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segunda-feira, 16 de julho de 2018

PIEGUICES, CAFONICES E CLICHÊS: OS AMORES BREGAS NA MÚSICA BRASILEIRA!



A cultura brega surgiu, no Brasil, em 1958 e está muito vinculada ao coronelismo, isto é, o poder que os chefes políticos locais exerciam sobre a população, submetendo-a a todo tipo de desmando. Embora o termo “coronelismo” esteja muito vinculado ao nordeste e aos grotões do país, também é coronelismo o poder que o crime organizado (jogo, drogas, milícias etc.) exerce sobre as populações carentes nos grandes centros urbanos.

Os coronéis locais, em geral, eram os proprietários das emissoras de rádio, que irradiavam as novidades musicais que passassem pelo crivo do dono. Assim surgiu a música brega, que logo se tornou o principal produto musical associado e este fenômeno.

Mas essa novidade musical surgiu sem os nomes “brega, “cafona” – estes, surgiram mais tarde. Por exemplo, o termo “cafona” foi criado pelo apresentador de televisão Carlos Imperial, e fazia referência à palavra italiana “cafone”, que significa antiquado, fora de moda.

A música brega teve sua inspiração inicial nos boleros e serestas, grandes sucessos nacionais nas décadas de 1940 e 1950, mas já fora de moda então. As características mais marcantes eram o romantismo exagerado, a paixão rasgada e platônica, sem deixar de lado uma certa influência estrangeira, embora assimilada de maneira bem provinciana.

As músicas cafonas atingiram um sucesso impossível de ignorar em botequins e prostíbulos, para logo depois tomarem as emissoras de rádio populares – aquelas mesmas ligadas ao poder político local. Por falar em botequins e prostíbulos, essa também foi a origem do nome “brega”: conta-se que havia uma rua em Salvador, chamada rua Padre Manuel da Nóbrega, onde pululavam botenquins e prostíbulos. Como a placa da rua estava bem degradada, sobrava apenas  a parte final do sobrenome do padre jesuíta, “brega”. Este local era o ponto de encontro preferido dos aficionados do estilo musical.

Os primeiros ídolos de sucesso inconteste surgiram ainda em 1958: Waldick Soriano e Orlando Dias. Orlando criou uma espécie de “persona brega”: letras de sentimentalismo aberto e sofrido, roupas exóticas e gestos cênicos, como ficar de joelhos no palco.

O empresário de Orlando Dias atendia por Abrahão Medina, pai de Roberto Medina, o “dono” do Rock in Rio. Entre 1960 e 1961, Orlando foi um dos maiores sucessos musicais do país. Eram dele “Tenho Ciúmes de Tudo”, “Perdoa-me pelo que te quero” e “Coração de Pedra”.

No final da década de 1950, outros nomes se juntaram àqueles ídolos pioneiros: Agnaldo Timóteo, Anísio Silva e Nélson Ned eram alguns deles. Contudo, deve-se fazer alguns reparos em relação a Altemar Dutra. Altemar começou sua bem sucedida carreira em 1963 e morreu precocemente, aos m43 anos, em 1983, após um derrame cerebral. Altemar foi provavelmente o único desses cantores bregas a apresentar uma renovação convincente dos boleros e serestas que cantava, em relação ao que se fazia nos idos de 1950. Daí muitos o colocarem fora do caldeirão dos músicos cafonas.

Esses ídolos bregas eram festejados especialmente nas áreas rurais e nos subúrbios das grandes cidades. Traziam consigo, portanto, uma mentalidade provinciana e conservadora, típicas de seus locais de origem. Mais do que isso, praticavam um estilo musical baseado no que se fazia no estrangeiro, sem qualquer interesse nos processos de renovação musical de raízes brasileiras.    
O marco do movimento brega foi o Golpe de 1964. Waldick Soriano logo surgiu com sua “Torturas de Amor” – “Eu não Sou Cachorro, Não” é de 1972. As músicas dessa época traziam arranjos que passavam a impressão de que havia uma grande orquestra acompanhando o cantor, os cantores se apresentavam com uma formalidade exagerada, eram escandalosos.

Um programa de televisão ajudou sobremaneira a popularizar o estilo brega foi o antecessor dos programas sensacionalistas, O Homem do Sapato Branco, transmitido pela TV Cultura de São Paulo.

O outro impulso dado à música brega foi o fatídico Ato Institucional nº 5 – o AI-5. Tirando qualquer vestígio de politização dos debates e mobilizações sociais, tornou o ambiente propício à difusão de um estilo musicial despolitizado, de caráter conservador, portanto adequado a um regime militar.

A música brega trazia de maneira acrítica – diferente da antropofagia cultural do modernismo brasileiro – a influência do bolero, dos mariachis mexicanos, da country music norte-americana e, não menos importante, da música romântica italiana. Não se comunicavam com estilos nacionais, como samba e músicas caipiras. O que contribuiu para a fama da música brega de que é um estilo discriminado pela MPB, quando de fato foi ela quem procurou se distanciar do que era brasileiro e engajado. O historiador José Ramos Tinhorão via a música cafona como uma submissão cultural à música estrangeira, especialmente a country music dos EUA e à música romântica italiana.

Outro elemento nesse cenário era o enfraquecimento que sofre a chamada MPB. Associada desde o início a letras politizadas e engajadas, ela se enfraqueceu muito com o fim do CPC – Centro Popular de Cultura, ligado à UNE - , responsável por divulgar discursos e manifestações populares. Mediante o cerramento das portas da UNE e o fortalecimento do coronelismo cultural, levou à apropriação da cultura brasileira de raiz pelas classes mais abastadas urbanas, enquanto a cultura popular ficava entregue ao popularesco, ao mau gosto e ao puramente comercial e apelativo.

A segunda geração de cafonas surgiu em 1968, após o de outro movimento musical, a Jovem Guarda. Uma parte, Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa, Golden Boys e Incríveis enveredou pelo recém-surgido sambalanço ou pela soul music. Ronnie Von fez uma breve imersão na psicodelia.

A experiência em soul music por Roberto durou de 1968, quando de sua participação no festival de San Remo, até sua contratação pela Rede Globo, em 1975. A partir daí Roberto foi submetido a um processo de “bregalização” que iria influenciar muito o mercado discográfico nacional – aliás, seu imenso sucesso brega se alinhava à sua personalidade bastante  conservadora. Outro sucesso da Jovem Guarda a se lançar no mercado brega foram Os Fevers.

A segunda geração de bregas trazia nomes como Reginaldo Rossi, Odair José, Paulo Sérgio e outros. A influência musical deles era o “rock comportado”: Pat Boone, Neil Sedaka, Paul Anka, Johnny Rivers e outros.

Por volta de 1970, no auge do milagre econômico e embalado pelo tricampeonato mundial de futebol, no México, surgiu uma peça do ufanismo musical brasileiro: o “sambão-joia”. Foi uma derivação da Jovem Guarda, muito influenciada pelo grandioso sucesso de Wilson Simonal (fundador do denominado sambalanço), e trazia nomes como Benito di Paula, Luís Ayrão (autor de Ciúme de Você, gravado por Roberto Carlos) – a inspiração era Paul Anka e Neil Sedaka (compositor de sucessos dos Carpenters).

A ingenuidade das letras não punham à prova da censura os músicos bregas dessa última fase. Músicas como “Pare de tomar a pílula” e “Torturas de Amor” foram censuradas, mas por razões morais, não políticas. Muitos músicos eram declarados apoiadores da Ditadura.

Outro fenômeno observado naquelas décadas foi a apropriação de ritmos comerciais pelos estilos musicais típicos e regionais, tornando-as comercialmente interessantes. No Pará, terra do carimbó e de muitos outros estilos, a assimilação de ritmos caribenhos e africanos criou uma renovação artístico-cultural, como a guitarrada, a lambada – ambas utilizadas com interesses turísticos, também.

Na Bahia, a fusão cultural levou ao surgimento dos grupos de afoxé e de samba-reggae (Olodum, Ilê-Aiyê, Afoxés Filhos de Gandhi), o circuito dos trios – que juntava frevo, reggae, rock`n roll. Até guitarristas virtuosos vieram à luz: Armando Macedo, o Armandinho, foi expoente.

Um estilo musical muito usado nessas fusões musicais foi o forró. Este nome não representava um estilo musical, ao contrário de baião, maxixe, xaxado e outros. Forró era uma denominação para bailes em boates e casas noturnas. Mas, por volta de 1942, após a construção de uma base militar dos EUA em Natal, Rio Grande do Norte, e da invasão da região por yankees, donos de casas norturnas resolveram divulgar seus eventos com cartazes escritos “for all”, querendo com isso dizer que as festas eram para todas as pessoas. Mas os locais pronunciavam mesmo era “forró”, e assim ficou. Virou, nos anos 1970, denominação para qualquer estilo nordestino.

Por influência da novela da Rede Globo Estúpido Cupido, o Brasil foi invadido por um estilo que já sacudia os EUA há anos: a disco music, ou discoteque. O maior sucesso nacional nesse ritmo foram as Frenéticas, grupo de atrizes que cantavam letras compostas por Nelson Motta, que as empresariava – os maiores sucessos foram Dancing Days e Feijão Maravilha.

Acrescente-se a isso a Banda Black Rio, que interpretaria o tema da novela Locomotivas.
E então surgiu a terceira geração brega, que trazia Evaldo Braga e Mauro Celso – este último famoso pelas troças fonéticas, como “farofa-fá” e “biluteteia”. Carlso Alexandre e Amado Batita ficaram entre a segunda e a terceira gerações.

Outro nome forte da terceira geração foi Sidney Magalhães, um antigo crooner baiano que ficou famoso como Sidney Magal.

Na vertene mais apelativa, surgiu uma cantora e dançarina chamada Maria Odete de Miranda, ou Gretchen, que competia com a ex-chacrete Rita Cadillac. Engrossavam a fileira das musas populares, famosas por mostrarem o que se deveria esconder...

