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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

EINSTEIN JOGANDO DADOS COM DEUS


O homem que obrigou toda física a adotar uma nova visão de mundo, um dia, teve de rever a sua própria. O problema de Einstein era que a mecânica quântica abalava sua fé.

Com a teoria da relatividade, de 1905, e com a teoria da relatividade geral, de 1915, Einstein fizera defesa de teses monstruosas. Apenas com cálculos e reflexões chegara à conclusão de que inexiste sistema de referência absoluto no universo. Caíra a base da ciência que se fizera desde Aristóteles.  Hipótese newtoniana de espaço e tempo absolutos fora desafiada.

A existência ou não de movimento passava a depender da perspectiva do observador, não era um dado absoluto. As conhecidas leis de Newton dependiam, na visão de Einstein, de existência de vários campos gravitacionais influindo reciprocamente entre si, ou de velocidades próximas à da luz. Nesses caso, espaço, tempo e luz se transformavam. O raio de luz contrai-se quando o campo gravitacional aumenta. O espaço se contrai. O tempo se dilata.

Se um corpo estiver no fundo mar, o tempo passará mais lentamente para ele do que para um corpo no topo do Everest. No ambiente terrestre essas diferenças são muito pequenas, embora calculáveis. Essa variação é levada em conta nos sistemas de navegação por GPS, por exemplo.
Einstein teorizou sobre a relação existente entre espaço, tempo, velocidade e massa. Não são medidas absolutas, mas relativas.

Sua teoria foi confirmada por meio dos cálculos do desvio da luz, feitos por uma expedição britânica, durante um eclipse, em 1919.

Einstein nunca deixou de acreditar em Deus. Ele acreditava num Deus que se “manifesta na harmonia ordenada de tudo o que existe, não num Deus que se preocupa com o destino e as ações dos seres humanos.”

No entanto, essa visão de Deus foi abalada pela mecânica quântica. Em 1900, o físico alemão Max Planck descobrira que a luz não se propaga continuamente, mas por meio de quantas. Isto é, pequenos pacotes de energia. Da exploração desses quantas surgiu a física, ou mecânica quântica. Seus fundadores, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Max Born concluíram que no interior dos átomos acontecem processos não previsíveis, caóticos. A chamada interpretação de Copenhague, de 1926-27, diz que tais fenômenos somente podem ser calculados por meio de probabilidade. Nada mais fácil para abalar a fé de uma pessoa do que a incerteza.

Para Einstein, o princípio do acaso não se coadunava com sua imagem de um Deus transmutado na harmonia da regularidade da natureza.

Também se desafiava a ideia de Spinoza da previsibilidade dos acontecimentos naturais.

Essa imagem, de Deus equiparado a um jogador de azar, deu azo à sua frase: Deus não joga dados.”

No entanto, o futuro da física parece ser a conciliação entre a macrovisão de Einstein do Universo e a física quântica, com sua visão do microcosmo. Muitos depositam sua esperança na teoria das Cordas. 

Esta sustenta que os verdadeiros blocos de construção da matéria são segmentos enrolados (cordas) oscilando nas mais diferentes direções. Talvez resida aí a união das bases teóricas da teoria da relatividade e da teoria quântica.


Rubem L. de F. Auto
     

O FANTASMA DE MARX


O Manifesto Comunista se inicia com a famosa frase: “Um fantasma percorre a Europa: o fantasma do comunismo”. Foi escrito por Karl Marx em Bruxelas, entre 1847 e 1848 e baseava-se em alguns apontamentos feitos por seu amigo Friedrich Engels. Apesar do tema, nenhum dos dois era proletário.

Os pais de Marx procediam de famílias judias ricas e com tradição rabínica. O pai, jurista, foi obrigado a se converter ao protestantismo. Karl iniciou seus estudos de direito em Bonn. Depois, estudou filosofia em Berlin. Após se filiar aos hegelianos, elaborou trabalhos sobre questões sociais e políticas. Doutorou-se com a tese: A diferença entre a filosofia naturalista de Demócrito e a de Epicuro. Por suas atividades políticas, negaram-lhe a cátedra.

Engels pertencia a uma família burguesa, conservadora e protestante de Barmen. Eram proprietários de fábricas têxteis e vinícolas. Em sua passagem pela Universidade de Berlin, filiou-se aos hegelianos e ao movimento Jovem Alemanha. Foi para a Inglaterra, encarregado dos negócios familiares, chocou-se com as condições miseráveis dos trabalhadores. Tornou-se socialista. Em Paris, conheceu Marx, que lá vivia exilado. Também lá Marx se casou com Jenny von Westphalen e tiveram uma filha.

Em Londres, ingressaram na Liga dos Justos, círculo de socialistas. Após, foi rebatizado para Liga dos Comunistas. Marx e Engels foram encarregados de escreverem um manifesto em nome do grupo. Escreveram O manifesto do partido comunista, em 1848. Foi a primeira exposição de ideias marxistas.

Iniciava reconhecendo o papel da burguesia, ou bourgeoise, como escreveu, com a sua dinâmica e com os meios de produção que criara (capital, fábricas, máquinas) provocara uma revolução sem precedentes em termos de produção.

Contudo, a nova classe daí surgida, os operários, ou proletários, era explorada e posta em condições tão miseráveis que tendia a haver um embate futuro entre ambas. As crises que o capitalismo invariavelmente viveria acabaria por pôr em risco a própria burguesia. Dali surgiria uma nova sociedade, fundada pelo proletariado.

Marx assim finalizava: “Que as classes dirigentes tremam com a revolução comunista. Os proletários não têm nada a perder, senão as suas correntes. Têm um mundo a ganhar: Proletários de todos os países, uni-vos! ”

Marx é lembrado como fundador do socialismo científico, feito que alcançou ao longo de suas obras seguintes, especialmente O Capital, de 1867.

