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terça-feira, 12 de setembro de 2017

A INQUISIÇÃO E A QUEIMA DO FUTURO DE PORTUGAL




Até o final do século XV Portugal era o paraíso da tolerância na Europa. Os judeus haviam sido expulsos da Inglaterra no século XIII; da França, no século XIV e, posteriormente, da Alemanha, Polônia e Rússia. Na Suíça, centenas foram queimados em fogueiras. Nas cidades-estado italianas, foram permitidos permanecerem, porém em guetos, fora das muralhas das cidades. E não poderiam exercer atividades lucrativas, estavam privados de direitos civis e políticos, além de terem de pagar impostos escorchantes.

A exceção paradoxal era Roma, onde o papa permitiu-lhes o direito de permanecerem.

Os judeus portugueses eram chamados de sefarditas, que significa “ocidentais”. A primeira referência a eles foi num edito de 300 d.C. Crê-se que eram muito bem recebidos e aceitos pela sociedade da época.

Os benefícios trazidos pelos judeus foram muitos: dos primeiros livros impressos em Portugal, alguns foram escritos por judeus; tinham membros destacados na matemática, astronomia. Foram importantes para as primeiras viagens exploratórias. Por causa do seu modo de viver e pelos conhecimentos de línguas, eram frequentemente nomeados como embaixadores no estrangeiro, especialmente em países muçulmanos, onde eram mais bem aceitos do que os cristãos. Várias nações chegaram mesmo a imaginar que Portugal era uma nação judaica.

Os judeus eram até mesmo incentivados a trabalharem como ourives ou joalheiros. Chegaram a ter seus próprios juízes, haja vista seus costumes distintos.

Embora mantivesses suas leis alimentares e rezassem em sinagogas, a língua que usavam era o português e se vestiam de maneira bem parecida com as dos demais cidadãos. Alguns judeus tinham títulos de nobreza. Cristãos e judeus se visitavam reciprocamente nas datas festivo-religiosas.

A Academia Judaica de Lisboa produziu grandes médicos, botânicos, geógrafos, matemáticos, advogados e teólogos, além de escritores de ficção e poesia.

O fim dessa harmonia foi mais um dos efeitos nefastos do aumento da influência espanhola no país. Foram 60 anos – 3 gerações de reis espanhóis - do que se comumente chamou “cativeiro babilônico” de Portugal. Os judeus expulsos que retornaram após 1834 foram bem recebidos, mas os prejuízos a Portugal – e os respectivos ganhos absorvidos por Holanda e Inglaterra  – foram imensos.

Sob os reis católicos, Fernando e Isabel, os judeus da Espanha foram obrigados a se converterem. Muitos o fizeram, ainda que apenas da boca para fora.

Contudo, em 1478 foi instituída a Inquisição. Seu objetivo: investigar a sinceridade dos judeus convertidos. Nos oito anos seguintes, mais de 700 destes foram mortos na fogueira. Ficaram de fora os judeus que não se converteram.

Em 1480, os judeus foram proibidos de viverem entre os cristãos – só era permitido viverem em guetos. Em 1492, foram avisados que teriam apenas quatro meses para se converterem. A maioria preferiu se refugiar em Portugal.

Por seu turno, D. João de Portugal acolheu apenas 600 famílias com direito de residência permanente – mediante o pagamento de 10 mil cruzados por família. Os demais receberam visto de trânsito, pelo preço de 1 cruzado por mês, válido por 8 meses.

Cerca de 60 mil judeus castelhanos entraram no país. E é interessante notar que grande parte da resistência contra a entrada de um grande número de judeus partiu dos judeus ali já estabelecidos.

Os judeus que não deixaram Portugal foram considerados hereges e presos. Porém, logo que chegou ao trono, D. Manuel mandou libertá-los. No entanto, passo seguinte, pediu a mão de D. Isabel, filha de Fernando e Isabel, em casamento. Espera ascender ao trono espanhol futuramente, ou seus herdeiros. Os reis espanhóis gostaram a possibilidade, haja vista Portugal ser muito mais rico do que a Espanha naquela altura – embora tivesse 1/5 do tamanho do vizinho maior.

Mas foi imposta uma condição: D. Manuel deveria se livrar daqueles judeus todos. Mas D. Manuel era resistente àquela medida. Sabia que privaria seu país de alguns de seus mais valorosos cidadãos. Daí surgiu a ideia mirabolante de criar a categoria dos cristãos-novos. Por fim, por não ter tido a adesão esperada, mandou converter todos os judeus que conhecia à força, numa igreja, com água benta sendo jogada ao léu. Os pais que não permitiram que seus filhos fossem convertidos perderam a guarda das crianças.

Por fim, em 1497, por decreto, D. Manuel fez com que todos os judeus que viviam em Portugal fossem designados como cristãos-novos.

Pronto. Agora poderia casar com Isabel!

Mas a nova rainha era tão antissemita quanto seus pais. Exigiu que a Inquisição fosse instaurada em Portugal. O papa recusou a exigência, mas padres dominicanos vindos da Espanha iniciaram um movimento antissemita muito forte no país. Logo surgiram as primeiras chacinas de judeus e a destruição de seus bens.
D. Manuel ficou sensibilizado e mandou matar mais de 60 pessoas, entre eles muitos frades. Também mandou fechar o mosteiro dominicano. Por fim, proibiu a Inquisição de indagar acerca da fé das pessoas pelos 20 anos seguintes.

Importante notar que a Inquisição era dirigida a judeus, protestantes e muçulmanos, mas Portugal só contava com judeus, não tendo protestantes no seu seio. Os poucos muçulmanos lá residentes também não foram incomodados.

D. Manuel morreu em 1521. Sua proteção real aos judeus expirou onze anos após. Pelos anos seguintes, o papa se encarregou de prestar proteção aos cristãos-novos portugueses. Em 1547, os dominicanos espanhóis conseguiram que o Santo Ofício fosse reaberto, mas sem qualquer sucesso em seus intentos.
Porém, em 1580 Portugal caiu sob domínio espanhol, e D. Filipe conferiu poderes à Inquisição para que se financiasse mediante leilões de bens confiscados de hereges.