A tentativa de criar um pop brega levou ao surgimento de músicos como Sullivan e Massadas. O fim da década de 1970 levou ao surgimento do brega para exportação: Maurício Alberto se apresentou como Morris Albert e cantou seu imenso sucesso “Feelings”; Thomas William Standen mudou o nome para Terry Winter e lançou “Summer Holiday”, num estilo country.

Essa fase abriu caminho para que Ney Matogrosso cantasse sua versão de “Tell Me Once Again”, “Telma, Eu não sou Gay”, em 1983 – essa versão era de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. Outros nomes foram o grupo Pholhas, Christian (mais tarde faria dupla sertaneja com Ralf), Marc Davis (nome artístico de Flávio Galvão, o nome verdadeiro de Fábio Jr., e outros.

Por fim, viu-se também a fusão musical que acometeu a música caipira: bolero, mariachi, country music, se somaram à música caipira típica, dando à luz fenômenos como Chitãozinho e Chororó, ainda nos anos 1970. Nascia o sertanejo romântico, derivado do brega, em músicas como Fuscão Preto. Era a versão brasileira do Tex-Mex dos EUA, nascido após unir o country music com a música mexicana.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Música Brasileira e Cultura Popular em Crise”

sexta-feira, 13 de julho de 2018

A COPA PRÉ-APOCALIPSE – 1938



Em 1938, ocorreu o evento que deixaria o mundo em calafrios e  traria a certeza de que a humanidade caminhava decididamente para o precipício da história: as tropas de Hitler invadiram a Áustria, num evento conhecido como Anschluss. Agora o “Reino do Sul” estava anexado à Alemanha. Mas foi um evento muito bem planejado pelos alemães, haja vista que 99,75% dos austríacos votaram a favor da anexação em plebiscito.

No Brasil, o ano de 1938 foi marcado pelas divergências entre o Partido Integralista, liderado por Plínio Salgado e que apoiara o golpe de 1937 - quando Vargas declarou o início do Estado Novo, a ditadura varguista, agora desinibida -, e o governo de Getúlio. Os desentendimentos desaguaram numa tentativa de Golpe contra Getúlio, quando invadiram o Palácio do Governo. No entanto foram impedidos. Ao fim, 1.500 integralistas foram presos e vários, fuzilados.

Já na França, todas as atenções estavam voltadas para a terceira Copa do Mundo. Mas a história dessa edição começa em 1936, em Berlim, cidade-sede das Olimpíadas de 1936. Hitler seguiu os passos de seu mentor fascista, Mussolini, e transformou aquele evento numa grande propaganda nazista. De fato, angariou bons resultados, mas o futebol decepcionou – foram eliminados pela Noruega.

O fim dos Jogos Olímpicos marcou o início de mais um Congresso da FIFA, que decidiria o país-sede da Copa de 1938: Argentina e França disputavam. A Argentina alegava seu direito, pois entendera que haveria um rodízio de continentes, devendo agora retornar à América. Já a França estava naquela disputa por desejo pessoal do presidente da FIFA, o francês Jules Rimet.

Por seu turno, o governo francês alegou falta de recursos para sediar o torneio, devido à crise de 1929 – além disso, o país estava literalmente em pé de guerra com a Alemanha. Por isso propôs que a sede fosse compartilhada por três países: Holanda, Bélgica e França. Mas Rimet queria insistiu no seu desejo e, ao cabo, a França sediaria o evento, construindo estádios em diversas cidades e pagando os custos dos participantes.

Os argentinos ficaram recoltados com a decisão da entidade e declararam de plano que boicotariam aquela edição – se juntaram Àquele boicote Colômbia, Bolívia, Costa Rica, Estados Unidos, México, El Salvador e Guiana Holandesa. Já o Uruguai, juntou-se aos descontentes, mas por pura falta de recursos, embora tenham voltado a alegar como motivo as ausências em 1930.

A Espanha também estaria ausente, mas por conta da terrível Guerra Civil que se abateu sobre o país. Aliás, muitos dos grandes jogadores da fortíssima seleção de 1934 foram vitimados naquele conflito. Apenas Lagara teria ainda carreira no futebol, mas porque se transferiu para a Argentina.

O Japão seria outra ausência, devido à guerra que iniciara contra a China. O Egito passava por seriíssimos problemas políticos e também estaria de fora.

Mesmo com essas ausências, os inscritos eram muitos e precisou-se de uma Eliminatória para definir os 36 países classificados para a competição.

A FIFA inaugurou uma nova regra em 1938: tanto o país-sede quanto o último campeão estariam classificados automaticamente: portanto França e Itália já estavam dentro. Outra mudança foi com relação aos empates: havendo, o jogo iria para a prorrogação. Mantido o empate, novo jogo e nova prorrogação, se necessária. Não havendo desempate, classificam-se ambos – a regra anterior previa jogos infinitos até o desempate.

Capítulo à parte foi o inferno que desabou sobre a Áustria. Após a anexação alemã, o país perdeu sua seleção nacional que tanto encantava o mundo – a invasão se deu apenas 3 meses antes do início do torneio, estando a Áustria já classificada, após derrotar Letônia e Lituânia. A regra previa, aliás, que a Letônia fosse convocada no lugar, pois era a segunda do grupo, mas o francês que encabeçava a FIFA queria deixar claro para o mundo o que ocorrera: resolveu convocar apenas os 15 países, deixando a o lugar da Áustria vago. A Suécia, que seria o primeiro adversário da Áustria, passou automaticamente para as quartas-de-final.

O técnico alemão, Sepp Herberger, foi autorizado a convocar jogadores austríacos para sua equipe – e aproveitou a oportunidade convocando 7 selecionáveis da nova colônia alemã. A grande ausência foi, sem sombras de dúvida, a de Mathias Sindelar, o melhor jogador da Áustria e um dos melhores do mundo, então. Sua esposa estava muito doente, o que o deixou sem condições de jogar. De fato, ela viria a falecer no início de 1939, o que o levou a cometer suicídio. Seu enterro foi acompanhado por 15 mil austríacos profundamente emocionados. A rua onde morava foi rebatizada com seu nome. O futebol austríaco nunca mais seria o mesmo.

Quanto aos favoritos para o torneio, figuravam Alemanha, Itália, Tchecoslováquia e Brasil. Sim, o Brasil protagonizaria agora uma participação muito superior à das duas primeiras edições, quando foi eliminado vergonhosamente na primeira fase. Agora, ao lado de excelentes jogadores, havia comissão técnica e um planejamento minimamente competentes.

Após a unificação da CBD com a FBF, acabou o clima de disputa que opunha jogadores profissionais e amadores. O técnico, Ademar Pimenta, era o melhor técnico do país e profundo conhecedor das táticas do esporte. No sul-americano de 1937, o Brasil perdeu apenas a final contra a Argentina, num jogo tão violento que até os policiais argentinos agrediram jogadores brasileiros.

Pimenta pode convocar seus prediletos à vontade, e ele chamou de fato os melhores. A concentração durou um mês, em Caxambu, interior de Minas Gerais. Os recursos para aquela empreitada não foram problema: o governo vendeu selos a 500 réis cada, com a frase “Auxiliar o scratch é dever de todo brasileiro.” Somados às doações pessoais, tinha dinheiro para os preparativos e para a viagem. A própria delegação seria agora bem menor e até o presidente da CBD ficou no Brasil, abrindo espaço para mais um médico para os jogadores.

A seleção se despediu do Brasil em 30 de abril, sob chuva forte, na praça Mauá, no Rio de Janeiro, quando o transatlântico Arlanza singrava o Atlântico em direção ao velho continente. Para a viagem, estavam previstas três paradas estratégicas, que serviriam como ocasião para treinos com bola: em Salvador, em Recife e no Senegal.

Na chegada, um episódio terminou por comprometer a boa vontade dos franceses em relação à seleção brasileira. Logo do desembarque em La Havre, Pimenta estava preocupado com a espionagem dos adversários, como ocorrera em 1934. Ele decidiu então enviar bilhetes à imprensa, avisando quando eles poderiam ser acompanhados. Mas os franceses encararam aquilo como uma grosseria e o Brasil perdeu a chance de ter torcida a favor desde o primeiro jogo.

A abertura da Copa ocorreu no Parque dos Príncipes: Alemanha x Suíça. Teoricamente, os alemães ganhariam de lavada – mas não foi bem assim. A Alemanha parecia um conjunto de peças desencontradas, todos perdidos em campo – muitos inclusive defendem que os jogadores austríacos estavam sem a menor alegria de defender a seleção do invasor, outros alegam que eles realmente não queriam vencer, pelo mesmo motivo.

A Alemanha abriu o placar aos 29 minutos do primeiro tempo. A Suíça empatou aos 43. O segundo tempo não viu gols, assim como a prorrogação. Resultado: novo jogo! Embora os suíços tenham jogado bem, a torcida francesa os fez sentirem-se em casa. Os alemães entraram e campo e logo fizeram aquela repulsiva saudação nazista. Para os franceses, àquela altura, soou como uma ofensa ao país. Os suíços caíram em graça com os franceses.

No dia 9, no segundo jogo, no mesmo Parque dos Príncipes, o sonho coletivo se realizou. A Alemanha começou na frente, aos 8 minutos. Aos 22, com gol contra, a Suíça empatou. Daí em diante a Suíça entrou em ritmo de goleada: Walascher dez 2x1 aos 41 e Abegglen III converteu aos 30 e aos 33 do segundo tempo. A Alemanha estava fora da Copa, levando consigo toda aquela antipática ideologia e seus símbolos insólitos.

No dia 5, Cuba, pela primeira vez numa Copa, começou sua série de jogos que terminariam por cativar o mundo. Embora franzinos, o time contava com jogadores hábeis e rápidos em campo. Do lado adversário, a Romênia trazia um time experiente e seguro. O jogo prometia. Aos 38 minutos, a Romênia abriu o placar. Mas Socorro tratou de deixar tudo igual, apenas 4 minutos depois. Aos 14 minutos do segundo tempo, Baratki deixou os romenos de novo em vantagem. Mas Máquina, aos 43, igualou tudo novamente. Na prorrogação, ainda aos 8 minutos, a Romênia marcou mais um. Apenas 3 minutos depois, Máquina marcou seu segundo no jogo. Uma nova partida seria disputada para se conhecer o vencedor.