O que Marx não previu foi a versatilidade do sistema capitalista, sua capacidade de se adaptar e realizar reformas. Ainda no século XIX, muitas das iniquidades que Marx e Engels testemunharam foram amenizadas com as leis trabalhistas, assistências e mesmo com reformas democráticas, na Inglaterra e na Alemanha.

Por outro lado, ao contrário das previsões de Marx, Rússia e China, desprovidas de uma classe operária relevante, realizaram revoluções de cunho marxista. No entanto, foram adotadas correntes marxista-leninista ou maoísta.

Na Alemanha, escreveram Questões sobre o partido comunista na Alemanha, texto mais voltado para a realidade local e por meio do qual alcançaram maior notoriedade no país. Neste, imprimiram “Proletarier aller Lander vereinigt Euch!” no início. Defendiam ideias amenas como: eleições livres, salário para parlamentares, melhoria da educação. Defendiam também ideias mais radicais: nacionalização dos bancos, da propriedade, das minas, dos meios de transporte, das vias de comunicação e do correio, além da limitação dos direitos de herança. Ah! Também defendiam o armamento do povo.

Com o fracasso da Revolução de 1848, ambos, que tinham empenhado bastante dinheiro na fundação do Nova Gazeta Renana, em Colônia, tiveram de fugir para Londres de novo. Marx perdeu todo seu patrimônio. Quem o ofereceu algum suporte foi Engels, que trabalhou por mais de vinte anos em uma das fábricas de seu pai. Enviava todo pagamento para Marx e sua família.

Com esse suporte, Marx escreveu sua vasta obra, nos bancos da British Library. Infelizmente essa foi associada ao “socialismo real” da URSS e do bloco do Leste. Provavelmente Marx e Engels teriam resistido a essa comparação.

No túmulo de Marx, em Highgate, Londres, está insculpida a frase: Workers os all land, unite! “


Rubem L. de F. Auto          


   

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

L`ANTOINETTE, UMA RAINHA AUSTRÍACA SEM NOÇÃO?


Maria Antonieta, ou Marie Antoinette, era uma rainha a caminho de um fim trágico, dsejado por todo o país que governava. Contudo, inesperadamente, foi enterrada com uma pontinha de admiração pelos mesmos que a odiavam. Admiração pela coragem e pela dignidade demonstrados no momento mais difícil que ela teria de enfrentar.

Maria Antonia Josephe Johanna era a filha mais nova da imperatriz Maria Teresa. Seguiu o famoso lema da família Habsburg: “Deixa que os outros façam a guerra, tu, feliz Áustria, casa-te!”

Estando a França desejosa de estabelecer aliança com a Áustria, o ministro francês Choiseul arranjou o casamento de Antonieta com o delfim e futuro rei Luís XVI. Foi eleita com apenas 14 anos. Sua educação, até aquele momento, foi absolutamente descuidada. Embora tenha aprendido os rituais cortesãos de Versalhes, pessoalmente era famosa reconhecida como: bela, caprichosa, atrevida, superficial e distraída. Também era amante de música e chegou a tocar com o jovem Mozart. Com o tempos, foi acusada de esbanjar com diversões e jogos de azar.  

Chegou à França em 1770. O delfim tinha, à época, 15 anos. Era gorducho, impertinente e sabidamente bonachão. Em 1774, o casal assumiu a coroa francesa.

Em princípio, ficou patente que Antonieta influenciava diretamente em diversas decisões do rei. Audiências com ela muitas vezes terminavam em humilhação pública. Tornou-se comum referir-se a ela como a austríaca – L`Autrichienne. Para completar, o aguardado futuro herdeiro não nascia, fato que só ocorreu após sete anos do casamento. Problemas em seu crepúsculo faziam com que o ato sexual fosse um sofrimento para Luís XVI, o que levou a rainha a buscar a satisfação com seus prediletos da corte.
A primeira gravidez deu nascimento a uma menina. Em 1781, nasceu o delfim Louis Joseph Alexander. Antonieta mudou completamente. Passou a se dedicar apenas aos filhos, sendo vista como mãe atenciosa. Afastou-se da politicagem da corte.

Em 1785, ocorreu um episódio que a marcou negativamente. Um joalheiro, de nome Bohmer, em 1785, reclamou o pagamento de 1,5 milhões de libras por um colar de diamantes encomendado pelo Cardeal Ruão em nome da rainha. Ela negou tudo e chegou a pedir a prisão do cardeal. O rei enviou o assunto ao Parlamento, para que este decidisse. Após investigar o caso, concluiu-se pela inocência de Antonieta e do cardeal. Um casal de aventureiros foi o responsável. Entretanto, após o episódio a população passou a tratá-la com ainda mais desprezo.

O país estava à beira da falência, mas os grupos de maior força eram o clero e a nobreza, que impunham sua vontade no Parlamento e se opunham a qualquer tentativa de conter privilégios e reformar o Estado.
O rei convocou os Estados Gerais, assembléia a que acudiam representantes da nobreza, do clero e do terceiro estado (seriam as pessoas comuns mas, de fato, apenas burgueses). Foi a primeira convocação desde 1614. Clero e nobreza se uniram contra os terceiro estado. Questões de ordem travaram todo o debate.

Em 20 de junho, soldados foram postos na porta da sala de reuniões. O clima esquentava e o rei não aceitava a idéia de uma Constituição e de igualdade entre todos. A explosão de ânimos ocorreu em 14 de julho de 1789, quando o povo de Paris assaltou a fortaleza da Bastilha, cujos canhões estavam apontados para os bairros operários. Tomaram-na e cortaram a cabeça de seu administrador, Bernard de Launay, cuja cabeça desfilou por toda a cidade.

Antonieta chegou a propor ao seu marido a fuga, mas Luís se recusou. Contudo, a teimosia de Luís em não extinguir todos os privilégios aristocráticos de raiz feudal foi interpretada, pelo povo, como má influência de sua esposa. Daí surgiu a anedota: Maria Antonieta teria perguntado a seu cocheiro, durante um passeio por que as pessoas pareciam tão desgraçadas. Respondeu o homem: “Majestade, não há pão para comer.” Ao que Antonieta respondeu: “Se não tem pão, comam brioches.”