Nessa época, mais da metade dos grandes bancos comerciais de Portugal pertenciam a cristãos-novos. Dali em diante a Inquisição se tornou uma espécie de pilhagem de bens de terceiros e de distribuição de seus produtos aos seus membros. Até dívidas que as vítimas tivessem a receber eram cobradas pela Inquisição, após o confisco dos bens.

Os relatos das sessões de torturas eram feitos minuciosamente. Mas nem todas as vítimas eram judeus. Os homossexuais eram implacavelmente perseguidos, também. Os membros da Sociedade de Jesus, seus antagonistas, também eram perseguidos pela Inquisição.

Havia também os padres condenados por “quietismo”, isto é, por pregarem que o contato com Deus prescindia da igreja.

Dentre os mortos como cristãos-novos, a maioria eram mulheres, haja vista serem elas as responsáveis pela educação dos filhos e, portanto, pela permanência daquela religiosidade indesejada, ao longo das gerações.
As prisões lançavam mão de informantes, conhecidos como “familiares”. Não havia lugar que não contasse com pelo menos um dedo-duro da Inquisição.

Os presos eram executados em autos-de-fé, que se realizavam em Coimbra e Évora, com a presença da família real, nobres e clérigos na praça principal desses locais. Também eram comuns penas de desterra para a África ou para a América do Sul. 

Os judeus que foram desterrados ou escaparam para o Brasil se radicaram no Recife, que vivia a “febre dos diamantes”. Naquele tempo bastava escavar a água que caia de uma cachoeira para achar pedras preciosas. Logo os judeus estavam trabalhando com exportação de diamantes. Montaram escritórios comerciais em Nova Amsterdam, mais de um século antes de se tornar Nova York.

Roma foi outro destino procurado pelos judeus, o qeu levou a problemas no seio da comunidade judaica local. A Turquia também se tornou destino disputado. O sultão ofereceu proteção oficial a todos eles. Era claro o fato de que países muçulmanos eram mais seguros para os judeus do que países cristãos.

Os judeus que se refugiaram na Turquia levaram consigo o tabaco, que logo virou produto de exportação principal do país. Também levaram tecelagens e fábricas de munição.

Por sua vez, os mercadores e banqueiros cristãos-novos tiveram como destino a cidade de Antuérpia, que era naquele tempo a cidade e o porto mais importantes do norte da Europa.  Também caíra sob jugo espanhol. O catolicismo era obrigatório, enquanto o judaísmo era absolutamente proibido. Porém, não havia Inquisição instalada. Além disso os cristãos-novos estavam protegidos contra investigações pessoais.

Após Portugal, sob domínio espanhol, expulsar os comerciantes ingleses e holandeses, Antuérpia passara a maior centro europeus de comércio de especiarias e de pedras preciosas, tudo saído diretamente do Império Português.

A família de banqueiros cristãos-novos mais importante a trocar a praça de Lisboa por Antuérpia foi a família Mendes. Tinham membros espalhados por todas as colônias portuguesas: Moisés Mendes era comerciante em Formosa; Álvaro Mendes, joalheiro em Goa;Graça Mendes, banqueiro do sultão na Turquia (também o era do rei da Inglaterra, apesar de os judeus terem sido expulsos dali). Aliás, foram os Mendes que pagaram as despesas para que Guilherme IV assumisse o trono inglês. Essa ajuda rendeu-lhes a abolição da perseguição aos judeus ingleses.

O patrono dos Mendes era Diogo Mendes, sediado em Antuérpia. Ele detinha praticamente o monopólio comercial de especiarias, medicamentos e pedras preciosas, nas regiões do Báltico, Alemanha, Europa do leste e Inglaterra.

Esses cristãos-novos fizeram, a partir de Antuérpia, com Lisboa e Cádis, as cidades comerciais mais importantes de então, o mesmo que Portugal havia feito com as cidades italianas de Veneza, Florença e Gênova: quebrou-lhes o monopólio comercial e deixou-lhes escancarado um futuro de decadência.
Foi esse o motivo para, em 1564, o duque de Alba, governante espanhol de Antuérpia, suspender a imunidade concedida aos cristãos-novos da cidade.

Esse acirramento dos ânimos pôs Amsterdam no centro das atenções. Então governada por protestantes holandeses, após terem derrotado os ocupantes espanhóis em uma longa guerra, tornou-se destino dos judeus que fugiam de Antuérpia. A coincidência de histórias de perseguições, primeiro a protestantes, depois a judeus, aproximou os dois grupos. Mediante promessas de trazer grandes riquezas à região, solicitaram autorização para permanecerem na cidade e exercerem seus cultos em paz. A proposta veia  calhar, haja vista os cofres públicos estarem esvaziados após anos de conflitos.

Já em 1620, Amsterdam contava com quatro sinagogas. Os judeus na Turquia presentearam seus parceiros holandeses com os primeiros bolbos de tulipas a chegarem ao país. Os judeus também levaram o comércio de diamantes e a arte de lapidar os mesmos a Amsterdam – ainda hoje a Holanda é referência nessas atividades.

Ainda nesse sentido, os judeus levaram o tabaco à Holanda, a partir de Cuba, e fundaram a indústria holandesa de charutos. O mesmo foi feito com o chocolate das Índias Ocidentais, que fez nascer a indústria do chocolate holandesa.

Essas foram algumas das contribuições judias à Holanda protestante.

Foi também na Holanda, onde puderam praticar seus cultos sem problemas, que muitos judeus viram pela primeira vez o Talmude. Até então, o único livro que usavam era o Pentateuco (Antigo Testamento).
Mas a crença que se disseminou mesmo na Holanda, que unia judeus e protestantes, era a de que roubar e pilhar Portugal, ocupado pelos espanhóis, não era pecado. Juntos, financiavam uma frota que capturava mais de 100 navios mercantes portugueses todos os anos.