Esta segunda partida trouxe uma curiosidade que serviria apenas para mostrar como aqueles cubanos haviam ido longe, mesmo sem qualquer preocupação com profissionalismo. O goleiro Carvajales, um dos melhores no primeiro jogo, deixou o time para trabalhar como comentarista esportivo na transmissão da segunda partida. Os cubanos finalmente se empolgaram com sua seleção, e a atenção na ilha estava toda voltada para aquela disputa – nada mais blasé do que transmitir o jogo ao vivo, por rádio, tendo como comentarista seria ninguém menos do que o goleiro, que saiu do time.

Mas a ausência de Carvajales quase não foi notada. Os romenos marcaram com apenas 9 minutos de jogo, mas os cubanos viraram aos 20 e aos 35 do primeiro tempo. Cuba estava na segunda fase!
A Tchecoslováquia passou pela Holanda por 3x0, os três gols na prorrogação.

A Hungria pegou a fraquíssima seleção das Índias Holandesas, ocasião em que meteu 6 gols, 4 no primeiro tempo.

A França despachou a Bélgica com um justíssimo 3x1.

Já a Itália teve pela frente a Noruega, time que mais lhe deu trabalho nas Olimpíadas anteriores e que eliminou a Alemanha na mesma competição. A Itália fez 1x0 com apenas 2 minutos de jogo. Mas a Noruega jogou duro e empatou aos 38 do segundo tempo. O mesmo Brustad do primeiro gol marcou um segundo logo depois, mas o árbitro anulou o lance por impedimento.

Pozzo vá via os fantasmas da eliminação da Alemanha, mas a prorrogação lhe foi mais complacente. Silvio Piola aproveitou um rebote errado do goleiro norueguês e garantiu a vitória italiana.
A participação do Brasil na primeira fase se deu contra a respeitável Polônia. O ataque perigosíssimo dos poloneses foi responsável por marcar 4 inacreditáveis gols contra a Iugoslávia, tirando-a das eliminatórias. Mas o Brasil seguia favorito.

O primeiro tempo foi jogado sob sol forte e o Brasil encenou um belo espetáculo. Aos 18 minutos, Leônidas marcou o primeiro. Aos 22, a Polônia empatou, mas Romeu e Perácio marcaram aos 25 e aos 44, pondo os poloneses em seu devido lugar.

Mas, no segundo tempo, tudo mudou, acompanhando as mudanças climáticas. O sol forte deu lugar a uma tempestade que praticamente inviabilizou o gramado. Os poloneses era mais fortes e altos e se aproveitaram das condições impraticáveis para o futebol técnico dos brasileiros. Scherfke marcou aos 5 do segundo tempo. Willimowski marcou o segundo aos 14. Perácio finalmente marcou aos 27 e deixou o placar em 4x3 para o Brasil. O scratch cararinho passou então a administrar a vantagem até que... a Polônia empatou tudo de novo aos 43 minutos do segundo tempo. Zezé Procópio foi bater o lateral, a bola escapuliu de suas mãos, sobrou nos pés de um atacante adversário, que deu o passe para Willimowski por cima de Zezé e marcou com um chutaçoo no gol de Batatais, indefensável. Tudo igual, passemos à prorrogação.

A torcida – e especialmente a imprensa - francesa, antipática às táticas de Ademar Pimenta para evitar a espionagem dos adversários, sentiu mais afinidade com os poloneses. Estes, foram trocar de uniforme no vestiário, enquanto os brasileiros ficavam em campo, debaixo de chuva, sujos de lama e cabisbaixos pelo que ocorria em campo.

Mas, então, brilhou a estrela: Leônidas da Silva estava prestes a entrar na história do futebol mundial. Sem conseguir render por causa de suas chuteiras enlameadas, tirou-as e passou a jogar apenas de meias. Foi nessa condição que marcou o gol de desempate na prorrogação, que foi chamado em todo o mundo apenas de “o gol de meias”. O árbitro então mandou que Leônidas repusesse seu uniforme completo. Calçado, o “anjo de pés descalços” marcou mais um.

A Polônia ainda descontou no final da prorrogação, mas o Brasil passava de fase – e Leônidas passava a ser conhecido pelo seu codinome mais famoso: diamante Negro. Teve até mesmo registrado para si um gol de Perácio (marcou três gols mas teve registrados 4 para si).  Já o atacante polonês Willimowski passou a ser o jogador que mais gols marcou contra o Brasil: 4 gols.
Nas quartas-de-final, a Suécia, classificada automaticamente após a saída da Áustria, tinha pela frente Cuba. Embora seu futebol tivesse encantado na Copa, os cubanos sabiam que tinham ido muito além do que se esperava deles. Praticamente os suecos nãos os deixaram jogar e tomaram ensurdecedores 8x0, um dos placares mais dilatados da história.

A Suíça, que heroicamente eliminara os alemães, tinha agora a poderosíssima Hungria pela frente. Mas, agora, não houve zebra: tranquilos 2x0 para a Hungria e os suíços deixarma a Copa, mas sob fortes aplausos do público.

A França se manteve no Parque dos Príncipes, agora para enfrentar os favoritíssimos italianos. Sob forte pressão da torcida, que transformou o estádio num caldeirão, o maior público daquela Copa, os italianos despacharam os franceses com acachapantes 3x1.

Importante notar que Il Duce, ameaçava, coagia seus jogadores e técnico a darem o que tinham e o que não tinham em campo, mas também sabia retribuir caso seus desejos fossem realizados. Os jogadores vitoriosos em 1934 receberam de Mussolini 20 mil liras, pensão vitalícia e título de comendador.

O Brasil viajou até Bourdeaux para enfrentar a Tchecoslováquia, no jogo que inaugurava o estádio. O jogo na verdade descambou para uma vergonhosa batalha campal, em que praticamente não se jogou bola. Ainda no início da partida, Zezé Procópio deu uma entrada violenta e fraturou o pé de Nejedly, que permaneceu em campo, apesar das dores. Zezé foi expulso.

Embora com um a menos, o Brasil marcou aos 30, com Leônidas. Aos 44 da primeira etapa, Machado e Riha trocaram agressões e foram expulsos. O segundo tempo foi marcado pela caçada brutal dos tchecos a Leônidas. O craque brasileiro já estava com o corpo coberto por hematomas. Aos 19, Domingos da Guia cometeu pênalti. Nejedly, com o pé fraturado, bateu e converteu. Tudo igual. A violência continuou e no final do jogo Perácio e o goleiro tcheco Planicka se chocaram, ficando o goleiro adversário com o braço quebrado. A prorrogação era necessária.

Perácio também foi muito violentado em campo e já estava bem machucado quando começou a prorrogação. Kostaler foi o mais atingido do lado polonês. O goleiro Planicka jogou a prorrogação co o braço quebrado e, apesar dos feridos, nada mudou na prorrogação. Uma nova partida seria necessária.

Para essa nova etapa, Nejedly e Planicka não foram escalados pois estavam no hospital. Leônidas estava sem condições de mostrar seu melhor, porque sentia muito as agressões da partida anterior. Contudo, as cenas deploráveis da primeira partida não se repetiram e os times resolveram agora jogar futebol, apenas. O resultado foi bonito.

O técnico brasileiro efetuou mudanças relevantes no time (ele só não podia contar com um jogador, o Niginho, que tinha contrato com a Lázio e foi tornado inabilitado para a competição pelo seu time).
Leônidas foi escalado mesmo sentido dores fortes, mas ainda assim foi um dos melhores em campo. O Brasil começou o segundo jogo atrás: os tchecos marcaram aos 30 do primeiro tempo. Mas o Brasil empatou com Leônidas aos 11 do segundo tempo. Os tchecos ainda marcaram mais um gol, mas o juiz não viu a bola entrando, os brasileiros continuaram jogando como se nada tivesse acontecido, os tchecos reclamaram muito, mas o árbitro não marcou o gol mesmo assim.

Aos 17, Roberto marcou o gol da vitória. O Brasil estava na semifinal! Contudo, o adversário agora era a quase imbatível Itália. Nos nove anos à frente da Azurra, Vittorio Pozzo só perdeu um jogo – coincidentemente para os tchecos, um ano antes, por 2x1, em Praga.

Ainda assim, a vitória suada contra os tchecos fez a seleção brasileira sentir o sabor da soberba. Todos achavam agora que iriam bater os italianos. Mas os problemas não paravam de surgir. O pior deles foi com Leônidas, que sentiu um caroço na perna, o massagista achou que poderia tirá-lo, mas os excessos de massagem pioraram ainda mais o estado do jogador, que chegou a Marselha sem poder apoiar o pé no chão – era estiramento, mas ninguém tinha percebido isso. Para piorar: o reserva de Leônidas era justamente o Niginho, que não poderia ser escalado.

Ainda no trem, o técnico Ademar Pimenta teve séria discussão com um de seus melhores jogadores, o Tim, que ficou fora da partida contra a Itália. Pimenta então teve de mudar seu esquema tático completamente, principalmente no ataque.

No Brasil, o clima era de euforia. Multidões se aglomeravam na Cinelândia, no Rio, e na Praça da Sé, em São Paulo, para ouvirem as transmissões radiofônicas emocionadas de Gagliano Neto. Houve inclusive casos de falecimento de pessoas com o coração mais fraco...