Provavelmente ela não disse essa frase. Ela consta de um livro de Rousseau, Confissões, citada por uma princesa, ao ver o povo faminto. Provavelmente a princesa em questão era Maria Teresa de Espanha. Mas Antonieta era odiada, costumava ser insultada em panfletos e peças de teatro, tendo sido ainda acusada de incesto com seu filho.

Em junho de 1791, houve a tentativa desesperada de fuga da família real. Foram reconhecidos e detidos em Paris, no palácio das Tulherias. Em 1792, as Tulherias foram assaltadas e a família real transferida para a prisão do Temple. Luís XVI foi deposto: seria agora Luís Capet, apenas um cidadão.

A punição à família real poderia ter parado nesse momento, porém foi achado um plano escondido, em posse de Luís, para instaurar um contrarrevolução. O processo contra si tornou-se inevitável.

O medo por parte dos Revolucionários era grande. As Casas Reais européias (Áustria, Piemonte, Prússia, Grã Bretanha e Espanha) eram claramente contra a substituição da Monarquia francesa por uma República. Em 1792, houve a batalha de Valmy, em que os revolucionários saíram-se vitoriosos. Foi um ponto de inflexão e renovou os ânimos em favor dos revolucionários. A vitória foi tão surpreendente que levou Goethe a exclamar: “Hoje e aqui começa uma nova época da história universal, e podereis dizer que haveis sido testemunhas disso.”

No dia 21 de janeiro de 1793, Luís foi decapitado, após ser condenado na Convençaõ Nacional por 361 votos a favor e 360 contra. O ato foi realizado na Place de La Révolution (atualmente Place de La Concorde).

L`Antoinette, agora viúva Capet, impressionou pela dignidade. Ficou presa na Conciergerie ao lado de 2.500 detentos. Ficava sob constante vigilância. Fora separada de seu filho, que morreu aos 10 anos de idade, na prisão. Depois, fora separada de sua filha, a única sobrevivente da família real.

Em 14 de outubro de 1793, o acusador público Fouquier-Tinville iniciou o processo contra Antonieta. Foram 15 horas de depoimentos, com participação de inúmeras testemunhas. Uma delas foi o jornalista Jacques-René Hébert, relembrou as acusações por incesto com o filho mais novo. Também foi acusada de vazar informações que ajudariam a Áustria contra a França. Nada foi demonstrado.

Foi condenada. Porém, antes escreveu uma carta a sua cunhada, ainda mantida presa: “Acabam de me condenar, não a uma morte desonrosa, só o seria a um criminoso, mas a reunir-me a vosso irmão ... Peço perdão a todos aqueles que conheço ... Por qualquer mal que, sem o saber, lhes tenha causado ... Adieu, boa e doce irmã! ... Envio-vos um abraço de todo o meu coração para vós e para todos os vossos queridos filhos!” Elisabeth, que não recebeu esta carta, também foi guilhotinada.

Em 16 de outubro de 1793, fora levada ao cadafalso, em carruagem, de mão atadas e cabelo cortados, já grisalhos, cabeça coberta por um gorro. A procissão inteira durou uma hora. Subiu as escadas do estrado, postou-se frente à guilhotina. Quatro minutos depois, a lâmina finalmente caiu. O verdugo mostrou a cabeça à multidão. Todos gritaram: “Viva a revolução!”

O jornalista Hébert escreveu: “Finalmente a maldita cabeça foi separada do corpo da puta! Mas tenho de admitir: o cadáver foi até ao fim ousado e atrevido!” Seis meses após, ele próprio viu-se no cadafalso.


Rubem L. de F. Auto     

REVOLUÇÃO PODE CAUSAR INDIGESTÃO


Quando descobriram seu pescoço, Vergniaud disse: “A revolução, assim como Saturno, devora seus próprios filhos.” Logo após, a lâmina da guilhotina desceu. Este instrumento, batizado em homenagem a Joseph Ignace Guillotin, criado para humanizar as penas de morte, fez mais uma vítima dentre as mais de 30 mil por ela ceifadas durante a Revolução francesa.

A frase diz respeito à atitude dos novos detentores do poder, quando eliminam seus companheiros de lutas, aqueles que lá estavam desde a primeira hora.

Quando estourou a Revolução francesa, em 1789, para muitos jovens brilhantes chegara o momento de ascender politicamente. Vergniaud foi eleito na Assembléia Geral do departamento da Gironda. Após, foi eleito administrador do departamento da Gironda e, em 1791, deputado da Assembléia Legislativa de Paris.
Os grupos que se enfrentavam eram os girondinos, cujo nome deriva do departamento da Gironda, formado majoritariamento por médios burgueses e mercadores; e pelos jacobinos, cujo nome deriva de um antigo mosteiro de monges jacobinos, onde o grupo foi criado.

Em agosto de 1792, a população de Paris assaltou o palácio das Tulherias, onde vivia a família real. Após a deposição de Luís XVI, Vergniaud, que era o presidente da Assembléia na época, pronunciou a República.
Surgiram diversas correntes ideológicas a partir dos grupos dos girondinos e jaconinos. Cada um buscou sua disposição na Assembléia Nacional. Os moderados sentavam-se à direita do presidente e defendiam uma monarquia constitucional. À esquerda ficavam os que defendiam a República. Pouco depois, os girondinos passaram a ocupar os lugares inferiores. Os radicais jacobinos ocupavam as filas superiores – eram os montanheses. Estes defendiam o fim da propriedade privada, conforme defendido por Rousseau.

Quanto ao processo contra Luís XVI, embora inicialmente contra, passou a apoiar a pena de morte contra o mesmo.

Alguns tempos depois, o departamento de Vendée promoveu, pelas mãos de nobres locais, uma revolta pela restauração da monarquia. Vergniaud foi acusado de apoiar essa revolta, indo contra os ideais da Revolução. Em 10 de abril de 1793, Maximilien de Robespierre, líder dos montagnards (montanheses), acusou-o de conspirar com o rei.

