da Guerra Fria.

Desde o fim da II Guerra Mundial, o Village se revelava um centro intelectual, haja vista toda a legião de escritores beatnik ter se mudado para suas imediações.

A década de 1960 se inicia com a eleição de John Kennedy, e toda aquela tensão e conservadorismo típicos dos longos anos de governos dirigidos por militares se esvaía. O folk ganhava mais liberdade e se revitalizava. E isso tudo era quase palpável no ar se você estivesse no Village. Com a sensação de que havia agora maior liberdade para se manifestar, uma série de compositores folk oriundos da classe média reforçou a fileira dos que lutavam por mais direitos sociais. Alguns compositores inclusive eram mais celebrados pelo seu papel político do que pela qualidade musical de suas obras, como era o caso de Peter Seeger.

Foi justamente nesses dias que uma menina de 19 anos elevou sua voz e se tornou ídolo de uma época: Joan Baez.

Este momento da folk music lembra um pouco o início da bossa nova no Brasil. Em pequenos apartamentos e alojamentos estudantis da Universidade de Cambridge, nos arredores de Boston, jovens iniciavam um movimento musical que desaguaria em algo muito maior. Contudo, ao contrário da bossa nova, que precisaria de alguns anos para atuar numa vertente politicamente engajada, o folk nasceu com a áurea de “movimento não alinhado”. A indústria fonográfica era repudiada, as baladas que tocavam tinham séculos de existência e as composições saíram da mente criativa de cantores rurais absolutamente desconhecidos do público.

Mas muitos daqueles rapazes e moças queriam fazer algo contemporâneo, que tratasse dos sonhos e das angústias que permeavam seu ambiente urbano e conturbado, política e socialmente. Enquadravam-se aqui: Phil Ochs, Buffy Saint-Marie (descendente direta de índios), Tom Paxton, Eric von Schmidt, o trio Peter, Paul e Mary, além de Joan Baez e muitos outros.

Aliás, o trio Peter, Paul e Mary lançou o primeiro sucesso arrasa quarteirão de Dylan, Blowing in the Wind, em junho de 1963, na forma de um single que vendeu o número expressivo de 320 mil cópias.
A obra prima de Dylan, composta quando tinha apenas 22 anos de idade, fazia referências à era Kennedy, aos conflitos raciais no sul do país, aos protestos antitestes nucleares etc. Dylan passou o verão de 1963 em algumas das regiões mais racistas e conflagradas do sul, quando voluntários de todo o país se arriscavam fazendo o registro eleitoral de cidadãos negros.

Em agosto daquele ano, Dylan e Baez dividiram o palco em meio à marcha pelos direitos civis, em Washington, a mesma em que Martin Luther King proferiu seu discurso histórico “eu tenho um sonho”.

Mas em 1965, a avaliação sobre todos esses movimentos era um tanto pessimista. Todas as manifestações e protestos tinham como lideranças negras pessoas de discurso pacifista, moderado, antiviolência. Mas o outro lado, geralmente materializado na forma de forças policiais, não hesitava em usar a força. Assassinatos de manifestantes e de lideranças negras se sucediam. A repressão policial contra uma marcha em Montgomery ficou conhecida como “Domingo Sangrento”, em razão da tresloucada ação policial.

Uma semana depois, o presidente do país, Lyndon Johnson, sucessor de Kennedy após seu assassinato, foi à TV apresentar seu projeto da Grande Sociedade (Great Society) e terminou seu discurso pronunciando “we shall overcome” – ou venceremos -, frase que se tornaria título de canção de sucesso na voz de Joan Baez.

Mas a situação política não arrefecia. O primeiro trimestre de 1965 viu o assassinato de Malcolm X, uma das mais importantes lideranças e negras e que já havia radicalizado o discurso antiviolência pregado pela sua contraparte, Martin Luther King, Jr.