Até que o inesperado aconteceu: num episódio conhecido como “mapa de Linshoten”, todos os segredos comerciais portugueses foram revelados aos holandeses. Foi o início da flagrante derrocada portuguesa e sua superação pela Holanda.

O jovem Linshoten, culto e sagaz, deixou seu país e chegou a Lisboa em 1576. Tornou-se secretário pessoal do novo arcebispo da Ásia e da África Oriental, frei João Vicente da Fonseca. Logo se puseram a caminho de Goa.

Linshoten investiu 20 anos a serviço do frei. Durante esse período, organizou um registro secreto de tudo o que descobria sobre as rotas comerciais do Império português. Roubou exemplares de mapas que indicavam as rotas que partiam da Europa. Também desvendou as rotas entre as cidades comerciais. Fez anotações à mão, deu instruções pormenorizadas. Mesmo o clima e as tábuas de marés não foram esquecidos. A partir de relatos próprios e de terceiros, descreveu as pessoas, seus costumes, clima local, condições sanitárias, tipos de mercadorias e produtos manufaturados comercializados, com indicações de preço, quantidade e qualidade.

Retornou à Holanda e publicou tudo o que registrara, em 1596. Quase que na sequência, o comandante Cornelius Hoofman partiu para Java com sua frota. Ali findou a primeira base holandesa na Ásia. Nos cinco anos seguintes partiram dali mais de 40 navios holandeses lotados de especiarias.

Ainda durante o período de domínio espanhol, Portugal perdeu completamente sua competitividade. Os navios portugueses eram agora grandes demais, difíceis e manobrar. Em certos casos, mais da metade dos navios que partiam em direção à Ásia retornavam com problemas antes de chegarem ao destino.

Um dos fatores prejudiciais a Portugal era o fato de a tripulação de seus navios ser, sobretudo, de escravos: subalimentados, desmotivados, doentes e loucos por acharem uma oportunidade de escaparem. Além disso, a derrota da Invencível Armada espanhola para Sir Francis Drake dizimou os navios portugueses, que foram enviados a Plymouth.

Os holandeses usaram seus navios novos, rápidos e estáveis, para assaltarem barcos portugueses a caminho de Goa, Macau e Nagasaki. Expulsaram os portugueses do Ceilão, de Formosa (Taiwan), das ilhas das Especiairias, de Malaca e ainda do Malabar.

A história somente se diferenciou no Japão. Os holandeses não conseguiram expulsar os portugueses dali, pois estavam firmemente instalados ali. Mas o sucesso das conversões de japoneses, finalmente, chamou a atenção da aristocracia e dos monges xintoístas, distraídos pela guerra civil. Logo perceberam que essas conversões escondiam um propósito maior: conquistar o Japão.

Em bula de 1585, os papa deferiu o direito sobre o Japão a Portugal. A Espanha foi agraciada com as Filipinas (que usavam para entrar no Japão clandestinamente). A prisão de um navio espanhol encalhado na costa japonesa, carregado com 600 mil moedas de prata, rendeu uma declaração bastante sincera do comandante: “Começam por enviar padres, que induzem o povo a abraçar a nossa religião. Quando os progressos alcançados forem consideráveis, enviam as tropas, que, controlando os convertidos, torna todo o resto mais fácil”.

A resposta japonesa foi cruel: franciscanos espanhóis, jesuítas e cristãos japoneses foram executados por crucificação. Mandaram que os padres estrangeiros fossem deportados. Cerca de 200 mil japoneses convertidos foram vítimas de castigos, a ponto de quase morrerem. Cerca de 1.400 foram crucificados. A igreja cristã fundada pelos jesuítas no Japão viveu os 200 anos seguintes na clandestinidade. Esse fato só mudou em 1867.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “A primeira aldeia global”

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

D. SEBASTIÃO, O REI QUE SONHAVA E MORRIA




A morte de D. João III levaria ao trono outro João, filho do primeiro. O problema é o João-filho morreu antes do João-pai, aos 16 anos, mais uma vítima da peste. Mas teve tempo de deixar um herdeiro, D. Sebastião, havido com uma princesa espanhola, nascido menos de um ano após a morte do pai.

D. Sebastião herdou o trono português aos três anos. Sua avó foi a regente até sua maioridade. Sucedeu-a um cardeal, D. Henrique, seu tio-avô.

Logo surgiu um obstáculo: as Cortes de Lisboa se opuseram à ideia de ter um rei educado por uma espanhola. Nomearam um tutor: um padre jesuíta, com a missão de formar um rei português de verdade, que praticasse costumes portugueses, que se vestisse como um português, que montasse a cavalo como um português, que falasse como um português...

Para preservar o Tesouro durante algum tempo, D. Sebastião foi isolado da corte num palácio medieval do outro lado da cidade; assim evitariam que ele contraísse dívidas ou ordenasse despesas. Sebastião foi uma criança doente. Cresceu crendo que apenas exercícios físicos extenuantes poderiam vencer seus males. Sebastião preferia os treinos militares. Cresceu vendo-se como um “marechal de Cristo contra o islamismo”.
Assumiu o trono aos 14 anos, em 1568. Em poucos meses já havia se desentendido com os ministros escolhidos pelo cardeal Regente. Substituiu-os por ministros mais jovens.

Fascinado pela história de seu país e de seu povo, levou seus ministros até a Casa Rela de Avis, no Mosteiro de Alcobaça. Mandou abrir os túmulos de seus antepassados e os homenageou. Seguiu até Évora, onde assistiu a uma sessão de imolação de hereges na fogueira.

Essa última passagem o fez receber a inspiração necessária para partir em direção ao reino herege do Marrocos. Para tanto, era necessário dinheiro. Sebastião mandou vender proteção real a judeus e outros hereges, protegendo-os da fogueira. Também pegou dinheiro emprestado com o banqueiro alemão Conrad Roth. A garantia seriam os lucros futuros provenientes dessa expedição de pilhagem à portuguesa.

Sebastião recebeu o apoio do aventureiro inglês Sir Thomas Stukeley e sua frota de soldados de infantaria e arqueiros.