O clima de disputa entre girondinos e jacobinos chegava ao auge, quando a Convenção Nacional proscreveu 22 deputados girondinos. A sentença foi emitida pelo presidente do Comitê de Salvação Pública, George Danton, utilizando a recentemente aprovada Lei dos Suspeitos.

Um ano após, George Danton também seria vítima da incansável guilhotina dos anos de terror.


Rubem L. de F. Auto

PROUDHON: O FIM DA PROPRIEDADE PRIVADA COMO GERADOR DE RIQUEZAS


Em 1853, o pintor impressionista Gustave Courbert pintou um retrato de Pierre-Joseph Proudhon. Ao melhor estilo do pintor, foi pintada ao ar livre, num jardim, sentado sobre dois degraus. A mão direita descansa sobre a coxa. A mão esquerda afaga a barba. O olhar parece distante. Á sua direita, repousam livros, alguns abertos. No primeiro degrau, papéis. Às suas costas, um tinteiro e uma pena. Veste uma bata larga de linho branco. Duas meninas o acompanham: suas duas filhas.

Foi este homem quem declarou: “A propriedade privada é um roubo!” Proudhon  foi um revolucionário socialista, portanto defensor da igualdade. Contudo sua linha de pensamento era bastante individualista. Essa contradição pode ser explicada voltando-se às suas origens.

Courbet e Proudhon eram da região do Franco Condado, fronteira com a Suíça. Era uma região de comerciantes e artesãos, gente acostumada a se dedicar a atividades individuais. Sentiam-se desconfortáveis com o caráter anônimo e coletivo do Estado. Essas pessoas festejavam a independência, o fato de poderem governar suas vidas sem ter de dar ouvidos a decisões de burocratas, tomadas a centenas de quilômetros dali, por pessoas que mal conheciam a realidade local.

Era um mundo rural e burguês, de raízes individuais e com pessoas orgulhosas de sua independência. Dali, também provieram Victor Hugo e Charles Fourier.

Proudhon teve uma infância pobre. Seu pai fracassou na tentativa de montar um negócio próprio. Teve de largar os estudos e trabalhar para contribuir com o sustento de casa. Aprendeu o ofício de tipógrafo. Leu muito, sobre os mais diversos assuntos. Tentou estabelecer um negócio em Besançon. Fracassou.

Aos 28 anos, escreveu um livro sobre gramática. Por causa deste, ganhou uma bolsa para estudar na Academia de Besançon. Na sequência, foi a Paris. Ali, ao se deparar coma pobreza e o sofrimento das pessoas, mudou muito intelectualmente.

Em 1840, publicou “O que é a propriedade?” A resposta, no próprio texto, era: “A propriedade é o roubo.” A inspiração para a frase foi de Jacques Pierre Brissot, intelectual da Revolução Francesa.

Para Proudhon, homem que provinha de um ambiente de muito trabalho, que valorizava sobremaneira o esforço individual, a propriedade privada rendia benefícios ilegítimos, pois estes não eram derivados do trabalho.

Proudgon distinguia entre possessão e propriedade. A possessão era composta por bens de uso, enquanto a propriedade era o capital, as máquinas, os bens de raiz. Por não recusar a existência da posse individual, Proudhon foi acusado de se socialista burguês pelos comunistas.

Seu individualismo se manifetava até no orgulho que sentia por ser autodidata, ter aprendido o que sabia sozinho. Não concordava totalmente com as ideologias socialista e comunista. A esquerda o defenestrava por não se opor ao sistema de classes do capitalismo – Proudhon desejava apenas conciliá-las. Os capitalistas acusavam-no de não levar em conta a capacidade do capitalismo de se adaptar à realidade, não considerava seu caráter progressista.

Como um bom individualista, Proudhon não se importava de não se filiar a qualquer corrente de pensamento. E no momento em que o nacionalismo atingia seu auge, chegava a flertar com o perigo. Enquanto, para muitos, o Estado nacional significava liberdade, para Proudhon o Estado centralizado era sinônimo de fim das liberdades individuais.

Para ele, a sociedade deveria se organizar em pequenas unidades autônomas – novamente seu condado natal se fazia presente em suas teses -, sem qualquer instituição acima delas (nem Estado nem Igreja). Também não via necessidade de existir dinheiro. Acreditava que um intercâmbio de mercadorias, que envolvesse um número suficientemente grande de pequenos produtores, poderia substituí-lo. Novamente, somente benefícios advindos do trabalho seriam aceitos. Em sua teoria, defendia o fim dos direitos de herança, que evitaria o acúmulo de propriedades. Portanto ninguém estaria em condições de exercer o poder econômico nem político sobre os outros.

Em 1846, Karl Marx pediu que Proudhon o ajudasse no movimento comunista. Em carta de resposta, escreveu Proudhon: “Procuremos juntos, se quiser, as leis da sociedade, as formas como estas leis se realizam ... Mas, por Deus!, depois de ter derrubado todos os dogmatismos a priori, não pensemos em doutrinar o povo, por nossa vez ... Lutemos de forma séria e leal, demos ao mundo o exemplo de uma tolerância sábia e prudente mas, por estar À cabeça do movimento, não nos tornemos chefes de uma nova intolerância e não nos apresentemos como apóstolos de uma nova religião, mesmo que fosse a religião da lógica, a religião da razão ... Não consideremos nunca que uma questão se esgotou, e quando tivermos utilizado o nosso último argumento, comecemos de novo, se necessário, com eloqüência e ironia. Com esta condição, entrarei com prazer na sua associação; senão, não!”

Após esta carta, Marx apelidou-o de ideólogo pequeno-burguês.

Em suma, o anarquista Proudhon não queria o embate de classes previsto por Marx; mas desejava a supressão das diferenças de classe, por meio de uma forma de sociedade em que cada um pudesse desenvolver sua capacidade individual, livre de qualquer tutela.