Pois bem. Para o jogo contra a Itália, o comunicado oficial dizia que Leônidas e Hércules seriam poupados – mas a verdade é que estavam machucados e não poderiam jogar. Mas a delegação estava tão certa da vitória contra a Itália que resolveram comprar logo as passagens para Paris, local da final.
Mas a partida entre aquelas seleções não poderia ser fácil. A Itália começou sufocando. O ataque brasileiro, extremamente alterado, não funcionava e o Brasil nem chegava no gol adversário. No segundo tempo, aos 11 minutos, Colaussi marcou 1x0 para a Itália. O Brasil se desesperou e se lançou ao ataque. Foi quando aconteceu um lance que ainda hoje suscita discussões acaloradas.
Aparentemente Domingos da Guia não conhecia muito bem as regras do futebol – até porque mudavam constantemente naquele tempo. Ao perder a cabeça com as provocações do italiano Piola, agrediu-o sem bola dentro da grande área, quando a bola estava do outro lado do campo. O árbitro viu a agressão e marcou pênalti para a Itália. Muitos sustentam que, quando Domingos desferiu o golpe a bola estava fora de jogo, o que descaracterizaria o pênalti. Seja como for, o craque italiano Guiseppe Meazza bateu e converteu – apesar de precisar segurar seu calção, cujo cordão se rompeu pouco antes.

A partir daí o que se viu foi um completo desânimo dos brasileiros, enquanto os italianos administravam o 2x0. O Brasil conseguiu ainda descontar aos 43, com Romeu, mas o Brasil iria agora disputar o terceiro lugar – e o árbitro passou a pessoa mais odiada no Brasil. Membros da delegação brasileira ainda lembraram que poderiam tentar impugnar o resultado, mas perderam o prazo de protesto. O ressentimento foi tal que se recusaram a vender as passagens para Paris para os italianos.

A outra semifinal entre Suécia e Hungria mereceu até mesmo a presença do rei sueco Gustavo V, que deixou Estocolmo só para acompanhar sua seleção. Mas a confiança dos húngaros era tal que o técnico disse: “Se perder esse jogo volto para Budapeste a pé.”

E não exagerava. A Hungria detonou a Suécia por 5x1, mesmo tendo a Suécia inaugurado o placar.
O Brasil então retornou a Bordeaux para enfrentar os Suecos. Até então a seleção já havia viajado mais de 2.500 km de trem, jogou duas prorrogações desgastantes em apenas 12 dias e enfrentou problemas inesperados para escalar jogadores.

A semifinal contra a Suécia foi moleza. O adversário jogava e queria jogar, e Leônidas, mesmo ainda não plenamente recuperado das dores, jogou bem. A Suécia marcou duas vezes, aos 18 e aos 38 da primeira etapa. Mas o Brasil virou com Romeu no primeiro tempo e com Leônidas no segundo, duas vezes. Perácio ainda marcou mais um par ao Brasil. Final, Brasil 4x2, Leônidas saia da Copa com sete gols marcados, e o Brasil terminava em terceiro lugar – muito diferente das duas participações anteriores.

A final foi jogada entre Itália e Hungria, em Paris. A torcida, claro, virou húngara. Mas não foram capazes de parar os italianos. Colaussi fez 1x0 aos 5 da etapa inicial. Titkos empatou aos 7. Mas, aos 16, Piola marcou mais um para a Itália, seguido de Colaussi aos 35. Os Húngaros conseguiram marcar de novo somente aos 25 da segunda etapa.  Piola converteu mais um gol aos 37 e a Itália levava a Taça do Mundo – ou Taça Jules Riemt, a partir de 1946.

Já durante a comemoração, um telegrama atrasado chegava para os italianos. Era Mussolini, como de costume: “Vencer ou morrer”. Mas agora o bilhete provocativo chegava em clima ameno.
O pós Copa, trouxe o apocalipse que se esperava. A França que recebeu os alemães e os viu saindo humilhados receberia, alguns anos depois, o exército nazista, que tomaria o país e mergulharia o continente nas trevas. A Copa de 1942, marcada para a Alemanha não ocorreu – até porque não se poderia dizer sequer que a Alemanha existia àquela altura. De fato, o Brasil também solicitou o direito de sediar a Copa de 1942, mas a Alemanha já o havia feito.

Jules Rimet prometeu que o Brasil sediaria a Copa de 1946. Esta também não ocorreu, pois o continente europeu ainda tentava se recuperar dos rescaldos do conflito. O Brasil sediaria o evento apenas em 1950, que teve aquela final entalada na garganta contra o Uruguai...


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “O Arquivo Secreto das Copas: 1930-1954”

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A COPA DO DITADOR – 1934



Em 1934, a indústria do cinema de Hollywood entraria numa nova fase, a reboque do estrondoso sucesso do filme A Alegre Divorciada (The Gay Divorcée), na qual cachês exorbitantes passaram a acompanhar o sucesso exorbitante de suas produções. No México, Lázaro Cárdenas, presidente e militar após bem sucedida participação na Revolução Mexicana, inicia a reforma agrária, preconizada na Constituição de 1917. Na Alemanha, após a morte do presidente Paul von Hindeburg, Adolf Hitler sentiu-se confiante para convocar um plebiscito nacional propondo pôr amplos poderes políticos sob o comando do partido nazista – a proposta venceu com 90% dos votos. No Brasil, entrava em vigor a Constituição de 1934, que sobreviveria apenas até 1937, quando do golpe do Estado Novo.
Na Itália, tinha lugar a Copa de 1934, evento cujo sucesso na propagação dos ideais do regime fascista inspiraria Hitler nas Olimpíadas de 1936.

Inicialmente, diante do sucesso dos sulamericanos na Copa de 1930, quando Argentina e Uruguai decidiram a final, imaginava-se que a próxima edição ficaria na América do Sul mesmo. Mas Mussolini desejava levar o torneio para seu país, e não parecia se importar com o custo.

Após oito Congressos da FIFA, pressões de seus representantes e denúncias de subornos, a Itália despontara como candidata única e foi declarada país-sede da Copa de 1934 – a Suécia retirou sua candidatura horas antes. Quem cuidava de tudo o que se relacionasse com o torneio era o general Giorgio Vaccaro, que recebeu as ordens de Mussolini no seguinte tom: “Eu disse que quero a conquista da Copa do Mundo”, palavras pronunciadas sem que tirasse os olhos de sua escrivaninha.

Il Duce investiu o que julgou necessário para realizar a Copa dos seus sonhos: ocorreriam jogos em várias cidades, onde se construíram estádios, reformaram-se uns tantos outros, não importando se serviriam para apenas uma partida. Criaram-se loterias para arrecadar fundos, concederam-se isenções tributárias às empreses envolvidas nas obras. Até os meios de transporte foram modernizados – a ideia era passar uma imagem de boa organização e eficiência. Naquele período, não houve falta de trabalho na Itália.

Tendo lugar na Europa, a competição despertava agora mais interesse. Inscreveram-se 32 seleções, da Ásia, da África e das Américas, além das europeias. Como o número de participantes era muito alto, decidiu-se pela  realização de eliminatórias, disputadas por todo o mundo – incluindo a Itália, que teve de jogar contra a Grécia, jogo que venceu por fáceis 4x0.

As eliminatórias do Grupo 1 foram disputadas por Cuba x Haiti. Cuba passou à segunda fase, quando perdeu para o México, que se classificou para jogar contra o vencedor do Grupo B – que veio a ser os EUA. No confronto México x EUA, os Yankees se saíram melhor e foram classificados para o Mundial.

O Grupo 2 viu o confronto Brasil x Peru. O Peru desistiu e o Brasil passou automaticamente. O mesmo ocorreu no Grupo 3, quando o Chile desistiu e a Argentina passou de fase.

O Grupo 4 trouxe o Egito como vencedor; no Grupo 5, a Suécia foi a vencedora; o Grupo 6 trouxe a forte Espanha. O Grupo 7 era o da Itália. O Grupo 8 trouxe a promissora Áustria e a respeitável Hungria. O Grupo 9 trazia a temida Tchecoslováquia. Suíça e Romênia despontavam no Grupo 10. O Grupo 11 trazia os vizinhos dos Países Baixos, Holanda e Bélgica. O Grupo 12 anunciava que Alemanha e França também estavam no Mundial.  

Decidiram então que os 16 classificados se enfrentariam em 8 jogos eliminatórios, cujos oponentes seriam definidos por sorteio.

A preparação da Itália envolveu um episódio envolto em penumbra: a convocação do craque argentino Luiz Monti. Monti foi a grande decepção da seleção argentina na final de 1930. Teve crise de choro e chegou a se recusar a entrar em campo, embora ao final tenha calçado as chuteiras, mas sem fazer muito uso delas. A razão para sua derrocada psicológica sempre esteve relacionada a pressões e ameaças de representantes uruguaios, que teriam ameaçado matá-lo e à sua mãe caso o Uruguai perdesse aquela final. Mas sempre existiu a versão de que os tais representantes eram enviados de Il Duce, não uruguaios. E, de fato, sabe-se que Mussolini enviou dois agentes ao Uruguai em 1930 com a missão de fazer Monti jogar pela Itália, na condição de “oriundi”. Precisaria apenas de se naturalizar italiano.

E essa missão foi muito facilitada com o fracasso pessoal de Monti na Copa. Aquele que era considerado o melhor jogador do mundo voltou para casa como a definição do fracasso. Os jornais só falavam de sua covardia em campo, de sua falta de compromisso com o país. Monti estava na lona.

Foi então que surgiram os italianos e sua proposta fantástica. Monti ganhava 50 dólares por mês para vestir o uniforme do San Lorenzo. Além disso, sua renda era complementada com seu salário de 100 dólares como empregado público da província de Buenos Aires. Recebeu então a proposta de se transferir para a Itália, para jogar pela Juventus de Turim: salário de 5 mil dólares por mês, casa e carro do ano. Na transferência, receberia imediatamente 50 mil dólares. E a recente lei argentina de futebol profissional não previa nenhuma amarra com o clube no qual jogava. Monti estava livre para jogar na Itália.

Monti foi recebido festivamente pela torcida, iniciou treinos para perder o excesso de peso, retornou à velha forma e parecia almejar muito um título mundial para a sua vitoriosa carreira.

O técnico italiano era Vittorio Pozzo, até hoje único a vencer duas Copas e acumular isso com uma Olimpíada. Era um revolucionário em seu tempo: foi o primeiro a acompanhar treinos dos adversários para fazer observações individuais, relacionava-se muito bem com os jogadores e aprendeu a moderna tática de jogo WM, criada pelo técnico inglês Herbert Chapman, do Arsenal, quando morou na Inglaterra.