Contando apenas 24 anos, Sebastião se encheu de confiança e força. Seus 500 navios transportando 24 mil pessoas e inúmeros recursos mais partiram para o Marrocos em busca da glória de Deus e de mais riquezas, que permitissem a Portugal ter um futuro tão brilhante quanto foi seu passado – e usando-se das mesmas práticas da época de Ceuta: o roubo, a pilhagem.

Ao desembarcarem em Arzila foram informados de que o emir já os aguardava, e tinha à sua disposição um exército realmente gigantesco. Era agosto de 1578. Ambos os exércitos se encontraram após os portugueses marcharem 5 dias sob calor escaldante, sem água e estando exaustos. Assim encontraram as forças muçulmanas, com mais do dobro do efetivo do inimigo. Só a cavalaria do emir de Marrocos era dez vezes mais numerosa do que a de Sebastião.

Em poucas horas mais de 15 mil soldados portugueses já haviam sucumbido. D. Sebastião e Thomas Stukeley estavam entre as vítimas. Aqueles que seguiam a expedição, em geral não soldados mas desejando viver no Marrocos após sua eventual conquista, forma vendidos como escravos. Menos de mil conseguiram retornar.

D. Henrique assumiu o trono. Morreu logo depois, sem que se tivesse casado.
Diante desse vacou, D. Filipe de Espanha enviou um pequeno exército a Lisboa. O reino, atônito, rendeu-se. Portugal era, agora, espanhol.


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “A primeira aldeia global”

ERA MANUELINA EM PORTUGAL – DA DEFINIÇÃO DA OPULÊNCIA AO DECLÍNIO RETUMBANTE




Com dinheiro, você poderia adquirir qualquer coisa. Banqueiros, mercadores, lojistas, joalheiros, alfaiates, sapateiros e muitos outros profissionais afluíam de topa a Europa: Bélgica, Inglaterra, França, Alemanha, Itália – em busca de um pouco da imensa riqueza que circulava por Lisboa.

Esse enriquecimento se refletia na corte de D. Manuel – que aumentava proporcionalmente em número de membros. A nobreza vestia sedas e linhos. Alguns usavam chapéus cravejados de diamantes e pérolas. O rei usava uma roupa nova a cada dia, distribuindo as usadas a seus cortesãos. Carruagens ornamentadas cortavam as ruas de Lisboa cotidianamente. Já o rei não podia fazer igual aos demais nobres: sua procissão era liderada por um rinoceronte, seguida por quatro elefantes amestrados. Atrás, vinha um cavalo persa carregando um leopardo caçador – presente do sultão de Ormuz. Trombeteiros e tambores faziam parte do cortejo.

O rei D. Manuel era viciado em música. Ia dormir ao som de uma serenata diariamente. O mesmo ocorria após suas refeições. Enquanto trabalhava em seu escritório na Casa da Índia, uma orquestra de câmara tocava.

A música o acompanhava até nas sextas-feiras, dia de jejum à base de pão e água, quando passava a maior parte do dia no tribunal criminal ouvindo os pedidos de clemência dos recém-condenados – também ditava sentenças nessa ocasião.

As tardes reais eram comumente passadas a bordo de um barco, singrando o Tejo, abrigado abaixo de um toldo estofado regiamente com seda, acompanhado de músicos e de personalidades com quem estivesse a tratar de algum assunto qualquer.

Sua orquestra de câmara e sua capela (coro) eram compostas pelos melhores músicos europeus, pagos a peso de ouro. Após as apresentações musicais, eram comuns festas com a participação de comediantes, que faziam sátiras impunes com nobres e bispos. O mestre-de-cerimônias predileto era Gil Vicente, ainda hoje considerado um dos melhores dramaturgos do país e contemporâneo de Shakespeare.

D. Manuel ordenou a construção de uma ópera enorme e um novo palácio, nas colinas de Belém, a oeste de Lisboa. Foram contratados os melhores arquitetos da Europa, mas os três mais destacados eram portugueses: Mateus Fernandes, Diogo de Arruda e seu filho, Francisco. Além desses, destacou-se também o francês Diogo de Boitac. Deram nascimento ao estilo conhecido como manuelino, de finais da Renascença e com raízes góticas.

No campo das construções marcantes, D. Manuel mandou construir o mosteiro dos cavaleiros templários, em Tomar; a igreja das três naves em Setúbal e o Panteão dos Avis, no Mosteiro da Batalha. Ainda em Belém, mandou erigir a Torre de Belém, em comemoração à primeira expedição de Vasco da Gama. Na parte de trás do palácio, após um amplo jardim, mandou construir o Mosteiro dos Jerônimos, um dos edifícios mais impressionantes em todo o sul da Europa. Criou-se um imposto especial sobre as especiarias para financiar sua construção. Diversos indianos trabalharam na sua construção. Nele estão os restos mortais de Vasco da Gama e de Fernando Pessoa.

Interessante notar que os monges dos Jerônimos dirigiam escolas voltadas para crianças nascidas nas colônias – em geral, filhos da nobreza local. Como muitas dessas crianças prosperaram na vida adulta, tais monges foram responsáveis pela criação e uma harmonia racial vigente em Lisboa, que não se reproduziu nas suas colônias.

O dinheiro continuava entrando no Tesouro português. A contabilidade da Casa da Índia passou a ocupar todo o primeiro piso do palácio real. Testemunhas dera conta de mercadores estrangeiros que ali entravam com sacos de ouro, para adquirirem especiarias, mas tinham  de retornar no dia seguinte pois os funcionários não dariam conta de contar mais moeda do que já tinham de contar naquele dia.

Os banqueiros da família real ainda eram os Médici, de Florença. Em Roma, Giovanni de Medici, filho do patriarca Lourenço, fora nomeado Papa Leão X. Agora eram líderes financeiros e espirituais dos reis católicos europeus. Um pequeno percalço se abateu sobre a nomeação de Giovanni: tinha apenas 37 anos e nunca havia sido nomeado padre... mas corrigiram essa omissão rapidamente...