Rubem L. de F. Auto

    

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

ROUSSEAU E A LUTA CONTRA A DESIGUALDADE


Ao lado de Voltaire, Jean-Jacques Rousseau é destaque do iluminismo francês. Mas não se imagine que fosse um ser da razão. Foi o mais emocional dos grandes pensadores.

Nasceu em Genebra, em 1712. Trabalhou como relojoeiro. Depois, como mestre gravador. Fugiu de sua cidade e conheceu uma mulher mais velha e endinheirada. Abandonou-a. Escreveu um texto sobre teoria musical. Depois foi secretário do embaixador francês em Veneza, quando já fazia parte dos círculos intelectuais de Paris. Terminou por casar-se com uma lavadeira, com quem teve cinco filhos ... que entregou ao orfanato. Este foi o autor de “Émile”, que revolucionaria a pedagogia e o ensino.

Em 1750, a Academia de Dijon publicou um concurso em que perguntava: “Em que medida a arte e a ciência contribuíram para a melhoria dos costumes ?” A resposta de Rousseau dizia que ambas não haviam contribuído em nada para a melhoria dos costumes. Para ele, as artes e as ciências serviam apenas para mascarar a injustiça da sociedade. Se todos os homens fossem livres, então todos seriam iguais, como o é a natureza, então ninguém necessitaria nem de artes nem de ciências. Segundo Rousseau, a simplicidade, a inocência e a pobreza são as únicas fontes de felicidade. Seu texto ficou em primeiro lugar.

Aqui, já ficava patente seu lema: retorno à natureza. Lugar de convivência em liberdade, da simplicidade. Estado de harmonia que os homens abandonaram há tempos. Não havia línguas nem opressão, só amor.  

Seu texto foi bastante comentado. A Academia abriu um segundo concurso. A pergunta: “Como surgiu a desigualdade ?” Rousseau escreveu um segundo tratado. Ele diferenciou dois tipos de desigualdade: a físico-natural e a político-moral. A físico-natural se relaciona a saúde, força física, psique, idade ... A político-moral é criada pelos homens.     

Como? Disse Rousseau: “O primeiro homem que, ao marcar um terreno, afirmou isto é meu, encontrando gente tão simples que acreditou nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil”. A propriedade da terra era a origem do mal. O passo seguinte foi a criação das leis e dos governos. A partir de então, foi tomada naturalmente a existência de pobres e ricos.

Poderia essa realidade ser superada? A resposta de Rousseau vem em “O Contrato Social”, publicado em 1762. Esta obra se inicia assim: “O homem nasce livre, porém, em todos os lados está acorrentado”. Está aí sua pretensão de superar a desigualdade. Cria que a violência estatal deveria se conformar às liberdades naturais. O contrato social seria estabelecido em votações.

As críticas diziam respeito à inexistência de limites às decisões da maioria. A chamada “vontade geral”, inclusive, costuma ser a justificativa para abusos de governos autoritários. Entretanto, segundo a teoria de Rousseau, os indivíduos cediam seus direitos ao Estado, segundo uma lei comum, o que reduzia o espaço para arbitrariedades.

No mesmo ano de publicação de “O Contrato Social”, foi publicado “Emílio, ou da educação”. Também foi um sucesso. Propugnava que os educandos deveriam ficar o máximo de tempo afastados do mundo desnaturalizado dos adultos. O Parlamento de Paris mandou que fossem queimados publicamente. Rousseau teve de fugir. Foi para a Inglaterra, onde se hospedou na casa de seu amigo, David Hume.

Infelizmente, nesse momento, passou a se indispor com as pessoas. Disse sobre Voltaire “Odeio-o !”, já há alguns anos. Teve problemas com Hume. Acreditava que havia uma conspiração contra si. Morreu doente, pobre e amargurado.

Após sua morte, foi publicado “Confissões”. Ali, dá testemunho detalhado de toda a sua vida.

Immanuel Kant somente tinha um quadro: o retrato de Rousseau. Lembrava-o, talvez, de que os homens têm razão, mas têm coração também. Disse Kant: “Sou investigador por inclinação e sinto desejo de conhecer. Houve um tempo em que acreditava que só isso podeia constituir a honra da humanidade. Rousseau corrigiu-me. Esta preferência imaginária desapareceu. Aprendi, então, a honrar o ser humano”.

É considerado um dos pais do romantismo.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “História do mundo em 50 frases.”
         




“DINHEIRO NÃO TEM CHEIRO”


Roma viveu o período denominado Ano dos Quatro Imperadores, entre Nero e Vespasiano, de meados de 68 a 69 d.C. O sucessor imediato de Nero, Galba, foi vítima de tentativa de homicídio. Foi sucedido pelo líder da conspiração, Otão, que perdeu a batalha contra Vitélio e se suicidou. Vitélio ocupou o poder, mas logo foi sucedido por Vespasiano, em julho de 69.

Vespasiano,ou Tito Flávio Vespasiano, foi o primeiro imperador de origem relativamente humilde, embora tenha tido uma boa educação. Foi general na Bretanha, ocupou altos cargos civis e militares. Nero o nomeou procônsul da província de Africa Procconsularis. Amealhou reputação de administrador competente e honesto.

O novo imperador recebeu um Estado desagregado, após uma guerra civil, e com os cofres vazios. Conseguiu pôr as finanças do Estado em ordem. Encontrou novas fontes de receita, e foi daí que surgiu uma a sua frase mais famosa. Um dia teve a ideia de tributar a urina das latrinas públicas, que era usada para curtir peles. Tito, seu filho, sentiu-se ofendido, mas o pai fê-lo cheirar as primeiras moedas recolhidas com o novo tributo e disse-lhe: “Não cheira.”

Atualmente a frase é usada para justificar ideias as mais contraditórias possíveis. Uns a usam para justificar os frutos de qualquer trabalho, desde que honesto; outros fazem uma interpretação mais cínica, para o dinheiro advindo de condutas ilegais.