Quanto a Dylan, este se mostrava um tanto cansado do efeito insignificante que suas músicas tinham no cenário político. Além disso, surgiam incessantemente desavenças com os próprios membros das organizações que ajudava a promover. Não se deve descartar também a sensação de que o sucesso que perseguia se tornava mais distante conforme seu nome era associado a movimentos políticos.
Em suas palavras: “Não há nenhuma canção acusatória aqui. Eu não quero mais compor para as pessoas... entende?... ser um porta-voz. De agora em diante, quero escrever sobre o que vem de dentro de mim. A bomba está ficando chata porque o que rola é mais profundo do que a bomba. Eu não sou parte de nenhum movimento. Simplesmente não me dou bem em nenhuma organização.”

De fato, ainda em março de 1965, lança seu álbum “Bringing it All Back Home”, por meio do qual pretende trazer de volta a música americana, “sequestrada” por jovens britânicos em meio à “british invasion”. Neste álbum não havia uma música sequer de protesto...


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “O som da revolução”

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

CUBA LIBRE – A DEMOCRACIA EM CUBA E SUAS PARTICULARIDADES



Cerca de 8 milhões de cubanos afluíram às urnas em meados de março deste ano, para elegerem um novo Parlamento do Poder Legislativo – A Assembleia Nacional do Poder Popular –, assim como Assembleias regionais. Em abril, essa nova Assembléia nacional elegeu um novo presidente do país, Miguel Diaz-Canel.

Diaz-Canel se tornou o primeiro presidente cubano sem o sobrenome Castro. Fidel, após derrubar o ditador Fulgêncio Batista, em 1959, governou o país por décadas. Seu irmão e sucessor, Raul, foi presidente Cuba por dois mandatos de 5 anos.

Após ser eleito pela Assembleia nacional – Diaz-Canel foi o único candidato -, sua nomeação foi confirmada pelo Conselho de Estado, formado por 31 membros.

Raul Castro permanecerá ocupando o cargo de presidente do Partido Comunista (PCC) até 2021. O Partido Comunista é composto de 25 membros, eleitos pelo seu presidente. Organizações sociais que abrangem todos os nichos sociais terminam por moldar a elite política do PCC: jovens, mulheres, trabalhadores, pequenos agricultores e muitos outros. Cerca de 80% dos cubanos são membros de organizações como essas. É essa representatividade que garante que a agenda política do PCC esteja alinhada com os interesses da sociedade.

Cuba possui o Conselho de Ministros, cujo presidente é o chefe do Poder Executivo, e o Conselho de Estado. Os membros do conselho de Ministros são sugeridos pelo Presidente do conselho de Estado e, posteriormente, ratificados pela Assembleia. Os membros do Conselho de Estado, seu presidente e vice-presidente são escolhidos pela Assembleia Nacional – que representa o Poder Legislativo.
A Assembleia Nacional também elege os membros do Poder Judiciário.

O sistema eleitoral vigente em Cuba é único no mundo. Não existe campanha política, nem candidatos se engalfinhando por votos. Eles contam apenas com uma simples folha contendo sua biografia, posta em locais públicos e em frente das zonas eleitorais.

As autoridades creem que isso cria um patamar comum, sem que alguém tenha vantagem por causa da quantidade de recursos que amealhou.

As eleições desse ano começaram em setembro do ano passado com milhares de reuniões em esquinas, nas quais as pessoas escolhiam seus candidatos a autoridade municipal apenas levantando os braços. Vários candidatos disputa esse cargo.

A votação nas urnas, com voto secreto, ocorreu em novembro passado.

Eleitas as autoridades municipais, devem elas agora eleger os representantes provinciais e os membros da Assembleia nacional. É aqui que entra a Comissão Nacional de Candidaturas.
Cerca de metade dos deputados da Assembleia Nacional deve ser constituída por autoridades municipais. A Comissão elabora a lista de deputados e decide quem poderá nomear a outra metade, dentre os 605 candidatos.

A tal Comissão é composta por organizações sociais apoiadas pelo Estado, como: Federação dos Trabalhadores Cubanos, Comitê de Defesa da Revolução, Federação das Mulheres Cubanas, Sindicato de Artistas e Escritores, as Federações Estudantis e a Associação Nacional dos Pequenos Agricultores.