O novo papa foi presenteado por D. Manuel: vestes pontificais, tecidas com fios de ouro e cobertas de pedras preciosas e pérolas, que mal deixavam entreverem-se os fios dourados. Muitos dos tecidos traziam desenhos do rosto de Jesus e de seus apóstolos, bordados com seda. Os contornos eram feitos de rubis brutos.

D. Manuel mandou entregar também um rinoceronte ao novo papa, mas o navio afundou próximo a Marselha. Seu corpo embalsamado serviu de modelo ao pintor Albrecht Durer. Diversas famílias nobres portuguesas fixaram residência em Roma, perto da Piazza Navona, no que ficou conhecido como bairro português. Uma dessas residências é hoje um hotel com 190 quartos.  

É fácil culpar toda essa opulência pela queda do império português, mas não se deve omitir o que fizeram em prol do comércio e do conhecimento. A produção e venda de mapas em Portugal era muito regulada e a exportação, proibida. Diversos cartógrafos, portanto eram contratados por governos estrangeiros, que pagavam fortunas por essa transferência.

Viajantes portugueses escreviam livros que rapidamente se tornavam Best Sellers em toda a Europa, dando às pessoas seu primeiro contato com o mundo estrangeiro.

Na área das inovações técnicas, surgiram o canhão carregado pela culatra, a bússola marítima de João de Castro e a construção de edifícios em pedra. Pedro Nunes escreveu uma grande obra sobra álgebra. Mas nada evoluiu em Portugal como a medicina. As ervas medicinais que traziam da Ásia, a identificação da causa da malária com o mosquito portador (conhecimento que os ingleses se recusaram a aceitar na época), são exemplos de tais progressos. O médico português Garcia de Orta publicou seu tratado “Colóquio dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia” em 1563 em Goa, trazendo nele os conhecimentos passados por médicos indianos e persas, testados empiricamente. Foi um marco no reconhecimento da medicina como ciência e um protesto contra o apego europeu à medicina da Grécia Antiga. O sucesso da obra levou diversas cortes europeias a contratarem médicos portugueses.

D. Manuel estava ciente da importância do conhecimento para a construção da nação. Adquiriu um colégio enorme em Paris, próximo à Universidade, para ser usado apenas por estudantes portugueses. Para a Universidade de Coimbra, contratou intelectuais em Salamanca, Paris, Antuérpia, Oxford, Edimburgo...  A mudança foi de tal monta que o latim passou a ser a língua mais usada na Corte, em lugar do português, a cada deixado mais de lado. A formalidade e a seriedade exigidos nesses novos tempos deixaram as sátiras de Gil Vicente inadequadas, sendo substituídas pelos clássicos gregos e latinos.

D. Manuel morreu em 1521, aos 52 anos. Nascera “rei de Portugal e dos Algarves” e morreu “rei de Portugal e dos Algarves, d`Aquém e D`Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia”. Em seu reinado, nenhuma nação foi mais admirada do que Portugal. Ninguém foi mais invejado também.

Com sua morte, holandeses, ingleses, franceses e espanhóis puseram-se à espreita para saber o que seria daquele império. Afinal, sua situação matrimonial era completamente indefinida. D. Manuel enviuvara duas vezes e morrera noivo pela terceira, agora de Da. Leonor de Áustria, irmã do imperador da Espanha. Seu sucessor, D. João III, na época com 19 anos, foi interpelado pelos conselheiros para que casasse com a prometida de seu pai. Assim, não se devolveria o dote pago pela Espanha a Portugal.

D. João recusou o conselho, devolveu D. Leonor À Espanha e ainda enviou sua irmão, Isabel, para casas-se com o rei da Espanha. Aceitou ainda que Portugal pagasse um dote milionário à Espanha, a título de indenização pelo fato de Portugal ter descoberto as ilhas das Especiarias antes da Espanha...

A situação interna de Portugal era periclitante. A corte herdada era imensa. Além da nobreza tradicional, D. Manuel distribuíra títulos a centenas de colaboradores pessoais (com direito a pensões fixas) e camponeses (que o sensibilizassem com uma história bem triste; recebiam um trabalho bem ocioso e um bom salário, e passavam a viver em Lisboa).

O declínio de Portugal veio acompanhado pela fome. A praga que afligiu o país e a saída de cidadãos em direção à Ásia e à América despovoou o campo. Os alimentos tinham de ser importados. O comércio de especiarias estava em declínio também.

E Portugal agora pagava o preço que cobrou no passado. No início de sua ascensão, Portugal pilhava muçulmanos (navios, cidades) e não considerava isso imoral: eram católicos, professavam a fé “verdadeira” e destruir muçulmanos agradaria a Deus. Agora o cenário mudava: no norte da Europa surgiram os protestantes, que agraciavam os atos de pirataria praticados contra barcos católicos portugueses. Piratas protestantes infestaram os mares, especialmente nos Açores, no entroncamento dos Atlânticos norte e sul. Apenas no reinado de D. João III foram capturados mais de 300 barcos portugueses. A venda das mercadorias assim capturadas levou ao depreciamento das mercadorias, fazendo cessarem os lucros dos portugueses.

Se algum lucro houvesse, de qualquer maneira era privado. Já os custos das armadas e de uma marinha gigantesca eram públicos, bancados por um Estado a cada dia mais pobre. As receitas públicas eram ainda mais apenadas com as isenções tributárias concedidas por D. Manuel aos ricos do país.

Para se financiar, Portugal passou a  emitir títulos de dívidas nos mercados financeiros de Antuérpia (Bélgica). A ciranda financeira logo exigia que se emitissem novos títulos para saldar os antigos, haja vista a taxa de juros estratosférica que se exigia do país, da ordem de 25% a.a. O país estava com as finanças periclitantes.

Quando D. João III morreu, em 1557, os títulos públicos portugueses eram o que hoje se chama de “distressed papers”, ou “junk bonds”: eram negociados por 5% do valor de face.  