Após sanear os cofres do Estado, Vespasiano passou às obras de saneamento e reconstrução de Roma. Regulou as enchentes do rio Tibre. Onde Nero iniciara a construção de mais um palácio, Vespasiano mandou erguer o teatro Flávio. Por causa da estátua enorme de Nero que ficava próxima, o edifício terminou por receber o nome de Coliseu.

Vespasiano também estabilizou as fronteiras do império. Seu general Gneu Júlio Agricola levou as tropas até a Bretanha. O filho de Vespasiano conquistou, e destruiu, Jerusalém.

Em Roma, sob Vespasiano, reinou a paz e a prosperidade. Morreu em 79, aos 70 anos de idade.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “A história do mundo em 50 frases.”         

terça-feira, 1 de novembro de 2016

IMPRESSIONISMO – UM ESTILO REJEITADO PELOS SALÕES


O Movimento Impressionista nasceu como um pequeno grupo de artistas  - especialmente Claude Monet, Edgar Degas, Pierre-August Renoir e Alfred Sisley –, na França, por volta de 1870. Naquela época, retratos, naturezas mortas e as artes religiosa e histórica dominavam o mundo artístico francês. O objetivo dos artistas de então era produzir pinturas realísticas com toda a atenção nos detalhes. Já os impressionistas procuravam quebrar essa tendência.

O estilo impressionista era marcado por pinceladas curtas, linhas finas e pouco definidas. Em vez de retratos e naturezas mortas, preferiam pintar paisagens que se estendiam no horizonte ou cenas ao ar livre. Também se caracterizavam por pintar cenas do dia-a-dia e pessoas comuns, em oposição aos retratos de pessoas ricas e temas religiosos que dominavam o imaginário. Os impressionistas enfatizavam o movimento, a noção de capturar um instante no tempo.

Outra característica marcante do impressionismo era a pintura realizada ao ar livre, fora dos estúdios – em plein air. Até aqueles anos, pintar ao ar livre era um desafio logístico. Além dos riscos de mudanças atmosféricas, a tinta exposta ao tempo poderia causar mudanças de cores, sem falar no acúmulo de areia e sujeira na tela. O cavalete era pesado e difícil de transportar.

Em 1841, o artista John G. Rand inventou uma tinta a óleo que poderia ser guardada em tubos. Um novo tipo de cavalete foi inventado: o Box Easel. Suas pernas eram telescópicas, permitindo dobrá-lo ate o tamanho de uma pasta. Também dispunha de áreas para pincéis, tintas e outras ferramentas. Agora os artistas poderiam se deslocar para fora do estúdio facilmente.

A grande mostra de trabalhos artísticos na França, no século XIX, foi o Salão de Paris. Exibição pública anual, para pinturas e esculturas, que trazia artistas de todo o mundo. Quanto aos impressionistas, suas obras foram consideradas inadequadas e foram recusadas à exibição.

Em 1863, Napoleão III criou uma exibição separada chamada Salão dos Recusados, para os trabalhos não aceitos na amostra principal. Desta feita os próprios artistas se recusaram a participar deste Salão.

Em 1873, vários pintores impressionistas criaram a Sociedade Anônima Cooperativa dos Artistas Pintores, Escultores e Gravuristas, para realizar exibições em separado do Salão. Sua primeira exibição foi no ano seguinte, com críticas duras.

Uma das críticas foi feita por Louis Leroy, ao quadro “Impression, Soleil Levant” – ou Impressões, o Nascer do Sol – e usou-a para definir os artistas impressionistas coletivamente como “impressionistas”. Ele achava que as obras pareciam rascunhos inacabados ... no entanto Degas, particularmente, acredita que aquele estilo combinava com o seu próprio, que vinha criando.

Nos 12 anos seguintes, o grupo dos impressionistas realizou mais sete exibições, porém os componentes estavam sempre mudando. Muitos discordavam da natureza do novo estilo e até de quem poderia ser aceito nas exibições.

Embora muitos passassem a ignorar as exibições oficiais, outros continuaram submetendo seus trabalhos ao Salão de Paris. Édouard Manet, Monet, Renoir e Sisley ganharam até alguma notoriedade. Manet, particularmente, não se classificava um impressionista.

As exibições não lhes rendiam dinheiro, mas fama. Renoir e Monet ganharam proeminência durante e após as exibições impressionistas e alcançaram sucesso financeiro ao longo dos anos.

Em pouco tempo, outros artistas passaram a copiar o estilo e a acrescentar suas próprias variações. Por volta da década de 1880, suas obras se tornaram comuns no Salão de Paris. Alguns eram muito jovens para aprticipar do movimento desde o início, como: Paul Cézanne, Georges Seurat e Vincent van Gogh. Eles deram origem aos pós-impressionistas, mas não conformavam um grupo tão coeso quanto o anterior.

Os impressionistas conseguiram subverter as regras da pintura e seus padrões, talhados ao longo de séculos, enfrentando críticas vorazes e o desdém do público, inicialmente. Produziram alguns dos trabalhos artísticos mais populares da história, presentes em galerias e museus de todo o mundo.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Art. 101: From Vincent van Gogh to Andy Warhole”   

COMO CONSTANTINO UTILIZOU UMA RELIGIÃO RECENTEMENTE FUNDADA PARA RECONSTRUIR UM IMPÉRIO


No ano de 293, o imperador Diocleciano fundou a tetrarquia: quatro imperadores passariam a governar todo o Império Romano. Sua intenção era evitar o desmoronamento de todo o império. Ao menos temporariamente, foi bem sucedido ao reformá-lo econômica e administrativamente.

Como não poderia deixar de ser, não tardaram a estourar os conflitos, que levariam ao restabelecimento do imperador único. Um desses conflitos envolvia os imperadores Constantino I e Maxêncio, aparentados mas ainda assim inimigos.