Cuba possui um sistema político de partido único, o Partido Comunista (PCC), mas ninguém precisa ser filiado a ele para ser candidato ou para ser eleito – e vários não o são.
De acordo com as análises dos candidatos à Assembleia Nacional, o sistema político de Cuba parece ser bem progressista:
·        -  90% nasceram após a Revolução de 1959;
·         - A média de idade é de 49 anos;
·         - 338 candidatos, ou 56%, são novos na política e terão assento pela primeira vez;
·         - Mais de 40% são negros ou mestiços;
·         - Mais de 53% são mulheres.

No mundo, apenas Ruanda, Cuba e Bolívia possuem mais da metade dos seus representantes pertencentes ao sexo feminino.


Rubem L. de F. Auto

Fontes:

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

AIN`T NO RIVER WILD ENOUGH – MARVIN GAYE



“Dos 7 anos até a adolescência, a vida doméstica de Marvin consistiu em uma série de surras brutais”, assim Jeanne definiu a infância do irmão, um dos maiores cantores e compositores de todos os tempos, Marvin Gaye. Filho de um pastor que pregava ardorosamente contra os vícios e pecados, Marvin somente conheceu seu lado mais sombrio, em casa: usava roupas femininas, bebia muito, batia na esposa e nos filhos. Mantinha seu papel de tirano da casa à base de muita violência e intimidação.

Encontrou refúgio na música. Possuindo ouvido absoluto, aprendeu piano e bateria em pouco tempo. Mas seu pai continuava a ignorar seus feitos. Marvin então se alista nas Força Aérea: foi a maneira que encontrou para sair de casa e fugir do seu detestável genitor.

Mas a vida militar não significou qualquer alívio para o rapaz. O tratamento brutal a cargo de coronéis um tanto sádicos fizeram-no fingir-se louco e, assim, dar baixa e um basta naquele sofrimento.

Retornou a sua Washington natal, começou a cantar em bandas locais e logo foi contratado por uma delas, a Moonglows. Por meio de um dos integrantes, o líder Harvey Fuqua, é levado a Detroit para conhecer Berry Gordy, fundador da gravadora Motown.

Foi contratado e permaneceu ali por 22 anos muito bem sucedidos, lançando diversos sucessos – um dos maiores foi o álbum arrasador “What`s Going on?”.

Se o namoro e o casamento com a Motown foram gloriosos, o final da relação foi conturbado. Por volta de 1980, Marvin estava completamente viciado em cocaína, era um consumidor compulsivo de pornografia e ainda devia milhões de dólares em impostos. Conseguiu se mudar para Londres com a namorada – e logo terminaria o relacionamento com essa namorada, por motivos igualmente relacionados a seus vícios.

Foi então que surgiu em sua vida o belga Freddy Cousaert, promotor musical e fã do cantor. Levou-o para morar em sua casa, em Ostend, Bélgica, e o inseriu num programa de recuperação, tanto de sua saúde quanto da sanidade. Gaye passou a ser visto, ineditamente, correndo, fazendo longas caminhadas, passou a dormir cedo...

Ao lado disso, recuperou também sua saúde financeira. A gravadora CBS o contratou, aparou todas as suas pendências com o Fisco americano, e Marvin iniciou os trabalhos de elaboração do seu álbum Midnight Love.

Além disso, o escritor David Ritz começou a escrever sua biografia. Quando Ritz se deparou com a coleção insana de pornografias de Marvin, sugeriu que ele procurasse uma “cura sexual” – ou, em inglês, sexual healing, nome de sua canção de maior sucesso, por meio da qual ganhou dois prêmios Grammy.

Foi quando sua mãe, Alberta, sofreu um derrame. Preocupado, Marvin voltou para casa. Em abril de 1983 iniciou uma turnê e, infelizmente, sofreu uma recaída e voltou a usar cocaína. Nas palavras de um dos contratados, envolvido nos shows: “havia mais cocaína nessa turnê do que em qualquer outra da história do entretenimento.” Em pouco tempo, Marvin era visto em orgias e chegou a ficar apenas de cueca no palco.