Rubem L. de F. Auto

Fonte: livro “A primeira aldeia global”

terça-feira, 5 de setembro de 2017

JAPÃO PORTUGUÊS – O BREVE FIM DO ISOLACIONISMO


Após suas quase inacreditáveis aventuras, o português Fernão Mendes Pinto, primeiro homem a pisar em terras japonesas, retornou a sua Portugal natal. Tornou-se presidente da Misericórdia de Lisboa, principal instituição de caridade do reino. Lá escreveu seus relatos, que se tornaram best sellers.

Mas já havia aberto uma porta que nunca mais se fecharia: o Japão.

Em 1582 existiam 45 jesuítas europeus vivendo no Japão. 30 japoneses haviam sido ordenados padres. Nesse mesmo ano, em carta a Roma, informou-se acerca da conversão de 150 mil japoneses. Universidades jesuítas em Goa e Macau recebiam jovens estudantes japoneses. Destacavam-se sobremaneira por sua acepção para a música barroca europeia.

O nascente comércio que se desenvolvia no Japão levou à afluência de mercadores portugueses que, de tão grande número, chegaram a fundar uma cidade: Nagasáqui.

Os portugueses introduziram diversas novidades: o uso do mosquiteiro, as primeiras fábricas de armas de fogo (incluindo as técnicas de fundição, até então em uso apenas na Europa), especiarias indianas, seda chinesa... Novas palavras foram acrescidas ao idioma japonês, como a famosa “origato” e “pan”, este último para designar “pão”, até então desconhecido naquele arquipélago.

O método de cozinhar peixe em tempura, até hoje alimento típico do Japão, foi introduzido pelos portugueses também. Os portugueses também ensinaram aos japoneses técnicas de edificação em pedra, que se mostraram bastante eficientes quando do lançamento da bomba atômica, séculos mais tarde.

Naquele tempo, o comércio entre o Japão e a China estava suspenso. Contudo a demanda por seda chinesa continuava alta. Os mandarins então procuraram os portugueses e delegaram a eles a operação do comércio entre os dois países. Em troca, arrendaram em caráter perpétuo a ilha de Macau. Embora fosse uma ilha, estava conectada ao continente por uma ponte sobre o rio das Pérolas. Pouco tempo depois a principal praia da ilha estava apinhada de mansões de portugueses. Duas igrejas e um mosteiro jesuíta foram erguidos no alto de uma colina.

O comércio com o Japão era protegido por navios armados imponentes, pertencente ao governo – portanto financiados com recursos públicos. Mas o lucro advindo de tal comércio era totalmente privado. Os mercadores locais adquiriram tanto poder que passaram a contar com um Senado local quase inteiramente independente de Lisboa.

Os casamentos entre portugueses e habitantes locais era a regra. Além disso, portugueses passaram a adotar bebês do sexo feminino que eram abandonados pelos pais, habitantes da província do Cantão. Eram educadas como se portuguesas fossem. Havia o costume de presenteá-las como um dote pela Misericórdia, que lhes garantia um bom casamento ou um bom emprego público...

A província do Cantão dependia integralmente do comércio de seda. Portugueses haviam levado escravos africanos para Macau, na condição de servos pessoais. Muitos conseguiram fugir para o Cantão e lá chegaram a formar um bairro inteiro nos subúrbios e arrumavam trabalho como intérpretes de mercadores europeus não portugueses.

Hábitos alimentares novos vieram de Macau. Durante o período islâmico da Península Ibérica foi introduzida a massa filo a partir do norte da África – onde surgiu o “brik”, pastel de massa fina e frito em óleo. Desse surgiu a chamuça, petisco típico português. Daí surgiu o dumpling e o spring roll (bolinho primavera, espécie de crepe chinês), no sul da China e da Tailândia.

Também foi introduzido, a partir de Pequim, o hábito de comer batata-doce – que se tornou o principal alimento do Cantão –, e do amendoim, do qual se extraía o óleo de cozinha. Aforam esses: feijão verde, grelos, alface, agrião – chamado até hoje de legume do Oceano Ocidental, termo pelo qual designavam Portugal.

Foram também introduzidos pelos portugueses os ananases, a goiaba e papaias.

A receita de pasta de camarão seguiu a mesma trilha e se tornou uma indústria relevante em Guantang.
História interessante teve o chilli, levado pelos portugueses a partir do Brasil. Tornou-se sucesso na culinária asiática até hoje – é usado no kebab da Caxemira, no sambal da Malásia, na Tailândia e muito mais. Em Goa, o prato mais picante é o vindaloo, termo resultante da contração de “vinho de alho”, prato no qual a carne é marinada em barris com chilli, antes do cozimento.

O chilli passou com o tempo a ser denominado de caril. Tendo sido um tempero usado por cozinheiros indianos nos pratos servidos a funcionários ingleses na Índia, passou a ser um produto de exportação muito importante para a Inglaterra. Já no século XIX integrava a alimentação dos ingleses de maneira muito comum.

A história dos ingleses na Índia – e com o chilli -, teve seu início com a cessão de Bombaim aos ingleses. Além disso, Bengala estava apinhada de portugueses quando da fundação da Companhia das Índias Orientais britânicas.

A China deu introdução aos chás na Europa. Inicialmente foi exportado para a Inglaterra, por Catarina de Bragança, logo que se casara com Carlos II.

Graças aos jesuítas, que se lançaram à agricultura em Macau, foram introduzidos cortes de porcos castrados em Portugal, que ainda hoje constitui um prato de carne de porco, tenra e magra, muito consumida em Portugal.

A tangerina – chamada antes de laranja pequena – também veio da China, mas seu nome se deve à província de Tânger, onde foram plantadas suas mudas. As famosíssimas laranjas do Algarve também foram trazida da China. Deste país ainda vieram o aipo e o ruibardo (espécie de laxante). Sua demanda elevada na Europa levou os chineses a pensarem que todos os europeus sofriam gravemente de prisão do ventre...