Aliás, a Inglaterra continuava esnobando a Copa do Mundo, por se considerar infinitamente superior ao resto do mundo... no que era acompanhada pelos demais membros do Reino Unido.

Pozzo visitou Brasil, Uruguai e Argentina, pretendendo observar melhor os melhores jogadores sulamericanos. Essa viagem também serviu para a Itália engrossar sua fileira de”oriundis”: os argentinos Demaria, Guaita e Orsi; o brasileiro Filó, jogador do Corinthians que se transferiu para o Torino.

A Espanha se preparou mediante um amistoso contra a Inglaterra, quando se sagrou vitoriosa por um incrível 4x3 – foi a primeira derrota da Inglaterra contra outro país. Dias antes do início da Copa, Hungria e Tchecoslováquia também venceram os ingleses com dois 2x1.

A Áustria do técnico Hugo Meisl era a seleção considerada favorita pela maioria. Apelidada de Wunderteam (que significa time maravilhoso), tinha o melhor atacante do mundo, Mathias Sindelar.
Já no lado das grandes decepções, figuravam os sulamericanos. O Uruguai não foi capaz sequer de montar uma seleção: ao rancor contra os europeus, pelo boicote de 1930, somavam-se os problemas surgidos após a entrada em vigor da lei que permitia a profissionalização dos atletas de futebol. Em decorrência do sucesso de seus jogadores, agora eles não aceitavam salários baixos e os conflitos despertados seus clubes se multiplicava.

A Argentina, ainda atônita pela perda de Monti, optou por convocar apenas jogadores amadores, temerosa de que os profissionais tivessem o mesmo destino do seu grande craque em 1930. Mas declararam oficialmente que faziam aquilo em solidariedade ao Uruguai.

O Brasil queria participar. Mas os conflitos internos envolvendo a nascente Federação Brasileira de Futebol e a CBD, única representante da FIFA no país e ainda impermeável à profissionalização dos atletas, impedia uma organização minimamente decente.

Todas as equipes relevantes do Rio de Janeiro já eram profissionais, exceto o Botafogo. Pois bem, a CBD convidou o presidente do Botafogo, Carlito Rocha, para formar a seleção, cujo técnico seria Luiz Vinhaes.

Evidentemente Vinhaes sabia que aquela equipe teria um desempenho risível numa Copa – sabiam, portanto, que seriam necessários reforços. A única alternativa, pasmem, era contratar atletas... profissionais. Dali em diante a CBD pôs em prática sua tática de ”sequestrar” jogadores de times profissionais: ofereciam luvas de 20 contos de réis a quem se desligasse de seus clubes e fosse para a seleção, mais um salário de 1 conto por mês.

Trouxeram assim Valdemar de Brito (imortalizado como o descobridor do Pelé), Luizinho, Armandinho, e Silvio Hoffman. Leônidas da Silva, maior jogador da época e ídolo do Vasco, também aderiu, mas mediante pagamentos mais gordos. A outra estela “patriota” foi o Patesko. Dentre os que não aderiram estava o goleiro Rey, estrela do Vasco, recebeu os 20 contos, mas depois devolveu o dinheiro e seguiu com seu time. O Palestre Itália, que na época contava com um grande elenco, escondeu seu time numa fazenda a 200 km de São Paulo, para que não corressem o risco de “sequestro”.

A viagem de 8 mil milhas até Itália se deu no navio de luxo Biancamano. Foi uma verdadeira tormenta para os jogadores: os enjoos eram constantes, os treinamentos com bola eram impossíveis e até as sessões de ginástica eram dificultadas por causa do incômodo causado nos passageiros da primeira classe.

Apesar do estranhamento dos milionários com aquele grupo de passageiros, logo Leônidas estava comandando uma roda de samba; as noites eram animadas com o carteado. A primeira parada após seis dias no mar, em Dacar, serviu para o único treino com bola antes da estréia.

Em Barcelona, embarcaram os jogadores espanhóis – adversários na estreia. Se, por um lado, os jogadores brasileiros estavam impedidos de beber bebidas alcoólicas, por outro os espanhóis bebiam vinho e cerveja em profusão, e se espantaram quando souberam do absenteísmo dos adversários.
O jogo contra a Espanha foi um desastre. O time estava sem entrosamento, o gramado era péssimo e vários jogadores confessaram que ainda sentiam o enjoo da viagem. Aos 17 minutos, Martim cometeu pênalti, que foi convertido por Irarogorri. Minutos depois, Langara fez o segundo de cabeça. Aos 28 minutos, Langara marcou o terceiro da Espanha.

Com o placar largo, a Espanha começou a cadenciar o jogo no segundo tempo. O Brasil se aproveitou: Leônidas da Silva fez o primeiro gol brasileiro aos 7 minutos. Aos 15, um susto: Luizinho fez o gol, mas foi anulado por impedimento. Aos 25, Leônidas fez bela jogada individual e chutou para o gol. O espanhol Quincoces defendeu com a mão: pênalti! Waldemar de Brito bateu, mas Zamora, que havia assistido ao treino do Brasil poucos dias antes, pulou no canto certo e defendeu. O Brasil entraria para a história das Copas como o primeiro selecionado nacional a perder um pênalti – e esse fantasma voltaria a assombrar décadas depois, em 1986.

A perda do pênalti foi um banho de água fria e o jogo se desenrolou morno até o fim. A desclassificação prematura levou o Brasil e jogar uma série de amistosos pela Europa. Num deles, contra a Iugoslávia, outro vexame: 8x4 – pior resultado do Brasil até hoje, apesar do 7x1 contra a Alemanha. Mas a vitória contra Portugal ajudou a amenizar um pouco o clima desconcertante.
O jogo Brasil x Espanha foi disputado simultaneamente com outro: Alemanha x Bélgica. A estrela belga, o centroavante Voorhoof, suspenso desde que disputou um jogo com a camisa de outro time, foi perdoado e jogou.

A Alemanha inaugurou o placar com Kobierski. Mas Voorhoof estava empolgado e fez dois gols no primeiro tempo. Mas os alemães eram mais técnicos, o fôlego dos belgas acabou logo, e Kobierski empatou o jogo e Conen marcou três vezes. Placar final: Alemanha 5 x Bélgica 2.

Já a favorita Áustria enfrentou a França. A Ástria começou decepcionando: a França fez o primeiro aos 19 minutos, com Nicolas (que estava jogando contundido àquela altura, pois a regra não permitia substituições). Sindelar empatou para os austríacos no fim do primeiro tempo. A França dominou o segundo tempo, mas a bola não entrava. O jogo teve de ir para a prorrogação.

A Áustria começou a tempo extra marcando com Schall – que estava impedido. A França partiu para cima da Áustria, mas quem se aproveitou foi a Áustria, com Bican, num contra-ataque. A França ainda conseguiu descontar com Verriest cobrando um pênalti. Fim de jogo, França fora, mas ajudou a baixar a bola dos austríacos.

Os húngaros tinham pela frente os fracos egípcios – apesar de o mesmo Egito ter eliminado a Hungria nas Olimpíadas de Paris, de 1924. Mas agora foi sem surpresas: a Hungria ganhou de 4x2. A Hungria ganhou um título surpreendente: o jogador mais bonito do Mundial foi seu jogador Joszef Hada.  

A Argentina pegou a Suécia. Apesar da fraca seleção, os argentinos chegaram ao fim do segundo tempo empatados em 2x2. Mas deixou a Suécia marcar aos 30 minutos. Do lado argentino, quem chamou atenção doi Devincenzi, que foi contratado pelo Ambrosiana da Itália após o torneio.
Suíça e Holanda se enfrentaram em Milão. O primeiro tempo terminou em 2x1 para a Suíça. No segundo, a Suíça fez mais um. A Holanda descontou aos 42, mas não tinha tempo para mais nada.

O jogo Tchecoslováquia X Romênia quase teve zebra. A Romênia, teoricamente bem mais fraca, começou na frente logo aos 10 minutos. Os tchecos só começaram a jogar no segundo tempo e converteram aos 4 e aos 22 minutos. Apesar da chuva de gols perdidos, os romenos deram adeus ao Mundial.   

Mas a grande estreia foi a dos donos da casa. Ocorreu no estádio do Partido Nacional Fascista em Roma, completamente lotado. O Hino Nacional foi entoado por todos, incluindo Mussolini e sua filha mais nova, além do príncipe dos Piemonte e das princesas Giovanna e Mafalda. O adversário foi os EUA e Il Duce fez questão de pagar sua entrada.

Segundo Pozzo, apenas um jogador americano era realmente perigoso: Donelli, nascido em Nápoli. O placar foi um massacre: 7x1 para a Itália. Curiosamente, o brasileiro Guarisi jogou essa partida.
Portanto estavam nas quartas-de-final: Alemanha, Áustria, Hungria, Espanha, Suécia, Suíça, Tchecoslováquia e Itália – uma verdadeira Copa da Europa.

A Áustria estava mordida e mandou a Hungria para casa por 2x1. A Alemanha venceu a Suécia por 2x1. A Tchecoslováquia venceu a Suíça por suados 3x2.

Mas o jogo mais aguardado ocorreu em Florença: Itália x Espanha. Os ibéricos saíram na frente aos 29 minutos. A Itália empatou após 44 – com um gol irregular, pois o goleiro espanhol sofrera clara falta. Na prorrogação, ninguém marcou, mas a violência dos italianos correu solta: sete jogadores espanhóis ficaram sem condições de jogar a próxima partida, incluindo o goleiro Zamora. Como houve empate, marcou-se um segundo jogo de desempate.

A FIFA entendeu que um dos culpados pela guerra campal em Florença foi o árbitro, substituído na partida seguinte. Mas o novo árbitro também se mostrou incapaz de controlar os chutes e pontapés. A Itália marcou seu gol classificatório aos 11 do primeiro tempo e passou de fase. No dia seguinte, a FIFA expulsou os dois árbitros de seus quadros.