Ao fim da turnê, Marvin retornou a Los Angeles, à casa que havia comprado para sua mãe – seus irmãos também moravam ali. Mas, em outubro, o pesadelo recomeçou, quando seu pai voltou a viver com a família.

A partir de então, as brigas com seu pai se tornaram comuns. O pai discordava do comportamento do filho, ao passo que o mesmo chegou a comentar com sua irmã que mataria seu pai caso encostasse suas as mãos nele.

No Natal, um evento inexplicável ocorreu: Marvin presenteou seu pai com uma pistola Smith and Wesson, calibre 38, sem registro.

Os três meses seguintes foram recheados de tensão, brigas e humilhações mútuas. O amor paterno nunca se fez presente, independente das conquistas do filho.

No dia 31 de março, apenas dois dias antes de Gaye completar 45 anos, o pai de Gaye e sua mãe, Alberta, iniciam uma briga. Marvin interveio e fez seu pai recuar. No dia seguinte, o pai inicia outro momento de tensão, quando começa a gritar aos quatro ventos que uma apólice de seguro havia sumido.

Marvin manda o pai entrar no seu quarto. Após resistir, o pai obedece e então Marvin começa a surrá-lo. Sua mãe se desespera e intervém. O pai sai do quarto, Marvin fica com sua mãe no cômodo, quando são surpreendidos com o pai, que volta armado e dispara contra o filho: dois tiros no coração.
Quando os paramédicos chegam, Marvin agonizava, enquanto seu pai estava sentado na varanda, encarando o horizonte. Marvin morreu logo que deu entrada no hospital.

O pai de Marvin Gaye foi acusado inicialmente de homicídio qualificado, mas depois foi reduzida para homicídio culposo. Marvin pai foi levado ao Tribunal do Júri. Em novembro, foi condenado a cinco anos de prisão condicional.

No Tribunal, Marvin pai declararia: “Se fosse possível, eu o traria de volta. Eu tinha medo dele. Pensei que seria ferido. Não sabia o que aconteceria... Sinto muito por tudo o que aconteceu”. Foi sua primeira desculpa após seis meses do homicídio do próprio filho.   


Rubem L. de F. Auto

REDE, PRAIA, VIOLÃO E DORIVAL – CAYMMI DE TODOS OS SANTOS



O menino do coro da Igreja, com voz de baixo-cantante, cresceu, tomou um Ita (navios de passageiros que viajavam em direção aos estados do litoral sul do Brasil), em 1938, e chegou ao Rio de Janeiro, então reino dos reis e Rainhas do Rádio. Por influência do amigo Jorge Amado, lançou-se à música.

Seu estilo foi único e inimitável. Escrevia letras que saudavam sua Bahia (embora tenha sido superado pelo mineiro Ary Barroso nesse critério). Fazia melodias simples, mas que sintetizavam bem sua mensagem.

Bom ouvinte, Caymmi contava histórias que ouvia de pescadores, de suas esposas, os dramas da vida dos homens do mar. Falava do mar de Itapoã, mas também das festas do Bonfim, da Conceição da Praia, falava dos fortes em ruínas.

Se cantava uma viagem a bordo do Ita do norte, também escrevia a crônica de uma tragédia: “Deram com o corpo de Pedro, jogado na praia, roído de peixe, sem barco, sem nada...”. Descrevia o cotidiano dos homens do mar: “minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar meu bem querer, se Deus quiser quando eu voltar do mar, um peixe eu vou trazer...”. Também não esquecia de citar as herança africanas, cantando Iemanjá em suas músicas, a exemplo do que seu amigo Jorge fazia em seus romances.

Dorival pensou em ser jornalista, mas trabalhou como desenhista na revista O Cruzeiro. Mas foi por pouco tempo. Logo estreou na rádio com a música “O que é que a baiana tem?”. Mas depois explorou outros temas, como amor em Marina, Dora, Rosa Morena. Cantou “Sábado em Copacabana”, mas também cantou “Só louco”.