O conflito entre ambos ocorreu em 312 d.C.: a Batalha da Ponte Mílvia. Antes do conflito, Maxêncio consultara o oráculo, que garantira que seu exército de 40.000 homens derrotaria o de Constantino.

Constantino tinha consciência de sua inferioridade militar. Ainda que não desistisse da batalha, sabia que precisava de algo que motivasse seus homens a lutarem como nunca. Constantino postou-se defronte de seus homens e contou-lhes que havia visto no céu o símbolo de Jesus Cristo, acompanhado da frase “Com este símbolo vencerás!”.

O símbolo, que depois mandara pintar nos escudos de seus soldados, era o monograma XP – equivalente a CHR. A frase que ouvira foi gravada nas moedas romanas: “Sob este signo serás vencedor.”

Importante notar que Maxêncio representava o oposto de tudo o que Constantino defendia. Desde que era imperador, Maxêncio tentava ressuscitar as antigas tradições romanas, com seus deuses.

Seria ingênuo não crer no uso de algo muito caro a seus soldados como motivação para a batalha. Mesmo no mundo moderno pode-se visualizar o uso de símbolos religiosos, combustível perfeito para o fanatismo.

Ao fim da batalha, Maxêncio restara derrotado, afogando-se nas águas do Tibre. Com a vitória, Constantino passava à condição de imperador de todo o Império Romano do Ocidente.

Passados 12 anos desse episódio, Constantino derrotava Licínio, imperador único da parte Oriental do império, condição que passara a ocupar após derrotar Maximino Daia. Com isso, Constantino era agora Imperador único de todo o Império Romano.

No ano de 330 d.C., Constantino tomava uma decisão muito polêmica. Decidiu-se por transferir a Capital da cidade de Roma, nascedouro de todo o Império e cidade caprichosa, local do Senado e de toda sua obstinação por conter o poder imperial, para a cidade grega de Bizâncio, que Constantino rebatizara para Nova Roma – depois, seria novamente rebatizada, agora para Constantinopla. Seu brasão era a águia bicéfala.

Com Constantino, o cristianismo foi tomando o status de religião estatal. Construiu igrejas e concedeu poder judicial aos bispos. Estabeleceu o domingo como dia de descanso. Certamente o poder expansivo do cristianismo parecia-lhe instrumento perfeito para garantir-se no poder. No entanto, sabia que seus planos só teriam sucesso se conseguisse ter influência sobre a Igreja. Para tanto, participou ativamente da constituição decorrentes cristãs, orientou-as conforme suas conveniências. Conduziu pessoalmente o Concílio de Nicea e foi o responsável por incorporar a Santíssima Trindade aos dogmas cristãos.

Embora tenha garantido uma sobrevida de alguns séculos ao Império, culturalmente o que florescia era o cristianismo, enquanto a cultura romana entrava em decadência. Entretanto era difícil dizer se Constantino era, de fato, cristão.

Em homenagem à sua vitória em Mílvia, mandara construir um Arco do Triunfo (inspirou o homônimo francês). Nesse, não há qualquer menção a simbologias cristãs e há gravuras de dois deuses romanos. Na parte ocidental do império, de raiz pagã, praticamente não se declarava cristão. Somente o fazia na parte oriental, de maioria cristã. Impossível disfarçar um interesse político.

Constantino faleceu em 337 d.C. O imperador requisitou Eusébio de Nicomédia, patriarca de Constantinopla, para batizá-lo. Constantino tinha muito do que se arrepender, muitos pecados a expiar, entre eles o assassinato de sua mulher e de seu filho.

Contudo, a Igreja romana usou o episódio para espalhar uma lenda, que teria papel fundamental no mundo nos seus mil anos seguintes: o Testamento de Constantino. Por essa lenda, Constantino na verdade fora batizado pelo Papa Silvestre I. Em retribuição, Constantino havia o proclamado, a ele e a todos os bispos de Roma que o sucedessem, soberanos sobre a cidade de Roma e toda a metade ocidental do Império.

No século XV, Nicolau de Cusa demonstrou que tal documento era falsificado, mas já se haviam passado mais de mil anos. Foi essa lenda que permitiu aos bispos de Roma serem proclamados Papas. Se a metade oriental do Império tinha Constantinopla, a metade ocidental, no período do Renascimento e com alguns séculos de diferença, ergueu a Cidade Vaticana.

No ano de 1054, ocorreu o cisma do Oriente, pelo qual ficou definida a cisão entre a Igreja católica romana e a Igreja oriental ortodoxa. Surgiu a excomunhão recíproca entre o Papa de Roma e o Patriarca de Constantinopla. Mais uma herança de Constantino.

Interessante notar que Constantino é considerado santo para a Igreja ortodoxa, porém apenas foi digno de ter um dia em sua homenagem pela Igreja romana.

E tudo teve início com um irrefreável desejo pelo poder ...


Rubem L. de F. Auto


Fonte: “A história do mundo em 50 frases.” 

LUTERO, MERCADORES DA FÉ E A REVOLUÇÃO PROTESTANTE


Em abril de 1521, sob a presidência de Carlos V, iniciou-se a célebre dieta de Worms, uma reunião em que estavam presentes as maiores autoridades dos principados alemães (os príncipes-eleitores) e da Igreja Romana (arcebispos), cujo assunto a ser tratado era um bispo que vinha causando muitos tumultos: Martinho Lutero, professor agostinho da cidade de Wittemberg.

O simples chamado para que Lutero comparecesse à audiência e desse explicações acerca de suas pregações e seus protestos em face de Igreja, por si, representava uma vitória incomensurável. Isto é, ao menos ele se fazia ser ouvido. Para muitos, a unidade e o poder quase inquestionável do Papa haviam sido abalados para sempre.

Lutero surgia como as pessoas haviam se acostumado a vê-lo: indumentária negra desgastada, tonsura (corte de cabelo redondo, típico de clérigos) recente. Duas horas após sua chegada, anunciou-se a chegada de Carlos V, transportado no seu trono.