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “A primeira aldeia global”

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

FERNÃO MENDES PINTO – O MARCO POLO PORTUGUÊS


Quando se decidiu pelo regresso a Portugal, Afonso de Albuquerque mandou que se embarcassem no seu navio-almirante, Flor do Mar, todo o seu espólio e todos os produtos destinados ao rei de Portugal, D. Manuel I. Dentre os bens destinados ao monarca, estavam: duas réplicas, em tamanho real, de elefantes-bebês, feitas em prata maciça e incrustadas com jóias, quatro estátuas de leões de ouro, cheias de perfumes exóticos, além do trono do rei de Malaca, incrustado de jóias.

O navio-almirante estava tão lotado de mercadorias que mal se mantinha acima da linha d`água. Terminou por afundar próximo a costa da Sumatra. A tripulação se salvou por meio de jangadas salva-vidas.

A título de curiosidade, a famosíssima casa de leilões Sotheby`s avaliou todo aquele carregamento destinado a D. Manuel em 2,5 bilhões de dólares. Não foram poucos os que tentaram encontrá-lo, até mesmo por meio de imagens de satélites. Até hoje Malásia e Indonésia disputam sua posse, caso o achem.

A perda de Malaca foi uma grande derrota para o árabes. Esta era a porta de entrada do Extremo Oriente: ilhas Molucas, ilhas das Espaciarias, China e Japão era alcançados após a passagem por Malaca.

Embaixadores portugueses enviados à Birmânia e à Tailândia tinham como objetivo o estabelecimento de relações diplomáticas e comerciais. Historiadores australianos crêem que os primeiros europeus a pisarem no que seria aquele país eram portugueses saídos de Malaca. Descendentes de portugueses são encontrados ainda hoje no Sri Lanka, Formosa (Tailândia), Bengala, Macau e Malaca.

Nessa última cidade se desenrolou o enredo em torno de Fernão Mendes Pinto: aventureiro feito mercador e que viveu façanhas tão extraordinárias que seu relato, feito livro e publicado no início do século XVII vendeu tanto quanto Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Intitulado “Peregrinações”, foi traduzido para seis línguas européias, teve sete edições espanholas, duas em alemão e holandês e três em inglês e francês.

Na costa da Etiópia, Mendes foi feito prisioneiro por tropas turcas. Foi levado até o sul da Arábia, onde foi vendido como escravo, num leilão, a um muçulmano grego. Tratado de forma cruel, ameaçou se suicidar. Seu proprietário então vendeu a um mercador judeu, que o devolveu aos portugueses, em Ormuz, não sem antes cobrar um valor de resgate.

Foi forçado a se alistar na Marinha, tomou parte em uma série de conflitos contra os turcos e, então, fugiu para Malaca. Lá, foi nomeado embaixador nos reinos da Samatra, dentre outros.

Ainda na Malásia, encontrou-se com outros portugueses e decidiram por tornarem-se piratas. Atacaram uma série de navios mouros no golfo de Tonquim.

Incansável, Mendes Pinto navegou para o norte e chegou à China e à Coréia. Após naufragar próximo da costa da China, foi preso e condenado a um ano de trabalhos forçados. Foi enviado para trabalhar na construção da Grande Muralha.

Ainda cumprindo sua pena, Mendes viu a invasão de hordas de tártaros que invadiram a China. Capturado, ensinou os tártaros a tomarem de assalto um forte de pedra. Gratos, os invasores o libertaram.

Mendes Pinto ainda sustentava ter sido o primeiro europeu a pisar em solo japonês. Também foi conselheiro íntimo de São Francisco Xavier. Também foi o primeiro a levar armas de fogo até o Japão.

Por descrever histórias tão extraordinárias, Mendes era considerado um mentiroso, uma espécie de Quixote. No entanto, os próprios japoneses consideravam seus relatos bastante factíveis.

Passados os muitos anos, Fernão Mendes Pinto é considerado um herói popular. Suas histórias se tornaram livros, peças de teatro e poemas épicos, além de ter rendido um filme. No local de seu desembarque foi construído um parque temático.    

Até relatos que todos julgavam fantasiosos em meio a fatos verdadeiros, hoje são considerados a mais pura realidade, como ter sido nomeado general mercenário e comandante do exército do rei da Birmânia. Seu relato acerca de uma corte suntuosamente rica, hoje, crê-se ter sido a corte do dalai-lama, em Lassa.
Mendes Pinto embarcou num navio, certa feita, em Guangdong, com destino a Malaca. No caminho foi surpreendido por uma tempestade e naufragou, próximo à costa do Japão. Teve de caçar animais selvagens para ter o que comer. Os habitantes locais ficaram aterrorizados com o fato de que, quando o português apoiava um enorme cano sobre os ombros e apertava um gatilho, um clarão se formava e um pássaro quase sempre caía do céu, morto.

Foi recebido pelo governador local. Mendes levou a ele seu mosquete. Foi a primeira vez que os japoneses viram uma arma de fogo. E o momento foi perfeito, pois o país se encontrava em meio a uma guerra civil.
Mendes Pinto fez uma segunda visita ao Japão. Desta feita, quando já estava prestes a zarpar de volta, viu um jovem fugindo correndo em disparada, fugindo de algumas pessoas mais velhas. Mendes Pinto o empurrou para seu navio e o salvou. O jovem depois explicou que fugia dos senhores por causa da enorme serie de delitos que cometera. Chamava-se Anjiro. Mendes explicou-lhe que sua religião contava com o sacramento da confissão e posterior absolvição. Mendes o levou até São Francisco Xavier.

Xavier estava muito decepcionado com seu povo. Via em Malaca, sua nova residência após deixar Goa, um povo largado aos pecados: autoridades aceitavam subornos, muitos mercadores mantinham haréns.
São Francisco ouviu e perdoou Anjiro. Este ensinou aos portugueses elementos essenciais da língua e da cultura japonesa. Para São Francisco foi o suficiente. Em carta a El Rey:

“Sua Majestade envia para aqui determinações que ninguém cumpre. Sei bem o que aqui se passa. Não tenho esperanças de que o cristianismo se consiga impor aqui. Já gastei demasiado tempo e não quero gastar mais. Vou para o Japão. Ali encontrei pagãos dcom mentes abertas e novas idéias sobre Deus e a humanidade.”