A primeira semifinal foi disputada entre Itália e Áustria. Em jogo disputado debaixo de muita chuva, a vitória foi italiana, por 1x0. O jogo Tchecoslováquia x Alemanha terminou em 3x1 para os tchecoslovacos.

No jogo pelo terceiro lugar, a Alemanha venceu por 3x2.

A final foi disputada no mesmo estádio da abertura: Estádio do Partido Nacional Fascista, em Roma (atualmente chama-se Flaminio). Mussolini estava tenso, embora acompanhado de uma sorridente princesa Giovanna, da família real de Saboya. Vaccaro foi relembrado pelo Duce do seu desejo de vitória a qualquer custo.

Pozzo não deixou de visitar o treino dos tchecos e fazer suas anotações de praxe. O que o técnico italiano viu fê-lo mudar de tática, pedindo a seus jogadores menos bolas altas na área e mais cruzamentos baixos para jogadores entrando em diagonal. A boa notícia era que Monti, lesionado no jogo contra a Espanha, voltou ao time.

O primeiro tempo foi duro, mas ninguém abriu o placar. Aos 25 do segundo tempo, Puc abriu para o tchecos. Podia-se sentir a tensão que Mussolini expelia – e, igualmente, em Pozzo e Vaccaro.
Os tchecos ainda mandaram uma bola na trave aos 34 minutos, mas, no minuto seguinte, a Itália empatou com Orsi. O estádio foi à loucura, mas Pozzo mandou que seu time recuasse e esperasse a prorrogação.

E o tempo complementar realmente mostrou outra partida. A Itália dominava, quando Giuseppe Meazza passou para Guaita, que enfiou uma bola em diagonal para Schiavio (como lecionara Pozzo pouco antes). Em velocidade, o jogador italiano passou pela defesa tcheca e tocou sem força na saída do goleiro: Itália na frente.

O estádio acompanhou em festa até o fim da partida. Mussolini fez questão de descer da tribuna e entregar pessoalmente a Taça ao capitão Combi e as medalhas de prata aos tchecos. Roma anoiteceu com danças e cantos pelas ruas. Mussolini ainda entregou a medalha de bronze aos alemães.

O ponto baixo do evento, sem dúvidas, foi a vergonhosa saudação fascista com a qual os italianos receberam seus prêmios, ao lado dos alemães, que empunhavam a bandeira alemã numa mão, e a pérfida suástica noutra.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “O arquivo secreto das Copas: 1930-1954”

terça-feira, 10 de julho de 2018

RACISMO E VIOLÊNCIA NA COPA DO MUNDO – 1930



O ano de 1928 foi marcante sob vários aspectos. Houve o lançamento do imortal Bolero de Ravel, baseado uma música folclórica; houve também o lançamento do primeiro filme sonoro, Mickey Mouse, pela Walt Disney; Alexander Flaming descobriu acidentalmente a penicilina; em Amsterdã, eram disputados os Jogos Olímpicos; enquanto isso, no Brasil, o conde Francisco Matarazzo inaugurava a Ciesp, a proto-Fiesp, dando impulso ao esforço de industrialização do país.

E foi em Amsterdã que foram dadas as primeiras pinceladas num futuro torneio de futebol, a Copa do Mundo. Enquanto Uruguai e Argentina disputavam a final olímpica de futebol – que viu a vitória do Uruguai por 2x1, tornando-se assim bicampeão olímpico, pois vencera a Suíça na edição anterior, em Paris -, ocorria o congresso da FIFA, cujo objetivo era elaborar um torneio que reunisse tanto jogados profissionais quanto amadores.

A cisão entre jogadores profissionalizados ou amadores era relevante na época. Os países que conformavam a Grã-Bretanha não participavam das disputas de futebol nas Olimpíadas, pois alegavam que os jogadores sul-americanos dedicavam-se por meses à disputa, sobrevivendo por meio de subsídios pagos pelos seus governos. Por outro lado, os ingleses, até então quase imbatíveis no esporte que inventaram, tinham o melhor campeonato de futebol do mundo e agiam de maneira insular – não eram filiados à FIFA, por exemplo -, não vendo qualquer razão prática para medirem força com outros países – e, claro, arrastavam consigo Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales.

Já a FIFA não se importava com a eventual profissionalização do esporte: queria ver todos jogando contra todos. E este era sonho de seu presidente, Jules Rimet. Embora o futebol, como todos os esportes, ainda carregasse um certo ar aristocrata, privilégio de pessoas ricas, especialmente na América do Sul se via uma grande popularização desse esporte, onde multidões eram arrastadas para as partidas.

O elitismo em torno do futebol descambava para o mais puro racismo, presente por exemplo na proibição de que pessoas negras frequentassem as dependências de clubes – como ocorria no Fluminense, que somente contornou essa regra infame quando obrigou os poucos negros que aceitou a jogarem com pó de arroz no rosto, para disfarçar seu tom de pele  -, nem vestissem seus uniformes.
O Brasil naqueles anos nem sonhava um dia carregar a fama de jogar o melhor futebol do mundo. Os reis desse esporte eram Argentina e Uruguai, que protagonizaram as duas finais Olímpicas ocorridas até então.

Pois bem, o resultado do Congresso foi a decisão pela realização da primeira Copa do Mundo. Os mais animados para sediarem o evento eram os bicampeões uruguaios, especialmente pela comemoração dos 100 anos de sua orgulhosa Constituição, de 1830. Para reforçar o desejo, prometeram construir um enorme estádio, para 80 mil pessoas, que se chamaria Estádio Centenário, pelo motivo já citado. Ah! Comprometeram-se também a pagar todas as despesas dos participantes no torneio. Claro, não poderiam prever a enorme crise mundial iniciada pelo Crash da Bolsa de NY em 1929, que poria todo o planejamento em risco.

A escolha do país-sede se deu em Barcelona, quando Hungria, Itália, Holanda, Espanha, Suécia e Uruguai apresentaram suas candidaturas. Após todas as costumeiras manobras de bastidores, o Uruguai foi declarado o vencedor.

Mas, quando da realização dos convites aos filiados – a FIFA possuía cerca de 30 países filiados -, a coisa ameaçou desandar. Dinamarca, Estônia, Finlândia, Noruega e Suécia não aceitaram participar do mundial. A Alemanha preferiu abster-se. Os demais europeus todos demonstraram seu descontentamento por ter de deslocar-se para fora da Europa para disputar um campeonato de futebol -  a viagem até o Uruguai demorava 14 dias em navio.

A Itália aproveitou o clima de discórdia e logo propôs um campeonato exclusivamente europeu, que somente foi rejeitado porque Jules Rimet agiu energicamente. Ao fim, ficaram de fora da Copa no Uruguai Itália, Holanda, Suíça, Suécia, Dinamarca, Estônia, Finlândia, Noruega e Espanha.

Pouco depois, Hungria, Tchecoslováquia e Áustria, que tinham futebol profissional, disseram ser impossível fazerem seus clubes liberarem seus jogadores durante o torneio, que poderia tomar um período total de mais de 2 meses.

A América do Sul não apresentou problemas: Argentina, Brasil, Chile, Peru, Paraguai e Bolívia – além, claro, do Uruguai -, confirmaram presença. Estados Unidos e México também aceitaram o convite.

Jules Rimet então usou sua proeminência no seu país para garantir a participação da França. Usou sua reputação de bom advogado para garantir a liberação de cada um dos jogadores de seus empregos: o goleiro Thépot foi liberado de seu trabalho na aduana, Capelle não foi convocado para o exército até o fim da Copa, Pnel foi transferido temporariamente para o consulado francês em Montevidéu. Somente ficaram de fora o grande craque Manuel Gaston, não liberado pelo Racing de Paris e Gaston Barreau, que tinha um importante exame para entrar numa faculdade de música erudita.

A Bélgica confirmou presença por ser o vice-presidente da FIFA o belga Rodolphe Seeldrayers. Dentre os jogadores, somente não foi possível levar o melhor jogador belga, Raymond Braine – que se mudou para a Tchecoslováquia, para jogar profissionalmente.

A Romênia foi um caso bem peculiar. Desejava participar, até porque seu rei, Karol, era fã do esporte bretão. Contudo, seus jogadores eram em sua maioria empregados de uma empresa petrolífera inglesa, que não queria nem ouvir falar em liberar empregados para jogar a Copa. Pois bem, um dos jogadores conhecia uma tal de madame Magda Lopescu, amante do rei. Ela mesma tratou de informar o rei sobre o impasse com a empresa inglesa. Como a concessão para exploração do petróleo era dada pelo rei, pessoalmente, não foi difícil dobrar os diretores da companhia e, assim, liberar seus jogadores.

Tendo a Romênia confirmado presença, sua arqui-inimiga Iugoslávia logo fez um esforço e fez o mesmo – claro, Jules Rimet se encarregou de atiçar o ânimo dos iugoslavos, explorando as rivalidades nacionais.

A FIFA tinha agora a confirmação de 13 países, sendo 4 deles europeus. Tudo pronto! Havia agora um torneio verdadeiramente mundial.

Jules Rimet descolou-se até o Museu de Artes de Rodez e encomendou uma Taça, a ser entregue ao campeão. O artesão Abel Lafleur contruiu, pela pequena fortuna de 50 mil francos, uma Taça com asas de ouro – símbolo da vitória -, com 30 entímetros de altura, pesando 4 quilos, sendo 1,8 de puro ouro, sustentada por uma base de mármore. Desde 1946 passou a se chamar Taça Jules Rimet.

O deslocamento dos europeus até o Uruguai se deu no transatlântico Conte Verde, que deixou o porto de Barcelona em 20 de junho, tendo a bordo a delegação belga. No dia seguinte aportou perto de Nice e recebeu os jogadores franceses e a delegação da FIFA. Em Gênova, embarcaram os romenos. No dia 25, outro transatlântico, o Flórida, levou os iugoslavos, que não queriam dividir a mesma embarcação com os romenos.