A polêmica a ser tratada na reunião giraria a respeito do episódio ocorrido em outubro de 1517, quando Lutero desafiara a Igreja ao publicar suas 95 teses, que denunciavam especialmente o negócio vergonhoso da venda de indulgências.

O negócio denunciado por Lutero funcionava mais ou menos assim: um batalhão de monges enviados pela Igreja romana percorria a Alemanha e vendia indulgências, isto é, perdão oficial aos crentes, que ficariam portanto livres do castigo pelos pecados cometidos. Os lucros dessas vendas eram enviados ao papa Leão X, que os usava para pagar, entre outras coisas, a construção da basílica de São Pedro, no Vaticano.
Havia um vendedor de indulgências que ficou muito famoso: o monge dominicano Tetzel. Seu slogan era: “Assim que a moeda soar na caixa, a alma entrará no céu.”

Lutero foi bastante beneficiado pelos progressos da imprensa, após a invenção de Guttemberg. Suas idéias foram propagadas muito rapidamente.

Outro fator que ajudou muito Lutero foi a crescente oposição surgida entre membros da Igreja e da nobreza. Muitos príncipes alemães eram contra o modo como o dinheiro dos crentes (que também eram seus súditos) era desviado para os cofres da Igreja, em Roma. Lutero, para muitos deles, representava a chance de quebrar a coligação de poder formada pelo poder imperial de Carlos e pelo Papa.

O papa Leão X ordenou que se apresentasse em Roma, em 15818. Nesse momento Lutero conseguiu a adesão à sua causa de um dos personagens mais importantes em suas luta: o príncipe-eleitor da Saxônia Frederico, o Sábio. Foi ele quem conseguiu evitar a ida de Lutero a Roma. Em vez disso, Lutero foi ouvido em Augsburgo.

Nessa reunião (dieta de Augsburg), Lutero discutiu com Caetano, enviado do papa. No fim, não aceitou retratar-se. No ano seguinte, Lutero teve entreveros com Johannes Eck, em Leipzig. Ao fim, Lutero foi ameaçado com excomunhão. O prazo para retratação terminava no dia 10 de dezembro de 1520. Nesse dia, Lutero queimou diversos escritos papais, inclusive a bula que continha a ameaça contra si.

Como citado, o imperador alemão chamava-se Carlos V de Habsburgo. No entanto, apesar de seu um dos homens mais poderosos do mundo, cuja coroa foi garantida pelo papa e pelos príncipes-eleitores da Alemanha, Carlos teve de fazer muitas concessões para conseguir sua coroação. Uma delas foi a chamada capitulação imperial, um acordo com a Igreja e com os príncipes, que garantia que qualquer pessoa do império só poderia ser proscrita após ouvida. Se houvesse o banimento sem a prévia audiência, Carlos poderia enfrentar problemas políticos.

Frederico, o Sábio, exigiu a audiência de Lutero. Muitos outros príncipes subscreveram a petição. Por seu turno, a Igreja exigia que Carlos lavrasse uma sentença condenatória contra Lutero. Do embate daí surgido, nasceu a dieta de Worms.Para garantir que chegaria em segurança à cidade, emitiu salvo-conduto imperial em seu favor.

Após duas semanas de viagem, chegou a Worms em 16 de abril de 1521. Ao meio dia do dia seguinte, foi conduzido à corte do bispo e, após, adentrou no local da reunião. Em cima de uma mesa foram espalhadas diversas obras; perguntaram a Lutero se todos aqueles textos eram seus; Lutero solicitou que fosse lida toda a lista das obras ali presentes; após lida a lista, confirmou que eram todos textos de sua lavra. Quando perguntado se gostaria de se retratar pelas idéias ali expressas, solicitou um dia para refletir, que lhe foi concedido.

No dia seguinte, Lutero defendeu seus textos em alemão e, a pedido, repetiu sua defesa em latim. Quando inquirido novamente se gostaria de se retratar, respondeu: “Que me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão – porque não acredito nem no Papa nem nos concílios, já que está provado amiúde que estão errados contradizendo-se a si mesmos. Pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido à minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isso, não posso nem quero retratar-me de nada. Porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável.”

Algumas lendas a seu respeito ainda sobrevivem. Não está provado que tenha terminado seu discurso com a frase “Que Deus me ajude!”. Também não deve ter pregado suas 95 teses na porta de Igreja, em Wittemberg. Provavelmente apenas os distribuiu.

No dia seguinte à dieta, o imperador comunicou seu Édito de Worms. Por este, Carlos se comprometia a defender a fé verdadeira e a não tolerar um herege como Lutero. Nesse momento, diversos príncipes começaram a se movimentar para oferecer proteção a Lutero.

Conforme havia exposto em sua defesa, Lutero havia pedido provas nas Escrituras de que seus argumentos iam contra a fé católica proclamada pela Igreja. Foi elaborada uma comissão de representantes da Igreja e de príncipes para apresentar a Lutero as provas que solicitara. Em 24 de abril voltou a ser chamado, mas não lhe foram apresentadas quaisquer provas. Novamente, negou a retratar-se. Também negou um pacto, pelo qual poderia partir sem qualquer castigo em troca de nunca mais expressar suas opiniões.

Ao fim, Carlos comunicou a Lutero que manteria o salvo-conduto em seu favor apenas pelos próximos 21 dias. Vindo em seu auxílio, Frederico comunicou-lhe o plano de fingir seu seqüestro, para levá-lo a um local seguro.

Em 8 de maio, Carlos declarou Lutero fora da lei, podendo qualquer cidadão matá-lo.

Após fingir seu seqüestro, Lutero foi instalado em segurança no Castelo de Wartburg, onde, por 12 anos, dedicou-se a traduzir a bíblia para o alemão (usando o pseudônimo de Junker Jorg). O alemão moderno descende em grande parte de sua pena.

Apenas por sua firmeza de caráter e dignidade pessoal, Lutero desencadeou a Reforma Protestante, que revolucionaria a história da Europa e do mundo.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: “A História do mundo em 50 frases.”