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “A primeira aldeia global”   

A EXPULSÃO DOS ÁRABES E O INÍCIO DO IMPÉRIO EUROPEU NA ÁSIA


Adquirir especiarias na região onde são produzidas e levá-las para a Europa sem pagar nada a qualquer intermediário foi uma grande conquista portuguesa, mas apenas parte do que desejavam, de fato.
Um outro objetivo bastante relevante era a destruição do poder que os árabes , especialmente os mercadores, tinham na região e, por conseguinte, a destruição das rotas comerciais que levavam a Veneza. E essa meta seria perseguida sistematicamente.

O primeiro vice-rei português na Índia chamava-se Francisco de Almeida. Partiu de Lisboa em liderando uma frota imensa de 22 navios e 2.500 homens, sendo 1.500 deles soldados, armados e com armaduras. Dos restantes, vários tinham a função de carregar canhões pela culatra.

O destino da frota era a cidade de Kilwa, localizada na costa da África Oriental e importante entreposto comercial árabe. Metralharam completamente a cidade, por horas a fio. Após, os soldados desembarcaram e tomaram a cidade sem uma perda humana sequer. O emir conseguiu fugir antes que fosse capturado.

Tomada a cidade, construíram um forte com os escombros dos bombardeios em apenas 16 dias. Instalaram frotas de infantaria permanentes no local e nomearam um governador, que era um africano oriundo dali mesmo. Também estacionaram dois navios na entrada do porto apenas para afastar navios árabes que se aproximassem.

Dali, a expedição de Francisco de Almeida se dirigiu ao norte: Mombaça. Cidade árabe muito maior do que a primeira. Foram recebidos com tiros de canhão, canhões esses retirados de navios portugueses encalhados na costa.

A resposta portuguesa foi um bombardeio tão intenso que findou com a completa destruição d cidade. Setas envenenadas vitimaram 30 portugueses, após o desembarque das tropas. Teriam sido muitos mais, porém um habitante local terminou por indicar-lhes o antídoto para combater aquele veneno.

Tomada a cidade, saqueada e arruinada como era o costume, fizeram um grande número de mulheres prisioneiras. Foram salvas por Francisco, que proibiu o carregamento de despojos nas embarcações. Levaram apenas algumas crianças, pois pretendiam convertê-las ao catolicismo. Essas crianças viveram em Portugal, onde cresceram e formaram família.

Do outro lado do Índico, o desespera governante de Calicute pediu a paz com Portugal. Sua cidade era incessantemente bombardeada por navios portugueses, por anos a fio. Os mercadores muçulmanos já haviam abandonado o lugar, mudando-se para Malaca.

Esses mercadores formaram comboios de navios que saima das Maldivas e seguiam todo o gás em direção ao Mar Vermelho, rezando para não cruzar com navios portugueses, pois sabiam que seriam imediatamente afundados.

Ao saber dessa tática usada pelos árabes, os portugueses despacharam para a região Tristão da Cunha. Ele ordenou a construção de um forte em Socotorá, bem na entrada do mar Vermelho.     

Os comandantes árabes imediatamente refizeram sua estratégia. Passaram a deslocar seus barcos comerciais para Ormuz, sul da Pérsia, atual Irã. Dali levavam suas mercadorias por terra, até o mar Negro. Dali embarcavam em navios turcos até Istambul e, dali, até Veneza.

Afonso de Albuquerque resolveu agir. Por volta de 1514, perseguiu uma esquadra até Ormuz. Esperaram anoitecer e iniciaram rajadas de canhão que pareciam não ter mais fim. Fanfarras de trombetas ajudavam a criar o clima de terror que dominou a região. O céu se iluminou com tanto fogo e explosões.

Ao fim, o comandante português enviou uma mensagem ao monarca da cidade exigindo que se reconhecesse a soberania portuguesa sobre si -  o que incluía o pagamento de tributos. Diante da ausência de resposta, os portugueses aplicaram uma represália: incendiaram todos os navios árabes e persas estacionados no porto.

Buscando arrefecer os ânimos do lado oposto, o monarca mandou enviar uma grande quantidade de ouro no navio-almirante de Afonso. Este, mandou construir um forte na entrada do porto. Também aproveitou o momento para saquear Adem, bombardeou Omã etc.

Albuquerque seguiu então para Malaca, a essa altura o último ponto de resistência árabe na Ásia. Mas quase não houve enfrentamento. A reputação de Albuquerque erqa tal que as tripulações dos navios fugiram aterrorizadas. O sultão de Malaca enviou uma mensagem, propondo negociações de paz.

Malaca, assim como muitas outras cidades na região da Índia, era de maioria hindu, mas governada por árabes. Esses hindus tendiam a ver os portugueses como aliados, protetores, contra os árabes. Mais uma vez, um hindu procurou os portugueses e disse que o plano do sultão era estender as negociações até a época das moções, que se encarregariam de destruir os navios portugueses e assim se tornaria mais fácil expulsá-los.

Albuquerque mandou então bombardear a cidade, depois saqueá-la. No dia seguinte, novo bombardeamento, ainda maior. No terceiro dia, invadiram a cidade por terra. Um grupo de nobres tentou impedi-los usando elefantes. Mas os portugueses já estavam treinados na arte de lutar contra elefantes e conseguiram por medo nos animais com facilidade.

Os portugueses foram guiados por terra pelos hindus. Estes, adquiriram bandeiras portuguesas, que estendiam nas portas de suas casas, ficando assim protegidos contra saques. Tais saques foram de tal soma que não cabiam nos navios, no retorno. Pelas rãs ficaram abandonados jarros apinhados de almíscar, porcelanas chinesas, caixas de sândalo. Grande parte foi vendida a hindus e outros não muçulmanos.

O valor arrecadado pelos saqueadores variava de 5 a 6 mil réis em ouro para cada soldado. Cada oficial amealhou entre 30 e 40 mil réis em ouro.


Rubem L. de F. Auto


Fonte: livro “A primeira aldeia global”