A participação do Brasil primou pela tradição: foi uma imensa baderna, uma balbúrdia sem fim. O presidente da CBD (antiga CBF), Renato Pacheco, apesar dos inúmeros entreveros resultantes do regionalismo renitente, decidiu formar uma comissão técnica composta apenas por cariocas. Em represália, os paulistas proibiram todos os seus jogadores de participarem da Seleção – haviam convocado 11 jogadores cariocas e 11 paulistas, inicialmente. Aliás, não houve a preocupação sequer de levar um técnico: essa posição foi ocupada até pelo árbitro brasileiro convocado para o torneio.  

Dentre os jogadores paulistas não liberados não estavam Arthur Friedenreich, maior artilheiro brasileiros de todos os tempos, com 1329 gols. O selecionado inteiro contava com apenas um jogador negro, Fausto, maranhense, e que chegou a jogar no exterior.

Diante do caos provocado entre as federações do Rio e de São Paulo, Pacheco convocou Poly, jogador do Americano de Campos, e mais dois cariocas para a comissão técnica. O Brasil embarcava para o Uruguai com um seleção e uma comissão técnica quase exclusivamente do DF (Rio de Janeiro à época), com exceção de Poly.

Quando o navio Conte Verde, após aportar no Rio de Janeiro e receber os brasileiros, aportou em Santos, houve uma enorme e muito bem vinda surpresa: Araken Patusca, centroavante importante em São do Santos, rompeu com seu clube e embarcou para o Uruguai com sua esposa. Dias após, mais dois rebelados se juntaram ao escrete cararinho: o goleiro Joel e o ponta-esquerda Theophio. O Brasil tinha agora mais jogadores do que poderiam sei inscritos: 24 em vez de 22. - inaugurava assim outra tradição que se manteria ao largo dos anos, a de delegação inchada e cara.

A preparação da Seleção se deu com apenas 2 treinos, um no Rio e o outro em Niterói. Araken não esteve presente, mas seu patriotismo o fez ser escalado entre os titulares.  

O Brasil enfrentaria, no dia 14 de julho, a Iugoslávia; dia 20, a Bolívia – era o Grupos 2. O grupo 1 tinha Argentina, Chile e México. O 3, agrupava Uruguai, Romênia e Peru. O grupo 4 era composto por Estados Unidos, Paraguai e Bélgica.

O início do torneio se deu entre França e México, jogando em Pocitos, enquanto Estados Unidos e Bélgica se enfrentavam no campo do Nacional. Se os belgas não tinham seu melhor jogador, os Estados Unidos estavam completos, com seu brutamontes escoceses patrocinados pela Bethlem Steel.
E foi um escocês quem fez o primeiro gol das Copas: Bert MsGhee. Ele converteu aos 10 e aos 15 minutos do primeiro tempo. Incrivelmente a honra do primeiro gol foi dada oficialmente ao francês Lucien Laurent, que só fez seu gol aos 19 minutos.

Fim de jogo, França saiu-se vencedora contra o México,por 4x1; a Bélgica perdeu por 3x0 dos Estados Unidos. A marca registrada dessas partidas foi a violência.

O Brasil enfrentou a Iugoslávia em 14 de julho, no parque Central. Se o Brasil realizou uma preparação patética e estava desfalcada de praticamente todos os grandes jogadores brasileiros, a Iugoslávia estava completa e confiante. O primeiro tempo terminou em 2x0 para os iugoslavos. No segundo tempo, Preguinho (filho do escritor Coelho Neto), fez o primeiro gol brasileiro em Copas. Mas foi insuficiente e o Brasil perdeu – como o grupo do Brasil tinha apenas 3 seleções, esta derrota praticamente eliminava o país do torneio. O destaque brasileiro foi o único jogador negro, Fausto.
O jogo Romênia x Peru, vencido pelos romenos por 3x1, viu a primeira expulsão em Copas – Galindo quebrou a perna do zagueiro romeno Steiner.

O árbitro brasileiro Almeida Rego estreou no apito no jogo Argentina x França. Os uruguaios apoiaram tresloucadamente os franceses, o jogo foi duro, mas Monti, melhor jogador da Arentina, fez um gol de falta aos 36 do segundo tempo. Mas, inexplicadamente, o árbitro brasileiro apitou fim de jogo aos 39 minutos. Após um inevitável tumulto, os times retornaram para disputar os 6 minutos que faltavam, mas a França desanimou e o jogo terminou mesmo em 1x0. A polícia teve de intervir ao fim da partida.

No dia 16, o Chile derrotou o México por 3x0. A Iugoslávia dispensou a Bolívia por 4x0 e passou às semifinais ao lado dos EUA, que derrotaram o Paraguai por 3x0.

O Uruguai vinha levando aquele torneio a sério. Ainda na preparação, o goleiro Andrés Lazzali foi dispensado após fugir da concentração para uma noitada. O atacante Scarone também foi dispensado. Em seu lugar entrou o atacante maneta (não tinha o braço esquerdo) “Manco” Castro, que fez o gol da vitória contra o Peru, por 1x0.

No dia 19, o Chile derrotou a França por 1x0. Já a Argentina não tomou conhecimento do México: 6x3. Aqui se viu o primeiro pênalti em Copas, a favor do México. Aquela chave viu o embate Chile x Argentina.

O Brasil se despediu vencendo a Bolívia por 4x0. No outro grupo, o Paraguai ganhou da Bélgica, 1x0.

No dia 21, o Uruguai garantiu sua vaga na semifinal vencendo a Romênia por 4x0. A outra chave viu a Argentina dispensando o Chile: 3x1. Nessa partida, o craque Monti foi socado no rosto pelo chileno Subiare. Era o primeiro efeito que o excesso de cobrança e as ameças à sua vida e à vida de sua mãe tiveram sobre o valente craque argentino. Ele praticamente não jogaria a final.

Quanto à batalha campal, ninguém foi expulso e Subiare teve de deixar a partida devido à chuva de socos e pontapés que levou.

Nas semifinais, a Argentina mandou os yankees para casa, vencendo por humilhantes 6x1. Interessante notar que o médico norte-americano faleceu em campo, correndo nervosamente em direção ao árbitro, por conta de um pênalti mal marcado. Ao correr, o médico quebrou um vidro de clorofórmio, causa de seu falecimento.

Os Uruguaios também venceram a Iugoslávia por 6x1.

Portanto, a final se deu entre os velhos inimigos: Uruguai x Argentina. Guerra à vista!

A polícia reduziu a capacidade do Centenário em 10 mil lugares, esquemas policiais dentro e fora do estádio foram elaborados, mas o clima continuava tenso – construiu-se uma sala de cirurgia dentro do estádio. Barcas atravessavam o Rio da Prata lotadas de argentinos – tiveram reservados 20 mil lugares.

O árbitro belga só aceitou apitar a partida após receber um gordo seguro de vida e com a garantia de que seria evacuado do país num barco logo após o apito final.

Apesar das rusgas, argentinos e uruguaios dividiam o mesmo amor pelo tango. Carlos Gardel foi convocado para aplacar os ânimos exaltados de ambas as seleções.  

Na partida, a Argentina venceu o primeiro tempo por 2x1, mas o Uruguai marcou três no segundo tempo. Um pênalti contra o Uruguai mas não marcado pelo árbitro desestabilizou completamente os argentinos. Uruguai, campeão, 4; Argentina, 1.

Quanto ao Brasil, Preguinho deu depoimentos sobre a péssima participação canarinho e sobre seu gol inaugural do Brasil em Copas. O goleiro Joel falou do terrível frio que enfrentou. E nosso primeiro herói, o negro e maranhense Fausto, falou dos obstáculos quase intransponíveis enfrentados pelos negros no futebol – e em quase qualquer coisa.

Quando da eliminação do Brasil, Fausto declarou: “Perder não é feio. Feio é ter medo. O Araken jogou como uma bailarina. Poli tinha medo da própria sombra. Nilo fugiu da bola e Teófilo nem se aproximava da área. Mas tivemos gente brava. A Itália lutou do começo ao fim, o Fernando Guidicelli deu o que pôde e o Preguinho foi um Davi, fazendo ziguezague no meio daqueles gigantes iugoslavos. No final, pensei em ir ajudar o Prego lá na frente. Mas lembrei que era o único preto do time e, se tomássemos outro gol, acabaria levando a culpa. O racismo no Brasil me impediu de ir à frente.”

Fausto foi ídolo do Vasco. Após a Copa, transferiu-se para o Barcelona, depois para o Young Fellows da Suíça, e para o Nacional de Montevidéu. Saudoso da pátria, decidiu retornar ao Brasil, quando jogou pelo Flamengo.

Em 1939, Fausto foi internado num hospital no interior de Minas Gerais, com tuberculose. Morreu pouco após, pobre e doente.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “O arquivo secreto das Copas: 1934-1954”

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O SOM ALEGRE DO BLUES TRISTE - ROBERT JOHNSON



Embora poucos consigam conceituá-lo, é indiscutível que as raízes do rock remontam ao blues. Este último é um estilo musical derivado da cultura afro-americana, cujas sementes foram plantadas nos estados do Alabama, Mississipi, Lousiana e Geórgia. Ali, nas plantações de algodão do século XIX, escravos negros entoavam cantos que lhes davam a força necessária para vencer as longas e extenuantes jornadas de trabalho. A palavra blue, em inglês, além de significar a cor azul, também traduz o sentimento de tristeza.

Uma outra característica presente no ritmo do blues desde seu início era a sensualidade e o vigor das danças. As letras das canções, em geral, falavam de assuntos cotidianos, como religião, amor, sexo, traição, trabalho etc.

O blues se popularizou logo após o término da Guerra de Secessão, em 1865. A primeira gravação, segundo a versão mais difundida, ocorreu no Mississipi, em 1903. O músico em questão era W. C. Handy, autodeclarado “pai do blues”, e a música se chamava “St. Louis Blues” – regravado por Louis Armstrong e Glenn Miller.

O primeiro astro do blues atendia por Charley Patton. Apelidado de “pai do blues do delta”, tornou-se famoso na década de 1920. Sua popularidade rendeu-lhe uma homenagem de Bob Dylan em “High Water (For Charley Patton)”. A banda The White Stripes pendurou uma foto do músico no estúdio, durante a gravação de Icky Thump, buscando a mais genuína inspiração do ritmo.