Em “Samba da minha terra”, lançado pelo Bando da Lua em 1940 e regravado por João Gilberto em 1960, deu seu recado para quem não gosta de samba: “é ruim da cabeça ou doente do pé”.

Episódio interessante envolveu Caymmi e o cinema. Desde 1931, quando estreou o filme Coisas nossas, cuja trilha sonora ficou a cargo de Noel Rosa, o cinema e o samba viviam de mãos dadas. Era um musical, produzido pelo norte americano Wallace Downey, da Columbia Records do Brasil. Noel criticava muito os estrangeirismos na nossa língua e até via o recém-inventado cinema falado como uma evolução prejudicial à sociedade em relação ao cinema mudo.

Já Dorival Caymmi se tornou celebridade após participar do filme Banana da Terra, de 1938, também produzido por Downey em parceria com Ruy Costa, e cujo roteiro ficou a cargo de João de Barro e Mário Lago. A produção envolvia as irmãs Carmem e Aurora Miranda, Oscarito, Lauro Borges, Orlando Silva, Almirante e muitos outros nomes famosos da época. A trilha sonora incluiria algumas composições de Ary Barroso, como “Na baixa do sapateiro”. Contudo, um inebriado Ary pediu a pequena fortuna de 10 contos de réis para permitir a inclusão de suas canções. Os produtores acharam o pedido um despautério e chamaram o jovem autor de “O que é que a baiana tem?” para o lugar do consagrado Ary.

Ao fim e ao cabo, Carmem foi convidada para uma carreira internacional e Caymmi se tornaria um compositor autor de inúmeros clássicos da nossa música.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Almanaque do samba: a história do samba...”

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O MUNDO COMO ELE É, É O MUNDO QUE SE NOS IMPÕE – MOTOWN



Julho de 1988, o empresário Bery Gordy decidiu se desfazer de seu velho negócio, a lendária gravadora Motown. A decisão surpreendente poderia suscitar algum motivo oculto, então um jornalista perguntou: “Ao vender a Motown, você se sente um fracassado?”. Gordy não poderia parecer mais surpreso: “Faço parte de um negócio que vale 371 milhões de dólares. O que você acha?”.

A história de Berry Gordy e sua busca pelo sucesso começou há muitas décadas, quando a probabilidade de um negro nos EUA se tornar bem sucedido tendia a zero. Gordy não apenas não seguiu essa sina, como abriu caminho para a música negra e seus artistas maravilhosos: Steve Wonder, Marvin Gaye, Jackson Five, Jay-Z, Kanye West etc.

Gordy abandonou a escola muito cedo em busca de seu sonho: ser boxeador profissional. Venceu oito lutas, perdeu duas, empatou uma, mas não mais longe do que isso. Foi convocado pelo Exército, serviu por dois anos, casou-se, teve um filho e, após o período conscrito, conseguiu um emprego numa gráfica.

A noite de Detroit era agitada e Gordy gostava de passá-la ao som do jazz dos clubes locais. Sua paixão pela música o fez abrir uma loja de discos. Não deu certo. Seu público, operários que labutavam nas montadoras de carro da cidade durante o dia todo, em sua maioria negros, queria relaxar à noite, bebendo em profusão e ouvindo músicas mais agitadas.

Após a experiência fracassada com a loja, Gordy foi trabalhar na linha de montagem do Lincoln Mercury. Enquanto trabalhava e criava melodias mentais para novas canções, leu num anúncio que compositores poderia ganhar até 25 dólares por música.

Foi então que o dono de uma boate pediu-lhe material para ser entregue a seu novo cantor, Jackie Wilson. E Gordy lutara contra Wilson anos antes. Formaram uma dupla e compuseram músicas que fariam sucesso, tornando Wilson um dos artistas ais populares de Detroit.