Muitos outros nomes se sucederam: Son House, Willie Brown, Leroy Carr, Bo Carter, Silvester Weaver, Blind Willie Johnson e Tommy Johnson. Inicialmente, as músicas executadas eram composições tradicionais, cuja autoria era desconhecida, mas eram cantadas há tempos. Algumas dessas canções são clássicos até hoje, como Catfish Blues, imortalizada na voz e na guitarra de Jimmi Hendrix; e John The Revelator, gravada por REM e The White Stripes.

Na década de 1930, o blues alcança finalmente a popularidade. Era comum ver garotos brancos fugindo do olhar vigilante dos pais para passar algumas horas nos locais frequentados por negros, onde a música dominante era o blues.

E essa década  viu também o surgimento de uma lenda do blues, cujo nome também estava envolto em lendas, por exemplo a de que havia feito um pacto com o diabo, o que lhe rendeu uma habilidade insuperável tocando seu violão. Roberto Johnson foi homenageado, idolatrado, cantado e citado por alguns dos maiores ídolos do século XX, como Robert Plant, Jimmy Page, Eric Clapton, Keith Richards, Brian Jones, Rori Gallagher, Jimi Hendrix, ZZ Top, Lynyard Skynyard, Allman Bothers Band, Grateful Dead, Red Hot Chilli Peppers e outros.

Robert, posteriormente conhecido como “avô do rock”, registrou suas principais composições entre 1936 e 1937. Empunhando seu violão, sua gaita e sua harpa de boca, esse legítimo bluesman viajava por todo o território do delta (região do delta do rio Mississipi), de ônibus, de trem, caminhando pelas estradas, o que importava era mostrar sua arte, que rapidamente elevou-o ao patamar de rei dos cantores do delta.  

Sempre que chegava numa cidade, Johnson se punha a tocar por trocados, em frente de uma barbearia ou de um restaurante. As canções que executava eram as que lhe pediam, fossem sua sou não, fossem blues ou não. Aprendia rapidamente qualquer canção de ouvido – especialmente jazz e country music.

Agradável no palco, Robert criava laços com sua plateia, o que lhe rendia uma estadia agradável durante o tempo que permanecia nas cidades que visitava.

Em 1936, Johnson se descolou até a cidade de Jackson, no Mississipi. Procurava então por H. C. Speir, dono de uma mercearia e conhecido por procurar pessoas talentosas para agenciar. Speir gostou de Johnson e o recomendou a Ernie Oertle, que decidiu gravar as canções de Johnson na cidade de San Antonio, no Texas.

As sessões de gravação ocorreram num quarto de hotel que a Brunswick Records usava como estúdio temporário. Robert cantava virado para a parede, por motivos de acústica. Foram três dias, ao longo dos quais Johnson interpretou 16 canções – além de tomadas alternativas para algumas delas. Não se sabe quanto Johnson recebeu por esse trabalho, mas era certamente bem mais do que embolsara a vida toda.

Algumas das músicas gravadas naqueles dias eram Come on in my kitchen (gravada depois por Fleetwood Mac, George Harrison e outos), Kind Hearted Woman Blues (gravada por Eric Clapton e Johnny Winter), Dust my Broom (gravada por ZZ Top e outros) e a icônica Cross Road Blues, imortalizada nas interpretações das bandas Cream e Rush.

As duas primeiras músicas comercializadas venderam 5 mil cópias cada.

Em 1937, Johnson retornou ao estúdio, agora na Park Avenue, 508. Foram 11 faixas, dentre elas Stones in my Passway, Me and the Devil e Hellhound on my Trail. Esta última fala do medo do diabo e é considerada uma obra-prima do blues.

Seu estilo único, fazendo uso das cordas mais graves para marcar melhor o ritmo, além do aprumo da técnica de execução e de gravação, influenciou músicos como Elmore James e Muddy Waters. O blues elétrico de Chicago, surgido na década de 1950, também foi influenciado pelo estilo de Johnson de fazer blues.

Robert Johnson morreu com apenas 27 anos de idade (o que o punha ao lado de ídolos como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones e muitos outros). Até então já havia lançado sei discos, comercializados sob a infame e racista classificação de “discos de raça”.

Sua morte ocorreu na cidade de Greenwood, Mississipi, próximo a um entroncamento (ou crossroads, em inglês).  Johnson estava fazendo uma temporada de apresentações num clube de dança local. A versão mais difundida fala em morte por envenenamento – provavelmente ofereceram-lhe uma garrafa de uísque envenenado com estricnina -, após agonizar por três dias. 

Dentre muitas das odes a seu nome, Johnson foi homenageado por Eric Clapton em 2004, com o álbum Me and Mr. Johnson; Bob Dylan lançou versões de Kind Hearted Wonman Blues, Milkcow`s Claf Blues, Rambling on my Mind, I`m a Steady Rolling Man; Le Zeppelin gravou Traveling Riverside Blues, composição que misturava Cross Road Blues e Kind Hearted Woman, e The Lemon Song; Rolling Stones gravou Love in Vain e Stop Breaking Down; esta última também gravada pelo The White Stripes; a banda Red Hot Chilli Peppers gravou They´re Red Hot; Lynyard Skynyard gravou Crossroads em 1976.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “Segredos e Lendas do Rock”

terça-feira, 3 de julho de 2018

AS ESTRELAS COMO COMPANHIA



Logo que soube que era portador do vírus HIV, Renato Russo entrou num processo de depressão que terminaria apenas com a sua morte.
Em meio àqueles sentimentos de morte que se avizinhava e na solidão em que se refugiava, Renato produziu essa bela canção, que descreve quase sem floreios o que se passava na sua vida.


A VIA LÁCTEA – LEGIÃO URBANA

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz

A letra se inicia descrevendo algumas frases que costumamos usar para dar forças a alguém fragilizado por algum acontecimento ruim em sua vida.

Mas não me diga isso

Mas ele logo revela não querer ouvir nada daquilo. Nenhuma frase de efeito pode ajudá-lo.

Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima

Em seguida ele revela o tamanho de sua angústia, e revela que ela não irá embora, independente do que se lhe diga. A febre intensa e constante que sente é um dos primeiros efeitos colaterais da AIDS.
A imagem das estrelas explica o título da canção e traduz a tristeza que se lhe abate todas as noites.

Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza das coisas com humor

Aqui, Renato revela que gostaria de encarar a vida com leveza, de rir dos seus problemas, de fingir ter esquecido suas angústias para viver momentos alegres...

Mas não me diga isso

Mas isso não é possível.

É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto isso passa
Amanhã é um outro dia, não é?

Na estrofe acima, Renato descreve um pouco do que pensa nos seus momentos de angústia, para conseguir reunir forças para enfrenta-los. Basicamente, ele pensa que amanhecerá um pouco melhor.

Eu nem sei porque me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim

Aqui, parece que a tristeza que ele sente se tornou algo constante, que se manifesta mesmo sem que ele precise de se lembrar do motivo.

E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim

Acima, o sentimento que basicamente o acompanhou até a morte: por favor, não sofra comigo; deixe-me sofrer sozinho... De qualquer maneira, obrigado por não se esquecer de mim. Talvez estivesse pensando nos fãs e nas demais pessoas que queriam saber o que se passava em sua vida (Renato negou diversas vezes que tivesse AIDS).

Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho

Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser quem eu sou

Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado por pensar em mim

Não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado por pensar em mim


Rubem L. de F. Auto

O CLUBE MINEIRO DOS AMIGOS DA CANETA



CLUBE DA ESQUINA II

Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem se lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço
Aço, aço, aço, aço, aço, aço

Aqui ocorre uma metáfora entre as palavras moço e estrada. Ambos traduzem a ideia de mudança, busca de novos objetivos, novos rumos.
Viagem de ventania traz a ideia de mudanças profundas, não apenas cosméticas.
Os versos finais traduzem a ideia de não arrependimento. O personagem portanto se lança sobre o destino que almeja encontrar.

Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos
Calmos, calmos, calmos

Quem sonha são as pessoas. Não importa tanto a idade, mas a capacidade de sonhar. E de lutar por seus sonhos. Ainda que isso signifique enfrentar os gases lacrimogênios lançados pelas forças policiais, a serviço das forças conservadoras, isto é, aqueles que estão no poder.
Os dois versos finais fazem referência à luta pelos sonhos, sem desespero. Lutar até o final!

E lá se vai
Mais um dia

E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva
De um rio, rio, rio, rio, rio

A guerra é composta de batalhas. O fim de uma abre caminho para a próxima. Basta aguardar (contar compasso) e confiar em si mesmo.  
Chama sem pavio não tem um limite; pode queimar, teoricamente, para sempre.
Tudo pode servir como inspiração para uma nova canção, triste ou alegre.
No fim, uma metáfora com um rio, que deposita sedimentos nas suas margens, especialmente onde o rio faz curva. Um coração, nessas condições, recebe mais “sedimentos” deixados pela vida.
Impossível não pensar que a palavra “rio” faz analogia com “Rio de Janeiro”, cidade onde se desenrolou a carreira do Clube e de seus membros, além de principal locus das lutas anti-regime militar.

E lá se vai
Mais um dia

E lá se vai
Mais um dia

E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente
Gente, gente, gente, gente, gente

E lá se vai
Vai
Vai
Vai

Os primeiros versos trazem a figura imagética de multidões bradando palavras de ordem, em manifestações populares, pelas ruas da cidade (provavelmente, Rio).
A expressão “pessoas na esquina”, paradas e conversando,  trazia em si o temor de ser “levado para averiguação”, numa delegacia, ou pior do que isso. Mas e se houvesse 1 milhão de pessoas naquela esquina: seria possível leva-las todas para averiguação?
Foi o aumento das fileiras contra o Regime que pôs fim ao mesmo: e lá se vai, vai, vai... Esta canção é de 1978.


Rubem L. de F. Auto