Após conhecer um cantor aspirante chamado Smokey Robinson, por quem se afeiçoou musicalmente, Gordy mudou o nome da banda de Robinson para The Miracles. Enquanto isso, Gordy fundava a Jobete Publishing e os selos Motown e Tamla. Com isso, cada aspecto da carreira dos músicos ficava sob a batuta da gravadora. Até aulas de etiqueta e bons costumes eram dadas aos novos contratados.

O disco do The Miracles de 1959 vendeu 60 mil cópias – número inimaginável para uma gravadora iniciante. Em 1961, Shop Around, do mesmo grupo, alcançou o primeiro lugar na parada R&B e a vice-liderança nacional. Em setembro do mesmo ano, o grupo The Marvelettes conquistou a liderança nas paradas nacionais com “Please Mr. Postman”.

Gordy trazia em sua mente uma frase emblemática pronunciada por Sam Philips, da Sun Records, a gravadora que lançou Elvis Presley, segundo a qual ele tinha certeza de que se achasse um cantor branco para as músicas negras, faria fortuna. Gordy procurava o oposto, cantores negros para músicas brancas. Seus artistas negros soavam absolutamente brancos. E vendiam muito bem.

Contudo, nas décadas seguintes, gênios musicais como Norman Whitfield, Marvin Gaye, Steve Wonder obrigariam a gravadora a repensar sua estratégia inicial e se tornar o mais importante símbolo da black music, lançando nomes como The Temptations, The Supremes, The Isley Brothers, Diana Ross e muito mais.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “50 fatos que mudaram a história do rock”

terça-feira, 7 de agosto de 2018

CHOROS RECITADOS E POEMAS CHORADOS



O choro é um estilo musical instrumental por excelência. Mas isso não significa que seja refratário à ideia de receber uma bela letra. Ainda no século XIX, o poeta Catulo da Paixão Cearense produziu letras para muitos choros, famosos à época, como os de Francisco Callado, Ernesto Nazareth e outros, embora não tivesse qualquer instrução em música.

Um dos exemplos mais emblemáticos foi o que se deu com a obra-prima de Pixinguinha: Carinhoso. Composta quando o maior dos chorões tinha apenas 26 anos, a melodia ficou guardada na gaveta, pois o autor a considerava muito moderna, seguindo uma estrutura diferente da tradicional.

A música foi gravada em 1928, apenas. A reação inicial foi de escândalo: foi considerada “jazzística” demais. Logo após, Braguinha, também conhecido como João de Barro, parceiro de Noel Rosa, pôs letra na canção.

O próximo desafio seria encontrar um cantor para registrar a obra. Mas ninguém se prontificou à tarefa. Só em 1937, um cantor em início de carreira aceitou o desafio. Seu nome era Orlando Silva, e o disco que produziu trazia de um lado Carinhoso; do outro, Rosa. Foi sucesso absoluto.

Outros grandes nomes da música e da poesia prestaram a tarefa semelhante às obras de Pixinguinha. Vinicius de Morais produziu letra para “Lamento”, Hermínio Bello de Carvalho, para “Fala baixinho”, Paulo César Pinheiro, para “Ingênuo”. A vitória do Brasil na Copa Sulamericana de 1919, por 1x0 contra o Uruguai na final, foi homenageada por Pixinguinha e Benedito Lacerda com o choro “1x0”. Agora recebia letra de Nelson Angelo, de fato uma narração de uma partida de futebol.

Quanto às interpretações, a Rainha do Choro, Ademilde Fonseca, delineou o estilo que seria seguido por cantores posteriores, ao gravar “Tico-tico no fubá”, “Brasileirinho” e “Delicado”. Nara Leão, em 1960, daria sua contribuição ao estilo ao registrar “Apanhei-te cavaquinho” e “Odeon”; Chico Buarque e Francis Hime fariam o mesmo em “Caro amigo”; Raul Seixas deu seu naco ao cantar a sua “Sessão das dez”; e Arnaldo Antunes e Marisa Monte, que deram voz a “De mais ninguém”.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Almanaque do choro: a história do chorinho...”